Uma poética do aquém

 

heitor

Heitor Ferraz Mello já fez muitos aniversários (hehehe!) e quero que faça muitos outros, mas hoje, ao saber da data, lembrei desse projeto que venho arrastando há tempos: explicar sua poética do aquém. Tenho a alegria de conviver com Heitor aqui e ali e, não raro, confundo o que ouço dele em nossas conversas e os versos que já li e reli tantas vezes. E acho que isso me diz muito sobre sua poesia. Com esse título estranhamente portentoso, escrevi em 2014 a primeira versão do livro/antologia sobre Heitor que deveria entregar para a coleção “Ciranda da Poesia” (da editora da UERJ), mas acabou ficando a meio caminho… então publico esses trechos aqui até mesmo para me animar a seguir com a tarefa, que ainda me inquieta. Depois disso, Heitor publicou um novo livro de poemas, Meu semelhante, que dá outras voltas nesse parafuso. Aliás, o título de seu livro mais recente, junto a tantos poemas que nele estão, me deu a convicção de que tateava no rumo certo ao apontar que sua poesia retrata “seus iguais”, fundindo-se a eles e, ao mesmo tempo, acusando que o poeta, igual entre iguais, está também aquém do que a vida devia ser. Num tempo em que a vida por aqui vai se tornando cada vez menos e menos, cada vez mais aquém, o desconsolo da poesia de Heitor é ainda mais doloroso e urgente. Parabéns e obrigado, camarada.

 

(PS: o problema mais recente que Heitor me causou foi ao comentar sobre Jack London… ele começou a falar de alguns contos e, depois, de O povo do abismo, de 1903. Tenho a mania de correr para ler o que os amigos indicam com alguma empolgação. Dito e feito: que livro! E me bateu especialmente porque, durante toda a leitura, ouvia nele o eco de um dos meus livros preferidos, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, que Engels escreveu entre 1842 e 1844. Desde então me sinto no dever de escrever algo sobre esses ecos entre London e Engels… não sei se alguém já leu isso por aí, mas agradeço muito quaisquer indicações!)

 

§ § §

 

Sempre tenho ótimas ideias quando ando. Mas como nunca levo caderneta, elas se perdem. Escrevi os meus melhores textos, quase todos em prosa. Mas ficaram esquecidos na calçada. Em casa, gosto de escrever no computador, depois que aposentei a máquina de escrever. Um cinzeiro, meu maço de Marlboro, e alguns livros para avançar, deliberadamente, no alheio. Durante um tempo, escrevia de madrugada. Agora, não tem mais hora – escrevo bem menos. E quando trabalhava em firma, gostava de escrever na firma, um olho no computador e o outro na porta, para mudar rapidamente de tela, caso o chefe desse uma incerta na sala”.

 

Quando Heitor Ferraz Mello reuniu seus livros no volume Coisas imediatas, em 2004, foi buscar numa crônica de Drummond uma epígrafe geral para a poesia escrita até aquele momento: “(e aqui sou José, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral)”. Claro, para o poeta, fiel leitor do itabirano, encontrar seu próprio nome indicando o “homem urbano em geral”, num parêntese rápido do texto, foi um presente e tanto, ainda mais numa crônica em que Drummond explora o desencontro entre natureza e homem, entre a mudez das árvores e nossa “pressa de se desnudar”.

Não se explica, entretanto, pela simples coincidência do nome a escolha da epígrafe drummondiana para a reunião de sua poesia: Heitor encontra no Heitor de Drummond, no “homem urbano em geral” que cada vez mais vê árvores apenas em fotografias, a expressão precisa do ser que se aperfeiçoou em tornar o mundo inóspito para si próprio. E é desse lugar desencaixado que ele nos escreve.

A ideia do poeta como um depoente da condição de desgarrado, de estranho, de inadaptado (porque inadaptável) aos rumos que a vida toma é um traço recorrente da poesia moderna, para não dizer da poesia desde muito antes. Isto se deve, em parte, ao fato de que poetas afirmam, contra o homem que observam, contra o “seu igual”, não a imagem de um homem que seria o ideal (cuja possibilidade de existir é até mesmo negada pela maioria dos poetas modernos), mas a convicção de que o homem real está aquém – e se pergunta sem muita esperança: aquém do quê?

Não há, por certo, resposta absoluta para a questão que o perturba. A rigor, o poeta moderno não é tanto aquele que afirma o horizonte em direção ao qual devemos caminhar, mas principalmente aquele que intui que, da forma como vamos, não chegaremos a lugar algum. Ou seja, não se coloca como guia, mas como um dos passantes que, de algum modo, percebe que estamos patinando – ou regredindo. E mais ainda: percebe que não vamos deixar de andar nem mudar o rumo.

Em Heitor, a caminhada do “homem urbano em geral” é uma deriva incessante, marcada, ao mesmo tempo, pela descrença em ver a vida – a sua, a nossa – se afirmar de modo muito diferente (positivamente) e pelo elogio moderado de alguma felicidade e harmonia que se apresentam entre um passo e outro: “a batata da perna lateja/ de tanta rua engolida// e ele é manco,/ manco no verso,/ manco na vida”.

Heitor faz versos que falam, conversam, tecem ou perseguem com palavras os “transtornos” que assaltam o poeta. Essa poesia, que se irmana da fala, opta por caminhos que, durante as décadas em que Heitor vem publicando, são insistentemente bloqueados pelo discurso apressado da “inventividade” que implica superação de tudo o que dela difere. Heitor, ao contrário, não se excita com a ruptura pela ruptura, mas sim procura, digamos, linhas de continuidade poética para problemas que o homem está longe de superar, desfiando, a partir daquilo que chamou de “falta de traquejo/ com as coisas do cotidiano”, uma poesia que denuncia profundo desconforto existencial e social. Num poema, ao redor da bela imagem do ninho feito com as mãos para proteger a chama do isqueiro, Heitor explora na breve cena urbana – como é recorrente em sua obra – a comunhão fugaz que o cigarro permite entre o poeta e o mendigo, antes que se restabeleça a distância que o poema, ao flagrar, deseja superar. Deseja.

A colaboração ligeira com o mendigo revela ainda outro traço fundamental da poética de Heitor: não é a compaixão – de cima para baixo – que aproxima o poeta daqueles que expressam os desajustes mais graves da forma como a vida se moldou na cidade grande. É, na verdade, a convicção de que não há diferença significativa entre a “derrota” que a figura de homens abandonados na rua representa para a sociedade (mais do que para os eventuais “derrotados”) e a condição precária de todos os que passam por aquela calçada assolados pelos compromissos todos de uma vida que não interessa mais a ninguém. Não há vencedores: o jogo, na verdade, está perdido para todos. Assim, não há muito ânimo para estender a mão a quem caiu na caminhada, porque há mais ou menos o mesmo sentido em continuar nela ou abandoná-la.

Entre um passo e outro, sempre, “o coração bate sem convicção”. Ainda.

A forma como Heitor escreve, em versos que não se deixam elevar à música nem exageram na plasticidade, é em si mesma uma profunda crítica das pretensões de uma arte que tente estetizar a realidade.

É comum vermos o contrário: visões de mundo demolidoras que se vestem de uma linguagem que em nada revela a decadência que acusam. Em Heitor, no entanto, as palavras chegam embaçadas pela fumaça persistente da cidade e dos cigarros. Os versos tossem, tropeçam, tremem. Desfazem-se. Em certos momentos, param de falar, largam o discurso ou a imagem a meio caminho, como se desistissem.

Se os versos famosos denunciam que “o poeta é um fingidor”, na poesia de Heitor, incapaz de fingir, o poeta revela na camada mais explícita dos versos cada uma de suas dores, cada um de seus vícios, sua tensa desesperança, como nos incríveis poemas da série “Dias assim”, de Um a menos, em que martela – abrindo 10 dos 11 poemas – a afirmação: “O que te mata é este cigarro/ pela manhã”.

Sua força vem da forma como nos leva a passear por uma teia de cidades já distantes, relacionamentos desfeitos, retratos de desconhecidos, que, num susto, já se tornam nossos íntimos. Já se tornam problema nosso. Aquém de um horizonte que tanto busca quanto desconhece, pelo que diz, pelo que não diz, pela forma como diz e deixa de dizer, a poética de Heitor é uma das mais precisas expressões que a poesia reserva para esses tempos difíceis. Basta andar com ele para ver.

§ § §

 

Heitor nasceu em Puteaux, França, em 1964. Passou a infância em São José dos Campos e na adolescência veio para São Paulo, onde mora desde então. Formou-se em jornalismo na PUC/SP, fez mestrado em Literatura Brasileira e atualmente cursa o doutorado em Teoria Literária, ambos na USP. É professor de Jornalismo Cultural da Faculdade Cásper Líbero. Autor de Resumo do dia (Ateliê, 1996), A mesma noite (7Letras, 1997), Goethe nos olhos do lagarto (Moby Dick, 2001), Hoje como ontem ao meio-dia (7Letras, 2002), Pré-desperto (edição caseira, 2004), Um a menos (7Letras, 2009), Bichos da cidade (Comboio de Corda, 2012) e Meu semelhante (7Letras, 2016).

 

§ § §

 

ALGUNS POEMAS DE HEITOR FERRAZ MELLO

 

FIM DE TARDE

 

Transitam mais carros

e empregadas com saquinhos de pão

 

Três meninas conversam

a pressa de seus corações

e exercícios de casa

 

(uma delas tem os olhos puxados

e o pretexto para todos os meus vícios)

 

Na tristeza do elevador

subo sem ser reparado.

 

 

POETA

 

Acabou o fôlego.

E o coração já desgastado

de tanto metaforizá-lo

bate

sem convicção.

 

O verso por tempo

me bastou.

Toda a vida

era para o branco ocioso do papel.

 

Acabou o fôlego

e não me basto a mim mesmo.

 

Sento. A cabeça é vazia

de qualquer palavra.

Penso repetido,

nunca houve esforço em pensar.

Amo uma mulher

e isso é problema meu.

 

 

SEM PROFISSÃO

 

Logo dirão – afoitos –

que ele não larga

o pé da infância

 

que seus olhos

se esquadrinham

por janelas enormes

 

que vive cruzado

entre duas, três

cidades e um mapa

 

que a firmeza da mão

cedeu para a tremedeira

do fumante convicto

 

que em pouco tempo

embrenhou-se numa prosa

mais de bar que de poesia

 

Mas o que esperar

de um homem comum

carteira assinada?

 

Que ele deve no banco,

na pia batismal,

na confederação das almas?

 

Nada se deve esperar

– a batata da perna lateja

de tanta rua engolida

 

e ele é manco,

manco no verso,

manco na vida.

 

 

LADEIRAS

 

É tempo de subir

a ladeira – amoldar

o pé que já se esquecia

 

sentir que a sola

do sapato é um couro

a forma exata do pé

 

e se ajusta pouco

a pouco à forma antiga

do paralelepípedo

 

se ajusta como se

encontrasse no chão

o que não mais existia

 

um certo prazer

irregular de quem anda

se mistura, se funde

 

 

MEIO-DIA

 

Na hora do almoço

o sol do meio-dia

recorta

um triângulo

na sombra

onde o operário

em frente

come sua marmita

e toma um refresco

de laranja

– as máquinas

paradas

dão a impressão

de que ele

se acomoda

num ventre

de luz

 

 

ÁLBUM DE FAMÍLIA

 

Então

ele se sentou

num banquinho

ajeitou

o chapéu de feltro

colocou o filho

mais velho

ao seu lado

em pé

e se deixou fotografar

Então

ela se sentou

no murinho

da casa

esticou o vestido

cobrindo os joelhos

sorriu

para a lente

e também

se deixou fotografar

 

 

ELA AMAVA AS COISAS

 

Ela amava as coisas

com muita delicadeza

Ela amava os vasos

as xícaras as toalhas

Ela amava os brinquedos

os aparelhos elétricos

os secadores de cabelo

seus cabelos

com muita delicadeza

Como as flores

e a chuva interminável

no pátio

interminável como seu amor

o amor que ela sentia

e era forte

pelas coisas da casa

os pequenos detalhes

da sala em ordem

O cheiro de lavanda

creme de lavanda para pele

café com leite pela manhã

pão e manteiga

Ela amava as coisas

e hoje me inclino no vento

e a vejo saindo

sem as coisas que ela amava

 

 

O HOMEM ESPECIAL

 

O homem especial caminha na hora do almoço

Entra num restaurante e procura um lugar

de onde possa ver a rua através da imensa vidraça

O homem especial mastiga a comida

e vê a rua que passa em frente

ondulações de cabeças

e a esgrima de guarda-chuvas e jornais

O homem especial come calado

destroça uma torta de morangos

– a hora especial de sua torta de morangos

e névoas de café

 

 

CONVERSA NO BANCO

 

Não se sabe onde ela se encontra

ou onde a encontraremos

se com as mãos metidas no bolso

ou a capa preta cobrindo o rosto.

Nunca pergunte por ela:

quando você a pressente

não é como ela é, mas apenas como

se projeta no presente.

Cria aquela sensação de vácuo

de escada aberta, de morto-vivo

sem projeto imediato.

Ela se projeta

sem qualquer outro objetivo

– dar uma volta no parque

sentar num banco de cimento

as mãos nos joelhos

e observar

patos e gansos se bicarem

dentro e fora da lagoa escura.

 

 

HAPPY-HOUR

 

É daqui que eu falo,

de nenhum outro lugar

 

– da luz de mercúrio,

do vidro fumê, do abajur

aceso no prédio em frente

e que se torna tão nítido

que quase se isola

dentro da janela

 

É daqui

apesar de eu mesmo

sentir que me falto

e me falto tanto

que nem sei se sou eu

ou a saudade que não consola

 

É daqui,

onde pertenço,

entre um bloqueio e outro

de fora e de dentro

 

É deste lugar,

quando a tarde baixa

entre coisas

replicadas

 

 

WALKING THE DOG

 

Mal me levanto

tomo o café-da-manhã

e penso no cão,

corpo de feltro

largado na estrada

Mal me levanto

e já me sinto

ensanduichado

esborrachado

espremido

e reduzido

ao olhar do cão fugindo

atravessando a rua

com direito

de cidade

como os de Jude Stefan

– ou seria embalado

liofilizado

como no réquiem de Ruy Belo?

Com os sentimentos atolados

em coisas imediatas

deixo o cão

seja de um

ou de outro

As coisas imediatas

(em conflito permanente)

me levam para o carro

 

 

NÃO TE DISSE QUE ERA CAPAZ?

 

Havia um festival de salmão. Flores rápidas.

E eu estava com raiva de alguém que me disse

que eu não passava de um velho,

com manias arqueadas de velho.

Numa noite, mudei todos os quartos de lugar,

e passei a madrugada montando a estante de livros.

 

 

A CATEDRAL SE IMPÕE (ÀS 17H45)

 

O que observo deste 9° andar

de um prédio comercial

em São Paulo, na alameda

Ministro Rocha Azevedo

 

É o lilás de um fim de tarde

em contraste com o resíduo

dourado do sol se pondo

em algum lugar, atrás dos prédios

 

É a forma de uma catedral

que se desenha no asfalto úmido

com suas agulhas espichadas

pelos pneus dos carros

 

O que observo com o corpo

levemente apoiado na janela

é que o dia acaba do lado de fora

contra a continuidade do mercúrio

 

 

PRÉ-DESPERTO

 

Certa modéstia de alguns quartos de hotel, a rotina das cortinas fechadas vazando pouca luz, apenas o embaciado da luz dentro dos olhos pré-despertos. Pela manhã, o meio-sono irriga imagens de um quarto antigo, um hotel antigo, sem banheiro no quarto, apenas uma pia branca de bordas brancas. Projetadas no teto, as sombras de galhos e de um tanque de lavar. Apenas um quarto antigo contrapondo-se ao quarto deste outro hotel com a fumaça da caldeira: a máquina do hotel funcionando. Sonho que caminho pela rua, não encontro os paralelepípedos de outras ruas, o prazer ou desprazer momentâneo dos paralelepípedos soltos. Crianças de uniforme fazem algazarra entrando e saindo de túneis de plástico. Caminho pela rua com a sensação de que estou sem um dos meus sapatos, de que caminho meio-descalço. Olho novamente para meus pés: sim, os dois pés estão calçados.

 

 

[da série UM A MENOS]

 

O ninho se forma

com as palmas das mãos

Acendo o cigarro

que rapidamente acende

o rosto do homem

que pedia cigarros

E é como se o rosto

se incendiasse

por um minuto

destacando todos

os caminhos da pele

O ninho efêmero

se desfaz em fissura

e o homem volta

a se recostar

nas ondas

numa porta de aço.

 

 

DIAS ASSIM (3)

 

O que te mata é este cigarro

pela manhã, não saber o roteiro

a melhor estrada para a praia

os olhos dela me odiando

minha falta de traquejo

com as coisas do cotidiano

O sol ainda não é suficiente

mas já vem lanhando as fachadas

dos prédios, não são suficientes

a respiração, o contato íntimo

com as coisas que te cercam

A cama desaba como um cinzeiro

de úmidos troncos incendiados.

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Edições Lado Esquerdo

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As Edições Lado Esquerdo são dedicadas à crítica do direito e temas correlatos. Uma editora sem sede, sem CNPJ, sem fins lucrativos. Livros sem ISBN, a preços baixos, para fazer circular, com o mínimo de empecilhos, ideias urgentes, por meio de (1) textos teóricos sobre questões sociais e políticas, com especial atenção para as implicações jurídicas, com caráter explicativo e combativo, além da indicação de outras fontes de estudo; (2) perfis introdutórios e estudos aprofundados de autores fundamentais para a reflexão marxista sobre o direito; (3) análise crítica dos principais juristas das correntes jurídicas burguesas; e (4) tradução de textos importantes para uma apreensão crítica do direito (mas não só…), apresentados por especialistas. Em suma, as Edições Lado Esquerdo pretendem fornecer, no turbilhão do século XXI, armas para a tarefa fundamental de atacar e superar o “estreito horizonte do direito burguês”, apontado por Marx já em 1875.

 

Coordenação Celso Naoto Kashiura Jr. | Márcio Bilharinho Naves | Oswaldo Akamine Jr. | Tarso de Melo Logo e capa Marina Zocca Vilela Revisão Edmar Tetsuo Yuta Projeto gráfico Luzia Maninha | Isabela Agrela Teles Veras

Contato livrosladoesquerdo@gmail.com

 

LANÇAMENTOS

 

Carolina de Roig Catini

Privatização da educação e gestão da barbárie

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PRÓXIMOS LANÇAMENTOS

 

Georg Rusche Mercado de trabalho e execução penal Tarso de Melo Políticas do direito Georges Labica Da igualdade Celso Kashiura Jr. e Márcio Bilharinho Naves Introdução a Pachukanis Piotr Stutchka Socialismo jurídico Celso Kashiura Jr. Ideologia jurídica e reformismo

 

SOBRE OS LIVROS

 

Privatização da Educação e Gestão da Barbárie [52 pág., R$ 10]

 

Tendo em vista a imanência dos processos de mudanças históricas nas formas de realização do direito e da força de trabalho, o estudo se dedica à compreensão da tendência de privatização dos direitos sociais, dando particular atenção aos seus desdobramentos no bojo de processos “reformistas” e “conciliatórios”, tendência essa que alterou a correlação de forças no antagonismo entre capital e trabalho. As reformas educativas e trabalhistas atuais são apresentadas como expressão do uso dos direitos sociais como forma de gestão da barbárie, aprofundada pela crise econômica, que amplia a hegemonia estatal-empresarial sobre a formação de trabalhadoras e trabalhadores.

 

Carolina de Roig Catini, doutora e mestre na área de Educação pela Universidade de São Paulo, é professora do departamento de Ciências Sociais da Educação (DECISE) da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas.

 

A Teoria Pura do Direito e o Marxismo [64 pág., R$ 10]

 

O livro apresenta criticamente a teoria pura do direito, projeto de vida de um dos principais juristas do século XX, Hans Kelsen. A exposição propõe questões importantes sobre o contexto histórico e cultural em que esse marco do pensamento jurídico foi forjado e expõe, detidamente, seus aspectos conceituais mais relevantes. Kelsen, por outro lado, foi um crítico dedicado das obras de Marx, Engels e Lenin, tendo escrito alguns livros e diversos artigos sobre o assunto; no âmbito do direito, são conhecidas as tertúlias que travou com Max Adler e Evgeni Pachukanis. Assim, este livro também apresenta as posições do jurista austríaco sobre o marxismo, de modo a esclarecer os aspectos ideológicos e políticos que se escondem sob a aparente “neutralidade científica” dos debates em que se envolveu ao longo de toda a carreira.

 

Oswaldo Akamine Jr. é doutor e mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Coorganizador, ao lado de Celso Naoto Kashiura Jr. e Tarso de Melo, de Para a crítica do direito (Outras Expressões, 2015).

 

Edições Lado Esquerdo

Formas de silêncio

joao-gilberto

(1)

 

evitando ao máximo

qualquer atrito

com o que vocês dizem

investigo as formas

que o silêncio assume

quando tudo zune

e buzina

 

(2)

 

reza a lenda

que João Gilberto

foi com seu violão

para o hotel

Copacabana Palace

em 2015

 

não quis vista

para a orla

nem hóspedes

: sob os olhos

só as ruas que levam

para longe das ondas

 

bastavam-lhe, ainda,

um desconto nas diárias

e o serviço de café

no quarto no fim da tarde

porque não sai da cama

antes das 17h

 

: ninguém ouviu

suas novas canções

ou qualquer ruído

de sua passagem

 

(3)

 

a música do lápis

sobre o papel

 

a canção paralela

que as digitais tocam

entre uma nota e outra

buscada na corda

 

a percussão

que o engenheiro

não podia prever

no coração do piano

 

a sutil intervenção

da asma arrastada

em sua fala

 

soam noutro mundo

 

(4)

 

cientistas comprovam

a existência

de milhões de poemas

no mar branco

que se abre a cada letra

colada no papel

 

(5)

 

no espelho repito

as palavras que mais detesto

: nem todas escorrem

pelo duplo do meu rosto

ralo adentro

 

só me resta escapar

mera metade

e quieto

 

(6)

 

 

 

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Chico ri

chico 1966

Chico ri, ri muito, ri largo, desde sempre. Chico está sempre sério. Batendo em coisas sérias, mas ri. A capa antiga que virou meme no nosso tempo tem Chico rindo. Tem Chico sério ao lado, claro, mas a dupla de Chicos – um sério e um rindo – nos faz rir. É uma capa engraçada, enfim. Porque Chico ri e quer fazer rir, rir das coisas sérias, rir nervoso às vezes. Da mesma forma que dá para atravessar os álbuns todos de Chico contando sua relação com sonhos e pesadelos (e que belo trabalho seria!), é possível contar a história de Chico rindo. Desde a primeira música de seu primeiro disco, “A banda”, ele joga com o poder que as “coisas de amor” têm para abrir nosso sorriso, para desfazer a nossa cara fechada. Quando a banda vai embora, voltamos a ser tristes, e é por isso que a banda tem que voltar sempre. É por isso que temos que ir atrás da banda. E todos os discos do Chico, de lá pra cá, nos fizeram rir. Foram “a banda” que passou pela nossa vida. Chico sabe, como os velhos latinos, que rir pode ser a nossa forma mais eficaz de abalar a rigidez dos costumes: “ridendo castigat mores”. Estou tentando parar de falar do disco novo, mas é difícil. Ontem arranquei mais duas ou três camadas de algumas canções enquanto estava no ônibus. Hoje, no banho, me peguei rindo com o Chico. E como o Chico ri em “Caravanas”. Começando pelas imagens divulgadas durante a gravação do disco: Chico ri com o neto, ri com a neta, ri com a banda, ri sozinho. Chico parece se divertir demais enquanto prepara o disco. E tem muitas razões para rir. A cada faixa do disco, enquanto constrói melodias riquíssimas e letras com um acabamento e força admiráveis, no seu mais alto nível, Chico ri. As letras riem, castigam nossos tempos e suas tantas aberrações. E, certamente, Chico ria ao pensar na forma como suas canções seriam recebidas. Faixa a faixa, Chico ri. Já de cara, em “Tua cantiga”, Chico coloca juras exageradas de amor extraconjugal, que culminam em “largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”. Chico sabia que isso ia dar confusão, ainda mais vindo de alguém que passou por algo parecido há pouco. Mas Chico vai lá, rindo, e começa assim o disco mais “família” que já fez, com neto e neta participando com destaque. Em “Blues para Bia”, Chico fala de um cara apaixonado por uma moça cujo coração não tem lugar para meninos, mas promete virar “menina pra ela me namorar”. Daí ele vem com “A moça do sonho”, em que o cantor se apaixona por uma moça que lhe aparece no sonho e não quer mais sair de lá. E o disco segue, passa pela canção que ele dedica ao futebol, “Jogo de bola”, em que brinca com as palavras como quem brinca com a bola no futebol moleque a que a música rende homenagem (“vivas às marias chuteiras cujos corações encandecias/ outrora quando em priscas eras/ um Puskas eras/ a fera das feras da esfera”) e depois, em “Massarandupió”, revira os versos como criança cavucando o mundaréu de areia à beira-mar (“cavuca daqui, cavuca de lá, cavuca com fé”). “Dueto”, então, é uma longa risada: em defesa do amor, Chico e sua neta mandam se danar o calendário, a ciência, o evangelho, os búzios, tudo, se ousarem negar o amor entre os dois que falam na canção. No final, quando fala o nome de diversas redes sociais, Chico ri mesmo ao lembrar do Orkut! Lembram daquela turma que mandava o Chico pra Cuba? Pois bem, ele foi e voltou de lá com “Casualmente”, a sétima faixa, misturando português e espanhol, zanzando pelas ruas de Havana. Mas o Chico ia responder pra esses boçais? Sim, com leveza, falando de amor, falando de amor e rindo. E à turma toda que o chamou de vagabundo e que o atacou nas ruas e em restaurantes? Ele dedicou o tapa suave que é “Desaforos”: “Alguém me disse/ Que tu não me queres/ E que até proferes desaforos pro meu lado/ Fico admirado por incomodar-te assim/ Jamais pensei/ Que pensasses em mim // Nunca bebemos do mesmo regato/ Sou apenas um mulato que toca boleros / Custo a crer que meros lero-leros de um cantor/ Possam te dar tal dissabor // Vejo-te a flanar pela avenida/ Como dama florescida num viveiro/ E em salões que nunca vi/ Serei o primeiro a duvidar/ Que em horas vagas/ Os teus lábios delicados/ Roguem pragas por aí// Ouço dizer, mas deve ser mentira/ Nem a tua ira eu acredito que mereça/ Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu/ Um vagabundo como eu”. E sai assoviando. Pra fechar, ele vem com a mais-que-comentada “As caravanas”, em que escarnece da “gente ordeira e virtuosa” que é a sua vizinhança na zona sul do Rio de Janeiro, apavorada por esses terroristas que descem para o asfalto no domingo ensolarado: “Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ Que estoura as veias, o suor/ Que embaça os olhos e a razão”. E Chico deve rir lá agora no seu canto sabendo que fez boa parte dos seus fãs sisudos sentir a batida do funk forçando o esqueleto. Chico deve rir muito. E a gente precisava tanto desse disco. A gente precisa tanto rir. Obrigado, Chico.

Chico é isso tudo?

CHICO

Alguém tem que ter coragem de falar algumas verdades sobre esse disco do Chico Buarque. Pode pegar mal diante da empolgação generalizada dos meus amigos, mas alguém tem que ter coragem de dizer: não é isso tudo. Pego uma música ao acaso, “As caravanas”. Já começo a achar estranha a opção pelo “as” no título da canção que não aparece no título do disco. Falta de capricho, quem sabe? Mas vou ouvir a faixa. O violão vai puxando a música e, aos 7 segundos, já entra a voz estranha do cantor. Por que não tem aquele tempinho no início da faixa pra gente relaxar? Por que não cria primeiro o clima, espalha o arranjo com calma, pra depois começar a cantar? Não sei, mas achei que parece que ele quer dar a impressão de que há uma urgência nessa história de caravanas, aliás, nem de caravanas ele está falando: qualquer um percebe que é de arrastões que ele quer falar, mas não tem coragem, talvez. E por isso ele já canta logo, canta rápido, e o violão vai sendo engolido por um monte de instrumentos refinados, uma verdadeira orquestra, que depois sucumbe ao beat-box do mais impuro funk. À sombra dessas sonoridades todas, o que diz a letra? Ora, uma mistureba só! Primeiro, para que essas referências todas ao universo dos muçulmanos (a começar por “caravana”, palavra que vem do árabe; o jogo entre turco e turquesa reforçado pela referência a Istambul, com sua incomparável história de conflitos culturais, políticos etc.; as rimas de “estranhos suburbanos tipo muçulmanos”; até achar uma divindade escondida no Jardim de Alá, entre Ipanema e Leblon)? Será que ele quer dizer que a Zona Sul vê naqueles arrastões o terrorismo que o Ocidente pintou em todas as referências culturais do Oriente Médio? E, depois, por que insistir que os negros de hoje em dia têm a ver com os negros que chegaram aqui escravizados, espalhando pela letra um vocabulário que só faria sentido para falar do Brasil colonial, desde o “realeza” escondido no “real grandeza” do primeiro verso, para depois opor a “gente ordeira e virtuosa” aos “negros torsos nus”, e o exagero de falar que se pede à polícia não apenas que mande o “populacho” de volta para a favela ou para a prisão, mas para Benguela e Guiné, não só outro lugar no mapa, mas também um canto desconfortável da nossa história? Coisa antiga essa de “crioulos empilhados no porão de caravelas”! E essa coisa do “sol [de] torrar os miolos”, de dizer que “a culpa deve ser do sol/ que bate na moleira, o sol/ que estoura as veias, o suor/ que embaça os olhos e a razão”? É pra lembrar aquele debate também colonial sobre a (im)possibilidade de instalar a civilização num país tão quente, a cera das perucas da corte derretendo pra desdourar os bailes? E, de quebra, lembrar aquele poeta ex-estranho, o Paulo Leminski, que, no tortuoso “Catatau”, inventa a história de um Descartes perdido na selva tropical, louco de ervas e fluidos que não se dobram às suas regras e réguas? Não sei, tudo meio confuso, meio atropelado, meio em guerra, ainda mais em guerra na nossa cabeça por conta do que vai acontecendo na música… Repare no vocabulário esquisito para um cantor que até já fez letras refinadas: “pinta”, “bicho”, “buchicho”, “charanga”, “malocam”, “sungas estufadas”, “zoeira”… Até à mítica das “picas enormes” ele se refere (com “sacos [que] são granadas”), parecendo apontar para a conversa desses “supremacistas” que atribuem características “animalescas” aos negros para alimentar suas teses racistas. E há muitas outras insinuações, como se uma outra realidade viesse nessas palavras rasteiras que marcam a geografia do Rio de Janeiro – Arará, Caxangá, Chatuba, Irajá, Penha, Maré – e, no passar da letra, fossem se sobrepondo à bela Copacabana, que, depois da primeira estrofe, é apenas um eco, um som sufocado nas repetições de “caravana”. Na última estrofe, então, parece que ele escorregou mesmo. Além de apelar para um lema exagerado na boca da gente ordeira da zona sul – “tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria” – e de dizer que, nessas pessoas, “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, ele coloca tudo em dúvida ao admitir que talvez o doido seja ele mesmo, que escuta vozes, vê gente insana e até caravanas vindas de lugares com nomes estranhos. Sinceramente, não achei tudo isso, mas não vou falar mais nada para não chatear os fãs.

Carlos Felipe Moisés (1942-2017)

carlão

(1)

Carlos Felipe Moisés foi embora. Foi encontrar novamente Margarida. Hoje cedo, mas eu soube agora. Quando o conheci, ele era um livro, depois outro, depois outros, até virar um amigo que parecia estar desde sempre por perto, uma espécie de mestre, Mestre, um monge dessa religião sem deus chamada poesia, que agora virou livros novamente, infinitos livros e textos e ideias e gestos, muitos gestos de afeto que nada vai apagar. Falamos há algumas semanas e ficou no ar a felicidade com a campanha do Corinthians, o próximo encontro na Urca, um livro novo na sua infinita gaveta. Ele me contou de seu “calo na aorta”, eu disse que não havia nada mais apropriado para um poeta, rimos, mas agora eu queria que aquilo fosse apenas uma metáfora. Ontem, no lançamento do livro de que participamos juntos, sua ausência era o assunto. Sabíamos que estava lutando, mas não havia tristeza porque sabíamos que Carlão era o mais forte de nós. E vai continuar assim, titular absoluto.

 

(2)

NOITE NULA

 

no sonho eu andava

sobre um tapete

que os livros com seu nome formavam pela casa

rebeldes saltados da estante

inconformados com sua morte

 

não havia mais palavras neles

e para onde eu olhava

via correr os seus versos

na pele viva da parede

no mármore da minha pele

no olho intenso do céu

 

e naquele momento

era como se todas as letras já escritas

girassem a milhões de quilômetros

por segundo para dizer

simplesmente: siga

 

seguimos, seus amigos,

e nosso mantra

era um poema-abismo

que roubamos de você:

 

«Eu me arquipélago

tu te maravilhas

ele se istma

nós nos montanhamos

vós vos espraiais

eles se eclipsam. »

 

no sonho não há adeus

não há deus não há dores

e as distâncias do mundo

e do além

cabem todas no abraço

 

não sei se é preciso acordar

 

(3) A gente normal, às vezes com 40, 50 anos, já parece, na vida, aquele funcionário que, 30 minutos antes do fim do expediente, já está arrumando a mesa para sair, fechando as gavetas, desligando o computador. Aos 40, 50 anos, já não atendemos mais as ligações da vida, porque podem atrasar nossa saída. Ontem, no velório do Carlão, falei para vários amigos que ele, aos 75, parecia estar chegando. Carlos Felipe Moisés, com tudo que já tinha trabalhado, parecia estar nas primeiras horas do dia que é nossa vida. Com o cabelo ainda arrumado no espelho da manhã e a leveza de quem teve uma ótima noite de sono. Nesse belo perfil na Revista Caliban, Ronaldo Cagiano fala que Carlão “nos deixa no auge de sua produção e vitalidade” – é exatamente a impressão que eu tinha. Ele tinha muito ainda para nos ensinar, muito mesmo, em todos os campos. Por isso a porta bateu tão forte.

https://revistacaliban.net/depoimento-um-intelectual-agudo-e-um-poeta-refinado-5dac231f467d

Doni: comigo, conosco

doni

Relendo os livros do poeta Donizete Galvão (1955-2014), para uma tarefa que divido feliz com Paulo Ferraz (em breve!), me peguei fazendo contas: quando nossa amizade começou, eu tinha pouco mais de 20 anos e, portanto, ele tinha pouco mais que a idade que tenho hoje. E desde sempre o interesse e o reconhecimento dele pelo que fazíamos eram admiráveis, verdadeiramente contagiantes, a ponto de nunca ter reparado essa diferença de idade antes. A generosidade dele (somada talvez à minha pretensão…) nunca deixou pousar qualquer distância geracional em nossa conversa. Mas Doni foi embora aos 58 – e como 58 é pouco para alguém como o Doni! Sua presença e sua falta estão ainda emaranhadas na cabeça e na agenda dos amigos que herdei dele, assim como nas minhas. De vez em quando, falamos do Doni ainda no presente. Se distrair, incluo seu email nas conversas coletivas. Nos últimos meses, por exemplo, ando numa febre de interesse por um desses universos que os duendes da leitura parecem deixar reservados para quando estivermos prontos, e tenho certeza que uma ou duas cervejas com o Doni seriam suficientes para que ele me indicasse o que ler nesse universo, assim como fez em tantos outros. Por falar em livros, encontrei aqui agora entre os que ele escreveu alguns que curiosamente não estão autografados para mim. E é estranho demais constatar que continuarão assim. Mas não fico triste, não posso. É um imenso privilégio ter sido amigo de alguém que passou pela vida perseguindo as palavras desses poemas e deixou tanto assim para seus amigos-leitores. Foi sua maneira de ficar um pouco mais. Uma vida entre livros que se eterniza nos livros que só ele poderia ter escrito. Só mais uma de suas generosidades. Comigo, conosco.

>>> E já anotem aí na agenda que, em 29/08, às 19h, na Casa das Rosas, haverá um encontro dedicado à poesia de Donizete Galvão, sob coordenação de Vera Lucia de Oliveirahttp://www.casadasrosas.org.br/agenda/poeta-da-carne-e-do-tempo