Versos, Vozes: leituras de poesia

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Algumas das manhãs de sábado mais bacanas que a poesia me deu foram na saudosa Livraria Duas Cidades, há uns 15 anos talvez, nas leituras de poesia que ocorriam entre aquelas estantes incríveis. Foi ali que encontrei pela primeira vez o Donizete Galvão – só isso já justificaria um lugar bem especial na minha memória (ainda que as datas me fujam…). Mais recentemente, apareceram aqui umas fotos de Roberto Bolaño participando de um bate-papo numa livraria na Catalunha. Não conheço o lugar nem o contexto, mas a impressão que tive é de que se tratava de um encontro parecido com aqueles da rua Bento Freitas. Que seja.
Com isso na cabeça, soube há algum tempo que dois amigos de faculdade, Norton e Melissa, estavam abrindo uma loja a algumas quadras do lugar em que ficava a Duas Cidades. Quando passei por lá, veio o estalo de tentar juntar os poetas e seus leitores para um encontro parecido com aqueles antigos, sem pompa, sem roteiro, sem outra intenção que não seja a de ouvir alguns bons poemas e depois ter a calma do fim de semana para meditar sobre eles, com eles, a partir deles. É o que será.
Assim começa, no próximo sábado, a história desses “Versos, Vozes”, que Heitor e eu pretendemos levar em frente a cada mês. No primeiro encontro, estarão conosco os poetas Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen e Reuben da Rocha.
Vai ser legal, e mais ainda se vocês aparecerem!

PS: você encontra as fotos do Bolaño aqui:

https://tarsodemelo.wordpress.com/2014/04/14/uma-nota-a-toa-sobre-bolano/

Fidel (1926-2016)

Por ocasião da morte de Fidel Castro, republico aqui um texto que publiquei em 2013 na coluna “Batalha das Ideias”, no site da editora Expressão Popular. Por mais que tenha partido de um debate pontual, acho que ele registra bem o que eu penso sobre essa figura gigante do século XX e sobre uma história que vai muito além dele. E deve seguir.

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Cuba, ainda?

A passagem tormentosa da blogueira cubana pelo Brasil, ao mesmo tempo em que serve às altercações eleitorais entre governo e oposição, marca mais um episódio das disputas políticas entre direita e esquerda por aqui. Esta é, a meu ver, a parte interessante do noticiário, mas há também sua parte lamentável: certa esquerda brasileira comportou-se como a anfitriã ideal para quem queria, apenas e tão-somente, chamar atenção para sua “causa”. E chamou.
Não tenho dúvida de que seria importante analisar o comportamento dos políticos e da imprensa brasileira no episódio (a agenda da blogueira teve de comportar quase todos os compromissos que a TV brasileira é capaz de oferecer, desde entrevistas sobre conjuntura política internacional até comentários sobre esporte, cultura etc.), mas certamente essa análise foi soterrada pela discussão sobre o comportamento de quem não queria a blogueira por aqui.
Enfim, quem a convidou não teria tanto êxito na sua turnê por aqui se não fosse a ajuda (involuntária, sei) daqueles que tentaram desconvidá-la… Mas há ainda o que pensar a partir desse episódio: a divisão do campo político entre direita e esquerda, que tantas vezes teve sua morte decretada, mostra-se bem viva. E creio que estará assim por muito tempo, até mesmo porque uma certeza, ao menos, têm aqueles que tentam entender a história dos últimos séculos com olhos um pouco mais livres: a imprensa hegemônica e a “intelectualidade” que a ela corresponde não hesitam em usar e abusar de pesos e medidas diversos quando pretendem atingir determinados resultados.
Quero dizer: para esta parcela majoritária da opinião (eu ia dizer “pública”, mas ela em grande medida é privada ou patrocinada), os erros do capitalismo (guerras, regimes autoritários, exploração, bolsões de miséria, destruição ambiental etc.) são a prova de que o sistema deve ser consertado, corrigido, ajustado, ao passo que os erros do socialismo ou de qualquer outro regime que tente se opor ao do capital (em parte idênticos aos do próprio capitalismo) são sempre a prova cabal de que essas “experiências” são catastróficas e jamais devem ser imaginadas, repetidas, defendidas, devendo-se aniquilar até mesmo qualquer perspectiva de conhecimento da realidade que partilhe de seus pressupostos teóricos e posições políticas.
Não é difícil perceber o viés dessa condenação: o problema não é o erro cometido em nome do (ou mascarado de) socialismo. Com os “erros” acima indicados, repito, o capitalismo já nos habituou a viver. O problema é aceitar que aqueles que percebem esses erros como frutos necessários do funcionamento do capital e, principalmente, não se conformam com a “naturalidade” desse sistema, se movimentem no sentido da superação do capitalismo, pensando alternativas, agindo contra as causas – não apenas contra os efeitos – de tantos problemas, demonstrando as contradições insuperáveis da ordem social vigente.
Com uma maleabilidade incrível, o capital tolera e até mesmo absorve quase tudo, inclusive aquilo que se coloque em frontal ataque aos seus mais importantes fundamentos – mas nem por isso deixa de atacar os focos de possíveis ameaças à sua legitimação ideológica. Se, por um lado, Che Guevara, consagrado como seu crítico, é logo despregado do vigor anticapitalista e vira adesivo, chaveiro, filme nas salas comerciais etc., isto é, o revolucionário é transformado em mercadoria, nem por isso a blogueira deixará de ser usada como “cavalo de troia” para atacar, num golpe (mais imediato), o governo, e noutro (mais mediato), a esquerda e toda a crítica possível ao capital.
O golpe que merece mais atenção, obviamente, é o segundo: os ataques sistemáticos e, mais que isso, a violenta negação de todo e qualquer aspecto positivo que possa ser apreendido dos processos revolucionários socialistas pretendem realizar, de uma vez por todas, o sonho do “pensamento único”, convencendo a todos do bordão de Mrs. Thatcher: “There is no alternative”.
É por esta razão que entendo ser necessário perguntar: Cuba, ainda? Sim, as últimas semanas deixaram claro que Cuba continua no centro das discussões, mas certamente de discussões que vão muito além da ilha. A ilha que não sai do noticiário é apenas em parte aquela que alimentou o sonho de gerações da esquerda ou aquela sobre a qual recaem as acusações de ofensa aos direitos humanos, mas é principalmente aquela do regime que, por seus problemas, não pode ser retirado tão cedo da lista de argumentos que a direita toma a seu favor contra a esquerda. O destino de Cuba, por si só, é insignificante para a direita, mas o que pode ser pensado e feito no mundo – a partir, inclusive, dos erros da revolução cubana – tira o sono de muito capitalista por aí.
A direita há muito se esforça para transformar Cuba em uma falha fatal dos projetos da esquerda, o ponto final da conversa sobre superação do capital – e, de certo modo, conseguiu. Entre os mais novos da esquerda, não é incomum que as críticas à revolução cubana se convertam na aceitação de todos os argumentos que a direita lança sobre a ilha. Ora, há formas e formas de dizer que “Cuba deu errado”: a imensa maioria o diria com prazer, e esta é uma opinião que não me interessa. A que me interessa parte da crítica ao regime cubano para pensar sobre outras formas de intervenção anticapitalista.
Se o mote da vez é o debate sobre a liberdade da blogueira, não podemos esquecer que qualquer “contradição” da esquerda é logo alçada a xeque-mate contra suas aspirações. E “contradição”, nesta passagem, vai entre aspas porque me refiro, principalmente, a ataques caricaturais, como o fato de quem se declara de esquerda desfrutar, em alguma medida, de “confortos” (bens, serviços etc.) que são identificados como privativos do capitalismo. A intenção clara é mostrar que as “contradições” da esquerda são fatais e desabonam todos os argumentos que se fundam nas contradições reais de que é feito o capital.
Que este texto, por exemplo, seja entendido como uma defesa de Cuba ou das atrocidades que, sem dúvida, foram cometidas em nome da revolução, já é um sinal de como foi bem sucedido um embargo mais sutil do que o econômico à ilha, um embargo de seu potencial simbólico para pensar alternativas, se não à política, à economia capitalista. Mas, parafraseando Mészáros, vale dizer que a sociedade que precisamos construir não apenas está para além do capital, como também está para além de Cuba – da real e de sua caricatura.
Não se trata, claro, de agarrar-se à imagem (ou miragem) da ilha para lutar contra o capital, mas de evitar a conclusão fácil, induzida pela ideologia dominante, de que toda ação da esquerda (Cuba, sim, mas também toda e qualquer manifestação anticapitalista) é sempre uma ilha de iniquidades, repleta de “contradições” e cercada pelas maravilhas que apenas o capital é capaz de oferecer. Decerto, não virá do blog dissidente a reflexão que o tema merece.

O futuro de Lula e o nosso

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Na última semana, passado o primeiro turno das eleições municipais, o noticiário político sucumbiu de vez ao viés policial/judicial. Nele, com o destaque de sempre, a cada vez mais provável prisão de Lula mostra-se como o ponto culminante da maior perseguição política, judicial, policial e midiática que este país já assistiu, um longo e destrutivo processo que envolveu a desvirtuação do pouco de democracia que vínhamos construindo, tanto nas instituições responsáveis por “fazer justiça”, quanto nas urnas como expressão da vontade popular.

Quando falamos em golpe, portanto, estamos falando de algo cujas dimensões são muito mais traumáticas para o futuro do país do que temos tido coragem de admitir, mesmo diante de um noticiário que não nos deixa ter dúvida de que o país está de volta às mãos daqueles que sempre se beneficiaram da desigualdade social por aqui.

Com alguns arranhões excepcionais, a verdade é que os caciques da direita continuam sendo tratados por seus pares, bem como pelo Judiciário, pelo Ministério Público, pela Polícia e pelas corporações da mídia, com a mesma deferência de sempre. E eles trabalharam muito bem para chegar a este momento em que podem impor seus interesses sem qualquer resistência partidária ou institucional à altura, porque cuidaram de levar o PT à lona (claro, não sem uma grande “colaboração” de membros importantes do próprio partido) e, no mesmo ato, atingiram algo ainda mais grave: criminalizaram até mesmo a ideia, o discurso, qualquer defesa dos mecanismos de promoção de justiça social consagrados na Constituição brasileira.

E é aí que as pontas se amarram para a esquerda: com a demonização de Lula e de tudo que ele representa, resta demonizada também uma perspectiva de transformação do país de que o PT era ~parte~, mas foi alçado a ~todo~ no imaginário político atual, o que talvez explique o sucesso da visão gerencial da política nas urnas municipais, em que foi possível até mesmo a suprema ironia de um notório patrão vender-se com o jingle em que se apresenta como “João trabalhador”…

Pois bem, até aí as favas estão mais que contadas, mas nem por isso nossa vertiginosa espiral descendente chegou ao fim. O destino de Lula, a qualquer hora dessas, vai dizer muito sobre o destino da esquerda nos próximos anos e gerações. Quem está a caminho das grades, neste momento, é bem mais que o maior líder popular do país. Sim, atribua-se o valor que quiser a isso, mas Lula é o maior líder popular que este país já teve e sua figura vai estar sempre refletida, de alguma maneira, em qualquer bandeira vermelha que por aqui levantarem; ainda que quem empunhe a bandeira não o admita, quem olhar para ela estará vendo Lula ali por perto. E isso, mais que um grande elogio para o que Lula fez pelo país, é um indicativo do tamanho desafio que a melhoria social deste país terá pela frente.

Num contexto assim, a única nota positiva que consigo sustentar é meio torta: Dilma já foi arrancada da cadeira, o fosso entre Lula e uma nova eleição é cada vez mais profundo, o PT foi atropelado nas eleições municipais, ou seja, está chegando ao seu limite concreto o discurso do Bem contra o Mal, em que o Mal é o PT e, consequentemente, o Bem é todo e qualquer ataque ao PT. Se esse discurso tem justificado tudo de uns tempos pra cá, quando seus objetivos forem atingidos e não houver mais um “inimigo número 1” para atacar, vai faltar tinta ideológica para mascarar a verdadeira natureza do golpe e de todos os regressos políticos e econômicos que vão sendo admitidos sob o estardalhaço da caçada ao homem em que fizeram colar a imagem do Mal como em nenhum outro. Finda a caçada, com o alvo caído cai também a adoração cega aos caçadores. E é daí em diante que poderemos começar a conversar a sério sobre o que vai ser do país no futuro bem próximo.

“The 42nd. St. Band” já está por aí!

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«Por isso, tirar um romance dos diversos cadernos e folhas soltas encontrados no apartamento carioca de Renato Russo (hoje arquivados no MIS, em São Paulo) exigiu um tanto de “arqueologia”, mas ainda mais de mergulho naquele ritmo acelerado em que a imaginação de Renato trabalhava. Não se trata de um material fechado, com início, meio e fim bem amarrados, mas sim de uma sucessão, um jorro de entrevistas fragmentárias, listas de cidades de todo o mundo em que a 42nd St. Band excursionou, trechos de matérias jornalísticas sobre a banda, seus discos e seus integrantes, listas de canções, anotações sobre as origens e destinos pessoais de cada integrante, diferentes formações das bandas, projetos coletivos e individuais dos músicos, ilustrações para as capas dos álbuns, letras.»

http://www.blogdacompanhia.com.br/2016/10/quando-o-sol-bater-na-janela-do-teu-quarto/

Playlist para acompanhar o livro, por Sofia Mariutti:

http://www.blogdacompanhia.com.br/2016/10/ouvindo-o-romance-de-renato-russo/

Entrevista à GloboNews – Estúdio I

http://g1.globo.com/globo-news/estudio-i/videos/t/convidados/v/romance-inedito-de-renato-russo-chega-as-livrarias/5366595/

Entrevista à Rádio Globo (RJ)

http://radioglobo.globo.com/media/audio/30153/cadernos-e-diarios-de-renato-russo-viram-livro-pel.htm

Entrevista ao GloboNews Literatura (começa aos 13m23s):

O Estado de S. Paulo:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-inedito-de-renato-russo-conta-a-historia-da-sua-banda-ficticia,10000082540

 

Entrevista para o CBN Noite Total:

http://cbn.globoradio.globo.com/default.htm?url=/programas/cbn-noite-total/2016/10/21/CIA-DAS-LETRAS-PUBLICA-LIVRO-ESCRITO-POR-RENATO-RUSSO-AOS-15-ANOS.htm

 

Sobre o livro no site da editora:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13964