Gomapseumnida

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Gomapseumnida

 

(Coréia do Sul, setembro 2014)

 

1

 

quando você sai do chão

e sabe que há tanto mar sob os pés

e não há pouso ou pausa possível

pode pensar como seria

não pousar nunca mais

na própria vida

 

mas você se move

a cabeça na mira (ando, ando)

e o corpo entre mosteiros

e a alma entre ponteiros

tentando escorregar

em meio a multidões

de sandália com meia

executivos bêbados

fumantes compulsivos

velhinhos recolhendo bitucas

protestos que parecem

treinos de taekwondo

crianças risonhas

velhos mal-encarados

policiais em duplas

desenhados a lápis

quase branco

pincéis, papéis

carimbos, tintas

impressos na tela veloz

dos carros que cortam

tudo – e você segue

 

poeta perdido num lugar

em que todas suas palavras

não servem para nada

 

você segue, com a língua nua

indefesa, vulnerável

soterrada sua pretensão

de saber dizer tudo

e agora o silêncio

o desencontro

o estranhamento

do outro lado do mundo

do outro lado da língua

 

2

 

aprendi o que é cidade antípoda

você percorre exatos 180 graus da terra

ou faz um furo perfeito de um lado

a outro da terra e assim vai de Manila

a Tangará da Serra de Taipei a Formosa

de Rukua a Tombuctu de Lima a Pursat

 

se eu cavasse o solo preto de Jeju

sairia em Santa Vitória do Palmar

os cientistas dizem que o diâmetro da terra

é de 12742 quilômetros

e que a distância do voo de São Paulo a Jeju

é de 18539 quilômetros

mas Santa Vitória do Palmar fica

a apenas 1628 quilômetros de São Paulo

 

e eu abriria assim um caminho

para a língua entrar

e dizer novamente casa

Toda sentença é um antipoema

rafael

TODA SENTENÇA É UM ANTIPOEMA

 

“Parece que foi preso 60 pessoas. Todo mundo era claro.

De preto só tinha o Rafael. Todo mundo foi solto.

Só o Rafael foi condenado.”

 

Adriana de Oliveira Braga

 

“o ministério público ofereceu denúncia

contra rafael braga vieira

pelos seguintes comportamentos ilícitos

descritos na denúncia, a saber:

 

no dia 12 de janeiro de 2016

por volta das 09 horas, na rua 29

em localidade conhecida como ‘sem terra’

situado no interior da comunidade vila cruzeiro

no complexo de favelas do alemão

bairro da penha, nesta cidade

 

o denunciado, com consciência e vontade,

trazia consigo, com finalidade de tráfico,

seis decigramas da substância entorpecente

cannabis sativa acondicionados

em uma embalagem plástica fechada por nó

bem como nove gramas e três decigramas de cocaína (pó)

distribuídos em 06 cápsulas plásticas incolores

e 02 embalagens plásticas fechadas por grampo

contendo a inscrição ‘cv-rl/pó 3/complexo da penha’

tudo sem autorização e em desacordo

com determinação legal e regulamentar.

 

nas mesmas condições de tempo e lugar acima descritas,

o denunciado, com consciência e vontade,

estava associado a outros indivíduos não identificados,

todos subordinados à facção criminosa

que domina o tráfico de drogas na comunidade,

para o fim de praticar, reiteradamente,

o crime previsto no art. 33 da lei nº 11.343/06.

 

policiais militares estavam em operação

no interior da comunidade,

quando foram informados por um morador

acerca da presença de um homem portando entorpecente

com a intenção de comercializá-lo.

 

destarte, ao chegarem ao logradouro indicado,

os agentes visualizaram o denunciado rafael braga vieira

em poder de uma sacola de conteúdo suspeito.

de imediato, ao perceber a presença dos agentes da lei,

o denunciado tentou se desfazer do material,

arremessando a referida sacola ao solo.

 

ato contínuo, após a abordagem do denunciado,

os agentes lograram arrecadar os objetos abandonados,

oportunidade em que verificaram tratar-se de

vasta quantidade de material entorpecente,

bem como um morteiro.

 

é o relatório, passo a decidir.

 

a preliminar de inépcia da denúncia

suscitada pela nobre defesa não pode ser acolhida,

eis que a prefacial acusatória descreve

fatos penalmente relevantes

e atribui a autoria delitiva a pessoa certa.

dessa forma, não colhe ensejo

o pleito defensivo aqui referido.

portanto, rejeito a questão preliminar de inépcia

da denúncia suscitada pela defesa,

porquanto os fundamentos invocados

não se aplicam ao presente caso.

registre-se que a localidade

em que se deu a apreensão do material entorpecente

mais precisamente na região conhecida como ‘sem terra’,

no interior da comunidade vila cruzeiro, no bairro da penha,

nesta cidade, é dominada pela facção criminosa ‘comando vermelho’,

conhecida organização criminosa voltada a narcotraficância.

 

neste sentido, verifica-se que as várias embalagens

das substâncias entorpecentes apreendidas

ostentavam inscrições fazendo menção à facção criminosa

‘cv’, ou seja, ‘comando vermelho’.

 

acrescente-se que as substâncias entorpecentes apreendidas

já se encontravam devidamente fracionadas,

prontas para a mercancia.

somando-se as circunstâncias

que envolveram a prisão do acusado,

onde segundo relato dos policiais que efetuaram

a prisão do réu e a apreensão do material entorpecente,

o local é conhecido como ponto de venda de drogas.

 

por consequência, levando-se em conta

a quantidade de droga apreendida, forma de acondicionamento

e local da apreensão, resta inquestionável que

a substância entorpecente destinava-se a traficância,

portanto, não tenho qualquer dúvida quanto à adequação

do fato ao tipo penal previsto no art. 33 da lei de tóxicos.

 

a autoria do nefasto comércio, em sentido idêntico,

resultou cabalmente demonstrada na pessoa do acusado,

embora este, como de costume na seara criminal,

tenha negado o obrar criminoso quando foi interrogado neste juízo.

apesar do réu rafael braga vieira

quando interrogado neste juízo

ter negado a prática das infrações,

sustentando que não tem envolvimento

com o tráfico de entorpecentes

da localidade acima mencionada,

alegando em sua autodefesa que era morador da comunidade,

que se dirigia até uma padaria

sem qualquer substância entorpecente em seu poder,

quando foi abordado pelos policiais militares,

suas declarações não ostentam base probatória.

 

alegou, ainda, o acusado rafael braga

que, em seguida, os policiais militares o conduziram até um

beco

e lhe exigiram informações acerca de

armas, drogas e traficantes da localidade.

contou o réu que, após sua negativa,

os agentes apresentaram uma bolsa

contendo material entorpecente

e ameaçaram que iriam lhe atribuir a posse das drogas,

caso não prestasse as informações solicitadas por eles.

 

ato contínuo, narrou o réu rafael braga

que foi agredido fisicamente pelos policiais militares

e que os mesmos o incentivaram a consumir droga

no interior da viatura policial, durante o percurso até à 22ª dp.

 

note-se que as declarações do réu rafael braga

durante o seu interrogatório neste juízo

restaram divorciadas do conjunto probatório, senão vejamos.

frise-se, por oportuno, que o réu rafael braga vieira

foi preso em flagrante delito.

as testemunhas, arroladas pelo ministério público,

quais sejam, policiais militares,

ouvidas neste juízo, através do sistema audiovisual,

que participaram da prisão em flagrante do réu

e apreensão das substâncias entorpecentes e outro material,

apresentaram depoimentos harmônicos entre si,

cujo teor de suas declarações faz prova robusta

que as substâncias entorpecentes descritas no laudo pericial

foram encontradas em poder do réu destinavam-se à venda.

 

narrou a testemunha policial militar

que estavam em patrulhamento de rotina,

com intuito de garantir a segurança de trabalhadores

que implantavam blindagem no posto policial,

na comunidade da vila cruzeiro,

quando um ‘morador’ foi até a guarnição policial

informar que havia um grupo de pessoas

comercializando drogas nas proximidades.

 

narrou, ainda, a testemunha

que ao proceder até o local informado

avistou um ‘grupo’ correndo

mas que o réu rafael braga

‘foi o único que permaneceu parado,

distraído, com uma sacola na mão’

e ao perceber a aproximação policial

tentou se desvencilhar da referida sacola.

 

ato contínuo, contou a testemunha policial

que feita a busca foram encontrados

na sacola plástica que o réu segurava

fogos de artifícios (‘um ou dois morteiros’) e drogas.

 

disse a testemunha policial

que o local em que o réu foi capturado

era dominado pela facção criminosa ‘comando vermelho’.

 

na mesma linha, a testemunha policial militar,

que também participou da prisão em flagrante delito do réu,

em depoimento prestado neste juízo,

confirmou, na essência, as declarações da testemunha anterior,

seu colega de farda, narrando que estavam fazendo

a segurança de uma equipe de engenharia na vila cruzeiro,

quando foram acionados

em razão de uma outra guarnição policial

ter sido informada por um morador acerca

da existência de um grupo de elementos

que realizava tráfico de entorpecentes nas proximidades,

mais precisamente na ‘rua 29’.

 

narrou, ainda, a testemunha policial

que, em seguida, procederam até o local informado,

oportunidade em que o réu rafael braga

ao avistar o seu colega de farda soldado

tentou se desvencilhar de uma sacola plástica,

enquanto os outros elementos

que estavam próximos ao aludido réu

se evadiram do local.

 

ato contínuo, contou a testemunha policial

que o acusado rafael braga foi abordado,

sendo arrecadada a sacola dispensada pelo mesmo

e encontrado em seu interior material entorpecente,

bem como fogos de artifício.

acrescentou a testemunha policial militar

que o local em que se deu a prisão em flagrante do réu

rafael braga

era conhecido como ponto de vendas de drogas,

local este dominado pela facção criminosa

‘comando vermelho’.

 

‘(…) quando avistei o acusado com sacola na mão,

ele estava parado numa curva mais o pessoal,

quando fizemos a curva ele se desfez;

aí soltou a sacola e veio andando e os demais saíram;

tudo que aconteceu nós vimos (…)’.

 

acrescentou, ainda, a testemunha policial

que o réu permaneceu no local

e não se evadiu com os demais elementos,

o que possibilitou a sua abordagem e captura.

 

extrai-se dos depoimentos acima,

das testemunhas policiais militares

que o réu foi preso em flagrante delito

em poder de material entorpecente.

as aludidas testemunhas policiais militares,

em juízo,

confirmaram que o local em que foi abordado o réu

era dominado pela facção criminosa ‘comando vermelho’.

 

note-se que os policiais militares,

agentes da lei que abordaram o réu

e apreenderam o material entorpecente em poder do mesmo,

em seus respectivos depoimentos,

sob o palio do contraditório,

descreveram a conduta delituosa

levada a cabo pelo acusado.

 

nos depoimentos policiais acima mencionados,

nada há que elida a veracidade das declarações

feitas pelos agentes públicos

que lograram prender o acusado em flagrante delito.

 

não há nos autos qualquer motivo para se

olvidar da palavra dos policiais,

eis que agentes devidamente investidos pelo estado,

cuja credibilidade de seus depoimentos

é reconhecida pela doutrina e jurisprudência.

 

os testemunhos dos policiais acima referidos

foram apresentados de forma coerente,

neles inexistindo qualquer contradição de valor,

já estando superada a alegação

de que uma sentença condenatória

não pode se basear neste tipo de prova.

 

ademais, os policiais militares

que efetuaram a prisão do acusado

não o conheciam anteriormente,

razão pela qual não tinham qualquer motivo

para acusá-lo falsamente.

 

é certo que algumas contradições

são perfeitamente previsíveis

em depoimentos de policiais militares

que participam de várias ocorrências policiais,

porém, na essência os depoimentos prestados

pelos policiais militares neste juízo

são convergentes.

 

por outro lado, a testemunha vizinha do réu,

ouvida neste juízo, disse que era amiga

e frequentava a casa da genitora do acusado por muitos anos.

segundo a aludida testemunha,

foi possível observar da varanda de sua casa

o réu rafael braga sozinho,

sem qualquer objeto em suas mãos,

sendo abordado e agredido pelos policiais militares.

 

ato contínuo, narrou a aludida testemunha

que o acusado foi arrastado por um policial até a parte baixa da rua,

o que comprometeu a sua visão.

 

ao meu sentir, as declarações da testemunha,

arrolada pela defesa do réu,

visavam tão somente eximir as responsabilidades criminais

do acusado rafael braga

em razão de seus laços com a família do mesmo

e por conhecê-lo ‘por muitos anos’ como vizinho.

 

embora a testemunha tenha afirmado em seu depoimento

que o réu rafael braga foi vítima de agressão

por parte dos policiais militares que o abordaram,

fato este também sustentado pelo acusado quando interrogado

neste juízo,

o exame de integridade física a que se submeteu

o réu rafael braga vieira não constatou

‘vestígios de lesões filiáveis ao evento alegado’.

 

dessa forma, por ser isolada do acervo probatório,

não há como acolher a versão apresentada

pelo réu rafael braga vieira em ato de autodefesa.

 

portanto, os depoimentos prestados pelos policiais militares

neste juízo,

que efetuaram a prisão em flagrante do réu rafael braga vieira

e arrecadaram o material entorpecente em poder do mesmo,

depoimentos estes corroborados pelas declarações das testemunhas,

policiais que também participaram da operação policial

que resultou na prisão do acusado,

fazem prova robusta em desfavor do acusado

em apontá-lo como autor do crime narrado na denúncia.

 

não há nada nos autos que fragilize

os depoimentos das testemunhas do ministério público.

consigne-se que a negativa de autoria

ou a tese alternativa, que coloca dúvida acerca da autoria delitiva,

vai de encontro à prova produzida,

sobretudo os depoimentos prestados pelos agentes do estado.

portanto, a defesa não se desincumbiu do ônus processual

no sentido de provar fatos impeditivos,

modificativos ou extintivos do direito estatal.

sendo assim, a prova é firme e suficiente para

condenar o acusado por tráfico,

eis que evidente que o material apreendido

se destinava à ilícita comercialização,

não só em razão da quantidade,

forma de acondicionamento e local da apreensão,

mas também em razão das circunstâncias

que nortearam a prisão do réu.

 

quanto ao crime de associação para fins de tráfico,

a materialidade delitiva é cristalina

desde a prisão em flagrante do acusado

em razão da operação policial

que culminou na deflagração da presente ação penal.

 

os elementos que instruem o processo,

sobretudo os depoimentos prestados pelos policiais militares

neste juízo, são conclusivos neste sentido.

os depoimentos prestados em juízo

pelos policiais militares responsáveis pela prisão do acusado

merecem credibilidade, porquanto seguros e coerentes,

guardam afinidade com a realidade fática

trazida no contexto probatório.

 

ademais, não há qualquer motivo nos autos

capaz de macular a isenção dos mesmos como testemunhas.

 

no caso presente

a posse do material entorpecente (maconha e cocaína)

embalado em saco plástico, fracionado,

inclusive, contendo inscrições ‘cv’,

que sabidamente destinava-se à venda,

evidencia a estabilidade do vínculo associativo

com a facção criminosa ‘comando vermelho’

que controla a venda de drogas no local dos fatos.

 

ademais, com o réu houve a apreensão de um rojão,

sendo certo que no momento da prisão em flagrante

do réu rafael braga,

conforme relato dos próprios policiais neste juízo,

havia inúmeros elementos que se evadiram.

 

dessa forma, restou inequívoca

a estabilidade do vínculo associativo

para a prática do nefasto comércio de drogas,

sendo certo que a facção criminosa “comando vermelho”

é quem domina a prática do tráfico

na localidade conhecida como ‘sem terra’,

em que o réu foi preso,

situada no interior da vila cruzeiro.

 

por outro lado,

a regra de experiência comum

permite concluir que a ninguém é oportunizado

traficar em comunidade sem integrar a facção criminosa

que ali pratica o nefasto comércio de drogas,

sob pena de pagar com a própria vida.

 

portanto, não poderia o réu atuar como traficante

no interior da comunidade vila cruzeiro,

sem que estivesse vinculado à facção criminosa

‘comando vermelho’ daquela localidade.

 

ademais,

as testemunhas arroladas pelo ministério público

não deixam qualquer dúvida a esse respeito.

 

culpável, por fim, é o acusado,

eis que imputável e estava ciente do seu ilícito agir,

devendo e podendo dele ser exigida

conduta de acordo com a norma proibitiva

implicitamente contida nos tipos por ele praticado,

inexistindo qualquer causa de exclusão de antijuridicidade

ou culpabilidade aplicável ao caso presente.

 

diante do exposto,

não é possível acolher as teses expostas

pela douta defesa do acusado em suas derradeiras alegações,

considerando, como exposto acima,

ser o conjunto probatório robusto em desfavor do réu.

 

impossível, data venia,

a desclassificação da conduta delitiva,

não só pelo fato do conjunto probatório ser desfavorável ao réu,

como exposto acima, mas, também,

em razão do acusado, em momento algum,

ter afirmado que os entorpecentes consigo apreendidos

destinavam-se ao seu próprio uso,

muito pelo contrário,

negou a posse do material apreendido.

 

verifica-se que o acusado ostenta maus antecedentes,

constando três condenações, já transitadas em julgado,

em datas anteriores aos crimes tratados nestes autos.

 

a sua personalidade é voltada para a criminalidade,

não se podendo olvidar que o acusado

no ocasião de sua prisão

encontrava-se em gozo de benefício extramuros,

inclusive fazendo uso de tornozeleira eletrônica.

 

ex positis,

julgo procedente a denúncia

para condenar como ora condeno

o réu rafael braga vieira

às penas de 11 anos e 03 meses de reclusão

e ao pagamento de 1.687 dias-multa,

à razão unitária mínima.

 

condeno, ainda, o réu

ao pagamento das custas e da taxa judiciária.

 

o regime inicial para o cumprimento da reprimenda é o fechado.

o que se justifica não só pelo quantum da pena aplicada,

mas pelo fato de que esse regime se afigura o mais adequado

para atender a finalidade da pena,

cujos aspectos repressivos e preventivos

ficariam sem efeitos na hipótese de um regime mais brando,

ante a possibilidade do réu não ser suficientemente intimidado

a não mais delinquir.

 

quanto às substâncias entorpecentes apreendidas,

determino que sejam destruídas por incineração.

determino, ainda, a destruição do rojão apreendido e já periciado.

 

após o trânsito em julgado,

lance-se o nome do réu no rol dos culpados.”

 

 

Rafael Braga Vieira

é um jovem negro brasileiro como tantos outros.

Foi réu em processo criminal como tantos outros.

Foi condenado como tantos outros.

Após um processo como tantos outros.

O texto acima foi retirado,

em protesto e homenagem,

de uma sentença como tantas outras.

Como tantos outros brasileiros,

o destino desse jovem negro preso,

com o processo em que foi condenado

e as palavras todas da sentença,

é ser varrido para debaixo do tapete

da banalização e do esquecimento.

Adriana de Oliveira Braga é a mãe de Rafael.

Seu CPF é 148.955.027-59 e sua conta poupança

é na Caixa Econômica Federal:

Ag. 4064, Conta 21304-9, Op. 013.

Qualquer ajuda para ela

não é um ato como tantos outros.

Do fb pra cá

[6/2] ROMERO E MACHADO

[esta é uma obra de ficção, baseada num suposto diálogo entre um senador e um empresário, num hipotético país chamado Brasil, em março de 2016: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.]

 

— Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima. Eu ontem fui muito claro. Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Tem que ter um impeachment. Não tem saída. E quem segurar, segura. Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar. Odebrecht vai fazer. Seletiva, mas vai fazer. Queiroz não sei se vai fazer ou não. A Camargo vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho. Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. Tem que ser política. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria. Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra. É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Com tudo, aí parava tudo. É. Delimitava onde está, pronto. O Renan é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não. Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem. A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com isso. E pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já. Caiu. Todos eles. Aloysio, Serra, Aécio. Caiu a ficha. Tasso também caiu? Também. Todo mundo na bandeja para ser comido. O primeiro a ser comido vai ser o Aécio. Todos, porra. E vão pegando e vão… O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? Amigo, eu preciso da sua inteligência. Não, veja, eu estou à disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar. Porque se a gente não tiver saída… Porque não tem muito tempo. Não, o tempo é emergencial. É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês. Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? Eu acho que você deve procurar o Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar. Acha que não pode ter reunião a três? Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é… Depois a gente conversa os três sem você. Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande. É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma… Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não. O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições sem ela. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar. Eu acho o seguinte, a saída para ela é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento… E burro. Tem que ter uma paz. Eu acho que tem que ter um pacto. Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem ninguém. Não tem. É um cara fechado, foi ela que botou. Um cara burocrata.

FIM?

 

[6/2] Parei com as notícias. Fui ver o filme do Gandhi pra mudar de ares. Começa com ele tomando 3 tiros no peito. Não está sendo fácil.

 

[7/2] Em 2030, se ainda existir STF, Gilmar Mendes se aposentará. Da composição atual, estarão lá ainda Barroso e Fachin (ambos, então, com 72 anos) e os jovens Toffoli e Alexandre de Moraes (ambos, então, com 63 anos). O Mario Rui tem razão: é bom fazer essas contas. Mas cruel é imaginar quem estará sentado nas outras 6 cadeiras aguardando o substituto de Gilmar. Cruel é constatar que, em 2033, o STF terá Toffoli, Moraes e outros 9 que nem (ou bem?) imaginamos como chegarão lá. E ainda mais cruel é pensar em quantas petições online teremos feito até lá.

Vou comprar um cubo mágico pra me distrair.

 

[7/2] Gosto de reler a carta de Temer a Dilma, de dezembro de 2015. Encadernei e coloquei na prateleira entre “O Príncipe” e a “Teoria do Medalhão”. Cada vez que releio, mais fico impressionado. Hoje destacarei o seguinte trecho: “sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção”. E Michel diz isso logo depois de se queixar porque Dilma perseguia seus aliados, em especial Moreira Franco e Eliseu Padilha. Dilma sabia das coisas, pelo jeito. E aproveito para lembrar que a gente pode até perder um tempão chorando e gritando e rindo de nervoso porque Alexandre de Moraes no STF é uma tragédia, mas não pode jamais esquecer que a grande tragédia é ter Michel Temer solto, na cadeira presidencial, decidindo seja lá o que for, ainda mais o que nos afetará por décadas e décadas.

 

[8/2] Beleza de texto. Homenagem a Ricardo Benzaquen de Araújo, professor de História da PUC-Rio e do IUPERJ, que faleceu na semana passada. Em tempos de exigências cada vez mais deprimentes sobre a atividade docente (perseguições ideológicas surrando as cabeças e o açoite das “metas e parâmetros” batendo nas costas), o texto do Fred Coelho tem o peso de um manifesto. Difundam!

 

ANÔNIMOS E ETERNOS

Fred Coelho

 

O trabalho intelectual é silencioso. Ele é feito, quase sempre, face a face. Um corpo a corpo de quem se olha — seja em uma sala, em uma conversa de orientação, em um papo no bar depois das aulas ou em outros momentos de encontro entre as pessoas. É uma tarefa que nunca para. Não há corte no pensamento. Não há cartão batido que desligue a cabeça cismada com um problema, uma hipótese, uma raiva que move, um amor que mesmeriza uma pesquisa. Quando um professor e pensador morre, só quem esteve perto dele sabe o que um país perde. E, na última semana, um dos grandes de sua geração se foi.

Ricardo Benzaquen de Araújo era parte de um grupo de pesquisadores que, hoje, são cada vez mais raros dentre as novas gerações. Talvez tenha sido a última leva de pensadores do século XX que ainda colocaram o Brasil e seus problemas profundos no centro de suas preocupações e delírios. A tradição dos “intérpretes” vem desde o fim do século XIX, mas, nos últimos tempos, perdeu força — não como produção, ainda robusta, mas como pauta central de pesquisadores cujas transversalidades contemporâneas do mundo em rede deslocaram radicalmente o tema do nacional em prol de ideias mais ligadas ao sujeito e suas rupturas com as grandes narrativas hierarquizantes do Ocidente. Estudar o Brasil, sua história, suas derrotas, suas esperanças e suas frustrações era a especialidade de Benzaquen.

Esta coluna não deseja ser um necrológio ou uma apresentação infelizmente póstuma sobre uma carreira acadêmica exitosa e brilhante. Poderia gastar todos os caracteres para apresentar apenas alguns dos livros e trabalhos de Ricardo. Mesmo sem nunca ter sido próximo ou íntimo, eu repetiria o que pessoas muito mais preparadas do que eu já fizeram e farão. Quero justamente falar com quem nunca conheceu Ricardo Benzaquen. É porque não conhecemos aqueles que, em salas de aula, escrevem com as palavras e os gestos um saber abstrato, que não fica para além de quem ouve. No final das contas, não são os livros e artigos que sobrevivem ao corpo que se vai, mas sim o que afetou de alguma forma uma série de vidas ao seu redor. Ser professor, orientador, palestrante, participante de bancas é ser, enfim, uma fala constante sobre temas que atravessam escutas em diferentes momentos da vida. Professores são passagens, um momento em que algo a mais se inscreve na formação alheia. Alguns, claro, permanecem entre nós para além de um único momento de aula ou escrita.

Quando um professor morre, o que lemos como homenagens e lembranças são as marcas que ele deixou nas pessoas, e não seus feitos individuais. Um intelectual, um escritor, um professor, no fundo, não “faz” nada. Ele não faz matéria, não faz coisa ou objetos de consumo. Como o poeta, ele funda mundos invisíveis, porém de alto impacto comunitário. Abre sendas no escuro dos dias. Sua utilidade, ao contrário do que equivocados de escolas sem partido pensam, é justamente o dissenso. Pensar. PENSAR. E não passar mecanicamente conteúdos pré-definidos, seja de que matriz ideológica for. Nenhum professor que realmente seja importante na trajetória de um aluno ou de um colega de profissão se torna importante por suas ideologias. Eles ficam para além da vida porque transcendem o particular em prol de um encontro amplo e geral com as ideias. O professor “desencaminha” porque é muito fácil escolher caminhos que já estão preconcebidos. E, mesmo para escolhê-los, vale sempre saber o porquê de suas opções.

Ricardo Benzaquen ficará — como muitos outros que, infelizmente, nos deixaram tão jovens. E isso corre a despeito de seu trabalho silencioso e sua dedicação quase anônima. O trabalho de pesquisa é solitário e anônimo. Escrever — um artigo, uma dissertação, uma tese, um livro — é solitário. Às vezes, muitos nessa posição se ressentem disso durante o processo, mas no fim entendem que (talvez) aquela solidão silenciosa seja um dos poucos momentos na vida em que você teve de lidar frente a frente com você mesmo, suas conquistas e seus limites. O pesquisador, o pensador dos problemas públicos, o interessado nas ideias que circulam e nos formam, está nesse momento existindo aos milhares: mal pagos, dedicados, mal vistos, empenhados, mal lidos, insistentes. Sempre há, porém, a sala de aula, o momento em que a solidão se encontra com as outras solidões e todos se tornam uma única grande solidão povoada.

Homenageio aqui Ricardo Benzaquen, na certeza de que muitos, talvez a amplíssima maioria dos leitores, não saiba de quem estou falando. Assim, homenageio todos os professores, pesquisadores, alunos e pessoas que optaram por viver na troca diária e anônima de ideias e desejos ao redor de uma aula. O mais trágico de tudo é que o país que ele tanto estudou não tem ideia do que perdeu com sua morte. E, em tempos em que perdemos tanto, a dor cava desse registro anônimo só pode servir de sol para que iluminemos todos que, como Ricardo, vivem em prol do ensino e da pesquisa. Obrigado a todos.

 

[8/2] De um dia para o outro, para todo lado que a gente vira aparece uma propaganda de um certo Banco Original. Eu já fico com o cabelo em pé quando vejo uma empresa, que se gaba de 2,2 bilhões de patrimônio e 7,4 bilhões de ativos, dizer que é “100% digital”, ou seja, os clientes farão o trabalho que poderia gerar alguns empregos por aqui. Mas tem algo ainda mais intrigante, que talvez vocês já saibam. São Google me acudiu e descobri uma curiosidade: ele nasceu da cabeça de Henrique Meirelles, nosso Ministro da Fazenda, com grana pesada do grupo JBS. Meirelles, aliás, trabalhava lá até assumir a pasta de Temer. Mundo pequeno, viu? Olhos abertos.

 

[8/2] O Senado que aprovou hoje a “reforma” do Ensino Médio é o mesmo para o qual estamos pedindo cordialmente que rejeite Alexandre de Moraes? A Câmara que aprovou ontem um salvo-conduto para os partidos não prestarem contas é a mesma para a qual temos pedido que proteja os interesses do país? O presidente que criou um ministério para proteger seu amigo e indicou outro amigo para protegê-lo no STF é o mesmo de que temos cobrado respeito à Constituição? Sinceramente, depois de todos os tapas na cara que levamos de uns anos pra cá, acho que só teremos alguma esperança verdadeira quando conseguirmos arrancar de nossos horizontes qualquer esperança de que essa mesma corja tenha pudor em fazer mais do que já tem feito bastante. Quem sabe, então, no lixão nasçam flores.

 

[9/2] Toda minha solidariedade e admiração à juíza Kenarik Boujikian, que foi punida por parte dos seus pares no TJ-SP porque determinou a soltura de presos cujas penas já estavam excedidas. Todos aqui temos na memória casos escabrosos de juízes que cometeram crimes e foram aposentados sem perder um centavo. Em todo boteco da Praça da Sé circulam histórias que provam a flexibilidade dos critérios do Tribunal para definir o que é admissível ou não na conduta dos juízes. Parece, enfim, que a regra geral é punir apenas quem abusou demais… No entanto, no caso da Kenarik o que vemos é de um rigor extraordinário (descumpriu o princípio da colegialidade!?), aquele rigor que o direito costuma invocar quando quer perseguir alguém. Não por acaso, é uma juíza numa instituição dominada por juízes. Não por acaso, é uma militante pela democratização do Judiciário e do país num ambiente reacionário. Não por acaso, é uma mente progressista numa estrutura arcaica. Mas a luta não acaba aí. Força, Kenarik!

Do fb pra cá

[31/1] Quando você toma a decisão, de um dia para o outro, de mudar algo que você costuma fazer (comer, beber, gastar, ser etc.), por acaso considera que tudo o que você faz (come, bebe, gasta, é etc.) não se construiu em você de um dia para o outro? Pedras talhadas a ondas e mais ondas dependem de pancadas e mais pancadas para talhar em si outras formas

 

[1/2] (O noticiário deprime, sim,

mas apesar de, apesar de,

apesar de, apesar de tudo,

tem uns bons camaradas

fazendo coisas bem bonitas

das suas vidas! E aí talvez

esteja a senda a seguir.)

 

[1/2] Vocês têm acompanhado a coluna “O cuidado da poesia”, que o Alberto Pucheu coordena no site da revista Cult? Está cada dia mais incrível o conjunto de reflexões reunidas lá. Tem o próprio Pucheu, tem o gigante Leonardo Fróes, tem Bruno Machado sobre Annita Costa Malufe; tem Vicente Franz Cecim, Guilherme Heurich, Roberto Corrêa dos Santos; tem Susana Scramim escrevendo sobre Angélica Freitas, Paula Glenadel, Lu Menezes, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto e Ana Martins Marques; tem Flavia Trocoli sobre Simone Brantes, Piero Eyben sobre Age de Carvalho, Betty Mindlin sobre Josely Vianna Baptista, Simone Brantes sobre Caio Meira, Claudio Oliveira sobre Renato Rezende, Leonardo Gandolfi sobre Horácio Costa, Heleine Fernandes de Souza sobre Marília Garcia, Maurício Gutierrez sobre Leonardo Gandolfi; tem Victor Heringer, Edimilson De Almeida Pereira, Tatiana Pequeno, Marcelo Diniz, Danilo Paiva Ramos, Ricardo Aleixo. Passem por lá!

http://revistacult.uol.com.br/home/category/alberto-pucheu/

 

[1/2] Parte dos servidores do Estado no RJ está há meses sem receber seus salários regularmente. Quando se revoltam, a “grande” imprensa trata de pintar os trabalhadores como inimigos. Lembramos uma dura lição: temos que ser mesmo inimigos de tudo que conspire, em qualquer dos poderes públicos e privados, para a naturalização desse estado de coisas, que, infelizmente, é apenas a antessala caótica de uma derrubada ainda mais ampla de direitos, serviços, universidades etc.

Todo apoio à luta dos servidores.

 

[2/2] Essa imprensa porca e seu público espúrio têm tanta pressa de noticiar a morte de Marisa Letícia que trocam os pés imundos pelas mãos sujas e, de modo contundente, noticiam, isso sim, que “nossa” imprensa e a sociedade que a engole a seco sofreram uma irreversível morte cerebral.

Já sabíamos que eles não ligam para a verdade, para qualquer verdade, porque se transformaram num ramo menor da publicidade barata e da propaganda política mais rasteira, mas sua irresponsabilidade, gigante, ainda cresce. Tanto ódio cego assusta.

Quem se presta a isso, lamento, não tem cura.

 

[2/2] Um nó na cabeça e no coração. Sempre fui o cara que gastava tempo tentando convencer os amigos de que o melhor lugar para nós era aqui mesmo, não “apesar dos problemas do país”, mas “por causa” deles, para ajudar a resolvê-los, para fazer frente a todos que insistem em reproduzir e aprofundar nossos problemas. Mas, de uns tempos pra cá, é cada coisa que acontece neste país que, se não chego a defender que meus amigos sigam para outros países, ao menos não tenho ânimo para demovê-los da vontade de ir embora – ainda que nem sempre seja pelas mesmas razões que se movem. As notícias que chegam dos professores que vão sendo demolidos junto com as universidades a que tanto se dedicam, o ruído da máquina de destruir sonhos que se tornou a vida pública no país, todo esse grunhido que o ódio espalha até na porta de hospitais, o caldo disso engasga até o mais otimista dos pessimistas. De outro lado, no entanto, a gente levanta a cabeça do noticiário brasileiro e olha para o que o mundo vai se transformando e vai ficando cada vez mais apertado o coração cheio de amigos que estão espalhados por aí, em alguma medida expostos a outras tantas formas de ódio que nosso tempo tem sido pródigo em alimentar. Onde é a saída?

 

[2/2] “Aécio definiu conluio em licitação em Minas”… estava refletindo sobre o estilo da manchete que a Folha deu hoje sobre mais uma delação que envolve Aécio Neves. Alguém usa a expressão “definir conluio” para falar que um governador exigiu propina dos empreiteiros? Sei lá, fico achando que doeu no peito do redator ter que falar abertamente “Aécio exigiu propina de empreiteiras” e ele foi buscar esse “definiu conluio em licitação”… alguém que passe distraído pela manchete pode até sair dizendo que “esse Aécio é bom mesmo, definiu conluio em licitação. Não é qualquer um que define conluio, ainda mais em licitação. Cabra bom!”. Na próxima, é bem provável que digam “Servidoria logra encontrar numerário não-declarado em conta de adversário de Dilma em banco sediado na Schweizerische Eidgenossenschaft”. Bobagem da minha parte?

 

[2/2] Vim de escolas públicas desde os 6 anos de idade. Do “pré” ao doutorado. Meus amigos mais próximos também. E sempre me chamou atenção que, nesse longo percurso, nunca tenha feito amizade com alguém que virou ou é médico. Ninguém. Não tenho um telefone de médico gravado no meu celular. Até onde sei, meus familiares também não têm. Hoje em dia, tenho alguns amigos fazendo curso de medicina (em boa parte viabilizados por políticas desenvolvidas pelos governos Lula e Dilma). Enfim, digo tudo isso para destacar: o lugar social que a maioria dos médicos ocupa é vergonhosamente elitista e, por isso, tão gritantemente insensível ao que chamamos de vida neste triste país.

 

[5/2] É difícil explicar, mas em algumas manifestações públicas – de luta, revolta, protesto ou, como a de ontem em SBC, de respeito e solidariedade – a gente sente que as pessoas estão no seu lugar mais natural, totalmente à vontade ali no meio da rua reencontrando velhos amigos, puxando papo com desconhecidos e vendo de perto algumas pessoas famosas. Tinha tristeza lá, claro, mas tinha muito mais vontade de homenagear, agradecer e comprometer-se com o futuro das mesmas lutas. As ruas, as calçadas, os botecos, a padaria, tudo se enchendo com a naturalidade de pessoas que parecem nunca ter saído dali. No meio daquele fluxo, tudo que você quer é que aquelas pessoas não voltem para casa. Que chamem outras pessoas. Que transformem outras ruas e bairros também em lugares de encontro, partilha, sorriso, luta e defesa de uma vida melhor para todos. Que assim seja.

 

[6/2] Eyjafjallajökull

 

só os mais atentos

ao som do fogo antes da chama

sabem que amanhã pode ser

o dia em que aviões terão medo

de passar perto de seu grito

e voar sobre sua cabeça

quente, quente

 

[6/2] Tem luta que é para a vida toda. Tem outras que, de cara, sabemos que são perda de tempo. Para quem quer tanto a morte de Lula, não adianta pedir que não comemore a morte de Marisa. Para quem quer tanto a morte de Lula, não adianta explicar o sentido e a conveniência do discurso que ele fez no velório. A resposta a uns e outros coloca-se de forma bem concreta: a morte que querem ainda não veio e, enquanto não vier, muitos outros discursos roucos incomodarão seus ouvidos, tanto quanto aquecerão os corações de quem segue na luta.

 

[6/2] Se se confirmar, a nomeação de Alexandre de Moraes para o STF pode nos causar qualquer sensação, menos a de surpresa. Ou alguém ainda acha que Temer e seu bando têm pudores que os impeçam de levar a cabo todo o projeto de desmonte constitucional e impunidade de que o golpe era apenas o primeiro ato? Ademais, Alexandre de Moraes será a nomeação mais descaradamente partidária que assistimos no STF das últimas décadas, ainda que outras tenham chamado muito mais atenção das torcidas partidárias, ainda que outras tenham se revelado mais partidárias do que pareciam. E tem algo ainda pior: a marca que Alexandre de Moraes pode deixar no STF vai bem além de salvar um ou outro dos seus parceiros. Certamente, teremos nele a certeza de posicionamentos abertamente contrários à proteção dos direitos fundamentais e, de quebra, expostos sempre com a truculência que marca sua atuação e discurso, ainda mais porque, cabeça por cabeça, não temos atualmente um STF em que suas posições reacionárias precisem ficar na manga… Ele encontrará bons parceiros (5, 6, talvez 7) para desfazer a Constituição. Perto disso, uma manobrinha aqui, outra ali para salvar Temer, Serra, Aécio e outros será um ruído besta no meio do bombardeio.

 

[6/2] Alexandre de Moraes no STF: pior que isso

(a) SÓ se o Temer indicasse a si próprio para o STF

(b) NEM se o Temer indicasse a si próprio para o STF

 

[6/2] Como o Temer se preocupa muito com nossa opinião e perde o sono quando é xingado nas redes sociais, acaba de indicar seu ministro para a vaga deixada por Teori no STF. Da mesma forma, o Senado, que morre de medo de hashtags negativas, deve aplaudi-lo durante o que deveria ser uma sabatina. E nós vamos à festa?

Marisa

marisa

O piso, a parede, o 273,
a mistura de traços na pele:
tudo muito São Bernardo,
puro frango com polenta.

O quarto na frente da casa
e o cento e quarenta e sete
descansando sob as telhas:
viatura, troféu, ferramenta.

Nem dor, nem ódio ou medo.
Prole aos pés, amor e luta
(e a justa faixa presidencial)
se insinuavam no tergal.

Dia de descer a Anchieta,
cortar a névoa do Riacho,
forrar o bucho com mocotó,
lavar a alma com cambuci.

O que não tem juízo

O QUE SERÁ

Letras de Chico Buarque

Trilha do filme “Dona Flor e seus dois maridos”, de 1976

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1- Abertura, por Simone

 

 

O que será que lhe dá

O que será meu nego, será que lhe dá

Que não lhe dá sossego, será que lhe dá

Será que o meu chamego quer me judiar

Será que isso são horas de ele vadiar

Será que passa fora o resto do dia

Será que foi-se embora em má companhia

Será que essa criança quer me agoniar

Será que não se cansa de desafiar

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não tem cansaço, nem nunca terá

O que não tem limite

 

O que será que será

Que dá dentro da gente e que não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os ungüentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda a Bahia

Que nem todos os santos, será que será

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem juízo

 

2- À flor da terra, por Chico e Milton

 

 

O que será que será

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que estão falando alto pelos botecos

Que gritam nos mercados, que com certeza

Está na natureza, será que será

O que não tem certeza, nem nunca terá

O que não tem conserto, nem nunca terá

O que não tem tamanho

 

O que será que será

Que vive nas idéias desses amantes

Que cantam os poetas mais delirantes

Que juram os profetas embriagados

Que está na romaria dos mutilados

Que está na fantasia dos infelizes

Que está no dia-a-dia das meretrizes

No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será

O que não tem decência, nem nunca terá

O que não tem censura, nem nunca terá

O que não faz sentido

 

O que será que será

Que todos os avisos não vão evitar

Porque todos os risos vão desafiar

Porque todos os sinos irão repicar

Porque todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá

Olhando aquele inferno, vai abençoar

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem juízo

 

3 – À flor da pele, por Chico e Milton

 

 

O que será que me dá

Que me bole por dentro, será que me dá

Que brota à flor da pele, será que me dá

E que me sobe às faces e me faz corar

E que me salta aos olhos a me atraiçoar

E que me aperta o peito e me faz confessar

O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar

E que me faz mendigo, me faz suplicar

O que não tem medida, nem nunca terá

O que não tem remédio, nem nunca terá

O que não tem receita

 

O que será que será

Que dá dentro da gente e que não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os ungüentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda alquimia

Que nem todos os santos, será que será

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não tem cansaço, nem nunca terá

O que não tem limite

 

O que será que me dá

Que me queima por dentro, será que me dá

Que me perturba o sono, será que me dá

Que todos os tremores que vêm agitar

Que todos os ardores me vêm atiçar

Que todos os suores me vêm encharcar

Que todos os meus nervos estão a rogar

Que todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz implorar

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem juízo.