Do fb

[18/5] É incrível a velocidade da catástrofe. São tantos atos e ameaças conjugados de desmanche, uma implosão do sistema público em tantos setores, uma pancada a cada 10 minutos, que corremos o risco de cair perplexos, atônitos e de mãos atadas diante de tudo isso. São ataques ao SUS, aos programas e direitos sociais, às universidades, ao combate à corrupção, a tudo que deveria, pelo contrário, ser preservado e ampliado de acordo com a Constituição (ainda) vigente. Teremos muito trabalho de resistência pela frente! Um exemplo de hoje, antes que pudéssemos falar bom dia:

Maurício Romão na SERES do MEC

 

[18/5] Já pararam pra pensar que se cada um aqui – eu, você e todos que estiverem ou vierem para o mesmo lado – não aceitar fazer parte do golpe e de todas as suas farsas, nas mais variadas dimensões, por mais que ele ainda continue insistindo, será menor, bem menor do que seus artífices imaginam e precisam que seja? Tal postura envolve até mesmo não pedir a esse “governo” a manutenção de nada, porque ele próprio é que não deve se manter lá. A cada um que diz NÃO, que se posiciona contra, que age contra, que se nega a colaborar, mais demarcadas ficam as linhas do golpe e, quero crer, mais vulneráveis os golpistas estarão. Dá até um certo ânimo pensar assim. E o que esse vídeo tem a ver? Talvez nada, mas é bem bonito e o que é bonito nos deixa mais fortes pra luta – não esqueçam.

 

[18/5] Imensa perda. Um gigante. Minha dívida pessoal pode ser resumida ao incrível “Poesia Russa Moderna”, que Boris traduziu com Augusto e Haroldo de Campos: foi o livro que me prendeu de vez a essa coisa chamada poesia. Volto sempre a ele, como voltarei hoje para celebrar Boris Schnaiderman. Gratidão.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/05/1772709-tradutor-do-russo-boris-schnaiderman-morre-em-sao-paulo-aos-99-anos.shtml

 

[18/5] Eis que aparece um “jurista” dando bronca porque a esquerda diz que colaborar com os golpistas é aderir ao golpe. Qual a dúvida? Aliás, quando vejo alguém chamar aquilo de “governo Temer”, sinto algo parecido com o asco de ouvir o golpe militar ser chamado de “revolução de 64”. Golpe é golpe e quem colabora é golpista. Mas nunca diz que é.

 

[18/5] UM ABRAÇO NO POSSIDONIO

Caros amigos,

Possidonio está chegando perto dos 85 anos. Aqui na Av. Portugal, 397, Santo André, o Antonio Possidonio Sampaio é simplesmente Sampaio ou APS. Ou Dr. Antonio, para alguns. Trabalho com ele há mais de 15 anos e, pela primeira vez nesses anos todos, APS está há quase uma semana sem vir ao escritório (que não seja por causa de férias, claro, coisa que advogado de vez em quando tem!). Está passando por um tratamento complicado, mas ainda assim manteve até dias atrás o hábito de vir ao escritório ler o jornal, conversar um pouco, ver as pessoas, as ruas, sentir o que se passa com elas – ruas e pessoas. Foi com ele e com seu irmão Teles que aprendi que a advocacia não precisa ser um emaranhado de formalidades e distância das pessoas reais, com seus problemas reais, angústias e urgências realíssimas. Pelo contrário, é aí – sem pompas e, se possível, sem gravatas no peito e na língua – que o advogado deve estar. Acho que foi por isso, para continuar dando esse exemplo, que ele continuou fazendo o esforço de vir ao escritório até a semana passada, mesmo cansado, com dores, fraquinho.

Quem o conhece sabe que se trata de uma figura rara, de empolgação rara com questões jurídicas, políticas e culturais. No escritório, no sindicato, no Alpharrabio, em todo canto por onde passa planta amizades e admiração, porque é capaz de contagiar qualquer turma com sua vontade de fazer, de chacoalhar, de manter chamas acesas.

Agora que a chama de Possidonio anda frágil, acho que é hora de suas turmas todas mandarem de volta um pouco da energia que ele espalhou por aí e, tenho certeza, ainda queima quando seus amigos ouvem seu nome. É por isso que escrevo: Possidonio é um homem que ama textos. Leu e escreveu diariamente a vida inteira e fez de tudo para que muitos outros lessem e escrevessem também, até mesmo manter uma biblioteca lá na sua pequena cidade natal no sertão da Bahia – Iaçu. E esse homem de textos ficará muito feliz se receber algumas palavras de vocês e de outros a quem vocês consigam fazer chegar este meu pedido. Peço urgência e prometo que vou fazer chegar até ele as palavras de cada um de vocês, as palavras que se animarem a colocar no papel para manter acesa a prosa com Antonio Possidonio Sampaio.

Agradeço muito desde já, abraços!

Mandem para tarsodemelo@hotmail.com

 

[20/5] Vocês já repararam que, historicamente, toda figurinha autoritária bate logo de frente com qualquer liberdade nos campos da educação, cultura e artes? Assim como toda figurinha sórdida que depende das trevas para tomar a grana de quem participa de seu rebanho quer logo limitar o conteúdo da educação, o sentido da cultura e o espaço das artes? É porque costumam ser atividades naturalmente libertárias, incômodas, imprevisíveis, e, quando de fato o são, tendem a desestabilizar as convicções de que poderosos dependem para se manter no poder – e, claro, eles dependem mais na medida em que são menos legítimos. Taí uma boa razão para não largar essas bandeiras nunca, muito menos neste momento.

 

[22/5] O texto abaixo, do Matheus Pichonelli, foi censurado pelo facebook. Tem forma mais eficaz de dizer que um texto é bom e necessário? Lá vai:

“Sonhei que saía uma nova versão da Bíblia e que nela o personagem principal era um messias reaça que ganhava seguidores no Twitter dizendo:

-Eu trabalhei pra conseguir esse pão e não preciso dividir com ninguém. Não to aqui pra sustentar vagabundo;

-Antes de multiplicar o peixe é preciso ensinar a pescar;

-Maria Madalena vai ser apedrejada? Mas também, andando sozinha a essa hora da noite, alguma coisa ela fez;

-Pai, seja feita a sua vontade. Vou cortar meu cabelo como homem;

-Vou transformar esse vinho em água. Não pense em festa, trabalhe. Gente festiva me irrita profundamente;

-Sou contra, aliás, a descriminalização do vinho;

-Amai-vos uns aos outros. Só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher;

-Eu apoio a terceirização dos apóstolos;

-Virar a outra face? Quero ver se fosse com alguém da sua família;

-Em verdade vos digo: um de vos irá me trair. MAS SEM VIADAGEM KKKK;

-Os fariseus e doutores da lei chegaram onde chegaram por ME-RI-TO-CRA-CIA;

-A César o que é de César; a Deus o que é de César;

-No meu governo vou dar um Ministério aos Vendilhões do Templo;

-Tá com dó de Barrabás? Leva pra casa!”

 

[23/5] Um documento histórico. Muito elucidativo. Para ler e refletir. Os homens de bem (ou de bens) planejando o combate (ao combate) à corrupção. Se metade do que está dito aí for verdade, fica ainda mais evidente por que Dilma tinha que cair: ela não deixava acontecer esse “grande acordo nacional” a que o ministro se refere. De fato, quem vê algo de bom nesse acordo tem motivos para comemorar.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml

 

[23/5] Agora, o que eu queria mesmo era ouvir o áudio do Jucá ou de seja lá quem for dando muita risada de quem passou os últimos meses discutindo tudo isso como questão técnica jurídica… “veja bem, está previsto no artigo tal”, “olha, a acusação tem 3 pilares”, “a pedalada é crime de responsabilidade”, “o rito foi definido pelo STF”… Ai ai ai…

 

[23/5] Era um fim de tarde tranquilo na minha cabeça. 16 de março de 2016. A bateria do celular estava perto do fim, então nem tirei do bolso. Eu ia de ônibus do Itaim Bibi para a República e até achei que aquele trânsito todo era normal. Quando chegou perto da Paulista, o trânsito estancou de vez e tive que descer do ônibus. Aproveitei e segui até a República andando. Andar e pensar um pouco. Seiva, veneno ou fruto: não sei se era o livro da Júlia e o clima tranquilo do lançamento que me distraiam, mas eu não juntava num fato só os manifestantes que havia visto na Paulista, os gritos e buzinas que vinham dos carros, de muitos táxis, de alguns pedestres de verde-amarelo, e os helicópteros parados sobre a região. Chegaram Renan e Carolina, depoisEduardo e Veronica, e eu percebia que a resposta ao “tudo bem?” era estranha, engasgada, “tudo, né?”. Na roda, apenas eu não sabia até então do vazamento criminoso de grampos telefônicos entre o ex-presidente e a presidenta quase ex. Não demorou até que o assunto escapasse das gargantas e virasse meu sossego do avesso. Como assim? Como assim? E de repente aquilo tudo – a Paulista parada, as pessoas xingando, a buzina dos carros, os helicópteros sobre a cabeça, a perplexidade na cara dos amigos – tudo dava um nó. E o nó era no pescoço de Dilma e Lula. Já se passaram dois meses desde então: posso dizer que se consumou o golpe que, naquele dia, ganhava um empurrão absurdo. Hoje, no entanto, um senador-ministro do governo golpista tem suas conversas com um empresário nas manchetes dos jornais. Fala de tudo, dá nomes aos bois: do Executivo atual, da cúpula do Legislativo e do Judiciário, do alto empresariado. Expõe toda a mecânica e os objetivos do golpe. A vida, no entanto, segue? Não sei como está São Paulo hoje. A Paulista talvez esteja parada pelo trânsito da segunda-feira, talvez falte teto para os helicópteros, talvez esteja frio demais para protestos. Talvez aqui nem toda notícia tenha o mesmo peso.

 

[23/5] Tudo bem, o áudio de Jucá apenas reforçou o óbvio: jogou Luminol na cena do golpe. Mas temos que perguntar de hoje em diante: o plano a que Jucá se refere – figurões de todos os poderes unidos para barrar as investigações contra si próprios e seus sócios – terá sucesso? Seus primeiros atos – o “impeachment” e o “governo” Temer – já se consumaram e quase já não se ouve o trivial estardalhaço da Lava-Jato. Cadê toda aquela disposição institucional – da PGR, de Curitiba, do STF etc. – para perseguir e desbaratar quadrilhas? É curioso, aliás, lembrar que o áudio de Jucá já estava com Janot (desde quando?) e só foi revelado numa segunda-feira qualquer. Tem caroço nesse angu?

 

[23/5] O Brasil tem memória? Não sei, mas eu tenho um pouco. Lembram daquela cartinha do Temer Ferido para Dilma, a Má? Pois bem, leiam esta frase: “Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo”. Ela tinha razões para desconfiar dele e do PMDB? E mais: tem como não amar?

 

[23/5] (Quando vaza por aí a raiva toda que esses picaretas têm da Dilma, raiva mesmo, bruta, brutal, e por razões normalmente inconfessáveis, fico com a impressão de que ela talvez seja bem mais necessária naquela cadeira do que eu mesmo costumo crer.)

 

[24/5] DONI. Não domino as margens do sonho. Na verdade, gosto delas assim. Eu folheava os livros de um lançamento em que certamente ele estaria, como estava em todos. Olhava as fotos dos amigos que lá estiveram depois que eu mesmo já era ausência e vi ali a ausência luminosa dele. Na tevê passava Anthony Bourdain vasculhando a comida e os modos de São Paulo, depois os bares em Dublin. E eu lembrava como ele gostava da comida e da bebida dos lugares, principalmente dos lugares, das pessoas, das bebidas. E lembrava que agora ele, mineiro de São Paulo, minerador, tinha uma filha andando pela Irlanda e que talvez ele, assim como ela, tivessem um humor parecido com o tal Bourdain e dissessem sobre São Paulo e Dublin as mesmas coisas. Ele, ela e o cozinheiro erguiam suas Guinness e não queriam falar de nossos dias. E eu lembrava do preço esdrúxulo de uma Guinness aqui perto, mas, ok, um copo dela certamente faria sua felicidade. Um papo ao redor do copo, alguns poemas, toda a risada do mundo. No sonho, se bem recordo, não há saudade.

 

[24/5] Um prato cheio. Imenso. Farto. O Brasil dos últimos meses – e de sempre? – é um baita objeto para jornalistas, escritores, historiadores, cientistas políticos, sociólogos, juristas, economistas, todos. Para todos que exercem tais funções com seriedade, claro. Para viver, no entanto, assusta um pouco.

 

[25/5] Mais um áudio que joga luminol na cena do golpe. Muita gente tem que se explicar, inclusive no STF, na PGR, no Jaburu, na imprensa e, claro, no Senado, um Senado em que estão Renan, Jucá, Aécio, entre outros envolvidos, e será presidido pelo Lewandowski para julgar Dilma, mas parece que a condenação dela em todas as casas e cortes já estava bem definida entre esses senhores nomeados aqui. Por quê? Acredito que era apenas por não estar disposta a (corrijo: ou não ser a pessoa certa para) fazer o grande acordo de sobrevivência impune a que esses políticos e empresários tanto almejam. Ainda.

PS: esta é a frase historicamente mais dolorida de toda a conversa, pelo que diz da nossa “redemocratização” de ontem, pelo que diz da nossa “democracia” de hoje: “como foi feito na Anistia, com os militares, um processo que diz assim: ‘Vamos passar o Brasil a limpo, daqui para frente é assim, pra trás…’ [bate palmas] Porque senão esse pessoal vão ficar eternamente com uma espada na cabeça, não importa o governo, tudo é igual.”

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774719-em-conversa-gravada-renan-defende-mudar-lei-da-delacao-premiada.shtml?mobile

 

[25/5] Linha sucessória da Presidência da República hoje: depois do interino Michel Temer, vem Waldir Maranhão, Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski. Confere? Tirem suas conclusões.

 

[25/5] STF homologou delação. E agora, Janot?

 

[25/5] Nas próximas segunda e terça (30 e 31/5), acontece o ciclo “Defensores e Defensoras: um panorama da resistência”, organizado pela profa. Ariani Sudatti, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC/SP. Alguém aí tem dúvida de que precisamos multiplicar as resistências em defesa dos direitos humanos imediatamente? Bom feriado e até lá!

http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/defensores-e-defensoras-um-panorama-da-resistencia?nocache=1591865860

 

[25/5] Nossa cultura naturaliza a violência sexual – e não há exagero algum em dizer isso. Tanto naturaliza que, não só não percebemos, como defendemos que não há nada demais em piadas como essas que fizemos sobre o político que ia ser comido e o ator que quer f… o país. Mas quando chega a notícia de que, no Rio de Janeiro, um “marido traído” juntou 30 amigos para violentar sua esposa dopada, filmou e divulgou as imagens? Não foi um “louco” ou dois, foram 31 amigos justiceiros vingando – com prazer, com alegria, sem receio – a traição de um parça. Coloque aspas em todas as palavras aí, menos no número: 31 homens se sentem no direito de violentar uma mulher seja lá por qual motivo e esse número dá uma boa mostra de como andam as coisas em nosso país no quesito violência contra a mulher. Estão ao nosso redor os homens que se disporiam a participar de algo assim? Temos o dever de perguntar. Nos últimos dias, coincidentemente, tenho lido “Missoula”, o livro de Krakauer sobre estupros numa cidade universitária dos EUA e a espécie de “sistema social” de proteção dos criminosos e de culpabilização das vítimas. Lá e cá a coisa vai muito mal. Temos que conversar sobre isso.

 

[26/5] Se tem um lado ~bom~ em toda essa porcaria é que os bandidos de todos os níveis – de estupradores a golpistas – não estão muito preocupados em esconder seus crimes: eles mesmos se grampeiam e vazam, fazem selfies no local, legendam as fotos, contam detalhes etc. O dia em que conseguirmos tirar proveito disso contra eles, estamos em vantagem.

PS: a propósito, como será que essas notícias de golpes escancarados e estupros coletivos são lidas pelos estrangeiros que pensam em vir para as Olimpíadas?

 

[27/5] Pra quem queria ver, tudo isso já era bastante evidente. Idiotas como os líderes desses grupos não se alçariam ao destaque que ainda têm sem o apoio dos barões do golpe. Mas que é engraçado ver os detalhes, ah isso é!

E pensar que muita gente foi pra rua encantada pelo “apartidarismo” deles…

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/05/27/maquina-de-partidos-foi-utilizada-em-atos-pro-impeachment-diz-lider-do-mbl.htm

 

[27/5] “Escárnio” é uma palavra que tem vindo muito à cabeça nos últimos dias. E outra é “asco”. Agora o Vladimir Pinheiro Safatle explica a primeira delas:

 

ESCÁRNIO

Vladimir Safatle

Folha, 27/05/2016

 

Esta é a melhor palavra para descrever as duas primeiras semanas de governo provisório. Escárnio produzido por ministros com declarações bombásticas de reformas absurdas e desmentidas no dia seguinte, como se fôssemos obrigados a viver em um estado contínuo de desorientação e desgoverno.

Escárnio de outros ministros grampeados em conversas nas quais o apregoado impeachment moralizador se mostra como a cortina de fumaça para livrar seus pescoços da guilhotina da Lava Jato. Escárnio de um governo que terceirizou sua política econômica para o sistema financeiro.

Governando o país como um açougueiro, seu ministro-banqueiro apresentou ao país um plano de cortes que visa conservar intacto os lucros de seus amigos banqueiros e os rendimentos de seus sócios rentistas.

Diante dos desafios da economia, não passou na cabeça de sua equipe utilizar reservas internacionais, aumentar impostos para os ricos, recriar a CPMF, taxar lucros bancários ou auditar a dívida pública brasileira. Nunca na história recente deste país alguém teve a coragem de apresentar um plano que penalizasse tanto a população mais pobre, que sofrerá nos próximos anos o resultado da limitação dos gastos em educação e saúde, além da retração do Estado como agente indutor de investimentos.

A viabilidade do SUS, um sistema universal para 180 milhões de pessoas e que cobre um território quase do tamanho de toda a Europa, encontra-se ameaçada.

Não por outra razão, seu “ministro da Saúde” afirmou, em um lapso de honestidade, que considerava a manutenção de sua universalidade inviável. Da mesma forma, aqueles que saíram às ruas em 2013 exigindo uma “educação padrão Fifa” terão que se contentar com uma “educação padrão restos a pagar”, marcada até mesmo pelo risco de eliminar o piso nacional de salário para professores.

Enquanto isso, seu ministro da Educação produzia mais um escárnio à comunidade educacional utilizando seu tempo, que deve estar bastante livre, para receber “propostas” de grandes estudiosos da educação nacional como o senhor Alexandre Frota e seus amigos do Revoltados Online. Ao ser questionado sobre a pertinência de tal encontro, o referido ministro saiu-se com a afirmação de que “esse ministério comporta a pluralidade e o respeito humano a qualquer cidadão”.

Então que tal começar por explicar por que um dos primeiros encontros do senhor ministro é com pessoas que nunca pisaram em uma sala para dar aulas, mas que, com uma discussão esdrúxula de “escola sem partido”, visam exatamente impedir que a pluralidade seja ensinada a nossos alunos?

Pessoas que não querem que nossos alunos sejam confrontados a diferentes leituras do mundo, a processos que questionem suas certezas e a representações e opiniões que desenvolvam sua capacidade crítica.

Segundo esses pilares da educação nacional, nossas escolas estariam infestadas de marxistas doutrinando nossos alunos. Não por acaso, esse era o discurso que ouvíamos no início da ditadura militar. Pois foi diretamente de lá que essa discussão retornou.

No entanto, qualquer um que realmente leu os livros que nossos alunos recebem nas escolas públicas sabe que eles conhecerão tanto a visão liberal quanto a visão marxista, descobrirão tanto quem foi Marx quanto quem foi Locke e Adam Smith. Eles terão visões distintas sobre fatos históricos complexos e poderão compor um quadro no qual várias matrizes se apresentam.

Mas talvez essas sumidades queiram mais. Por exemplo, talvez elas queiram que não se fale da tortura na ditadura militar, que se mostre que há também “um outro lado” para o qual torturador é herói.

Bem, segundo essa lógica, poderíamos então ensinar os “dois lados” do nazismo e do “antisemitismo”, por que não? E se é para retirar toda “ideologia” da escola, que tal aproveitar e começar por fechar as escolas confessionais? Afinal, tem algo mais “ideológico” do que religião?

Sugiro também impedir toda discussão sobre ética e moral. Pois conceitos como “liberdade”, “autonomia”, “diversidade”, “igualdade”, “respeito à alteridade” são necessariamente carregados de “ideologia”.

Saint-Just afirmou, no calor da Revolução Francesa: “Aquele que brinca ao ocupar o coração do poder tende à tirania”. Vendo o que o governo interino ofereceu ao país nessas duas primeiras semanas, a única coisa a dizer é: “Eles só podem estar brincando”.

 

[27/5] Diante do horror escancarado, o caminho mais curto é dizer que os 33 estupradores da menina e todos os outros estupradores são monstros, animais, selvagens, em suma, exceções entre nós, sempre tão civilizados. Mas a Taylisi Leite mostra que eles estão bem mais próximos do que imaginamos: aqui ao lado, aqui dentro, íntimos, vivendo do caldo cultural que servimos.

http://www.deminuto.com.br/index.php/2016/05/27/voce-e-conivente-com-o-estupro/

 

[27/5] O vídeo do estupro circulou pelo whatsapp e outros aplicativos. Devo, então, um agradecimento às (poucas) pessoas e aos (poucos) grupos com que troco mensagens: não recebi esse vídeo nem recebo coisas assim. Continuemos assim. E espero que vocês possam dizer o mesmo de outros grupos de que participam. Podem?

 

[28/5] “Você tinha o hábito de fazer sexo grupal?”, esta foi a pergunta do delegado. As capas dos jornais hoje falam de estupro. Os programas de tevê, as redes sociais e as pessoas na rua falam de estupro. Sobre eles ronda a sombra da impunidade. Acabei de ler “Missoula”, do Krakauer, que fala de estupros na universidade e de impunidade. Ontem, enfim, assisti “Spotlight”, grande filme, que fala de estupro de crianças e impunidade na igreja católica. Li há alguns dias “Breves entrevistas com homens hediondos”, do Foster Wallace, que em parte também fala de estupro e de impunidade. Não é casual que essas obras e tantas outras que falam de violência sexual falem da impunidade como sua contraparte, como seu complemento necessário. É como se dissessem: é a nossa capacidade de relativizar e, portanto, deixar de reconhecer (juridicamente, mas não só) os criminosos como tal que faz com que esses crimes se banalizem. Os números citados em “Missoula” e “Spotlight”, bem como aqueles que têm circulado por aqui nos últimos dias são aterradores. Diante deles, ninguém tem direito de dizer que já falaram demais do assunto, ninguém tem direito de procurar nas vítimas qualquer característica que relativize a culpa dos estupradores, ninguém tem direito a deixar a indignação de hoje virar piada ou esquecimento amanhã. A impunidade depende disso.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/28/politica/1464442969_569756.html

 

[29/5] Ótima entrevista da presidenta Dilma:

“A senhora então sustenta que o impeachment foi apenas uma tentativa de se barrar a Operação Lava Jato?

Foi para isso e também para colocarem em andamento uma política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto. Com cortes drásticos de programas sociais. Um programa que não tem legitimidade pois não teve o respaldo das urnas.”

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1775968-cunha-manda-e-governo-temer-tera-que-se-ajoelhar.shtml?mobile

 

[29/5] Vocês veem maldade em tudo! Um réu e seu juiz não podem tomar um drinque na noite de sábado? E isso influenciaria nos julgamentos? Que teoria da conspiração!

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1776013-temer-recebe-presidente-do-tse-no-palacio-do-jaburu.shtml

 

O currículo de Gilmar é uma prova impressionante de que amizades não têm limites!

 

Com Sinval Barbosa:

 

Com Abdelmassih:

http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2014/09/05/gilmar-mendes-deu-a-adbelmassih-a-liberdade-que-as-vitimas-nao-tiveram.htm

 

Com Aécio:

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/ao-barrar-investigacao-gilmar-suspende-ate-depoimento-de-aecio/

 

Com Jucá:

http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/05/gilmar-mendes-diz-nao-ver-tentativa-de-juca-de-obstruir-lava-jato.html

 

Com Riva:

http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/05/gilmar-mendes-diz-nao-ver-tentativa-de-juca-de-obstruir-lava-jato.html

 

Com o PSDB:

http://m.jb.com.br/informe-jb/noticias/2012/07/27/revista-mostra-registros-de-pagamento-a-gilmar-mendes-pelo-mensalao-do-psdb/

 

Com doações privadas:

http://www.cartacapital.com.br/politica/gilmar-mendes-perde-e-stf-veta-doacao-de-empresas-2560.html

 

Quase-diário de um (e)leitor em tempos de golpe

 

gloria-pires-opinar.png

Se eu tivesse juízo, diria pra mim mesmo diante de tudo que temos vivido: “Não sou capaz de opinar”. Mas não tenho muito. E ainda tive coragem de rolar meu perfil do facebook desde o início de março, desde a data em que publiquei pela última vez algumas linhas neste blog, para ver com o que consumi o tempo que poderia gastar aqui ou nas outras tarefas todas que sempre me esperam… Eis que um monte de desabafos, piadas, poemas, músicas, reflexões que publiquei, se não fez algum sentido, ao menos serviu para dar uma prova de que os dias têm sido duros, bem duros, mas há neles algum aprendizado e sempre o diálogo que fortalece. Não sei se escrever é a forma menos dolorosa de lidar com tudo isso (talvez seja a mais), mas é uma das formas inevitáveis para quem acredita que é justamente trocando ideias que podemos saltar da lama em que estamos metidos. É bastante coisa, e fica mais organizado aqui. (Se vocês lembrarem das principais notícias de cada dia, ficam um pouco menos malucas minhas referências…)

 

[4/3] A (in)saciedade do espetáculo.

 

[4/3] SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA

Mario Faustino

 

Sinto que o mês presente me assassina,

As aves atuais nasceram mudas

E o tempo na verdade tem domínio

sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,

Corro despido atrás de um cristo preso,

Cavalheiro gentil que me abomina

E atrai-me ao despudor da luz esquerda

Ao beco de agonia onde me espreita

A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina

E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas

De apóstolos marujos que me arrastam

Ao longo da corrente onde blasfemas

Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,

Há luto nas rosáceas desta aurora,

Há sinos de ironia em cada hora

(Na libra escorpiões pesam-me a sina)

Há panos de imprimir a dura face

À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,

Os derradeiros astros nascem tortos

E o tempo na verdade tem domínio

Sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio,

Amen, amen vos digo, tem domínio

E ri do que desfere verbos, dardos

De falso eterno que retornam para

Assassinar-nos num mês assassino.

 

[4/3] Como são surpreendentes os dias da vida de raras figuras: acordam (são acordados) aparentando ruína, mas dali a algumas horas estão mais firmes do que nunca. Desconhecemos, os mortais, seu combustível.

 

[5/3] Desintoxicai-vos, irmãos, com uma dieta à base de pérolas:

 

[6/3] «A thing of beauty is a joy for ever:

Its loveliness increases; it will never

Pass into nothingness; but still will keep

A bower quiet for us, and a sleep

Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.»

 

«O que é belo há de ser eternamente

Uma alegria, e há de seguir presente.

Não morre; onde quer que a vida breve

Nos leve, há de nos dar um sono leve,

Cheio de sonhos e de calmo alento.»

 

[Trecho de ‘Endymion’, de John Keats,

trad. Augusto de Campos]

 

[7/3] H. HEINE (1797-1856) sobre as agruras da formação jurídica: «A brisa fresca da manhã soprava pela estrada e os pássaros cantaram alegremente; ‘peu à peu’, começava a contagiar-me com tal frescor e alegria. Eu precisava mesmo desse refresco. Havia passado os últimos tempos enfurnado na Faculdade de Direito, sem pôr o pé para fora daquele curral das Pandectas. Era como se os casuístas romanos tivessem revestido meu espírito com uma teia pardacenta; meu coração se espremia entre os parágrafos de ferro dos sistemas egoístas da Jurisprudência. Ainda ecoavam em meus ouvidos coisas como ‘Triboniano, Justiniano, Hermogeniano… Tantansoniano’. Ao ver um casal de namorados sob uma árvore, logo os tomava por uma edição de mãos dadas do Corpus Iuris Civilis» (em “Viagem ao Harz”, trad. Maurício Mendonça Cardozo, Edit. 34, 2013).

 

[9/3] É preciso estar atento e forte.

 

[9/3] (O mais espantoso de ouvir e reouvir Elomar durante semanas seguidas não é abrir a janela do apartamento e procurar um sertão em meio a um infinito de prédios, asfalto, carros, buzinas, guindastes, nuvens de chumbo, ódio e carbono. O que espanta, mesmo, é encontrá-lo – o sertão – justamente aí. Intacto, impávido, implacável. E mais: íntimo.)

 

[10/3] Sem dúvida, o pior legado desses tempos de acirramento político, polarização ideológica e violência gratuita é a conotação negativa que nos vem à mente quando, no balcão da padaria, pedimos um simples, mas adorável salgado. Temos que superar isso, com urgência.

 

[10/3] Vão prender o Hegel?

PS: com base na Teoria do Domínio do Fato, dá pra prender, por baixo, uns 20 filósofos anteriores a ele e uns 200 posteriores. As conexões são evidentes e, portanto, independem de prova.

 

[10/3] Questão do próximo concurso do MP

1) Os autores do “Manifesto Comunista” são:

(A) Marcos & Belutti

(B) Marx & Hegel

(C) Kant & Engels

(D) Marx & Engels

(E) MST

(Fui dar uma olhada na petição… o fundamento é uma (des)leitura de Nietzsche… no máximo, dá pra fazer piada, mas é bem triste que a coisa chegue até aí.)

 

[11/3] Resumo preciso da ópera, por Vladimir Safatle: “a assimetria produz uma insegurança profunda a respeito das intenções em jogo, o que é um convite à desagregação completa dos pactos no interior da combalida democracia brasileira”.

 

[11/3] Vejam como são as coisas. Ouvi dizer por aqui, dia desses, que Toquinho havia dito que não há mais poetas no Brasil. Confesso que pulei o tópico… não tenho lá nenhuma paciência para generalizações, ainda mais quando é gritante seu divórcio com a realidade. Mas eis que vem um poeta, um desses poetas que lamentavelmente o Toquinho jogou pra fora do Brasil com sua afirmação, o Caio Meira, e, mais do que responder, pega cinco ou seis retas e faz um castelo, em que cabe Toquinho, o Brasil, seus poetas e todos aqueles que dizem sem saber. Não mexa com essa gente, Toquinho.

http://www.caiomeira.com/nao-ha-mais-poetas/

 

[11/3] Quando nos conduzimos mais por ódio e medo que pelo conhecimento, todos se tornam inimigos de todos e possíveis soluções ficam ainda mais distantes. Se você concorda e se preocupa com isso, leia (com calma) e tente fazer seus amigos lerem (com calma) o que diz o Matheus Pichonelli neste texto fundamental.

Bom final de semana, inclusive o domingo.

https://br.noticias.yahoo.com/marx-hegel-e-o-ocaso-da-intelig%C3%AAncia-182811734.html?soc_src=social-sh

 

[13/3] Já é noite de domingo. 1%, digamos, dos brasileiros foi às ruas hoje para dar um recado – basta, fora, cadeia – ao governo. De verde e amarelo. Enquanto vejo as fotos das manifestações e a imprensa disputando o significado dos protestos, imagino que os gritos chegaram até os ouvidos do Planalto, do Congresso, do Supremo. Por trás desses gritos sinto uma grande convicção de que, amanhã, eles podem se transformar em medidas concretas (renúncia, impeachment, prisão) e, com isso, em melhorias imediatas da vida. Daqui, do sofá em que estamos eu e os outros brasileiros, gostaria de acreditar nessas transformações quase mágicas, mas o que vejo é um abismo imenso entre esse sonho de uma vida melhor e a energia que sai das manifestações para ser absorvida sabemos bem por quais interesses. Um abismo que se abre a golpes de intolerância, ingenuidade, oportunismo. E não há ponte curta ou segura para cruzá-lo.

 

[14/3] Procurando um alento? Lembre-se: o mundo é cheio de insignificâncias, pequenezas, mediocridades, mas também de coisas boas, grandiosas, admiráveis. Acima delas, tem algo assim: https://www.youtube.com/watch?v=LG5EdoxBVt0

 

[14/3] O depoimento de Lula em Congonhas tem mais de 100 páginas. Lamentavelmente, sei que muita gente vai ter “opinião formada” (e imutável) sobre todas aquelas páginas sem que, ao menos, tenha se dado ao trabalho de ler. O ódio é tanto que haverá quem fique com raiva de mim só por estar sugerindo que leiam as palavras de Lula com atenção. É uma pena, não gosto que me odeiem… Mas eu li o depoimento todo: entre infinitas perguntas sobre detalhes de cada acusação que ocupa a capa dos jornais nos últimos dias, o que ressalta é a segurança das respostas e o clima de descontração em que até mesmo o delegado se envolve. A cada pergunta, o que aparece é um homem que não foge das questões, mesmo quando beiram ou ultrapassam o ridículo. Cada um aí que vier a ler vai interpretar de uma maneira, mas eu gostaria que, se o ódio permitir, fizessem a seguinte questão: e se ele estiver falando a verdade?

 

[14/3] Saiu a decisão do processo de São Paulo. Estranhamente, a juíza não fala de Marx, nem Engels, Hegel ou Nietzsche. Pelo que li, a única coisa que o MP disse que foi levada em consideração é “vai catar coquinho”, mas lá em Curitiba.

 

[14/3] No momento maluco que vivemos, é difícil acreditar que o debate sobre política vá se sofisticar muito. Só tem espaço pra pancada. Quando a poeira baixar (espero que logo!), acho que esse texto pode ser um bom ponto de partida para a crítica do que se tornou a política por aqui:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/14/opinion/1457966204_346156.html?id_externo_rsoc=FB_CM

 

[15/3] O que a gente não faz pela democracia… foi difícil cruzar o arquivão do Delcídio, mas vamos lá: se pudermos dizer que há três guerras em andamento (por mais que, no fundo, sejam a mesma-mesminha), uma guerra política, outra jurídica e outra de informações, acho que a delação coloca lenha principalmente na última, que me parece já não ter como ferver mais. Veremos. Se Delcídio for fazer na Lava-Jato o papel de Roberto Jeferson na AP 470, que ao menos tenhamos a sorte de ver cada uma de suas palavras comprovada e levada às necessárias consequências. Boa noite!

 

[16/3] (Olho pela janela e vejo apenas uma certeza em pé neste momento: a imprensa de sempre vai, como sempre, dizer as coisas de sempre e fazer com que seus leitores de sempre, como sempre, concordem e repitam o que sempre dizem. E quando retiro as camadas de propaganda e distorção de cada matéria em busca de informações, fico com muito pouco nas mãos. Muito pouco. No contato com tal imprensa, portanto, tenho partido de um pressuposto: não há qualquer atitude, a não ser a renúncia [ou o suicídio, para alguns], que Dilma possa tomar que será ~aplaudida~ por aqueles que agem e torcem pelo fim antecipado de seu mandato. Nenhuma, nenhuminha. Portanto, creio que Dilma pode desistir de acalmar as cornetas e, assim, tentar governar, a começar pelo enfrentamento dos inimigos mais íntimos do governo, para escapar do atoleiro em que se encontra desde a eleição de 2014. Se afundar de vez, não custa dizer, que seja lutando.)

 

[16/3] O mundo desabando e eu distraidão… não fui, confesso, o dedicado estudante de direito que deveria ter sido, mas o pouco que estudei não vai me deixar dormir bem no dia em que um juiz de primeiro grau divulga pra imprensa um grampo que envolve a Presidenta da República, atropelando o STF só porque o processo dos seus sonhos não vai muito bem das pernas. Um juiz que despacha no balcão do Jornal Nacional? Não, obrigado. O conteúdo é ilegal? Ilegal é o grampo e, mais ainda, sua divulgação é uma ofensa à Constituição e a tudo que ela significa. Qualquer discussão sobre o conteúdo dos grampos tem os mesmos vícios da sua divulgação festiva e irresponsável. Ou levamos a sério algumas garantias ou amanhã, junto com as condenações que tantos desejam, virá a nossa condenação – se é que ela já não veio – a viver num país sem lei. Você acha que já vive num “país sem lei”? Aguarde, gente como Moro e outros tucanos, se conseguirem realizar o golpe já em marcha, vão mostrar que as coisas podem ser bem piores.

 

[17/3] Um golpe já foi dado – resta saber qual será seu alcance. Se, desta vez, há um agente comum entre os golpistas – a rede Globo -, o outro agente é mais surpreendente: um juiz do andar de baixo da jurisdição, mas disposto a afrontar toda a legislação e todas as instituições que deveria respeitar, no intuito específico de atacar um único partido, ou melhor, um único político. No grampo que entregou à imprensa o que há é apenas e tão-somente política, sim, POLÍTICA, a mais importante das atividades a que alguém pode se dedicar. Falar ao telefone com seus aliados, coordenar as ações, buscar apoio onde puder, atacar os adversários – tudo isso faz parte da política. Não se dirige um país (nem uma casa!) sem poder falar ao telefone coisas que nem todos devem ouvir. Perseguir até esse nível, ofendendo as regras básicas, quem está fazendo política é criminalizar a política como um todo e, assim, inviabilizar a democracia. Nem deveríamos, portanto, discutir o conteúdo do grampo, mas mesmo ali o que se encontra é a confirmação de que a nomeação do ex-presidente para a Casa Civil tem objetivos muito mais amplos do que “fugir à jurisdição do Moro”, ainda que não tenhamos mais razão alguma para chamar de “jurisdição” o que o juiz global tem feito e, de outra parte, muita razão para que qualquer cidadão queira escapar do alcance da vara de um militante sem limites. Aliás, os próximos dias dirão se ele tem limites ou não, isto é, se a democracia por aqui tem futuro ou não.

 

[17/3] Duas dicas de sobrevivência na selva das inimizades, um conselho do Poderoso Chefão e um lembrete:

1) leia, ouça, assista a tudo o que puder. Tudo, tudo, tudo. E escreva apenas quando as ideias e as palavras lhe estiverem sufocando.

2) dê sua opinião como uma postagem nova no seu perfil: “conversemos” assim, em paralelo, sem enfrentamentos diretos na caixa de comentários. Seja o que for que diga, é mais digno do que ficar tentando contorcer as frases alheias e atribuir significados mirabolantes ao que os outros dizem. Por exemplo: não faça seu amigo ter que explicar mil vezes que “defesa da legalidade” não é a mesma coisa que “defesa de bandido”.

3) “Nunca odeie seus inimigos; atrapalha o raciocínio” (Don Vito Corleone).

4) o barco é um só.

Até mais, volto quando possível.

 

[17/3] O trabalho me faz conhecer gente muito estudada, muito instruída, que circula por conceitos e dados com uma desenvoltura impressionante. Professores de diversas áreas – além da turma do direito, convivo com economistas, sociólogos, historiadores, cientistas políticos etc. Nos últimos tempos, cada vez mais recebo desses amigos “não jurídicos”, inclusive na caixa de mensagens privadas do facebook, no whatsapp, na mesa do almoço, perguntas e mais perguntas sobre questões tipicamente jurídicas, como questões de organização judiciária e tramitação processual. O juiz de primeiro grau grampeou a presidenta? Outro juiz invalidou um ato de competência dela? Há uma chuva de “como assim?” em todos os cantos, principalmente naqueles bastante habituados aos movimentos da história e de suas lutas. Nem Freud nem Marx parecem conseguir explicar, mas apenas o artigo x da lei tal e suas cambaleantes interpretações.

É algo que me parece muito curioso, para não dizer preocupante, e leio da seguinte maneira: esses professores, por mais que entendam muito de outros aspectos da vida política, estão sendo obrigados, dia a dia, a entender das tramas jurídicas para acompanhar os movimentos da política. Se já identificávamos, há bastante tempo, uma “judicialização da política” (ou seja, a absorção de decisões de natureza política por instituições criadas para decidir questões jurídicas), temos andado cada vez mais rápido para um outro momento, em que cada vez mais se transformam as salas dos fóruns e tribunais em sede de decisões políticas fundamentais e, como consequência, se reforça a “demonização da política” a que temos assistido.

Poderíamos até vislumbrar aí uma nova oportunidade de negócios para os advogados, um novo sentido para aquele famoso adesivo da OAB: “Consulte sempre um advogado”. Mas esse não é apenas um problema dos meus amigos ou do nosso país. É um desequilíbrio entre os poderes que preocupa toda a teoria política moderna, a indicar que, sob as feições mais destacadas da crise, vamos também alimentando outros monstros, outros retrocessos.

Dureza, hein?

(Agora eu juro que vou sumir daqui, a começar pela busca do jantar perdido de ontem…)

 

[18/3] Diz o Vladimir Safatle: “é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação”.

 

[18/3] Já convivemos melhor. Uma música falando em comunista, ideologia e muito, muito vermelho. E ninguém bateu em ninguém. Fica a dica.

 

[18/3] Manifestações grandiosas como a de domingo e a de hoje são fundamentais para qualquer sociedade em qualquer momento, mas ainda mais num momento delicado como o que estamos vivendo. A de hoje, em especial, dá uma ideia do que pode ser a democracia, do que pode ser uma sociedade politizada, mais horizontal, mais igual em termos de poder, riqueza, direitos, valores, comunicação etc. Torço para que hoje, como foi no domingo, todos voltem para casa ou sigam para onde quiserem semqualquer violência. O receio, no entanto, é grande, porque há muitos jornalistas, justamente nos órgãos de maior alcance, dispostos a incendiar a polarização e, lamentavelmente, magistrados que, desde gabinetes que pairam de janelas tapadas bem acima dessas multidões, estão dispostos a desfazer com liminares os atos da Presidência da República. A luta vai continuar e quero crer que agora ela está se tornando mais transparente, mais ampla, mais honesta. Veremos. Resulte no que resultar e será melhor para o país do que a paralisia que est(áv?)amos amargando. Bom final de semana.

 

[19/3] (Sim, o hiperjuiz pode mandar prender o ministro suspenso, agora que o tucano de toga fez seu papel de vingador partidário. Pode, sim, mesmo que ele não seja réu, porque sabemos que o hiperjuiz não liga pra esses detalhes. Se bobear, ele manda prender a presidenta junto, porque, afinal, se houve obstrução, quem fez foi ela, não? Mas e os fatos, mas e as provas, mas e a lei, mas e a Constituição? O hiperjuiz voa com sua capa preta acima disso tudo. Mas até o hiperjuiz sabe que decretar a prisão do ministro suspenso pode ser o ápice da sua saga, mas não será o último capítulo da novela. Dentro da Corte Suprema, há togas de muitas cores, nem todas dispostas a um jogo sem regras. E dali pra fora, nas ruas, já ficou claro pra muita gente que nada vai ser de graça – o preço do golpe é alto. Custa uma democracia e mais alguns vinténs.)

 

[19/3] Me avisem aí, quando a poeira baixar, e couber algum outro assunto, que eu só queria pedir uma salva de palmas para esse colosso que é a poesia completa do Sebastião Uchoa Leite (1935-2003).

 

[21/3] 7 DA MATINA. Coisas que combinam com café: pão na chapa, pão de queijo, misto quente. Coisas que não combinam: o pai contando pra família estupefata que o taxista contou que um dia, quando a polícia federal chegou, o político jogou sacos de dinheiro pela janela detrás do apartamento, voou grana pra todo lado e que agora tem gente lá de casinha simples comprando carrão. Evite.

PS: e estamos a 1km do local dos fatos…

 

[21/3] (Esperando ansiosamente o dia em que a defesa de garantias gerais não se confunda, em alguma estranha medida, com a proteção de pessoas específicas. Mas acho que esse dia só virá quando deixarem de ofender garantias gerais com o intuito de atingir pessoas específicas.)

 

[21/3] (O povo está sumindo. Tem amigos que se foram daqui, tem outros que passam em silêncio e outros que vêm e encontram a porta fechada. A gente agora deixa o café pela metade, troca o almoço por silêncio e espera as notícias da sexta pra saber com quem pode tomar a cerveja do sábado. Tenho falado o quanto posso, em todo canto, com gente pró e contra, mas já não encontro tanto pró que queira conversar com um contra ou vice-versa, e não apenas sobre aquilo que faz deles pró e contra. Nos rostos de todos, dos que não andam com sangue nos olhos, o que há é um sorriso amarelo, de quem diz sem convicção que pior que está não fica.)

 

[22/3] ~hojefaztrezeanosqueMARLIeeunoscasamos~mastrabalheiummontedehoras~entãonãotivetemponemdecurtircomeladatatãoespecial~alémdeserperigosofazerqualquermençãoatalnúmeronosdiasatuais~eporissomandoessamensagemcifradaparaelaquenãotemfacebook~dizendopranãosepreocuparporque~comoficaremosvelhinhosjuntos~teremosmuitosoutrosanoseanosabraçadospracomemorarcomalegria~comcerteza~

 

[23/3] Num dia fico sabendo que, numa escolinha em SP, crianças de 3 anos – sim, 3 anos – estão fazendo “atividades sobre política”, coincidentemente pró-impeachment… E que noutra escola as crianças, um pouco maiores, são convocadas para as manifestações verde-amarelas ensaiando hinos e palavras de ordem. Depois fico sabendo que militantes do golpe convocam suas tropas para cercar a casa da família do ministro do STF que julgam ser inimigo, inclusive publicando seu endereço na internet. E agora leio essa matéria aqui, cheia de exemplos de que não apenas a intolerância chegou às escolas, como há muitos pais e professores que entendem que ali é o lugar dela também.

Não há muito o que dizer. Má-fé, ignorância, irresponsabilidade, truculência estão na moda. Mas quando a moda passar? Os adultos que estão colocando lenha nessa fogueira infantil e os militantes que estão dispostos a atacar a família dos juízes não fazem ideia da extensão que podem dar para essa época que, imagino, muitos de nós não veem a hora de terminar.

Se o ataque for nesse nível, se convencermos as crianças de que toda discordância deve virar inimizade e acreditarmos que nossas frustrações devem ser respondidas com violência, pode passar o furor dos processos atuais e teremos uma herança terrível para arrastar daqui em diante. E ela certamente será bem pior do que tudo que vimos até aqui – em todos os níveis.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160322_salasocial_polarizacao_criancas_if?ocid=socialflow_facebook

 

[23/3] (eu queria morar no canal OFF

bermuda, sandália, camiseta

no frio rolaria na neve

desertos os quadrinhos da agenda

saltar louco no ar sem amarras

 

eu queria morar no azul da tela

que contemplo por trás do pó

e gordura

ao som de um liquificador

que se esgana nesta esquina

entre os pedidos todos urgentes

do esporte radical que é estar vivo)

 

[24/3] Alguém aí tem a manha de decretar sigilo de todas as polêmicas, angústias e picuinhas até segunda-feira? Grato desde já. Bom finalzão de semana.

 

[25/3] Li dois terços desses livros (e outros de outras editoras) e continuo não entendendo muita coisa, mas ainda assim recomendo muito.

15 livros para entender o Brasil hoje

 

[25/3] Lição de casa democrática: leia as duas matérias abaixo e avalie se é exagero chamar de GOLPE o que está se passando no Brasil.

 

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/nao-ha-nenhuma-prova-contra-o-ex-presidente-afirma-juiz-da-lava-jato-sobre-lula/

 

http://m.folha.uol.com.br/poder/2015/11/1710334-aliados-propoem-troca-de-cassacao-de-cunha-por-impeachment-de-dilma.shtml?cmpid=compfb

 

[27/3] (Leve a sério o que diz aquele seu interlocutor que é capaz de falar dez minutos sobre política sem recorrer a qualquer frase de efeito, dessas que caem bem às faixas revoltadas e aos carros de som das manifestações. E tente ser um interlocutor assim de quem estiver por perto de você. Não é fácil, mas é a única saída que importa.)

 

[28/3] Depois da carta do Lobão pedindo desculpas (marotas) para Caetano, Gil e Chico, podemos criar esperanças de ler uma carta de Aécio para Dilma aceitando o resultado das eleições de 2014? Uma carta de Cunha para os brasileiros admitindo que não se sente muito bem na posição de acusador num processo de impeachment? E, afinal, que outras ~cartas de reconciliação nacional~ podemos agora esperar?

 

[28/3] «O caso dos 15 jovens activistas, a cumprir prisão domiciliária, e duas outras que respondem em liberdade, remonta a 20 de Junho de 2015, quando foram surpreendidos durante uma acção de formação, que as autoridades consideraram preparação para actos de rebelião e atentado contra o presidente José Eduardo dos Santos. […] Segundo a acusação, ficou provado que os debates realizados pelos activistas não serviam apenas para ler os livros, mas que estes planeavam como concretizar os actos de rebelião. “Não há qualquer dúvida que os arguidos estavam a preparar actos de rebelião porque os mesmos não pretendiam apenas ler um livro. Os arguidos queriam aprender como destituir o poder”, disse.»

http://www.redeangola.info/activistas-condenados/

 

[28/3] Em qualquer contexto político minimamente saudável a frase “PMDB desembarcá do Governo” seria motivo de festa, muita festa.

 

[30/3] (E tudo indica que o colosso de esforços antidemocráticos de quem não votou na dupla Dilma-Temer será premiado com a tomada do poder pela dupla Temer-Cunha, que certamente colocará esta nação acima de todo mal. Enfim, a ordem. Enfim, o progresso.)

 

[30/3] «oh que beleza sem gramática, que ferocíssimo esplendor:

rosa encarnada pelo ar acima

que é funda curva absurda,

rosa ascendida acesa desde a terra desmanchada,

escrita sobre o papel estrito

— e que o papel arda

que a extrema flor do cacto suba entre folhas espessas e coroas de espinhos,

mas que seja enfim mais peremptória ainda

a rosa irreversível»

 

De Herberto Helder (1930-2015), em “Letra aberta”, que acaba de sair em Portugal e, pelo que li, deve sair mais à frente no Brasil pela Tinta-da-China.

 

[30/3] É incrível o número de argumentos usados, desde 27.10.2014, para relativizar e, mais que isso, desfazer o resultado das eleições democráticas. O mandato que mais de 54,5 milhões de brasileiros confirmaram está sendo tomado com base nas tais “pedaladas fiscais”, mas não encontrei até hoje um eleitor da Dilma no segundo turno que diga: “me arrependi do meu voto após saber das pedaladas fiscais”. Ou seja, é bem provável que Dilma continue contando com o voto de seus mais de 54,5 milhões de eleitores do segundo turno (com o meu, por exemplo), que terão que amargar, com ela, essa derrota fora de época, contra as regras do jogo, com base numa conduta – as fatídicas pedaladas – que em nada alteraria a vontade por trás do voto.

Das pessoas que conheço e vejo defender a interrupção imediata do mandato de Dilma, seja com que fundamento for, posso afirmar que são as mesmas que não se conformaram com o resultado da eleição lá naquele domingo de 2014 (e muitos que não se conformaram com o resultado das últimas quatro eleições presidenciais…) e desde então torcem para qualquer chance de Dilma cair. Não foram poucas as que ouvi dizer que “qualquer coisa é melhor que Dilma”.

Eu até entendo que não aceitem ter perdido, mas não posso crer que querem mesmo um país melhor (e melhor, pra mim, é sinônimo de mais democrático, em todos os setores da vida) quando fazem vista grossa para o atropelamento da vontade desses mais de 54,5 milhões de votos de Dilma e não levam em consideração quais serão os beneficiários imediatos desse golpe, mesmo que entre eles esteja alguém como Eduardo Cunha. Obsessão tem limites – ou deveria ter.

 

[31/3] Uma das razões para suportarmos continuar nesta coisa é estar por perto das afeições que criamos com algumas pessoas, mesmo com aquelas com quem pouco ou nada convivemos daqui pra fora. Mika e Tiago são desse meu acervo de afeições intensas daqui. Livros, crianças, ideais deixam essas pontes mais fortes. Quando uma dor cai assim pesada sobre suas vidas, é inevitável que caia também sobre quem quer ver tudo bem com eles. Não sei rezar, mas minha cabeça hoje só sabe pedir que o sorriso da Manu esteja sempre por perto.

 

[1/4] Estranhos tempos em que cabe a um filósofo dar uma lição fundamental de direito (além de política) a um professor que foi, até mesmo, ministro do STF.

 

[1/4] MANU

 

dizem que deuses fazem tudo

 

um deus que desfizesse

talvez tivesse hoje a minha fé

 

[4/4] Uma entrevista indispensável com o Prof. Ricardo Antunes, da UNICAMP – sobre hoje, mas especialmente sobre amanhã:

«Para que não se resuma tudo ao pessimismo e mesmo à melancolia, temos um mosaico de lutas e movimentos sociais, experiências novas. Houve um avanço muito significativo de movimentos moleculares das classes populares e trabalhadoras. Como fazer para que tais movimentos atinjam um nível de organicidade que os aproxime mais, ao invés de isolá-los? Como avançar numa nova política radical, como soldar novos laços de solidariedade e de pertencimento de classe, ao invés de ficarmos na política de fracionamento e fragmentação? É o desafio que se coloca na próxima quadra.»

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11554%3A2016-04-02-16-38-22&catid=34%3Amanchete

 

[4/4] Fugi dessa história o quanto pude. A notícia aparecia em alguma página, eu não clicava. Alguém tocava no assunto, eu fugia. Ando fraco demais pra essas pancadas. Mas acabei assistindo: uma menina sofre um câncer no cérebro e decide fazer um canal no youtube ajudando outras pessoas a enfrentarem o tratamento; ela faz sucesso, chega à tevê e… alguém invade sua conta e apaga todos os vídeos. Apaga todos os vídeos. Apaga. Todos. Os vídeos. Da menina. Nosso ônibus passou há tempos do ponto Banalidade do Mal. Não consigo imaginar o que a pessoa que fez isso com a Careca TV não seria capaz de fazer. Não consigo imaginar o que a sociedade em que vivemos não seria capaz de destruir, apagar, dinamitar. Espero que seja um problema da minha imaginação.

 

[7/4] Olhando bem, pra todo lado, a gente percebe que, aconteça o que acontecer, sempre temos mais a construir e reconstruir do que a conservar aqui nestas terras… de minha parte, a certeza é que quero estar do mesmo lado de pessoas como a pequena gigante Sara.

PS: e jamais do lado de quem “pensa” assim: “A população se acostumou a reivindicar. Tudo aquilo que antigamente era fruto do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho, passou à categoria de ‘direito’. E de ‘direito fundamental’, ou seja, aquele que não pode ser negado e que deve ser usufruído por todas as pessoas.”

 

[8/4] OS JUSTOS

Jorge Luis Borges

 

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra exista música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.

O que afaga um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra exista Stevenson.

O que prefere que os outros estejam certos.

Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o mundo.

 

(“A cifra”, 1981, trad. Josely Vianna Baptista)

 

[8/4] Vão chegando as terríveis notícias sobre os assassinatos e as perseguições de todo tipo a militantes políticos de bandeira vermelha. Quem acompanha os movimentos sociais e a defesa dos direitos humanos sabe que essa nunca deixou de ser a realidade brasileira – no campo, na periferia, onde quer que alguém se levante contra a forma como o mundo se organiza em favor de poucos, bem poucos, e contra uma maioria a quem cabe apenas morrer calada ou ser morta para se calar. A situação aí sempre foi terrível. Entretanto, temos aprendido a duras penas que mesmo o que já é péssimo pode piorar: o acirramento ideológico dos últimos tempos, tudo indica, vai achar suas vítimas lá onde elas sempre estiveram – na violenta pobreza urbana e rural do Brasil. Se há lado bom nisso tudo, é apenas saber que para grande parte dos brasileiros LUTO sempre foi também um verbo, como mostra com perfeição o documentário DEFENSORXS do coletivo Nigéria.

 

[11/4] Michel tem pressa, muita pressa. Michel já mandou cartinha de rompe-laços. Michel já negocia os ministérios. Dilma, caso seja vencida na Câmara, continua no cargo até a votação no Senado, quando será afastada para aguardar o julgamento, aí sim, do impeachment. Mas Michel não se aguenta. A chance única de ser presidente sem ter encabeçado a candidatura é de deixar Michel fora de controle. Já mandou separar terno e gravata, camisa e sapato. Já penteou o cabelo e preparou a voz. E já gravou e divulgou o discurso de quase-posse para “falar à Nação” depois da votação da Câmara. Duvida? Então ouça:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/04/1759725-temer-divulga-audio-em-que-fala-como-se-impeachment-estivesse-aprovado.shtml

 

[11/4] Vejam como são as coisas: se Dilma tiver votos na Câmara na mesma quantidade de anos de prisão que o PGR entende que o Cunha merece (184!), o golpe emperra e o Temer volta pra cadeirinha dele. Curioso, né?

 

[13/4] Sonhei que o Brasil estava melhorando, que agora o Congresso trabalhava de segunda a domingo e que o futebol estava suspenso até resolvermos todos os problemas. Que o novo presidente só pensava nos interesses do povo e os parlamentares estavam acima de qualquer suspeita. Que policiais, promotores e juízes iam às últimas consequências, punindo quem tivessem que punir. E a imprensa, minuto a minuto, mostrando sem cortes os grandes debates e operações, inclusive contra seus donos e patrocinadores.

Acordei. Era só um golpe.

 

[13/4] “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” – tenho lembrado bastante dessa frase nos últimos dias, de autoria (se me lembro bem) do Darcy Ribeiro. Abro as notícias sobre as manobras bizarras de Cunha e sua gangue e fico imaginando o orgulho de quem diz que vale tudo para derrubar Dilma, o orgulho de quem finge não estar vendo de que se alimenta o golpe, de quem finge não estar vendo que o golpe é um golpe. E é muito baixo. Se no domingo todos que estão torcendo pelo sucesso do golpe terminarem o dia felizes, é com essa frase na cabeça que vou levantar para uma segunda-feira que, se será triste para quem preza a democracia, nem por isso será o último dia da história e das nossas lutas.

 

[14/4] Quanto mais chove no noticiário, mais me protejo com aquilo que homens e mulheres fizeram e fazem de mais admirável. É meu antídoto contra o desânimo. Doses pesadas têm sido necessárias diariamente. Quando a barra pesa demais, por exemplo, teclo 3 letras mágicas – “g”, “i” e “l” – e clico no primeiro vídeo que aparece. É tiro e queda. Tudo volta a fazer sentido. Ou paro de exigir das coisas que façam sentido. [Por favor, só continue se quiser exageros.] Gil é um caldeirão. Nele está tudo aquilo que começou lá em Homero e que não terá fim. É nisso que creio enquanto ouço. Gil absorve e multiplica. Tudo o que chamamos de Brasil, para o bem, para o mal. Nele aprendemos, aliás, que bem e mal não são lá essas coisas. Em Gil estão todas as coisas do espírito e da matéria. Em Gil se aprende a pisar na terra de outro modo, ser da terra, e também a olhar pro céu com outros olhos – ser do céu aqui. É possível criar uma religião ao redor de Gil, mas nem ele nem nós precisamos de uma. Repare: a corda do violão conversa de outro modo com os dedos de Gil. A voz de Gil arrasta a alegria e o sofrimento de séculos para nossos ouvidos. Tudo que se fez sob o selo da música veio morar no corpo de Gil. Gil é a África viva em qualquer continente a que chegue. Gil é o Brasil que nunca existiu, que talvez não venha a existir, mas o país de Gil é o melhor país do mundo. O país de Gil é o Sertão, o Japão, a Jamaica, o Mississipi, a estrela mais distante e o quintal qualquer. Eu queria tocar violão por causa do Gil. Canto escondido por causa do Gil. (Assisto comovido ao programa da Bela Gil.) O dia seria intragável se Gil não estivesse ao alcance. Gil seria impensável sem o Brasil. O Brasil seria impossível sem Gil. Vale a pena tentar salvar o Brasil por ser a terra em que Gil foi possível – constato, e já saio dançando.

 

[14/4] http://www.sul21.com.br/jornal/clima-de-caca-as-bruxas-contra-ideias-de-esquerda-e-muito-preocupante-alerta-sociologo/

 

[15/4] 52 milhões para Cunha? Notícia fresquinha. Mais uma do “malvado favorito” que os “brasileiros de bem” estão apoiando contra a corrupção.

Sim, o simples fato de que esteja na presidência da Câmara é o suficiente para que o processo do impeachment não pudesse seguir.

Sim, o fato de que ele esteja fazendo o papel de algoz de Dilma permite que chamemos a tudo isso por um nome só: golpe!

PS: justiça seja feita, ele ao menos parcela em 36x!

 

[15/4] (Eu queria ser aquele cara otimista, dizer com convicção que, se Dilma cair, o amanhã será bem melhor. Eu queria ser aquele cara sarcástico e dizer cinicamente para quem apoia o golpe: “nossa, agora Temer e Cunha vão dar um jeito nessa corrupção!”. Eu queria ser aquele cara inocente e dormir satisfeito porque a Lava-Jato não perdoará ninguém. Eu queria ser o pessimista radical, dar de ombros e dizer “tanto faz”, porque tudo está mesmo perdido. Eu queria ser aquele golpista inconsequente e só ver à frente um claro objetivo – a queda da presidenta. Eu queria ser aquele governista cheio de esperanças e acreditar que há um eixo a ser retomado amanhã ou depois. Eu queria ser o cara que sabe exatamente o alvo a ser atingido para derrubar todos nossos males. Mas fico aqui, entre perdido e perplexo, “melancólico e [nem tão] vertical”, girando entre os dedos as duas ou três certezas com que pretendo ajudar a reconstruir um mundo que, assim ou assado, desaba sem dó diante de meus olhos.)

 

[16/4] Um pronunciamento preciso. Quem é contra o golpe tem aqui mais algum alento para continuar a luta – amanhã e sempre. Quem é a favor do “impeachment” e tiver o mínimo de sobriedade para ver o vídeo, deve reconhecer que nele está uma mulher de uma força incrível, eleita por 54.501.118 e que até este momento não é objeto de qualquer acusação de crime que justifique o encerramento precoce de seu mandato.

Ela, seu governo e seu partido merecem o tratamento que todos políticos, governos e partidos merecem – a cobrança permanente do povo e a submissão às regras da democracia. Goste ou não do governo, ninguém tem direito de inventar saídas para negar o poder que foi dado pelas urnas.

Estamos desde a eleição de 2014 assistindo ao nítido travamento parlamentar de um governo para fixar nele a imagem da incompetência e da inviabilidade. O nome desse processo longo e doloroso para todo o país é, sim, golpe. Deixar que Dilma seja engolida pela turma comandada por Cunha, Temer e outros do mesmo nível é deixar que um golpe seja dado, é deixar o país nas mãos sujas de golpistas, que não hesitaram em fazer o país pagar caro pelo seu desejo de tomar o poder legítimo da presidenta. E não vão hesitar em continuar fazendo o país pagar suas contas.

 

Não vai ter golpe? Espero que não. Mas se tiver, não vai ter sossego pra golpista. Como disse a presidenta, a palavra “golpe” estará para sempre marcada na testa de quem atentou contra o voto popular.

 

[16/4] Ouço essa canção algumas vezes por semana e toda vez fico admirado com sua perfeição. E como toda grande obra de arte, o seu sentido vai se revelando mais preciso, mais forte e curiosamente mais inapreensível a cada vez que ouço, dependendo do que acontece ao meu redor, dependendo do que acontece dentro de mim. É um parque de diversões para nossa sensibilidade, para nossa inteligência, para nosso desejo de vida nova. Oiça. https://www.youtube.com/watch?v=-pbC1QNXTEI

 

[16/4]

Declaración del Secretario General de la OEA, Luis Almagro, tras reunión con la Presidente Constitucional del Brasil, Dilma Rousseff:

 

[…] Además, es necesario resaltar que un régimen presidencial como el brasileño -y la gran mayoría de los de nuestro hemisferio, salvo el Caribe anglófono-, no puede operar de buenas a primeras como si fuese un régimen parlamentario, intentando la destitución, en este caso de la primera mandataria, por un cambio en la correlación de fuerzas políticas en la coalición gubernamental.

En efecto, la sostenibilidad del sistema presidencial no pasa exclusivamente por el Poder Legislativo y las alianzas que se generen en ese entorno. Esta es una realidad que es útil en materia de eficiencia para legislar y gobernar, pero que no sustituye el apoyo popular y soberano generado en el momento del voto a la actual Presidente. No se puede alterar esa ecuación de soberanía popular por variables de carácter político partidario de oportunidad. Si el constitucionalista hubiera deseado establecer un tipo de solución parlamentaria o semi-parlamentaria, entonces la hubiera estructurado de esa forma y serían completamente diferentes las lógicas de formación de Gobierno, la conformación de gabinete, la responsabilidad política y la salida del Gobierno, por ejemplo.

No emitimos un juicio de cual sistema –presidencial o parlamentario- es mejor, porque ello depende del pacto social y político de cada sociedad. Pero la organización del sistema constitucional brasileño es clara y, por esa razón, ha establecido los límites constitucionales para el ejercicio de un juicio de destitución. Desconocer esos límites afecta a la propia estructura de funcionamiento del sistema, así como distorsiona la fuerza y operatividad que deben tener la Constitución y las leyes. […]

http://www.oas.org/es/centro_noticias/comunicado_prensa.asp?sCodigo=C-044%2F16

 

[17/4] A sessão da Câmara abre às 14h e a previsão é de que a votação comece às 16h. Pelos meus cálculos, 513 deputados chamados um a um, se durar 1 minuto cada, exigirão quase 9 horas de votação, ou seja, até 1 da manhã da segunda-feira. Confere? Bom domingo pro Brasil!

 

[17/4] Quem votou nele? – é a única coisa que consigo me perguntar diante da tevê neste momento.

 

[17/4] Tudo bem, eu ando aqui defendendo a democracia, mas ser lembrado dessa forma trágica que, no caso concreto, ela é exercida por esses 513 brasileiros… é muito cruel com meu pobre otimismo.

 

[17/4] Os golpistas venceram hoje. Um punhado de golpistas deu mais um passo para rasgar os mais de 54 milhões de votos de Dilma. Relembro a frase de Darcy Ribeiro que publiquei aqui dias atrás: “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Sigamos: tristes, mas dispostos a enfrentá-los em todos os campos em que for preciso. Todos.

 

[18/4] Boa noite. (Noite propícia para o botão DESFAZER AMIZADE. Vale pra mim, vale pra quem se sente incomodado com o que publico. Se o facebook não serve pra nada, que ao menos seja um cantinho agradável pra gente trocar ideias com quem está indo pro mesmo lado. Jamais pra dar cotovelada em quem está na contramão. Não percamos tempo.)

 

[18/4] Três coisinhas e eu prometo que só volto daqui a alguns dias:

 

  1. Converse com seus amigos sobre o que significa um deputado homenagear, em plenário, perante todo o país, um comprovado torturador da ditadura militar. É pra gente assim que estamos entregando o país?
  2. Cadê aquela turma que disse que o governo estava pagando 400 mil por voto contra o impeachment? O dinheiro acabou ou nossos nobres deputados não aceitaram a oferta (por valor ou por valores)?
  3. O Anhangabaú estava uma delícia hoje e dá pra (re)construir um país a partir de tudo que havia lá. Ao trabalho.

Beijos.

 

[18/4] A gente discursa elogiando o poder da informação e da educação, mas sofre calado porque sabe que, na verdade, o buraco é mais embaixo. No fundo, no fundo, duvidamos das ferramentas culturais que poderiam fazer alguém se envergonhar de entrar pra história ao lado de Cunha, Bolsonaro e de toda a corja da bala, da bíblia e do boi. Mudar essa mentalidade não é mais fácil que malhar em ferro frio, ainda mais quando a baixeza dos ataques conseguiu colocar todo o debate num nível tão rasteiro.

 

[18/4] Uma estranha tontura, para além da indisposição que já vinha carregando. Já faz tempo que sinto no corpo os efeitos dessas pancadas que chegam pelas telas, pelos rádios, na fila do pão. Mas de ontem pra hoje tudo parece ainda mais intenso, mais insuportável. Eu prometi que passaria uns dias sem escrever, mas é apenas escrevendo que minha cabeça parece um pouco mais minha, mesmo quando tudo martela sem descanso.

 

*

 

PNEUMOTÓRAX

Manuel Bandeira

 

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

 

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

– Respire.

 

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

*

 

Lamento sempre que algum amigo decide viver fora do Brasil, principalmente quando o considero entre as pessoas de que um país cheio de problemas precisa para ser um país melhor. Mas hoje, revendo alguns dos discursos dos deputados e lembrando os rojões dos batedores de panela, me sentiria bem pouco sincero se dissesse pra alguém “fica, cara, vai melhorar”.

 

*

 

Nuno Ramos, que um tempo atrás já disse “suspeito que estamos fodidos”, disse ontem algumas palavras que viraram uma teia de que não consigo me desenredar: “Eu acho que o Brasil talvez leve décadas para se recuperar dessa estupidez. Acho que alguma coisa na sacralidade institucional foi profundamente ferida. A minha sensação é de estupor, de espanto. Me bateu uma tristeza funda, porque agora eu não sei se vou viver para ver as instituições se solidificarem de novo. A partir de agora, parece que a ilusão que a gente teve de democratização foi embora”.

 

*

 

Por todos os lados, gente que continua achando que a derrota de ontem foi de quem usa camiseta vermelha. Daí que minha única certeza hoje é querer estar por perto apenas de quem também está sofrendo, perplexo, com raiva. É ali que há alguém precisando de mim, é ali que há alguém de que preciso.

 

*

 

Where do I begin?

 

[18/4] Registro aqui, aos amigos, que aquela equação “pessimismo na teoria, otimismo na ação” está bem desequilibrada hoje, mas vai passar. Nosso desânimo faz parte das expectativas dos golpistas – e temos o dever de decepcioná-los.

 

[19/4] Ela está triste e estamos tristes com ela, por ela, ao vê-la ter que encarar – com admirável coragem e resistência – o golpe de que é vítima. Se tiver que ir embora, Presidenta, e parece que vai, pode seguir de cabeça erguida – não por este segundo mandato que foi impedida de começar, nem só pelo primeiro mandato, mas por toda sua história de luta.

Se algo ameniza a tristeza é a convicção de que, do lado sorridente da história, estão exemplos bem acabados do pior que este país já foi capaz de gerar, como Temer, Cunha, Bolsonaro, seus sócios, associados e admiradores. Lixo, lixo, lixo.

E não há decepção diante desse tipo de lixo, porque dele nada se espera. No domingo fizeram o que todos vimos: uma vergonha completa mesmo para quem, torcendo pelo “sim”, tem ainda algum bom senso. E já na segunda-feira começaram a desarmar as bombas sobre as quais estão sentados. Tudo indica que a bandalheira apenas começou.

Devo confessar a vocês que algum estudo e muita observação sempre me fizeram desconfiar de que a democracia, não só entre nós, se pode ser a mais linda das formas de governo, é também a mais frágil. E talvez a mais ilusória.

Pensei até em escrever para o deputado em que votei – Ivan Valente – pedindo desculpas por ter ajudado a colocá-lo naquele covil. Ele não merece. Jean não merece. Outros poucos não merecem.

Não vou dizer que não sabia, mas o escracho de centenas de deputados em fila nunca será apagado do lugar que reservo na memória para os fatos que não gostaria que se repetissem. Toda vez que tiver que votar lembrarei deles, toda vez que tiver que lutar será contra eles.

 

[19/4] Levo amizade a sério. Levo política muito a sério. Nunca, no entanto, encho à toa a paciência dos meus amigos com política. Mas foi triste demais ver gente de que gosto naquele link “amigos que curtem Jair Bolsonaro”. E entendo que, com suas convicções, lamentem ver a defesa da democracia e de “coisas piores” que sempre faço. Bolsonaro (com seus clones) sempre esteve bem além da linha do aceitável, até porque o cargo de deputado pressupõe a existência de democracia, e ele atenta o tempo todo contra a democracia, então não preza e não merece seu próprio cargo. É simples: a representação do povo jamais pode estar nas mãos de quem entende que o poder deve estar concentrado em poucas mãos muito longe das mãos do povo. Mas no último domingo Bolsonaro conseguiu ir além do além, ao dedicar seu voto ao torturador de Dilma. Um dos piores relatos da ditadura brasileira, para mim, sempre foi o de uma mãe que foi torturada – eu ia dizer “brutalmente”, mas é sempre bem mais que isso – na presença de seus filhos de 4 e 5 anos, na sede do DOI-CODI, por ordem e para prazer de Brilhante Ustra, o que já foi até mesmo reconhecido pelo Judiciário. É justamente este o homenageado do deputado. Do lado em que eles estiverem, faço questão de não estar. Se estiverem do lado deles, faço questão de que me contem no outro lado.

 

[20/4] Bela, recatada e do lar do fim do mundo:

 

[25/4] Há fatos por aqui que servem, sozinhos, para resumir a história do país. Penso, por exemplo, no que representa um grupo de políticos e empresários articulados ao redor de um deputado ladrão para dar um golpe em 54 milhões de votos – todas as linhas de nossa história se enredam aí, de um lado e de outro. O parlamentar que, na vigência mesmo que capenga da democracia, dedica a sua atuação a um torturador – eis uma aula com todos os elementos do que é o Brasil, ou melhor, por que o Brasil é, em grande parte, o Brasil que muitos querem transformar. Mais de dois terços dos deputados dedicando seus votos a qualquer coisa quando o correto seria não dedicá-los, mas fundamentá-los – está estampada aí a nossa cara. Outro exemplo: a ciclovia sobre o mar que, novinha, não resiste aos golpes das ondas, e os corpos das vítimas abandonados aos pés dos banhistas – é possível ver o Brasil desde 1500 encapsulado aí. É o Brasil do 7 a 1 – a festa que organizamos (com sucesso no palco, mas cheia de cadáveres no armário) para mostrar ao mundo nosso antitriunfo. É o Brasil do trator de última geração que engole índios, da usurpação de quaisquer direitos, da intolerância carnavalizada, do machismo que não se envergonha, do reacionarismo minuto a minuto na tela, da vassoura insistente a varrer nossas mazelas para debaixo de um tapete que já não esconde nada. Nada. Racismo, escravidão, extermínio. Privilégios, condecorações, vida gourmet. O país em que a expressão “persistência do intolerável” pode fazer todo o sentido.

 

*

 

É, a semana não começa leve. Mas talvez seja isso que tento dizer: nossa relação com o Brasil não pode ser leve, não pode ser suave, tranquila, favorável. Sair do Brasil que nos maltrata – ora com suas notícias, ora como personagem de suas notícias – exige que sejamos graves. Chatos. Impertinentes. Não temos o direito de desprezar, esquecer, fingir, deixar pra lá. Quando você percebe que o absurdo toma cada vez mais o noticiário e as conversas casuais (isto é, se já não soa tão absurdo assim o que é absurdo), é hora de reconhecer que, mesmo nas limitadas esferas em que cada um aqui pode exercer alguma influência, não estamos colocando força suficiente. É sobre isso que a crônica do Antonio Prata não deixa dúvida: não temos apenas avançado pouco, mas corremos o sério risco de andar pra trás, a passos largos.

 

[25/4] LICENÇA. Eu ia sair de fininho lá pras bandas do silêncio, mas reza a etiqueta que, como prova de apreço pelos amigos que publicam coisas boas aqui, devemos dizer um até-logo ou coisa que o valha. Volto assim que a listinha de tarefas deixar, mas tô ligado (e sondando o sondável). Qualquer coisa, uso email, celular, mensagens instantâneas, correio, telefone fixo e papo reto. Como diria o Carlos: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

 

[28/4] Gente, ando de folga daqui, um tanto porque a agenda está pesada e outro porque a paciência está no volume morto, mas tive que passar pra dizer como ando encafifado com a mudança de tom da imprensa nos últimos dias: Faustão dá palanque para petista, Fantástico dá voz a vítimas da ditadura, Veja frita Cunha na capa e o editorial do Globo diz uma pérola como esta: “A expectativa é que, passado o impeachment, o Supremo acelere definições sobre acusações a parlamentares encaminhadas à Corte pela Lava-Jato, entre os quais Eduardo Cunha, Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e vários políticos também de outros partidos. Será um desdobramento saudável para as instituições republicanas”. Cara de pau bastante previsível, claro: o golpe já passou (e é pior do que poderíamos imaginar!) e agora é hora de “deixar pra lá”, “panos quentes”. Ao lado dessas maravilhas da democracia repentina, notícias diárias de perseguição a professores e militantes por causa de suas ideias. O que vejo aí é a conjugação de duas medidas duríssimas contra a população: na mídia, desfazer a feição parcialíssima que ajudou a cozinhar o golpe; e nas ruas e escolas repreender com ainda mais brutalidade qualquer contraposição ao “novo governo”, bem como aos “velhos governos” (ladrões de merenda, p. ex.) que ao “novo” se filiam. Disso só pode resultar algo bem parecido com um regime de exceção. Exagero? Espero que sim.

[29/4] Nunca havia entendido bem a expressão “abaixo da crítica”, mas a cada aparição de Janaina Paschoal me parece mais evidente que há um talento admirável para levar o debate para níveis tão baixos, tão alucinadamente baixos que impede que seus críticos acompanhem a viagem. E, claro, impede também que quem precisa se defender de suas acusações consiga estabelecer algum contraditório minimamente razoável. Em suma, a crítica e a defesa ficam sem objeto, porque o que deveria ser seu objeto é apenas uma sucessão espalhafatosa de frases de efeito desconexas. Deste ponto de vista, não havia mesmo pessoa melhor para redigir uma petição contra a qual, de antemão, não se aceitaria crítica ou defesa, uma petição que não seria julgada, mas apenas aclamada, aos berros, “por deus, por minha família, pelo meu estado, pelo meu torturador predileto”. Ok, os golpistas venceram, mas o prazer e a honra de não estar do lado de Janaina e seu time é algo que jamais poderão roubar.

 

[1/5] Com muita alegria divido com vocês a publicação bilíngue de meus poemas mais recentes no site Vallejo & Co., do Peru (e do mundo!). Agradeço ao Fabrício Marques pelo convite, ao Mario Pera pela edição e, muito especialmente, ao Joan Navarro pelas traduções e a Veronika Paulics pela revisão. \o/

http://www.vallejoandcompany.com/13-1-poemas-de-tarso-de-melo/

 

[1/5] “Muitas vezes, mesmo antes da internet, as pessoas iam procurar aquilo que confirma suas crenças, ou que reconheciam como pertencentes ao seu mundo. Isso, eu acho que faz parte. É mais do que natural. O que acho que aumentou foi a diversidade de oferta de possibilidades de discursos, para as pessoas não terem de se identificar com um discurso. Isso ampliou bastante.

E ampliou, também, de certa maneira, uma espécie de independência com relação à própria produção da informação, porque ficou mais fácil: hoje todo mundo pode, de alguma maneira, produzir informação. É claro que você não pode produzir informação na mesma escala que a grande mídia produz. Mas muitas vezes, do ponto de vista qualitativo, você pode produzir, com poucos recursos, uma informação que pode bater de frente com aquela que é feita pelas grandes corporações, e pode apresentar uma outra versão dos acontecimentos, uma outra análise dos acontecimentos. Isso é possível! Antigamente não era possível, porque era preciso ter muito capital para isso. É uma mudança gigantesca.”

Entrevista fundamental do Prof. Laymert Garcia dos Santos, da UNICAMP, sobre nossa (des)conjuntura política e o papel que a comunicação alternativa (diga-se: alternativa aos grandes grupos empresariais de comunicação) deve exercer.

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/654/para-laymert-pais-ja-vive-estado-de-excecao

 

[1/5] Muito triste. Ao ler os argumentos de quem pediu e os de quem deferiu a proibição de uma assembleia acadêmica, fazendo uso de toda a isentíssima “técnica jurídica”, só conseguia lembrar das atrocidades históricas que já foram cometidas sob a feição de “aplicação rigorosa da lei”. Que minha memória tenha andado por aí não é um bom sinal.

 

[5/5] – Se fosse ele, cortava a merenda dessa molecada toda!

– Que merenda?

– Então mandava logo fechar a escola!

– De novo?

 

[5/5] Diante da liminar do STF que afasta Eduardo Cunha do mandato e da presidência da Câmara, podemos afirmar que:

(a) o Ministro Teori demorou tanto porque não teve tempo de julgar essa questão menor da República

(b) estava correto quem disse ao telefone que o STF estava acovardado

(c) o STF não se constrangeu de segurar essa liminar durante toda a parte do processo de impeachment conduzida por Eduardo Cunha

(d) daqui a algumas horas nós vamos engolir a derrubada dessa liminar

(e) Cunha concordou em sair dos holofotes para se ~defender~ melhor nos bastidores

(f) todas as anteriores

 

[5/5] Ementa acróstica do STF hoje:

 

Gângster

Ocupando

Lugar de

Presidente?

Enfim vimos.

 

[9/5]

business man

make as many business

as you can

you will never know

who I am

 

your mother

says no

your father

says never

 

you´ll never know

how the strawberry fields

it will be forever

 

(p.leminski)

 

[10/5] Você passa o dia enroscado em trabalhos e apanhando do noticiário oco de Brasília, mas sua forma de terminar a noite é pouco recomendada: lê um texto sobre as vítimas de Belo Monte, vê um entrevista com a família do Amarildo e folheia um livro sobre os novos ataques neoliberais pelo mundo. É uma forma bem eficiente e dolorosa de deitar convicto de que o buraco é muito mais fundo do que as manchetes de ontem e de amanhã deixam ver.

 

[11/5] Nem tudo que devemos admirar e aprender com Carlos Felipe Moisés é poesia (no sentido singelo de palavras sobre ou sob o papel), mas a parte mais incrível do que foi capaz de transformar em poemas está no volume “Dádiva devolvida”, que vocês conseguem comprar da Lumme, escrevendo para o Francisco no endereço info@lummeeditor.com. Corram.

 

[11/5] (O sol já golpeou o frio da madrugada.

Daí em diante, se há algo a contemplar,

não é da ordem dos astros. É desastre.)

 

[11/5]

Vocês viram algum nome de mulher na lista dos ministros de Temer?

 

Parece mesmo que, por trás do “tchau, querida”, há um retumbante “tchau, queridaS”, apoiado até mesmo por quem perde com ele.

 

Aliás, quem não perde?

 

[11/5] «Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito que tem sido

[…] Vejam como as águas de repente ficam sujas

Não se iludam, não me iludo

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

[…] Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei

Transformai as velhas formas do viver»

 

[12/5] A LUTA CONTINUA. Eu podia ser cínico e dizer: agora sim tivemos uma votação que reflete a vontade dos brasileiros de bem, agora sim teremos um governo honesto, agora sim teremos um governo competente, eficiente, capaz. Mas não é hora de deixar dúvidas: acredito mesmo é que entramos num período que tem tudo para ser dos mais terríveis da história do Brasil, porque começa com um golpe contra as urnas e coloca no comando o que há de pior na classe política brasileira, com sede de vingança não apenas contra Dilma, Lula e PT, mas principalmente contra o modelo de país livre, justo e solidário que se desenhou na Constituição há menos de 30 anos. É este o alvo dos principais ataques. Tem que ser este, portanto, o objeto mínimo de nossa resistência mais astuta e incansável. Teve golpe? Vai ter luta!

 

[12/5] «O macho adulto branco sempre no comando

E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo

Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita

Riscar os índios, nada esperar dos pretos»

 

[12/5] Há quem não saiba que foi um golpe: informe.

Há quem não concorde que foi um golpe: debata.

Há quem não ligue que foi um golpe: alerte.

Há quem comemore que foi um golpe: combata.

 

[12/5] Cadê sua indignação?

 

[12/5] Se você não se incomoda com o fato de Temer assumir o governo tendo cometido os mesmos atos que justificaram o afastamento de Dilma; se você não se incomoda com o fato de Temer ter trabalhado intensamente para derrubar Dilma e assumir seu lugar; se você não se incomoda com o fato de Temer estar negociando os ministérios da mesma forma ou ainda pior do que se condenou nos governos anteriores; se você não se incomoda com um ministério em que não há mulheres, não há negros, não há nem mais os ministérios que se dedicavam a mostrar a importância dessas questões historicamente trágicas em nosso país; se você não se incomoda com os ministros de Temer que são investigados pela Lava-Jato e passaram a ter foro privilegiado (mas se incomodou com a nomeação de Lula); se você não se incomoda ou nem mesmo leu as propostas da “Ponte para o Futuro” que nortearão o governo Temer no rumo da ~austeridade~ com aqueles que sempre perdem em qualquer crise — véi, na boa, confessa: você não liga pra corrupção, conchavos, miséria, autoritarismo, preconceitos, nada disso. Você só não gosta do PT nem admite que um nordestino e uma mulher tenham sido presidentes do “seu” país. Fica mais fácil assim.

 

[13/5] Repare a pressa de Michel. Ela é essencial para seu projeto. A pressa de Michel já aparecia em sua carta (argh!), depois no áudio vazado e nas articulações do pós-golpe que fazia à luz do sol. A pressa de Michel estava no entalhe midiático da primeira dama bela, recatada, do lar. Tudo porque a pressa de Michel é imensa e indispensável para levar a cabo seu projeto. Michel talvez diga que sua pressa se deve à gravidade da crise, mas não é. A pressa de Michel é o bote que tira vantagem do país atordoado, é a batida de carteira depois de uma trombada que distrai. Michel e sua turma não vão deixar esfriar nada, têm poucas horas para atacar todos os seus alvos – e é por isso que a turma de Michel tem que ser a pior possível (“equipe de notáveis”? adjetivos são ocos e alguém bem pode ser um notável pilantra!). E é por isso que hoje o perfil dos meus amigos está de cabelo arrepiado com a velocidade com que declarações e atos de nossas autoridades mudaram de rumo: investigações suspensas, processos arquivados, desmentidos de todo tipo. A pressa de Michel é essencial para os golpistas porque eles sabem que seu projeto não foi votado, não tem nem nunca terá a legitimidade do voto da maioria da população brasileira. Nem Michel acredita nessa história de “quem votou no PT, votou no PMDB também”. Nem Michel! E é por isso que ele sempre foi a liderança de um partido especializado em ocupar o poder sem ser cabeça de chapa, sem dar a cara, porque a cara de Michel e sua turma não agradam, porque a cara de Michel e sua turma é mais impopular – digo: antipopular, contra o povo – do que eles conseguem esconder. Ninguém ganha eleições no Brasil com uma “ponte para a futuro” sob a qual – já disse o André Dahmer – os pobres brasileiros terão que se abrigar. Michel tem que espancar logo, como um Mike Tyson no auge, uma sequência de golpes incontáveis para não ter reação. Se deixar esfriar, se não agir com pressa, o caldo pode entornar. De um lado, a infinidade de investigações que levam a si próprio e a seus sócios pode chegar até o pescoço do seu “governo”. De outro, o povo pode começar a perceber e se organizar contra os ataques. Passando o rodo de uma vez, quando a gente se tocar, levantar os olhos da tela do facebook e olhar em volta, tudo já terá sido engolido. Golpe é golpe. Só vai nos restar a satisfação sem graça de andar por aí repetindo “eu não disse?” para um interlocutor que não mais estará ao nosso lado. Ou talvez nunca tenha estado.

 

[13/5] O sanduba tá bom. Farto, preço honesto. Vem com fritas e Coca, mas cercado de papo político: “são tudo bandido também, mas pelo menos tiraram aqueles vagabundos”. Servido?

 

[13/5] “Eu conheço o bicho humano. É o único animal que tropeça 20 vezes na mesma pedra. Cada geração aprende com aquilo que vive, não com o que as outras viveram”. Já postei aqui essa lição do Mujica, mas é sempre bom ouvir e ouvir e ouvir de novo:

 

[13/5] “É verdade que o país ainda está longe de alcançar os objetivos expressos no texto constitucional, tais como erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais. Mas também é verdade que avanços têm sido perpetrados neste caminho, desde a redemocratização. Por isso, é preciso defender inabalavelmente as recentes e, por isso, frágeis conquistas, e anunciar que toda e qualquer medida que implique em retrocessos será deflagradora de profunda repulsa e denúncia por parte dos movimentos de direitos humanos.”

Nota pública fundamental da Conectas Direitos Humanos:

http://www.conectas.org/pt/noticia/45639-retrocessos-inaceitaveis

 

[13/5] Lembrete: “In our age, the mere making of a work of art is itself a political act” (W. H. Auden, “The Poet and the City”).

 

[14/5] ~dias tão estranhos~

 

[14/5] Os “secundas” estão mostrando a todos nós que a luta pela educação tem condições de ocupar, com centralidade, o lugar que outras lutas populares tiveram em épocas recentes no Brasil. Se na virada dos 70 para os 80 a luta dos metalúrgicos foi capaz de transcender os limites da reivindicação trabalhista e passar a ser um elemento-chave na luta por democracia; se daí em diante a luta dos sem-terra passa a ser também uma luta por melhor alimentação, produção sustentável e, claro, também por uma sociedade mais justa e democrática em todos os setores; a cada embate dos estudantes com as autoridades fica mais evidente a força que o debate sobre educação pode ter numa transformação de nossa sociedade para muito além dos portões das escolas. A gente repete, meio no automático, que a educação é fundamental, mas percebe mesmo é que o fundamental para uma sociedade problemática é que a educação esteja sempre lado a lado com o questionamento da lógica que se impõe aos estudantes dentro e fora das escolas. É isso que a moçada está fazendo. No ritmo deles. E me parece que não vão ligar nem um pouco para quem vá lá dizer como deveriam lutar ou não lutar. O baile é deles. Num momento de profundo retrocesso como o que estamos vivendo, é um grande alento ver surgir, com tanta força e alegria, gente nova que quer vida nova.

 

[15/5] O atraso tem pressa – incrível, não?

 

[16/5] Marchas, panelaços, apitaços, vomitaços. Parece pouco, pode ser, mas é muito importante tudo que puder lembrar – nas ruas, janelas, telas – que o governo está nas mãos de golpistas. Sigamos fazendo o barulho que estiver ao nosso alcance.

 

Boa semana de luta!

 

PS: Por que o panelaço contra Temer é diferente do panelaço contra Dilma? Não bati panela, mas entendo quem o fez hoje. Vejo um problema nesse tipo de panelaço que virou moda aqui: fazer barulho para não ouvir o que seu “oponente” está dizendo. O ideal, a meu ver, seria ouvir para depois contestar. Dilma, que foi eleita por 54 milhões de brasileiros, tinha todo o direito de ser ouvida em seus pronunciamentos. Devia e deve ser respeitada quando estiver falando, porque respeitá-la é respeitar todos que nela votaram. Mas esta não é a situação de Temer, que saltou de vice a presidente por força de um golpe contra a pessoa e o partido que mobilizaram a votação vencedora. Temer não tem legitimidade para exercer o cargo e, portanto, não temos qualquer razão para respeitar seus pronunciamentos. Quando Temer fala como presidente não temos razão alguma para ouvi-lo como presidente: o cargo não é dele, a cadeira não é dele, a caneta não é dele. Quando pega o microfone e fala como presidente, Temer tenta esconder sua ilegitimidade, então é bem razoável sufocar sua fala mansa e seu mandato falso.

 

[16/5]

Passamos mais de uma década dizendo que não era um problema de “mais corrupção” (houve muita, sim, como sempre), mas de “mais fiscalização e punição” que dava a impressão de estarmos diante do governo mais corrupto de todos os tempos, quando em verdade estávamos diante dos governos que mais se deixaram fiscalizar e punir em nossa história.

Da montagem do ministério de notáveis suspeitos às declarações de Alexandre de Moraes hoje ([o MP de SP] “Investiga vários casos. A única diferença em relação ao governo federal é que o governo de SP é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalo”), passando pela imediata extinção da Corregedoria Geral da União, tudo indica que o interregno Temer vai se distinguir pelo contrário: fiscalizar menos, punir ninguém, proteger os seus e, assim, passar a impressão de que a corrupção morreu junto com o governo golpeado. E a grande imprensa, com certeza, terá prazer em ser parceira dessa empreitada. Voltaremos a não saber da existência, então voltaremos a achar que não existe.

 

O que vejo à frente me parece tão ruim que só espero estar errado, bem errado!

 

[16/5] SAI DA TOCA, BRASIL – A série de textos que Alexandra Lucas Coelho escreveu sobre o Brasil nas últimas semanas é pra imprimir e guardar no bolso. Pra pensar e pensar. Alexandra é de e vive em Portugal, mas está longe de ser a “observadora distante” de nossa improvável realidade, seja porque morou no Rio durante um tempo, seja porque dialoga intensamente com o que há de mais vivo na cultura brasileira. É ler pra crer.

(1) https://www.publico.pt/…/notic…/sai-da-toca-brasil-1-1730002

(2) https://www.publico.pt/…/notic…/sai-da-toca-brasil-2-1730587

(3) https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/sai-da-toca-brasil-3-1731036

 

[17/5] Diante do noticiário, você costuma se

(t) assustar

(e) desesperar

(m) enojar

(e) revoltar

(r) todas as anteriores

Enjoy the silence

(Política, cultura, futebol, direito, literatura, amenidades. Ando atento, lendo tudo e escrevo aqui e ali algumas linhas, mas nem sempre aperto o “publicar” e elas se perdem no escuro do que esqueço. Ou moram calmas num caderno sempre a tiracolo. Estas linhas aqui, por exemplo, penei muito antes de colocá-las na praça, mas tem amigos – ah, os amigos! – estranhando meu silêncio sobre isso, sobre aquilo. Não estranhem. Isso começou quando aprendi a perguntar pra mim mesmo, com sinceridade, “posso passar sem dizer isso?”, “os outros podem passar sem me ouvir dizer isso?”, “preciso mesmo?”. Não é fácil quando se sofre da mania de falar, escrever, intervir. Desde então, das portas pra fora da minha cabeça, há menos barulho. Da porta pra dentro, talvez, um pouco mais de algo que não tem nome, mas me agrada. Fico feliz pelo que faço pelo silêncio. Fico feliz pelo que o silêncio faz por mim.)

Sobre a reedição de “Mein kampf”

Taí um debate espinhoso: a reedição de “Mein kampf”, daquele cara do bigodinho que queria dominar o mundo e decidir quem era bom o bastante pra conviver no que sobrasse aqui – em resumo, “seus iguais”. Por princípio, quem leva a sério a liberdade de expressão – e sabe da importância que ela tem para uma sociedade democrática – não admite controle sobre o que dizem as pessoas, nos jornais, nos livros, em redes sociais, em qualquer lugar, em qualquer tempo. A regra clássica, nas sociedades democráticas, é: diga o que quiser, mas será responsabilizado pelos danos que causar. Fora disso, por causa da ameaça de algum dano, apenas excepcionalmente se admite restrição (prévia) à liberdade de expressão, em geral fazendo constar da legislação sanções que, no mínimo, desestimulam a expressão de opiniões e informações que ofendam ou possam ofender quem quer que seja. Isto porque admitir restrição à liberdade de expressão (o que inclui, por exemplo, impedir a publicação de livros que difundam o ódio contra este ou aquele grupo social) implica assumir riscos imensos, porque qualquer restrição se basearia numa determinação prévia dos limites do que pode ou não ser expresso, ou melhor, do que é ou não ofensivo e, assim, do que pode e do que não pode ser ofendido.
Não faltam espinhos aí, a começar pelo fato de interpretarmos de modos muito diversos o mundo presente e de sermos ainda mais discordantes quando se trata de dizer como deveria ser o mundo futuro. Não há como definir tais limites sem tomar partido. No caso de “Mein kampf”, no entanto, não é difícil perceber quais são os limites desrespeitados pela obra, que, na verdade, é a base do discurso de ódio colocado em prática por seu autor quando assumiu o poder, com todas as consequências terrivelmente concretas que conhecemos. Não se trata, portanto, da manifestação de um pensamento que ainda não sabemos aonde quer chegar, mas, muito pelo contrário, de um pensamento que já mostrou suas garras e, por isso, foi repudiado expressamente pelos direitos que se erigiram após a Segunda Guerra.
Não falo aqui, é claro, para aqueles que desconfiam dos crimes atribuídos ao nazismo e muito menos para aqueles que concordam com ele. São casos perdidos. Falo, em especial, a quem, como eu, se sente incomodado ao ter que dizer: “este livro não pode gozar de liberdade de expressão como um livro qualquer” – porque liberdades não são defendidas para autorizar discursos de ódio, tampouco a comercialização irresponsável de um discurso que é criminoso, ofensivo da legislação internacional e nacional dos direitos humanos. (Poupo-os de explicar em detalhes porque, por exemplo, a afirmação da superioridade de uma raça sobre todas as demais é incompatível com qualquer noção humanitária.)
Em cada lugar do mundo em que esse livro vier a circular, por óbvio, ele terá um efeito, a depender da forma como a edição for tratada, claro, mas também do ambiente político em que o livro vier a pousar. No Brasil, por exemplo, nas recentes manifestações pelas ruas, compareceram grupos ostentando lemas e símbolos nazistas (pelo que sei, não têm sido punidos); nas redes sociais são encontrados diversos grupos neonazistas pregando o ódio em frontal ofensa à legislação (pelo que sei, também não têm sido punidos); há até mesmo políticos que, no exercício de seus cargos, defendem posições de ódio típicas do nazismo. Tudo isso cria um caldo terrível para a recepção do livro por aqui e, a meu ver, é justamente por isso que se deve cobrar dos editores (como, ademais, de todo o circuito dos livros: livrarias, imprensa etc.) muita seriedade e responsabilidade na forma como o livro chegará ao mercado no Brasil. É muita falta de escrúpulo embarcar nessa onda neonazista e, ainda mais, tentar amplificá-la para vender mais livros, e isso não pode ser menosprezado.
Enfim, é por essas razões que apoio o boicote, proposto por alguns escritores e professores, às editoras brasileiras que já se adiantaram a uma divulgação no mínimo irresponsável do livro por aqui. Embarcar na onda neonazista é neonazismo, seja por convicções ideológicas, seja por interesses comerciais.
Aliás, há um precedente aqui no Brasil, de que vocês devem lembrar, conhecido como Caso Ellwanger, julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 2003. O STF, então, tinha que decidir se a edição de livros com teses antissemitas devia ser considerada como estímulo à discriminação dos judeus e, ainda, se valia para o judaísmo a imprescritibilidade que a Constituição prevê para o crime de racismo. Por maioria, o tribunal manteve a condenação do editor gaúcho:
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp…
Nada impede, portanto, que os editores de “Mein kampf”, principalmente aqueles que tratarem desse livro como de um produto qualquer, inofensivo ou a ser interpretado livremente, sem considerar o que já existe de consolidado (juridicamente, ao menos) a seu respeito, venham a ser responsabilizados também. Ódio é sério.

PS 1: para saber sobre o boicote, veja o perfil do Ricardo Lisias no facebook.
PS 2: para saber sobre as edições brasileiras que estão sendo feitas, há uma boa matéria aqui: http://www.suplementopernambuco.com.br/…/1530-em-debate-as-…

Sobre a enquete (Sobre poesia, ainda)

Foi em março de 2015 que comecei com essas entrevistas do SOBRE POESIA, AINDA aqui no blog. Dos cerca de 50 convites que fiz, tive 25 respostas ao longo do ano passado: Dirceu Villa, Eduardo Sterzi, Guilherme Gontijo Flores, Adriano Scandolara, Carlos Felipe Moisés, Paulo Ferraz, Heitor Ferraz Mello, Reynaldo Damazio, Dalila Teles Veras, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Carlos Ávila, Carlos Augusto Lima, Sergio Cohn, Fernando Fiorese, Lucas Bronzatto, Helio Neri, Danilo Bueno, Ruy Proença, Pádua Fernandes, André Luiz Pinto, Casé Lontra Marques, Ricardo Aleixo, Prisca Agustoni e Júlia Hansen. Desde o início eu temia que insistir nas mesmas 5 perguntas poderia fechar demais a conversa, mas a cada resposta que chegou pude constatar que o universo de cada um desses poetas era mesmo capaz de levar a enquete para um alcance que eu jamais poderia (ou quereria) prever. Começo 2016 com mais um poeta – Thiago Ponce de Moraes – que estica as possibilidades da enquete e, assim, me faz acreditar que devo continuar com a tarefa: encher a paciência de alguns convidados e convidar outros poetas para a roda, porque a vontade de fazer um livro com essas ideias é cada vez mais forte. Acho que merece.

Sobre poesia, ainda: Thiago Ponce de Moraes

thiago

  1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Nada obriga a poesia a nada. E, no entanto, parece que a poesia sempre está a procurar outra coisa para fazer. Que está a procurar fazer a mesma coisa outra vez, pela primeira vez, retornando para casa. Uma casa que não se sabe onde está, nem se nela um dia já esteve. Talvez o mais importante dessa passagem seja mesmo o procurar – sendo aí um procurar sem fim, na ambiguidade que qualquer busca em poesia proporciona. Inaugurando o fazer esta coisa, inaugurando o fazer desta coisa sem causa ou casa. A mim parece que a poesia está sempre a caminho, está sempre a alastrar-se, contaminando e contaminando-se de mundo, de outras escritas e formas de vida: numa espécie de viagem para a qual não há mapa possível; numa espécie de mapa no qual não há nada escrito, nada demarcado – e, por isso, há ainda possibilidade para tudo; para buscar, para encontrar, para perder – outra coisa ou a mesma; a si mesma ou ao outro.

Acredito que não haja uma relação de causa e efeito entre a hiperexposição generalizada e o poema. Claro está que o poema pode se valer disso – como pode se valer de toda e qualquer coisa que está aí – tanto quanto pode ignorar veementemente essa, por assim dizer, característica de nossos tempos. Ocorre que não há nada a priori estabelecido para o poema: ele pode muito bem fazer nascer a temporalidade que for, num anacronismo deliberado e riquíssimo que recupere ruínas e as erga em seu esfacelamento frente a nossos olhos. O poema elege seu aqui e seu agora, num gesto de forte coesão histórica, e apresenta sua presença a partir daí. Lembro sempre de Ricardo Reis e de suas odes em pleno século XX. Em uma carta, disse certa vez Fernando Pessoa a esse respeito: “os poemas de Ricardo Reis são em verdade contemporâneos por dentro da idade eterna da Natureza”.

  1. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a «em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos»?

Costumamos ouvir, numa afirmação genérica bastante difundida, que “não há lugar para a poesia num mundo como esse”; ou, nessa mesma frequência, ouvimos questionamentos sobre o porquê da poesia hoje. Inclusive, esse tipo de discurso movimenta discussões sobre “mercado editorial”, “recepção das obras”, “leitores de poesia” etc. Mesmo Adorno chegou a cogitar sua (da poesia) inviabilidade frente a tanta barbárie – se bem que depois de ler Paul Celan reviu sua posição.

O bom de admitir que não existe o «tal lugar da poesia» é justamente perceber que a poesia pode estar em todo e qualquer lugar. E que, em vez da estabilização – que é tão cara a toda nossa tradição de pensamento –, temos o instável não-lugar da poesia, um lugar a caminho, para o qual não há roteiros, o qual não é possível circunscrever, pois está sempre em ultrapassagem de si próprio – ou a alargar fronteiras que, no desbordarem-se, anexam novos territórios, paisagens e rumos indefiníveis indefinidamente. Lembro das palavras de Celan, mais uma vez: “o poema afirma-se à margem de si próprio; para poder subsistir, evoca-se e recupera-se incessantemente, num movimento que vai do seu Já-não ao seu Ainda-e-sempre”. Eis o seu lugar, o lugar da poesia, esse quase não ser mais si, mas também (estar à beira, diante do abismo da linguagem, em pura vertigem), esse deslocamento no tempo a fundar um espaço – que faz viver com suas palavras e imagens, com seus traços e riscos; com seu ritmo.

  1. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um «fingimento deveras»?

O poeta é um fingidor que finge com verdade, genuinamente, do contrário não fingiria. O fingimento que o poeta finge ficciona e funda as feições daquilo que chamamos de real; então o poema: que se nos apresenta encenando sua própria presença; que faz nascer em nós sensações que não sabíamos ter; que imita o que não estava lá, fazendo com que agora esteja e seja a partir de sua enunciação. Nesse sentido, o poema, como forma de vida-arte (indiscernível) que é, é um fingimento que não reproduz o visível, mas torna visível, à maneira do que diz Paul Klee. Um «fingimento deveras». Inaugural.

  1. «Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta». Do que seus poemas têm fome?

De vida, da vida de outros poemas, de outras formas de vida. De algo como a linguagem e suas falhas; da impotência comunicativa da linguagem. De algo como um ribombar, um estremecer qualquer – um som de pronúncia desconhecida, um grito, um súbito estatelar-se.

Com Celan, ainda uma vez mais, o poema é o lugar onde todos os tropos e metáforas querem ser levados ad absurdum. Os poemas têm fome de vida; portanto, de absurdo: de indizível e de ilegível; de impronunciável, de inexprimível. O absurdo que é atravessar tudo, atravessar-se: travessia que não exige saídas ou entradas, roteiros ou acordos prévios – riobaldianamente: “Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! — só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou (…). O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”. O poema tem fome do absurdo que é a vida – essa travessia pelo absurdo real que é o haver vida – já o sabia Cabral: “O que vive choca,/ tem dentes, arestas, é espesso./ O que vive é espesso/ como um cão, como um homem,/ como aquele rio”.

  1. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Acredito que precisemos apreciar mais o desconhecimento, o mistério que toda a vida (o poema, os demais objetos de arte, o ordinário dos dias) nos lega; e, mais que isso, buscar estar numa posição de não-domínio sobre as coisas, de perda de controle. Frente ao poema, frente à arte, frente à vida: saber dizer menos sobre, querer dizer menos sobre. Deixar-se atravessar por essas coisas, sem a necessidade de organizá-las, higienizá-las, estabilizá-las.

Escolher apenas um poema é tarefa ingrata, vai na direção contrária das coisas que acabo de dizer (se digo o que penso ter dito, afinal). Muitos poemas me parecem, hoje, «fazer todo o sentido» – porque perfazem diversos sentidos sempre e não somente um. Para efeito do jogo, escolho. Entre os tantos pensados, optei por aquele que mais parece dialogar com cada uma das questões aqui colocadas – e com os caminhos que algumas “respostas” tomaram.

Seja este então o porquê (difuso, necessariamente) de escolher o poema 1052 de Emily Dickinson – poeta que viveu reclusa grande parte de sua vida, tendo publicado apenas alguns poucos poemas, apesar de sua vastíssima obra –, em tradução que fiz há alguns anos:

 

I never saw a Moor –

I never saw the Sea –

Yet know I how the Heather looks

And what a Billow be.

 

I never spoke with God

Nor visited in Heaven –

Yet certain am I of the spot

As if the Checks were given –

 

Eu nunca vi um Urzal –

Eu nunca vi o Mar –

Mas já sei eu como é a Urze –

E o que é um Ondear.

 

Nunca falei com Deus

Nem visitei os Céus –

Mas sei chegar ao sítio Teu

Qual Mapa eu tivesse –