Sobre poesia, ainda: o livro!

Sobre poesia capa

Duzentas páginas de reflexão sobre poesia, na voz de 50 poetas contemporâneos brasileiros: é o que você vai encontrar, em breve, por trás dessa capa lindamente interrogativa que a Lumme inventou para “Sobre poesia, ainda”. Os poetas são Adelaide Ivánova, Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Ana Estaregui, Ana Rüsche, André Luiz Pinto, Andréa Catrópa, Annita Costa Malufe, Antonio Moura, Bruna Beber, Bruna Mitrano, Carla Diacov, Carlos Augusto Lima, Carlos Ávila, Carlos Felipe Moisés, Casé Lontra Marques, Dalila Teles Veras, Danielle Magalhães, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Edimilson De Almeida Pereira, Eduardo Sterzi, Fernando Fiorese, Guilherme Gontijo Flores, Heitor Ferraz Mello, Helio Neri, Júlia De Carvalho Hansen, Júlia Studart, Leila Guenther, Leonardo Gandolfi, Lilian Aquino, Lubi Prates, Lucas Bronzatto, Manoel Ricardo de Lima, Marcos Siscar, Micheliny Verunschk, Nina Rizzi, Pádua Fernandes, Paulo Ferraz, Prisca Agustoni, Reynaldo Damazio, Ricardo Aleixo, Ronald Polito, Ruy Proença, Sérgio Alcides, Sergio Cohn, Simone Brantes, Thiago E, Thiago Ponce de Moraes e Yasmin Nigri. Além das respostas à enquete, o livro tem um posfácio a duas vozes, de Diana Junkes e Fabio Weintraub, e a orelha foi escrita pelo Renan Nuernberger, que você pode ler abaixo:

capa 1

Sobre poesia, ainda é um título deliberadamente amplo, cujas palavras permanecem pulsando a cada página. A vírgula – e Tarso de Melo, poeta meticuloso, sabe bem disso – demarca um pequeno intervalo entre o substantivo e o advérbio, admitindo ao menos duas possibilidades quanto à noção de tempo aqui presente: se, por um lado, se poderia considerar anacrônica a intenção de ainda se dizer algo sobre poesia neste momento, por outro, a mesma palavra parece assinalar a urgência de uma publicação como esta, que ressalta o quanto ainda há para ser dito (ou repetido em novas formas, novos contextos).

Essa oscilação consciente do título, de certo modo, atravessou até mesmo o processo de produção do livro, entre a enquete despretensiosa e o mapeamento do contemporâneo. A princípio, em 2015, Tarso provocou alguns de seus pares com cinco perguntas enviadas por e-mail, divulgando as respostas recebidas no blog Contra tanto silêncio. O murmúrio dessas primeiras vozes foi ganhando eco e, desde então, Tarso decidiu organizá-las neste volume, incluindo agora outras vinte e duas para compor uma pequena amostra do que pensam aquelas e aqueles que escrevem poesia hoje no Brasil.

Como destacam Diana Junkes e Fabio Weintraub no posfácio, ainda que haja evidentes confluências em alguns momentos, o leitor poderá notar também pontos de divergência nesse mosaico. Isso se dá não apenas pela variedade de formações desses poetas, mas pela própria dificuldade de definição do que é a poesia – signo que, afinal, nos reúne – e de como ela se manifesta. Dando a palavra a essas diferentes vozes, desarmadas de seus objetos criativos (os poemas), Tarso de Melo propõe um gesto democrático, o que inclui também a discordância como elemento constitutivo de um ambiente verdadeiramente plural.

Entre o anacronismo (o excedente do que não se realizou) e a urgência (o impulso do que quer se realizar), esses poetas reunidos em Sobre poesia, ainda elaboram muitas outras respostas possíveis às indagações do presente, sintetizadas nas perguntas de Tarso. Mas, no fundo, diante de tanto horror, a própria reunião dessas vozes (des)encontradas é um sinal positivo que parece dizer: somos diversos e ainda estamos vivos.

capa 2

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Poemas vermelhos

poemas vermelhos

MEUS AMIGOS

 

os dias andam pesando muito

 

evito as ruas que me levam a pensar

num tempo que não quero que chegue

 

um amigo me conta meio em segredo

que não tem dormido nada bem

e se apavora ao distinguir nas ruas

as pessoas que amanhã estarão armadas

meu amigo não quer mais as ruas

 

uma amiga diz que tem evitado

roupas vermelhas livros de marx

andar sozinha conversar alto

minha amiga não quer mais ter medo

 

há calçadas perigosas, eles me dizem

palavras perigosas gestos perigosos

há perigo em cada bar em cada oi

mãos cruéis nos arrancam do silêncio

e depois nos lançam fora

 

tenho muitos amigos e eles choram

tento convencê-los de que vai ficar

tudo bem tomara que não que nunca

contem comigo conto com vocês

 

acho que aquele tempo chegou

acho que sou um pouco cada um

dos meus amigos e cada um

de seus medos também é meu

como este olhar que cai na calçada

mais escorregadia em que já pisei

 

 

PESQUISA

 

(1)

 

em cenário sem Lula

com Lula morto ou preso

apagando-se os governos Lula

removendo Lula da história

calando Lula, banindo-o

zerando o nome de Lula

extirpando Lula de Lula

esquartejando o corpo de Lula

e espalhando pelo país

sua cabeça seus braços

seu tórax suas pernas

em sacos plásticos

sem o nome de Lula

 

Lula não é o primeiro

 

(2)

 

em quem você votará

se não deixarmos você votar

em quem você quer?

 

 

BIOGRAFIA

para Marielle Franco [1979-2018]

 

depois de ser recolhido

e viajar com os mão-branca

o corpo é exposto

numa sala do Instituto

sobre uma placa de alumínio

sob um lençol velho

 

a família é chamada

 

reconhecido, o corpo agora

chama-se crânio, tórax e abdome

e os buracos chamam-se cavidades

 

roupas, documentos e projéteis

são enviados à Criminalística

enquanto o corpo é lavado e pesado

 

um médico procura no corpo

furos, lesões e também

sinais, tatuagens, cicatrizes

 

um médico lê o corpo morto

primeiro por fora, depois por dentro

 

seu nome agora é cadáver

e suas vísceras vão ser expostas

num rasgo que vai do pescoço ao púbis

em forma de Y, T ou um simples I

 

o legista procura uma história no corpo

um coração esfaqueado, por exemplo,

pode facilitar todo o enredo

 

de uma orelha a outra

um corte dá acesso ao crânio

e uma serra leva ao cérebro

e a uma infinidade de nervos

 

encerradas as buscas

quatro ou cinco horas depois

o corpo pode ser costurado

e decorado para o funeral

 

sua história vai virar um laudo

sua família vai ter uma certidão

 

não há notícia de laudos

e certidões que registrem sonhos

 

 

ESTA CELA

 

o país é uma cela

com infinitas celas dentro

e dentro de cada um de nós

há milhares de celas

 

quando a noite é mais triste

nos abraçamos e gritamos

juntos o que queremos

da vida que vem pela frente

 

por um instante no abraço

ouvimos se afastarem os passos

daqueles que vêm toda madrugada

colocar mais uma grade

entre nós e nossos sonhos

 

seus pés são frios e fogem

não temos mais porque temer

 

mal acabamos de saber

da nossa própria prisão

e estamos maiores

e mais livres do que nunca

 

 

SINA

 

eles vêm

e eu respiro

 

eles engrossam

e eu saio fino

 

eles ofendem

e eu me nordestino

 

eles latem

e eu me feminino

 

eles marcham

e eu bailarino

 

eles batem

e eu desatino

 

eles são velhos

e eu me menino

 

eles se armam

e eu me negro

 

eles mentem

e eu me índio

 

eles perseguem

e eu me gringo

 

eles encrencam

e eu atino

 

eles cegam

e eu vejo tudo

 

como um vivo

sol a pino

 

 

NÃO

 

Não debata

com quem

não ouve.

 

Não ouça

quem não

conversa.

 

Converse

com quem

não vota.

 

Não vote

em quem

não debate.

 

 

CONTRA ELES

[ode-ódio antifascista]

 

sim, eles existem

eles são eles

e são sempre os mesmos

 

eles riram ou dormiram indiferentes

quando souberam da execução da vereadora negra

porque era negra pobre homossexual e de esquerda

os mesmos que nunca entenderam porque nós

não aceitamos a caça aos favelados

não aceitamos a caça aos estudantes

não aceitamos a caça aos militantes

 

são eles que vão votar no candidato

que homenageia torturadores

discrimina mulheres ataca homossexuais

os mesmos que fazem piadas com direitos humanos

e dizem que agora tudo é “politicamente correto”

 

eles foram às ruas contra a mulher que era presidenta

e a chamaram de puta burra ladra bruxa vagabunda

os mesmos que não vão às ruas por nada nunca

porque temem as ruas e temem que nós estejamos nas ruas

 

eles batem panelas e soltam rojões para comemorar

a prisão do ex-presidente nordestino e metalúrgico

eles soltam rojões para comemorar golpes de estado

os mesmos que riram da festa no puteiro

e do cafetão que promete cerveja em troca da morte

 

eles adoram mandar para nossas caixas postais

suas opiniões violentas sobre todos os temas

mas querem moderação quando nós respondemos

 

eles nunca ligaram para a vida da maioria

dos venezuelanos dos norte-coreanos dos chineses

mas enchem a boca para falar desses países

quando é necessário atacar os adversários daqui

 

eles dizem que são contra a corrupção

mas não ligam quando são os seus que (se) corrompem

e jamais deixarão de votar em corruptos

quando for o melhor para eles mesmos

 

e são os mesmos que jamais irão às ruas xingar

quem não é negro pobre homossexual de esquerda

nordestino analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda

porque eles não xingam qualquer um

 

aliás, porque eles só xingam “qualquer um”

e qualquer um é apenas quem é negro

pobre homossexual de esquerda nordestino

analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda

 

na boca deles as palavras com que elogiamos

ou nos solidarizamos viram xingamentos

na mesma boca deles nós nunca é nós

e o eles que dizem nunca vai ao espelho

 

eles dizem que essa história

de nós contra eles

não leva a lugar algum

mas é mentira

eles não querem ir a lugar algum

com esses que chamamos de nós

 

nós sabemos quem

Francisco Alvim 80 anos

Chico 2

O poeta Francisco Alvim, que acaba de completar 80 anos, vem a São Paulo no próximo sábado (20/10) para participar do ciclo Vozes Versos: leituras de poesia. O encontro ocorre a partir das 11h, na Tapera Taperá, que fica na Galeria Metrópole (Av. São Luís, 187, 2º andar, loja 29, tel. 3151.3797).

Chico Alvim nasceu em Araxá (MG), em 1938. Trabalhou como diplomata durante quatro décadas. Estreou na poesia com o livro “Sol dos cegos”, em 1968, e lançou, desde então, os seguintes livros: “Passatempo” (Col. Frenesi, 1974), “Dia sim dia não” (com Eudoro Augusto, 1978), “Festa” (1981), “Lago, montanha” (1981), “Passatempo e outros poemas” (Col. Cantadas Literárias, 1981), “Poesias reunidas (1968-1988)” (Col. Claro Enigma, 1988), “Elefante” (2000), “Poemas (1968-2000)” (Col. Ás de Colete, 2000) e “O metro nenhum” (2011).

No encontro de sábado, será lançada uma plaquete artesanal, feita em linotipo pela Editora Quelônio, com uma antologia de poemas de todos os livros de Chico Alvim, selecionados por Heitor Ferraz Mello. A edição é limitada e, no encontro, será vendida a R$ 20,00.

O que é Vozes Versos?

Poetas contemporâneos lendo seus próprios poemas. Ou suas traduções de poesia. Inéditos ou de livros recém-lançados. Poetas daqui ou passando por aqui. Encontros simples, sem formalidade, em que poetas mostram, com suas vozes singulares, a poesia que estão escrevendo aqui e agora. Não é debate, não é sarau, não é palestra, não é outra coisa. É apenas um encontro: algumas vozes, alguns versos, e os ouvidos atentos de quem se interessa pelo que os poetas têm a dizer. É só chegar. E ouvir. O ciclo já reuniu, até aqui, mais de 40 poetas, todos eles também editados em plaquetes artesanais da Editora Quelônio, formando um amplo panorama da produção contemporânea.

As plaquetes podem ser adquiridas também pelo site www.quelonio.com.br.

A curadoria do ciclo é dos poetas Heitor Ferraz Mello e Tarso de Melo.

Entrada gratuita.

Chico convite 1

CHICO ALVIM, 80 ANOS, por Heitor Ferraz Mello

 

Ocasião muito especial, receber aqui o Chico Alvim. O Chico inventou um procedimento poético que é só dele. Ele inventou uma maneira de lidar com uma tradição da poesia lírica brasileira, de recorte social, mas como que na contramão. Como ele mesmo já disse, o que era descoberta e alegria na poesia modernista, a fala brasileira, na poesia do Chico é um esgar. Um veneno. Um procedimento que envolve a fala, a prosódia brasileira, mas também elementos técnicos do verso, o tipo de corte, quase um gesto de fala, destacando a entonação de uma conversa, além da precisão na escolha dos entrechos – lembram aqueles momentos mais agudos machadianos, quando numa frase aparentemente engraçada ou aparentemente comum, toda uma relação de classe salta como um nervo exposto. E parece que dentro dessa técnica o Chico pode falar de qualquer assunto – o que foi ouvido, sentido, experimentado numa situação qualquer, de conforto ou desconforto etc.

Mas vale lembrar que sua poesia não é composta apenas por essas falas – essa epopeia fragmentada da vida brasileira flagrada por dentro da língua – mas também por aqueles poemas mais líricos, mais sentimentais e até mesmo mais clássicos (figuras da mitologia grega passeiam por seus livros, mas não como um mofo do passado, uma erudição livresca, mas que surgem rente a esse mesmo coro de vozes, como uma outra voz – arquetípica – que também está em nós; elas revivem nesses seus poemas, como que se atualizam nesse nosso mundo de pobres mortais). Há poemas que saltam como puro encantamento, como “Elefante”, com toda a sua potência e totalidade. Aqueles estados de alumbramento, tão raros, que redimensionam nossa vida diante de uma realidade marcada por uma cordialidade perversa. Esses momentos podem romper diante da visão deslumbrante de um elefante, ou de uma obra de arte, um quadro visto num museu, num livro ou num site.

Enfim, queria destacar esse elemento altamente inventivo da poesia de Chico, um poeta que desde o malfadado ano de 1968, quando lançou “Sol dos Cegos”, e até agora, vem palmilhando essa estrada pedregosa em que vivemos, nos lançando de volta a nós mesmos, nos ensinando a ouvir a beleza e o veneno da língua brasileira.

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Dois tostões

drummond

(1)

 

«Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.»

 

Carlos Drummond de Andrade

 

(2)

 

Na política, vista na perspectiva do eleitor do Boçalnaro, tudo o mais é esquerda. Há uma explicação objetiva aí: de fato, tudo está à esquerda da extrema-direita. Mas há um componente subjetivo que é dos mais difíceis de enfrentar: o medo. Um medo incompreensível de que venha da esquerda o fim do mundo (de que mundo!?). Contra Haddad ou Ciro no segundo turno, não vejo grande diferença com relação à mistificação do “radical de esquerda”, do “comunista”, do “petista” (Ciro, aliás, foi governo com o PT e, num eventual segundo turno, será ainda mais “petista” ao ter o apoio do partido). Não leio quase nada do que circula entre os eleitores de Boçalnaro; o pouco que leio, no entanto, me faz perder qualquer esperança de convencimento, de apaziguamento, de composição. São tantas as irracionalidades dessa defesa da “tradição, família & porrada”, que, na comparação, Meirelles soa quase como uma esquerda libertária. Nesse meio em que se difunde a “ameaça” de que “o PT vai tomar as crianças dos pais”, chego a acreditar que, se Amoêdo fosse ao segundo turno, teria que lidar com acusações de bolivarianismo. Enfim, esse me parece ser o maior problema com que teremos que lidar não apenas num segundo turno (com Haddad ou Ciro), mas daqui para a frente. Ganhe quem ganhar, entraremos em 2019 com uma sociedade ainda mais dividida, embrutecida, intolerante. Tudo aquilo que parecia ser piada de mau gosto – do ator pornô virar liderança política conservadora até um STF cada vez menos disposto a dizer o óbvio sobre a Constituição – já está dado na realidade. Temos, já, uma sociedade que rejeita violentamente a informação, a reflexão, a ponderação. Uma sociedade de ouvidos tapados, xingamentos na ponta da língua e punhos em riste. A eleição é importante, meus caros, mas não vai varrer da realidade toda essa violência. As urnas podem potencializar isso (se Boçalnaro ganhar), mas infelizmente são incapazes de reverter esse quadro (se Haddad ou Ciro ganharem). Nosso trabalho é bem mais amplo do que mudar votos: é mudar corações e mentes para bem mais do que um domingo. Por isso, tente convencer seu amiguinho que é Haddad a virar Ciro e vice-versa, mas não é hora de rachar ainda mais o frágil teto da casinha em que vamos ter que nos proteger da chuva forte que vem por aí. E a chuva, vocês sabem, não pergunta de quem é a culpa. Apenas cai. Não nos afastemos muito.

O fórum, o lixão e nós

 

adv

«É meu direito como mulher, como negra, trabalhar!» Muito grave, muito triste o vídeo da advogada Valéria Alves dos Santos sendo algemada e presa durante uma audiência em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Entre as diversas vezes que ela repete que está trabalhando, que tem direitos e explica o que quer fazer na defesa de sua cliente, diante da juíza leiga, da PM e das pessoas que ali estavam, chamou minha atenção uma frase em especial: “não estou roubando”. Essa frase me levou diretamente às cenas iniciais do documentário “Boca de Lixo” (1992), filmado por Eduardo Coutinho no lixão de Itaoca, em São Gonçalo. Nunca me sai da memória a sequência em que Coutinho vai se aproximando com a câmera e as pessoas que estão recolhendo coisas no lixão fazem de tudo para não serem filmadas: correm, cobrem o rosto, xingam o documentarista. Aos poucos, aparecem alguns que enfrentam a câmera de peito aberto: “que é que você ganha pra botar esse negócio na nossa cara?”. Um menino diz: “todo mundo aqui tá trabalhando, não tem ninguém roubando aqui”. E é aplaudido. Uma senhora, permitindo a filmagem, crava: “teria vergonha se eu tivesse roubando, eu não tô”. Os rostos se sucedem, as vozes se misturam, mas vai ficando mais claro o recado daqueles trabalhadores do lixão: não temos nada para esconder, estamos trabalhando, não estamos roubando. Daí em diante, Coutinho consegue se aproximar daquelas pessoas e conversar sobre a vida dentro e fora do lixão. Quem não assistiu, por favor, assista. Porque não foi por acaso que a frase da advogada Valéria (“estou trabalhando, não estou roubando”) e as dos trabalhadores do lixão se misturaram na minha cabeça. Nas duas situações, aparentemente tão distantes quanto o fórum e o lixão como ambientes de trabalho, dizer que está trabalhando, dizer que não está roubando é uma forma de gritar por uma dignidade que está sendo pisoteada. No lixão, pela forma como a desigualdade social relega uma parcela imensa da população a viver do e no lixo. No fórum, pela forma como o Estado constrange e agride quem reivindica direitos, principalmente quando a advocacia se apresenta no corpo de uma mulher negra. Lá e cá, são fundamentalmente mulheres negras lutando por dignidade, insistindo no trabalho e no respeito à legalidade (“não estou roubando”) como antídoto contra os males dessa sociedade brutal. No entanto, o que aconteceu com a advogada Valéria arrebenta não apenas a sua própria dignidade, a sua dignidade de mulher negra que, contra todas as dificuldades de ser mulher e negra, tornou-se advogada e pode lutar pelos seus direitos e pelos direitos de seus clientes. Quando quem luta por direitos está no chão, tão perto assim de um coturno, somos obrigados a ver que, se não lutarmos cada vez mais e melhor, o que resta da nossa dignidade também vai parar no lixo.

Um país em chamas

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(1) 20 milhões de peças. 200 anos de trabalho. Muitos e muitos anos de história. Tudo virando cinza. Uma tristeza sem fim.

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(2) ANTIMUSEU. Não é acaso, imprevisto, acidente. O desastre aqui é projeto. É muito mais que previsto. É desejado. A destruição está nos planos de governo. Múltiplas formas de destruição. Todas as instituições nacionais estão prontas para fritar a qualquer momento. Museus, universidades, bibliotecas, hospitais, prédios históricos, assim como as pessoas todas e seus direitos. Seus direitos são um museu que deve queimar, porque, na mentalidade de quem decide nosso “futuro”, não se pode avançar sem destruir. As autoridades orgulham-se de destruir. Destroem bem, destroem rápido, destroem sempre. Chateiam-se quando não podem destruir. Articulam novas formas de destruição. Acende-se o fogo, apaga-se a história. A história aqui é um entrave. Queima o museu que poderia nos lembrar do que somos, como queima a favela que nos mostra o que somos ou o índio que insiste em estar entre nós. E a manchete diz: “ninguém se feriu”. Não, estamos fatalmente feridos.

 

(3) «Há um quadro de Klee intitulado “Angelus Novus”. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.»

Walter Benjamin, “Sobre o conceito de História” (tese IX, trad. João Barrento)

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Desde a hora em que soube do incêndio no Museu Nacional, veio à mente esta passagem incontornável de Benjamin. Diante das chamas e ruínas na televisão, somos hoje esse anjo com os olhos esbugalhados e a boca escancarada que gostaria de parar para acordar os mortos, mas não consegue. E vai sendo engolido pelo “futuro”, pelo “progresso”.

 

(4) «aqui tudo parece

que era ainda construção

e já é ruína»

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Todo dia acontece algo que deixa ainda mais fortes e dolorosos alguns versos da poesia brasileira, como estes de Caetano Veloso, em “Fora da ordem”, de 1991.

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(5) O valor destinado à manutenção do Museu Nacional é menos que a metade do que se gasta com limpeza e manutenção da frota de carros do Supremo Tribunal Federal. Menos que a metade. Ainda assim, o Museu Nacional não vinha recebendo aquele valor completamente. E a frota de carros de um tribunal que tem 11 ministros é apenas uma das despesas “curiosas” que são atendidas pelo mesmo cofre federal. Sim, o dinheiro é um só, mas a selva de rubricas em que a burocracia divide esse dinheiro acaba nos despistando e não percebemos as decisões políticas, os propósitos escusos e até mesmo as mesquinharias que fazem nunca faltar (muito) dinheiro aqui, sempre faltar (pouco) dinheiro ali. Hoje, quando tudo que resta é olhar para fotos do incêndio e do rescaldo, o que mais dói é contextualizar essa tragédia e perceber que um valor irrisório no orçamento da União poderia ter evitado mais essa derrota. Como já disse aqui, não é um acidente. É um projeto. O projeto de um país condenado a ser sempre o cenário lindo de histórias trágicas. O país em que a reclamação de alguma autoridade, caso mandem buscar seu cachorro no petshop com uma “viatura” empoeirada, vai ter muito mais peso do que todos os nossos gritos por justiça, democracia, saúde, educação, memória. É o encontro entre os males de hoje e os males do passado, aqueles que arrastamos carinhosamente de geração a geração. Neste tipo de conservação do passado, aliás, somos peritos: o pior da história do Brasil funciona perfeitamente, a céu aberto, para quem quiser visitar. Mas não é hora de ironia. Esse misto de ódio e vergonha ainda vai queimar em nossas cabeças por muito tempo.