Do fb pra cá: mais setembro

[13/9] Boa surpresa. Soube hoje que a Vera Lins resenhou meu livrinho.

http://escritos.rb.gov.br/

 

[15/9] “Quando aparece um poeta assim, salta em nossa cara uma verdade das mais úteis: há lugares a que só podemos chegar pelos caminhos da poesia e, normalmente, são lugares em que jamais imaginamos estar”. Texto meu lá na Revista Caliban sobre a (e sob os efeitos da) poesia de Reuben Da Rocha.

https://caliban.pt/q-%C3%A9-e-%C3%B1-%C3%A9-um-rol%C3%AA-com-reuben-da-rocha-3ffd62d842f0#.oinliwohm

 

[16/9] Eu não tenho provas, mas tenho a convicção de que os procuradores não disseram, mas bem poderiam ter dito que não têm provas, mas apenas convicção, porque faz tempo que, por aqui, dizer e não dizer, fazer e não fazer, ser e não ser, na real, já são a coisa que menos importa provar diante das imutáveis convicções que movem nossa vidinha política, jurídica etc.

 

[16/9] História da humanidade (com spoiler)

 

Deus fez a mulher. Estava à toa, fez o homem.

O homem foi fazendo o que dava na telha.

Deu na telha a Bayer. Deu na telha a Monsanto.

Deu na telha juntar Bayer e Monsanto.

Fim.

 

[16/9] No próximo sábado, 24, às 19h, no projeto Viva Voz da Casa das Rosas, converso sobre meus livros com Reynaldo Damazio e Julio Mendonça, leitores mais que especiais. É só chegar.

http://www.casadasrosas.org.br/agenda/viva-voz-conversas-com-poetas-contemporneos-tarso-de-melo

 

(Aliás, peço a paciência dos amigos aí, porque nas próximas semanas vai ter muita autopropaganda por aqui… Sai no fim do mês o romance de Renato Russo sobre a banda imaginária “42nd Street Band” (Cia. das Letras), que eu organizei e o Guilherme Gontijo Flores traduziu. Tem o lançamento da antologia “Inventar la felicidad” (e-book da Vallejo & Co., do Peru), que organizei com o Fabrício Marques, apresentando 12 poetas-bomba nascidos de 1980 pra cá. E tem em breve no ar o filme que Alexandre Macedo, Janaína Welle e Joao Correia, da Mó Documental, fizeram com meu poema “Íntimo desabrigo”, para a TV Futura. Só alegria.)

 

[18/9] NOJA. A revista Noja incentiva o corte da cabeça de Lula. Noja, o panfleto do que há de pior no mundo, gosta de sangue, sempre gostou, não tem salvação. Noja sabe que, com a cabeça de Lula, cai bem mais que uma pessoa, bem mais que um político específico. Com o sangue que correr do pescoço dele, cai também uma certa forma de pensar as soluções para os problemas do país. E isso vai bem além do nojo de Noja e do indivíduo Lula. Lula não é, pessoalmente, a garantia de que este país pode ser melhor, mas os entusiastas de sua derrubada – sem provas, sem trégua, sem limites – veem no ataque a ele bem mais do que o ataque a uma pessoa. Ao calar Lula, ao tirá-lo do páreo, o que Noja almeja é impedir que qualquer pessoa ou grupo possa levantar a voz para dizer que este país deve seguir para um rumo diferente daquele que interessa a Noja e seus patrocinadores. Você pode não defender Lula ou até mesmo ser insensível à exposição de sua cabeça cortada nas bancas de jornais, mas, se for trabalhador, deveria estar preocupado com as razões pelas quais há um ataque tão violento a um político e, para além dele, ao que ele representa. Se tiver serenidade pra estudar o assunto, vai perceber que Lula, o Luiz Inácio, é um detalhe nisso e que, na verdade, é nossa cabeça que está sangrando nas bancas hoje.

Puxado

tá puxado. vi a segunda temporada de narcos nos últimos dias. hoje algo me fez ver a entrevista de cunha e sua esposa. não consigo separar as duas coisas. há algo fundo ali entre eles. ao lado da entrevista do deputado, a indicação de uma entrevista de fernandinho beira-mar. não vi mais que um minuto. já não consigo separar as três coisas. alguém me mandou um vídeo do candidato em primeiro nas pesquisas da prefeitura de sp esculachando uma operadora de caixa de supermercado. já não consigo separar as quatro coisas. um outro amigo me chamou atenção para o passa-moleque do prefeito de sp num intelectual que baba de raiva. eu devia achar graça, mas já não rio. nem consigo separar as cinco coisas. chegou também a notícia do coronel da pm que violentou uma menina de dois anos. e do candidato do rio que se fantasia de hitler. e mais. e mais. e cada vez menos. os amigos já não acham que sou tão pessimista assim. e outro amigo me chamou atenção para caetano cantando o hino no stf ao lado de temer, ao lado de todos eles, para os aplausos de todos eles e, claro, como aplauso ao que todos eles são. tristeza, tristeza. já não consigo separar essas coisas todas. nem quero. a vida não pode ser isso. não pode ser só isso. esse lugar em que tudo se ameniza, se ajeita, se anestesia, se apazigua, tudo se banaliza no pior ponto possível. ou ainda antes que o pior ponto nos seja apresentado. não sei. só sei que vai ter gente lá fora dos salões e das telas sofrendo por causa dessas entrevistas polidas, dessas poses calculadas, dessas cortesias, dessas notícias que vão se perder na memória. tem gente lá fora, tem gente fora dos esquemas, dos jogos de cena, das composições. tem bem mais gente fora do que dentro deles. preciso acreditar nisso. precisamos acreditar nisso. mas tá puxado.    [12/09, fb]

Sobre poesia, ainda: Manoel Ricardo de Lima

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  1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

 

– Talvez seja possível pensar numa modulação diante do contrassenso da “rede social”, porque ela não engendra nenhum neutro, nenhum impasse, nem muito menos nenhuma tomada de posição. E essa hiperexposição é apenas, praticamente, a ideia de uma geografia admitida. E se algo “obriga” a poesia é porque sem nenhuma escuta e sem qualquer impessoalidade ela apenas avança e se imprime sem inscrição e sem demora como uma matéria, uma materialidade precária, logo como algo meramente biográfico, íntimo e visível. Isto, de algum modo e ao mesmo tempo, amplia e reduz severamente o jogo entre algumas possibilidades de ver e algumas possibilidades de escuta e para a escuta. Sem esforço e topando esse jogo reduzido, sim, é possível dizer que a poesia se “funde”, e até que “já era”; mas nunca que ela se “confunde”.

Por isso, uma pergunta é o quanto ainda é importante recuar diante do próprio reflexo impresso para fazer a poesia, com toda a força, desaparecer. Este desaparecimento é a sua contingência de esforço para não abandonar e nem abolir a sua estranheza em prol de um acesso ao convívio, e ao comum, como se se dirigisse a um leitor ou espectador. A poesia é o que vem num “grau do irrepresentável”, como  sugere a Maria Filomena Molder, porque se esforça para ultrapassar o visível, o sensível, o corpo, a respiração, a terra, o sofrimento etc. sem propor tabula rasa ou salvação a isso e com tudo isso. E se há um comum que ainda pode vir com a poesia que vem, como outra coisa, numa partilha política da terra, é por exemplo na radicalidade de uma operação crítica que possa desmontar todo alfabeto inflacionado [este elemento de “obrigação” e uso muito próprio dos povos policiados e escravizados].

 

  1. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

 

– Ao tentar pensar com o pensamento, Silvina Rodrigues Lopes, em alguns de seus textos em torno da poesia, se pergunta acerca da negação da estranheza em favor da novidade e do egocentrismo e, mais ainda, quando essa estranheza passa a ser incorporada também como um mero produto de feira, de supermercado. O que a anula. Uma imagem da literatura entre comércio e relações públicas, consumo, turismo cultural, um bibelot ou um croissant. Por isso ela defende, e imagino que apoiada em Derrida, a “estranheza irrecuperável”, a que não é um mero contrário da normalidade, a incondicional, a que só pode ser acolhida diante de uma hospitalidade radical. Ou seja, “acolher o inadequável” é quando a poesia se dirige a uma exigência, a uma emergência. Se os “tristes périplos”, como você invoca, giram em torno dos processos quase sempre pessoalizados [EU faço assim, EU faço assado etc.], talvez fosse interessante se pensar numa memória de cegos em que a questão não é o “lugar da poesia” ou o “lugar do poeta”, mas sim o que ainda pode gerar possibilidades de encontro; ou seja, muito mais com uma poesia que procura se perguntar o tempo inteiro como desmontar e enganar esses “lugares” admitidos para tentar compor uma geografia radicalmente imaterial e, principalmente, como confiar tudo como se fosse nada.

 

  1. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

 

Um ponto é uma arqueologia fixa e mapeada em torno do poeta como o que ainda afirma lugar e circunstância, incluindo-se aí o fingimento. Outro empenho, numa arqueologia mais oscilante, é projetar uma responsabilidade entre “como desmontar” e “como enganar” a poesia, ou seja, ao mesmo tempo, como desmontar e enganar todo mapa, toda cartografia e, mais ainda, como desmontar e enganar com a poesia toda possibilidade de construção do que se costuma chamar de um “sistema para uma cartografia de possíveis”. Uma questão, para destruir a destruição, é se a poesia pode projetar ainda algo mais perto do impossível e mais longe da rigidez violenta que há em todo mapa, em toda cartografia, como controle e poder.

 

  1. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

 

– Há uma fome extrema, de tudo, nos lembra Herberto Helder. E ele nos diz que essa fome é fêmea. O que a torna muito mais forte porque quase sempre não tem lugar diante dessa história prévia: masculina, branca, asséptica etc. É a fome de bosta seca dos animais”. Isto é também um estado oscilante de devoração. A fome é capaz de produzir uma ação, um vamos fazer coisas. Mas isto é um aberto, e nunca algo confinado num si mesmo. É uma ação no e para o mundo. Por isso, para ele, “escrever acabou-se”, “a literatura não é um fato, um ato sério”, porque “o mundo não está para futuros” e o poeta é sempre um mero “rival do mundo”. O ponto é que agora estamos apenas diante de uma estratégia que se deixa visível como um modelo e segue um mapa de consumição. Uma contra-armadilha seria, ainda, pensar o pensamento da poesia como contingência arriscada, livre, um “se possível fosse” ou “a criança preenchida”. E aí a questão nem é com os “meus poemas” nem do que os “meus poemas” têm fome, mas retirar daí o pronome possessivo e pensar qual fome um poema ainda é capaz de produzir como engendramento de boca – apetite e, ao mesmo tempo, devoração – e, mais ainda, como uma desarticulação severa de todo si mesmo a partir da infância que é capaz de inventar.

 

  1. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

 

– É possível pensar que, muitas vezes, o poema [e a poesia] aparece[m] de outro modo, mais distante do verso e mais próximo da linha e de sua impessoalidade, quando, quase numa brincadeira, essa linha nos reorienta o olhar e o corpo para desfazer o horizonte e, principalmente, o centro. Quando o poema é um corpo composto de amor, fúria, estranheza etc. Aquilo que de algum modo, numa anotação, pode simplesmente tocar com força a causa do outro – aí pode estar, ainda, como demora e morada, o poema:

1] lembro de uma coluna do Torquato Neto, de 14.09.1971, uma terça-feira, intitulada Pessoal Intransferível. E este título rearma toda injustiça do ser entre o “pedaço” e a “medida do impossível”: por isso “destruir a linguagem”, “quem não se arrisca não pode berrar” e é sempre o homem mesmo se for um boi.

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2] depois, do ano seguinte, 1972, o Acto Gratuito de Nicanor Parra, do livro Artefactos. Também desde o título, e num revés, é a ordenha de uma vaca que desfaz o mapa e produz um recuo e um passo-além: quando um animal nos olha contra a nossa presunção de imaginar que sabemos o que lhe passa na cabeça. Ou algo assim: como acolher, ato gratuito, o outro como outro.

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Do fb pra cá: setembro

[1/9] Não sei se lembram do velho Atsi Plog, ditador de Lisarb, que no distante ano de 6102 proibiu que o povo dissesse as palavras como até então diziam, como todos seus antepassados mais admiráveis diziam. A intenção de Atsi Plog, com essa medida, era criar um abismo entre o mundo em que seu povo via sentido e o mundo que ele então instaurava à força. Desde então, todos em Lisarb falam de trás pra frente, mas ainda hoje o povo sabe o que quer dizer de verdade quando pronuncia o nome de Atsi Plog.

 

[1/9] Um mandato inviabilizado para ser chamado de inviável

Estão circulando por aí alguns textos contra o golpe que, a meu ver, têm um erro grave nos seus pressupostos. Um deles chega a afirmar: “o desastre que foi o segundo governo Dilma”. Mas esta afirmação me parece em tudo contraditória com a de que ontem o governo Dilma sofreu um golpe. Fixemo-nos na figura de Aécio, como uma constante desde o primeiro turno da eleição em 2014 até ontem, e é evidente que Dilma não chegou a ter, nem em parte, segundo mandato. Essa corja, em verdade, praticamente não a deixou nem mesmo concluir o primeiro…
Foi essa corja que deu a pauta do que seria o governo Dilma dali em diante até o dia em que seria derrubado. Se Dilma deve ser avaliada é apenas pelo que fez até o momento em que o golpe foi colocado em marcha, no final de 2014, porque desde então o Brasil é o palco de uma luta contra a supremacia do voto.
Lembro que, na noite da reeleição, facebook, twitter e whatsapp se transformaram em palco para ofensas violentas contra os eleitores de Dilma e campanhas pela anulação das eleições. Não houve um minuto de folga nesse ataque, não houve posse verdadeira. Os atos de governo de Dilma, desde então, não passaram de tentativas de composição (algumas bem desastradas em atendimento a chantagens) e foram impugnados em todas as sedes possíveis: pela imprensa, por juízes da primeira instância ao STF, por procuradores, por manifestações orquestradas, por patos de borracha.
O segundo mandato de Dilma, que nunca houve, foi enterrado ontem, mas estava morto há bem mais tempo. E, para não ter dúvida, seu coveiro foi justamente o seu assassino.

 

[2/9] Muitos foram surdos aos gritos de “não vai ter golpe” e “fora temer”, talvez porque o alvo imediato e mais evidente do ataque – Dilma, seu governo, seu partido, os votos que recebeu – não lhes despertava qualquer compaixão. No entanto, salvo nos casos mais pervertidos (daqueles que torcem para os ratos), deveriam ter exercitado a capacidade de imaginar o que viria do golpe em diante. Se faltou imaginação antes, agora ela é desnecessária: já são muitos e muito graves os relatos da violência que o braço policial do golpe vem cometendo não apenas contra manifestantes, mas também contra advogados e jornalistas no exercício de suas funções. Tudo isso enquanto o braço político surrupia velozmente nossos direitos sociais. Restou-nos o aqui-agora da resistência a um poder que despreza qualquer regra. Restou-nos a condição da presa que, entre as garras da fera, luta para não ser devorada.

 

[2/9] nosso dia vai chegar teremos nossa vez não é pedir demais quero justiça quero trabalhar em paz não é muito o que lhe peço eu quero um trabalho honesto em vez de escravidão deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance de onde vem a indiferença temperada a ferro e fogo? quem guarda os portões da fábrica? o céu já foi azul mas agora é cinza o que era verde aqui já não existe mais quem me dera acreditar que não acontece nada de tanto brincar com fogo que venha o fogo então esse ar deixou minha vista cansada nada demais nada demais

[mais de trinta anos depois, na mesma ou numa fábrica ainda pior]

https://www.youtube.com/watch?v=2IS19rCcGQo

 

[2/9] Depois do passa-moleque que nossos queridos políticos deram na maior parte do eleitorado brasileiro, não há, para mim, nada mais melancólico que as propagandas relativas às eleições do próximo mês. Vejo um fosso imenso entre o que me preocupa agora e o otimismo gestor de que elas tratam. E duvido que essa sensação vá embora antes de voltarmos às urnas…

 

[2/9] Um minuto da sua atenção, por favor.

Lembram que, há dois dias, tiramos uma presidenta do cargo porque ela usou créditos suplementares sem autorização do Congresso?

Lembram que foi o Senado que a julgou?

Lembram que nenhum chefe do Executivo antes dela foi punido pela mesma conduta?

Pois bem, o Senado hoje garantiu que nenhum outro chefe do Executivo venha a ser punido da mesma forma, ao aprovar a Lei 13.332/16, que começa assim: “Fica autorizada a abertura de créditos suplementares…”. Vejam vocês mesmos:
http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/09/02/sancionada-lei-que-altera-regras-para-remanejar-orcamento

Sabem o nome disso? Regime de exceção.

Se preferirem: golpe.

 

[2/9] Diante da lei, Kafka? Nos corredores das Faculdades de Direito sempre rolou a ideia de que, para quase toda pergunta, um jurista competente começará sua resposta com um DEPENDE. Durante um tempo até achei isso bonito, ligava o direito à vida, à complexidade das relações reais entre as pessoas, que não são nada matemáticas… mas, de repente, não mais que de repente, aquele DEPENDE, contra nossas mais ingênuas expectativas, revelou-se como a porta pela qual todos os monstros entram e saem do castelo de ilusões em que estamos confinados. Quando me toquei disso, fui até o espelho, olhei para alguém que se parece comigo e disse: não caia mais nessa.

 

[4/9] «Quero escrever e a pena se me acanha, vacila-me o espírito, e não acho uma palavra para começar. / Bem errada é essa crença de que a intensidade do sentimento inspira o escrito, e que a impressão dá mais vigor à pena. / Entendia o contrário, e entendia bem, aquela menina e moça quando dizia que falava desordenadamente de suas mágoas, porque desordenadamente aconteciam elas; e que não era possível pôr ordem onde a má ventura pôs a desordem. / As impressões ainda vivas dos casos tristes de que se entremeou a tela da semana atuam em mim, como no leitor, e ambos maldispostos, nem um escreve, nem o outro lê a atenção e a placidez habituais.» (Machado de Assis, numa crônica de 11 de dezembro de 1861)

 

[4/9] (Brinco com meus amigos que não temos nenhuma boa razão para acreditar que Homero, Cervantes e Shakespeare tenham mesmo existido, como indivíduos de carne e osso, que nasceram num determinado dia e noutro morreram, tendo deixado colossos de palavras entre um dia e outro nos seus tempos. Não vai nenhuma teoria aí, apenas uma forma de elogiar o espanto que causam em mim. Vale o mesmo para Machado: folheio aqui a edição recente de suas obras completas e acho impossível encaixar, entre 21.06.1839 e 29.09.1908, sobre as costas de um homem apenas, todos aqueles textos. Besteira da minha parte, ainda mais besteira quando, após cruzar os romances incríveis, os infinitos contos e a poesia cuidadosa, tudo em grandes quantidades, chego ao quarto volume, dedicado às crônicas, e vejo colada em cada texto uma data bem precisa, como a dar um nó entre a mesquinharia do calendário e aquela figura pronta para voar além de qualquer tempo, de qualquer língua, de qualquer limite.)

 

[5/9] CANGURUS. Algo que me chamou atenção na manifestação de ontem foi a presença de muitas mães e alguns pais carregando crianças com panos bonitos enrolados ao corpo. As crianças nos cangurus significam muito ali e, em nenhum momento, aquele gesto parecia ser um ato de coragem ou irresponsabilidade das mães e pais, porque o clima era de paz total. Um passeio. Mas em SP (e não só) a polícia tem dado um jeito de trazer o perigo para dentro dos passeios mais pacíficos. Só torço para que os cangurus tenham conseguido sair do Largo da Batata antes da PM começar a tocar o terror.

 

[5/9] “Governo nenhum que destrói direitos diz que vai destruir direitos. […] A ideia do governo não é estabelecer o negociado sobre o legislado para avançar nos direitos, é para reduzir os salários, é para flexibilizar a jornada de trabalho, é para intensificar o banco de horas, é para fazer com que haja redução da jornada com redução do salário.” Prof. Ricardo Antunes revelando o “atalho para o abismo social” que se esconde por trás da temerária “ponte para o futuro”:

http://www.jb.com.br/pais/noticias/2016/09/04/brasil-vai-entrar-numa-epoca-de-manifestacoes-sindicais-e-sociais-diz-sociologo/

 

[5/9] Vocês acham que um vice-presidente que não teve que expor seu “projeto” aos eleitores, uma vez consolidado o golpe que ajudou a orquestrar para chegar à presidência, pode simplesmente fazer passar, goela abaixo, num susto, o mais amplo ataque aos direitos de que a vida atual e futura dos trabalhadores depende? Se sua resposta for NÃO, vá para as ruas também.

 

[5/9] Será que quando a vida bater no fundo do poço

a gente encontra uma imensa vontade

de sair de lá e lutar pra nunca mais voltar?

 

[6/9] Jorge Luiz Souto Maior em texto antológico, pra ler, reler, fazer ler, levar no bolso em tempos de golpe.

http://www.jorgesoutomaior.com/blog/contragolpes-para-resistir-e-avancar

 

[6/9] ÁPORO
Drummond

 

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se

 

[7/9] “Há um processo anti-social e anti-sindical em curso que está fragilizando nossos cinturões de proteção social. As constituições estão sendo deixadas de lado. Elas só são observadas quando não há crise do capital. A democracia só serve quando não há crise do capital”, disse o jurista espanhol Antonio Baylos Grau.

http://www.sul21.com.br/jornal/para-o-capital-democracia-virou-uma-consulta-formal-nao-vinculante-denuncia-jurista/

 

[7/9] Relendo Macunaíma hoje

 

Supressão & Repressão
os males do Brasil temerário são

 

[7/9] A tevê aberta não mostrou, mas na abertura das Paralimpíadas REMETAROF fez muito sucesso!

 

[8/9] Tratores tratoram.

http://m.folha.uol.com.br/mercado/2016/09/1811465-governo-quer-aumentar-limite-de-jornada-diaria-de-8h-para-12h.shtml

PS: deixa eu ressaltar uma coisinha sobre a gravidade dessa proposta: além de todos os problemas que as longas jornadas podem causar ao trabalhador, tem um aspecto ainda mais perverso para a sociedade. Quando cada trabalhador pode trabalhar mais horas, menos postos de trabalho são necessários. Simples assim. O outro nome da jornada maior é maior desemprego. Façam as contas. É por isso que a tendência, nos países que levam direitos SOCIAIS a sério, é reduzir a jornada, com ganhos de empregabilidade e até de produtividade. Mas pra quê melhorar se podemos piorar?

PS ao PS: Caros, não temos ainda os detalhes da desregulamentação para fazer uma precisa análise jurídica, mas não acho que seja necessário. Aliás, acho que é isso o que eles querem, que comecemos a debater essa destruição de direitos até naturalizá-la. Tenho me manifestado mais pelo que significam esses diversos ataques simultâneos a limites muito caros que os direitos colocam para a exploração do trabalho. É, a meu ver, uma estratégia política de colocar tudo sobre a mesa para derrubar o quanto puder. A limitação de jornada de trabalho é justamente o ponto fundamental do conflito entre os interesses do capital e do trabalho (vejam a atenção que Marx dedica, no livro I d’O Capital, à legislação sobre a jornada). Mas em termos práticos, se der pra apostar, isso vai significar a consagração do fim da hora EXTRA, que infelizmente já vinha sendo destruída por bancos de hora e por “gerências”, com o triste consentimento, em grande parte, até mesmo da Justiça do Trabalho. Mas, além disso, a matéria se refere à possibilidade de contratação do trabalho por horas trabalhadas… é a uberização da mão de obra para todos os setores, dispensando terceirização, pejotização etc. Simplesmente, a ideia de “vínculo” associado a uma determinada remuneração fixa vai pro espaço. Ou seja, é um duplo ataque, nas duas pontas: quem estiver empregado faz horas infinitas; quem não estiver aceita os “bicos” que aguentar…

Do fb pra cá: agosto

 

[1/8] «A senhora sofreu preconceito no Brasil?

Deborah – Antes de responder, queria explicar que, diferentemente dos Estados Unidos, onde a luta é entre brancos e negros, no Brasil a batalha é entre negros e não negros. Aqui, quanto menos negro você for, melhor. As pessoas deixam de usar o cabelo com cachos e roupas afros para parecer menos preto. Eu sou negra, minhas roupas são coloridas e amo bijuterias. As pessoas me olham diferente, porque não estão acostumadas a conviver com uma pessoa como eu. O preconceito aparece no dia a dia. No hotel, durante o café da manhã, perguntaram cinco vezes se eu estava hospedada aqui, porque era a única negra sendo servida. Em Salvador, estava à beira-mar com um amigo quando um desconhecido perguntou quanto eu custava. Na cabeça dele, eu só podia ser uma prostituta. Não me entenda mal, eu adoro o Brasil, mas vocês precisam enxergar que são preconceituosos, mais do que gostariam de admitir. Isso não é demérito do brasileiro, apenas. Moro na Califórnia, onde, em tese, as pessoas são descoladas. Toda vez que vou à praia com meu neto de 4 anos e meio, vejo famílias guardando os objetos pessoais, como se meu neto, um bebê de sunga, fosse roubá-los.»

http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/08/os-atletas-negros-deveriam-boicotar-olimpiada-no-brasil.html

 

[2/8] (Mais de sete bilhões de pessoas no planeta, mais de quatrocentos milhões na América do Sul, mais da metade delas no Brasil. Passeio por aqui entre quatro mil e tantos amigos e, por vezes, é muito bom estar dentro desta caverna, agarrado aos mitos que alimentamos. Mesmo quando não é bom, é intenso, pleno, absorvente. Até um ponto em que temo não erguer mais a cabeça e ver o quanto há lá fora. E espanta que essa imagem tão batida ainda perturbe tanto.)

 

[2/8] Você pode ser da turma preocupada com os danos ou com as medalhas das Olimpíadas; da turma ansiosa ou furiosa com o impeachment; da turma que acha que nunca houve tanta ou nunca se ouviu tanto falar de corrupção. Seja de que turma for, só acho que você não tem razões para negligenciar que, enquanto a gente brinca de acender e apagar tocha, em Brasília estão avançando sem muitos percalços alguns projetos de lei e emendas constitucionais com potencial para aniquilar a Saúde e a Educação Públicas, a Previdência e a Assistência Sociais, entre outros setores fundamentais para a sobrevivência do país. Uma “reforma” radical contra os trabalhadores, que não toca, nem de raspão, nos interesses privilegiados do grande capital por aqui. Tente se informar. Era o que eu queria dizer pra vocês antes do boa-noite, mas talvez não seja uma boa hora pra dormir.

 

[3/8] Crônica, meus caros, é aquele tipo de texto que mais se parece com uma foto perfeita. E perfeita não quer dizer bonita. Quer dizer: o melhor retrato de algo que todos descartariam, mas que você faz questão de guardar. Não substitui o poema, o conto, o ensaio, o romance, nem pretende. Vai por outro caminho, mas muitas vezes chega primeiro. Nessa arte temos um grande passado e um presente também admirável – nele se destaca, já há um bom tempo, o Antonio Prata. Desde sempre as crônicas vão parar nos lugares mais suspeitos, a começar pelo fato de que eram feitas para durar tanto quanto o jornal do dia, mas agora contam, quando são fortes, com a sobrevida dos compartilhamentos nas redes sociais. Ocorre também de passarem a morar em livros, de virarem músicas, filmes e, quem sabe, transmutarem-se em poemas, contos, ensaios, romances… Enfim, nascem agarradas a um dia preciso do calendário, mas são imprevisíveis. Por que eu escrevi tudo isso? É que no vídeo ao lado (abaixo?) uma crônica do Antonio Prata virou um curta emocionante, tão emocionante que quase não percebi que, na verdade, o que o grande cronista faz, com palavras, é tirar um retrato da nossa vida igual a esse que o taxista gostaria de ter de sua esposa – sem pose, sem maquiagem. Vá lá, vá.

https://www.youtube.com/watch?v=QhhsJyodPHs

 

[4/8] Logo cedo, num café distante, vejo um marmanjo andando com os olhos fixos no celular. No celular e em mais nada. Ele volta pra perto da mesa em que estava e fala algo sobre pokemons. Um marmanjo absorto, um celular, pokemons pelo ar. E eu fico pensando na existência de um Comitê Supremo de Dominação da Humanidade, em que 3 ou 4 seres tão criativos quanto sarcásticos disputam, entre gargalhadas, quem consegue ir mais longe na demonstração de seus poderes. Um marmanjo absorto, um celular, pokemons pelo ar. Ou foi o tal Comitê que pensou nisso ou lá muito invejam quem o fez. Só acho.

 

[4/8] Para assistir com calma, grave aí. Uma inteligência rara.

https://www.youtube.com/watch?v=I7arqW5luKc

 

[5/8] AMOR CELULAR. Esse papo todo do povo caçando alucinações com seus smartphones pelas ruas me fez pensar numa coisa. Na verdade, em muitas… Vi muitos dizendo que quem criticava a onda era inimigo da tecnologia etc. De minha parte, não me considero inimigo da tecnologia. Talvez devesse ser, mas não sou. A gente trabalha e aprende e sofre e se diverte num computador manhã, tarde, noite e madrugada. Em paralelo às horas todas de trabalho e também às de sono, às de distração, às de locomoção, está lá ao alcance da mão esse outro computadorzinho que, de vez em quando, serve como telefone. Não tem muito como fugir disso, mas tenho admirado cada vez mais as pessoas que convivem bem com a parafernália de hoje, em especial aquelas que chegam ao ponto de desprezar completamente o circo todo que nos prende aos celulares. Mas, ao menos por enquanto, sei que é muito difícil ser um desses. Não só para mim, para a maior parte de nós. A vida não tem deixado. E é justamente nisso que pensei de ontem pra hoje. Já fui daqueles que dizem que as pessoas estavam idiotizadas pelo celular, andando pelas ruas com a cabeça enfiada sabe-lá-deus em que besteira, rolando a tela infinita das redes sociais ou trocando mensagens que bem poderiam deixar de trocar. Burrice minha, rabugice, mau humor que cega. Pois tenho cada vez mais achado bonito ver as teias que essas geringonças permitem. Se eu olho com pressa, vejo que a pessoa vidrada no celular perde a oportunidade de falar com quem está ali, ao seu lado, ainda que desconhecido. Mas a pressa não é para quem quer ver bem. Com pouco mais de calma consigo ver um fio que liga aquela alma ali, que talvez tenha passado ou vá passar 10, 12, 14 horas bem longe das pessoas de que gosta, e a vida toda de que ela gostaria de estar perto. Chego a rir sozinho quando alguém no banco ao lado tecla pra alguém lá longe que só queria dizer bom-dia. É quase uma subversão do afastamento a que a rotina nos obriga. Acho bonito isso. Acho bonito esse fio. Um fio ligando gente em situações as mais diversas, nos momentos mais imprevisíveis, com os ânimos mais variados, um aqui no ônibus voltando exausto do trabalho, o outro lá na portaria sonolenta do prédio que ninguém mais visita. Um aqui, outro lá longe. Um trabalhando em São Paulo, o outro lá na cidade natal em que alguém faz falta. Um aqui, o outro num continente distante. Nunca me comovi muito com isso, até começar a desenvolver a habilidade de ler, como quem não quer nada, o que vai sendo escrito por quem está ao alcance dos olhos. Perdão, mas não resisto. Frases quebradas, respostas para perguntas que não li, kkkkkkkkk’s infinitos, carinhas e mais carinhas. Quantas vezes eu mesmo já não pedi pra que me mandassem fotos das crianças e quem mandou nem sabia que estava salvando meu humor lá longe, lá onde aquela foto vai bater como um abraço? Quantos desconhecidos ou amigos distantes já não salvaram uma hora perdida com aquela postagem qualquer que irrompeu no dia? Se eu exagerasse, diria que, se cada aparelho desses carrega em si a capacidade de nos adestrar e colocar para ~produzir~ 24 horas por dia, está neles também uma forma de não deixar que a rotina do trabalho decida o que vai ser dessas mesmas 24 horas. Alienação contra alienação, sei lá. A troca de qualquer coisa por esses canais compensa um pouco as horas fora de casa, os cafés postergados, as cervejas não marcadas, as viagens que não cabem no bolso ou na agenda. Uma frase, uma foto, um poema, uma piada. É bem isso o que, a meu ver, absolve esses aparelhinhos do tanto de mal que fazem: conversar. Conversar para sabotar a distância que a vida imprime ao convívio que mais prezamos. Ou mesmo dizer algo sem alvo, sem saber para quem, e chegar na hora certa-errada para alguém que passava por ali. Um papo estranho, entre estranhos, mas que foi fundamental por um momento. Ando achando bonito tudo isso. Estou chegando perto dos 40, deve ser a idade.

PS: o anarcomonge Carlos Augusto Lima, com mais precisão, disse isso ou mais que isso ontem por aqui: “Um aplicativo que te ajudasse a identificar pessoas ao seu redor, ou a seu lado, que estão sentindo alguma dor ou passando por algum sofrimento, mesmo que não expressem, mesmo que finjam, que disfarcem as coisas aos risos. Então a sua missão é estender a mão e ajudar, acolher essas pessoas. O que você ganha não é de se medir, de monetarizar. Não sei nem se é de ganhar. Bom jogo!”

 

[5/8] Que o destaque das Olimpíadas seja o grande REMETAROF!

 

[6/8] Tanto riso, ó, tanta alegria. E pensar que amanhã, mais tardar na segunda, o Brasil real volta lá do submundo do tapete que o esconde agora.

 

[6/8] É por isso que a gente fica ranzinza… a festa é bonita, todo mundo se empolga e acaba esquecendo que o esporte predileto do capital é o salto sobre direitos. Ou o arremesso de garantias. Ou a exploração sem obstáculos. Escolha.

http://oglobo.globo.com/economia/proposta-de-reforma-trabalhista-preve-negociacao-ate-de-ferias-13-salario-19864000?utm_source=WhatsApp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

 

[8/8] UTILIDADE PÚBLICA

Variações para camisetas e cartazes “Fora, Temer” em tempos de repressão:

Vaza, querido.
Já é tarde, demo.
Tá aqui ainda, satanás?
Desinfeta a cadeira, coiso.
Tchau, Michel.
Vade retro, vice.
Desocupa, traste.

 

Duvido que a Guarda Nacional vai se ligar no protesto.

De todo modo, se quiser algo mais refinado, lembre-se que Guimarães Rosa tem uma variedade incrível de tratamentos para o Coisa Ruim em sua obra: Arrenegado, Cão, Cramulhão, Indivíduo, Galhardo, Pé-de-Pato, Sujo, Homem, Tisnado, Coxo, Temba, Azarape, Diá, Dito Cujo, Mafarro, Pé-Preto, Canho, Duba-Dubá, Rapaz, Tristonho, Não-Sei-Que-Diga, O-Que-Nunca-Se-Ri, Sem-Gracejos, Muito-Sério, Sempre-Sério, Austero, Severo-Mor, Romãozinho, Rapaz, Dião, Dianho, Diogo, Pai-da-Mentira, Pai-do-Mal, Maligno, Tendeiro, Mafarro, Manfarri, Capeta, Capiroto, Das Trevas, Pé-de-Pato, Bode-Preto, Morcego, Xu, Dê, Dado, Danado, Danador, Dia, Diacho, Rei-Diabo, Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás, Satanazin, Satanão, Dos-Fins, Solto-Eu, o Outro, o Ele, o O, o Oculto…

O mundo saberá do que você está falando.

 

[8/8] PODÍAMOS SER OURO TAMBÉM.

Os atletas são o que sobrou de mais parecido com heróis no nosso tempo. Associar suas performances a heroísmo é, portanto, quase natural. Pode ser ingênuo, pode ser cínico, pode ser cruel. E deve ser por isso que, mesmo com tantas razões para sermos duramente críticos e até boicotarmos o grande evento em que desempenham seus superpoderes, vibramos durante os poucos segundos ou minutos em que eles despejam os anos de treinos e privações de que se constrói em carne, osso e músculos um herói ou heroína desses. E isso chega a ser ainda mais duro: quanto piores as condições que enfrentaram, mais heroicos nos parecem. Parecem? Talvez possamos dizer: mais heroicos são. Sad but true. Na infinita maioria dos esportes das Olimpíadas, sabemos, não há qualquer investimento de longo prazo. Nos últimos anos, por conta da realização dos jogos aqui, houve um investimento maior, mas os relatos mostram bem que se trata de um período isolado. E é por isso que cobramos mais os jogadores do futebol masculino, que vivem numa realidade totalmente diferente da dos demais atletas. Do lado olímpico da balança, falamos de esportes com pouca ou nenhuma expressão comercial. Logo, falamos de treinar sem grana, falamos de voltar para a vida de sempre com a medalha ou sem ela. Felipe Wu ganhou medalha de prata treinando tiro na garagem de casa. E ele não é exceção: se puxar a ficha de cada um dos atletas ali (falo dos brasileiros, mas há histórias muito parecidas na maior parte dos países), perceberemos que nossa delegação é quase toda de heróis, gente talhada na adversidade. Gente com sangue nos olhos. Gente como Rafaela Silva, que acaba de ganhar a medalha de ouro. Quando ligamos a tevê já sabemos o que ela enfrentou até ali, a infância na Cidade de Deus, que entrou pro judô por meio de um projeto social, das dificuldades de seu pai, dos ataques racistas que sofreu ao perder outra luta etc. Daí pra frente é só ligar o vídeo e começar a torcer com o coração na boca, vibrando por uma heroína negra cujo sobrenome é Silva e manda para o chão a alemã, a sul-coreana, a húngara, a romena e a mongol que se colocaram entre ela e a medalha de ouro, de-ashi-barai pra cá, uchi-mata pra lá, essas artes todas que vieram de tão longe da favela em que cresceu. Esse nó, ao menos para mim, é difícil de desatar. Saber das dificuldades superadas – não só sociais, econômicas, mas também lesões graves e outros perrengues – altera totalmente minha forma de torcer. Não é só a técnica, a perfeição do movimento, a força incomum, a concentração invejável – os atletas que aplaudo são feitos de muitas faltas. E são tão (ou mais!) admiráveis por tudo que batalharam antes quanto pela batalha que a tevê transmite. É clichê, mas não consigo olhar para Rafaela sem imaginar que, na queda de suas adversárias, cai também tudo aquilo que podia ter impedido sua carreira. Indo além, não consigo olhar para Rafaela sem imaginar que, quando uma brasileira tão brasileira derruba todas as adversidades daqui e as adversárias do mundo, é também um modo de dizer que podemos mais. Vocês já ouviram isso mil vezes, mas a pergunta me parece sempre muito viva: por que não vamos até onde Rafaela e seus pares nos convocam? Por que não vamos heroicamente até o ponto em que ser atleta não seja tarefa para heróis? Em que (sobre)viver não seja desafio para heróis? Taí algo importante pra pensar durante as horas todas de torcida dos próximos dias.

 

[8/8] A gente comemora a decisão que impede repressão a protestos políticos pacíficos nas Olimpíadas, mas fica meio engasgado porque (1) sabe que ela pode cair a qualquer momento e, mais que isso, (2) é bem ruim viver um momento em que se depende do Judiciário dizer É PROIBIDO PROIBIR…

 

[9/8] Já ouvi dizer que a melhor forma de esconder um texto é publicá-lo numa revista acadêmica, mas não imaginava que era tão grave: vi hoje pela primeira vez um texto meu que saiu na Revista do Depto. de Direito do Trabalho da FDUSP… em 2008. Antes tarde…

 

[10/8] Derrotas também brilham. O jornalismo tapado destaca na manchete: “atleta lamenta derrota”. Ora bolas! O que esperavam? De outra parte, me parece que a beleza dessas lutas não está – apenas, nem essencialmente – na vitória, não está na medalha, na coroa, no pódio. A beleza delas está na própria luta, no decorrer das lutas todas, nas lutas mesmo e em tudo que exige luta. Aplaudo, claro, se vier alguma conquista após a luta, mas não é aí, no “após”, que está o que mais merece aplauso. No “após” está o que o atleta buscou, mas não o que eu, torcedor, busco. Eu quero ver a luta, o jogo, o mergulho, não a glória pendurada no peito ou elencada na fria tabela ao final do dia. É no “durante” que a luta – de quem agarra, de quem corre, de quem mira, de quem salta – me encanta. É no “durante” que o atleta brilha, mesmo que ao final apenas um ganhe. Não há medalha que brilhe mais que isso para mim.

 

[11/8] solidão de manhã poeira tomando assento rajada de vento som de assombração coração sangrando toda palavra sã a paixão puro afã místico clã de sereia castelo de areia ira de tubarão ilusão o sol brilha por si açaí guardiã zum de besouro um ímã branca é a tez da manhã

https://www.youtube.com/watch?v=9Sp2HT40TFY&feature=share

 

[11/8] Impressão grave de que vai chegando o dia de todos admitirem que apenas os mais pessimistas tinham alguma razão…

 

[12/8] PAÍS SUSPENSO
Leio o noticiário, converso com os amigos, acompanho o que dizem por aí. E tenho a impressão de que estou parado no acostamento de uma estrada muito movimentada, com muitas pistas nos dois sentidos, tentando ver ao mesmo tempo tudo o que passa à minha frente, mas os olhos cansados captam cada vez menos do que se passa.
Para um lado, passa veloz o processo de legitimação jurídica do golpe contra a presidenta Dilma – usurpação de poder que se esconde por trás da ideia de uma responsabilização rigorosa da presidenta por suas “pedaladas”. Para o outro lado, um processo cada vez mais evidente de anistia – ou, no mínimo, de “aliviar o lado” – dos políticos e empresários envolvidos nas operações de que tanto se falou até pouco. Para lá e para cá, as ações e pretensões demolidoras dos titulares de ministérios estratégicos para o desenvolvimento social do país. Enfim, uma confusão imensa.
É estranho que isso tudo esteja acontecendo de uma só vez. Desde a reeleição de Dilma vínhamos sendo preparados para essa pancada, mas eis que a pancada chegou e é pior do que podíamos esperar. Assim eu vejo. Na Educação, na Saúde, no Direito do Trabalho, nas Relações Internacionais, no “combate ao terrorismo”, no “redirecionamento” do Orçamento Público, na “partilha” do Pré-Sal, em tudo: por mais que esperássemos que Temer e seu bando atacariam pesado, confesso que folheio o jornal com estupor diante da velocidade e profundidade do desmanche. E tudo isso talvez seja ainda mais dolorido por conta do passado recente que tivemos.
Os anos dos governos Lula e do primeiro (e único) mandato de Dilma não foram a perfeição que gostaríamos. Tiveram problemas de todo tipo e vocês estão cansados de saber quais são, ainda que alguns prefiram destacar A e outros prefiram destacar B; ainda que alguns considerem que os “prós” desses governos são seus “contras”, e vice-versa. Mas a forma como observo esse passado coloca em contraste um momento em que percebíamos avanços e outro – o atual – em que os retrocessos são patentes.
Posso ilustrar com uma perspectiva bem pessoal. Eu e muitos amigos da mesma faixa etária vivemos nos últimos 10 anos uma fase muito – digamos – otimista. É a fase em que fiz mestrado, doutorado, comecei a lecionar. Quase todo mês tinha notícia de um amigo que havia sido aprovado num concurso pra professor em alguma universidade pública, em vários cantos do país. Passei a conviver também com a saudade de amigos que iam estudar fora do país. Para além da academia, um monte de gente tendo filhos e fazendo planos, montando suas casas, colocando no mundo sonhos variados.
Não sou bobo de achar que essa era a realidade do país todo, tampouco acredito piamente em tabelas e gráficos, mas muitos deles corroboram uma percepção de avanço nos indicadores sociais – educação, distribuição de renda, emprego etc. – que está concentrado entre 2003 e 2010, principalmente. Enfim, não era um mar de rosas, mas também não era a tormenta que vivíamos antes, nem a que se apresenta agora.
Creio que é esse contraste com um otimismo tão recente (que pode bem ter muito de ilusório – e tem) que torna ainda mais cinza o céu das nossas expectativas atuais. Os amigos que falavam de “novos projetos” agora falam cada vez mais de sobrevivência. Quem antes falava em expandir direitos sociais agora se preocupa com a preservação de liberdades essenciais – poucos de nós acreditaríamos, alguns anos atrás, que teríamos a Força Nacional nos estádios das Olimpíadas tomando cartazes e prendendo quem se manifestasse tão singelamente contra algum político, seja ele qual for.
O país agora parece suspenso. Chegamos estrangulados à eleição presidencial de 2014 e, de lá em diante, arrastamos um peso imenso, brigamos muito, nos assustamos demais, até aquele fatídico 17 de abril em que paramos para assistir, um a um, aos nossos 511 (2 faltaram) representantes na Câmara Federal votarem o impeachment da presidenta como se fizessem uma caricatura, a pior possível, de si próprios. Mais uma vez: sabíamos que, ao tirar a tampa daquela panela, a sopa estaria intragável, mas eu, ao menos, não apostava que seria tanto. Não sei se aquele dia acabou. Não sei.
Os jornais de hoje destacam um possível acordo entre o presidente da Câmara Rodrigo Maia e o presidente interino Michel Temer para adiar a votação da cassação de Eduardo Cunha até o momento em que o quórum lhe favoreça. Não duvido. E este é um caso exemplarmente trágico: se conseguirem “aliviar o lado” de Eduardo Cunha, diante de tudo que se provou contra ele, é porque podem mesmo vir a anistiar todos os seus “sócios”.
Se seguir assim, o país pode até sair de sua suspensão, mas não vai ser agradável descobrir que sob os pés temos um abismo.

Enquanto der, meus caros, tenham um bom final de semana.

 

[14/8] O tempo em dois lances olímpicos

  1. Quem gosta de tênis queria que um jogo como esse Murray/Del Potro fosse eterno. Mas 4 horas, pensando bem, é a eternidade.
  2. Bolt é igual ao Tyson no auge: horas, dias, meses de espera por alguns segundos de queixo caído. Ou melhor: depois daqueles segundos, o queixo precisa de anos para voltar ao normal.

 

[14/8] Os amigos têm dito que ando muito pessimista desde que Temer e sua turma tomaram o poder. Estou. E pensar que até pouco tempo eu brincava de me situar numa fresta otimista da crítica jurídica, aquela que acredita(va) em alguma possibilidade de resistência política e conquistas pontuais importantes com os instrumentos que o direito oferece. Mas é que, enquanto vejo uns atletas na tevê, leio as notícias e vou sentindo um aperto na parte do cérebro que eu dedico ao futuro. Cortes profundos no orçamento público (na Saúde, na Educação, nos projetos sociais), projetos de lei e emendas à Constituição que atacam pontos estratégicos daquela sociedade “livre, justa e solidária” que vínhamos buscando, repressão cada vez mais organizada contra críticas ao que se impõe. Já viram as notícias sobre o aumento da pobreza na Argentina por conta das medidas do governo Macri? O outro lado delas é o noticiário sobre concentração de riqueza numa fatia mínima da sociedade. O que se passa aqui é, a meu ver, o passo inicial de um movimento econômico bem parecido, ou seja, em breve teremos esses indicadores que os argentinos ora lamentam, mas numa escala ainda maior, proporcional ao tamanho do Brasil e seus problemas históricos. Simplificando bastante, podemos distinguir, dentro dos marcos do capitalismo, modelos econômicos voltados a distribuir ou concentrar riqueza. Sempre me esforcei em ver na Constituição a prevalência de um modelo distributivo, mas Temer e sua turma também o viam e, por isso, sabem onde atacar e estão atacando com uma velocidade desnorteante. Não me parece haver dúvida de que o compromisso de Temer é com aqueles que querem a riqueza em menos mãos ainda, até mesmo em mãos estrangeiras. Os golpistas não têm o menor pudor em bater publicamente no SUS, no SAMU, na CLT, na aposentadoria, na Universidade Pública, nos programas assistenciais etc. Fazem-no com um descompromisso e uma irresponsabilidade que só têm aqueles que não foram eleitos nem se preocupam em ser. Fica difícil, do meio dessa ofensiva, dizer que dias melhores virão. Daí, da mesa de Temer, não virão. Se quisermos, teremos que ir buscá-los!

 

[15/8] O ponto de encontro festivo das delegações estrangeiras no Rio é chamado de Bar do Bin Laden, vende refeição a 14 reais, cachaça, caipirinha e litrão de cerveja. Tem como dar errado?

 

[16/8] Notas para quando eu for um sábio chinês de um século distante.

  1. Aprenda na fogueira o que fazer na vida: confie que a mínima brasa, se protegida, cuidada, estimulada, arderá e espalhará seu fogo ao redor. (A continuar.)

 

[16/8] Status: dedicado à formação do velho sábio chinês. Sino-em-si. Si-sino. Sínico.

 

[19/8] Imagina que louco você sair do seu triplex pra dar uma pedalada até seu sítio, mas você descobre que pedaladas não existem, então vai andando. Quando chega no lugar, o sítio não está lá. Daí volta pro triplex e ele também sumiu, mas na parede está pichado: tudo que é sólido desmancha no ar. Mundo doido, viu?

 

[20/8] (Se tantos estão há tanto tempo procurando tanto com tanta vontade em tantos lugares e, no entanto, nada acham, é provável que os tantos que esperam tanto daí estejam fazendo papel de tontos?)

 

[21/8] O texto tem quase 10 anos: considerem.

https://grupodepesquisatrabalhoecapital.wordpress.com/2016/08/20/a-precarizacao-dos-ideais-por-tarso-menezes-de-melo/

 

[22/8] Segunda-feira pós-olímpica.

E pensar que, de hoje em diante, ninguém mais
vai correr, saltar, remar, jogar por nós.

Hora de descer da arquibancada.

Como nunca.

 

[22/8] Os direitos sociais amargam a fúria do deus-mercado. Não é que estivéssemos num paraíso. Longe disso. Mas, no meio do perrengue de sempre, arrastado por séculos, dava pra ver alguns fios, algumas setas, uma brasa indicando mudança para melhor. “Melhor”, no nosso caso, inclusive pelo que diz a Constituição esperançosa que temos, é tudo que alcance mais gente. São direitos sociais atendidos para mais gente, são também direitos penais atingindo mais gente, digo, não a ~subgente~ de sempre, mas a “gente fina” que nunca foi incomodada pela lei aqui. Tínhamos, de alguma maneira, alguns passos importantes nesse sentido. E agora vemos, em poucos dias, o país dar passos firmes, alguns de cromo, outros de coturno, no sentido contrário: aquele de que fugíamos lentamente. É uma lógica simples e simplesmente terrível num país tão desigual: quem pode pagar tem, quem não pode pagar não tem. Ponto. E essa lógica vale para tudo. Educação, saúde, moradia, alimentação, política, tudo. Em resumo: estar vivo. No meu modo de ver, um país é melhor, dentro do estreito horizonte do capital, na medida em que mais impede que a lógica crua do mercado (pagar é poder) se imponha aos setores essenciais da vida. E mais ainda quando estende e estende o que passa a considerar essencial. Viver melhor só pode ser por aí. Toda luta que importa, a meu ver, é nesse sentido da “desmercadorização” (saudosa Ellen Wood!). Mas não é uma luta simples: os avanços que pudemos ver, por exemplo, na educação e na saúde públicas nos últimos governos foram feitos lado a lado com “avanços” no sentido oposto, ou seja, tentando conciliar o inconciliável. Numa imagem: agradando a dois deuses que se detestam. E desde os gregos sabemos que há deuses mais astutos e cruéis que os outros. É contra o deus-mercado, seus asseclas e caprichos mortais que temos o dever da insurgência. [trecho de um artigo que eu prometo que vou escrever… ;)]

 

[25/8] CARNIÇA

 

osnomesgi
ram (michelte
mergilmarmen
deseduardocu
nhasergiomo
roaecione) nojo
rnal (vesredeglo
borenancalhei
rosalexandredemo
raesjoseser
rarodrigoja
not) comouru
bus

 

[25/8] Um passeio rápido pelo site do TRE e me deparo com várias cidades enormes, com mais de 500, 600, 700 mil habitantes, em que não há mulheres encabeçando as candidaturas para as prefeituras em 2016. Tenho a impressão de que isso explica, em parte, o que está acontecendo em Brasília agora e, claro, aponta para mais um dos desafios que se erguem à frente.

 

[26/8] Não acho que venha de lá algo diferente da alegria dos coxinhas, mas vejo nesse “julgamento” – desde seu início, mas com mais clareza agora – algumas lições importantes. Ouvi, dias atrás, José Eduardo Cardozo dizer que, numa palestra recente, após expor a fragilidade da tese jurídica em que se baseia o processo de impeachment, um aluno lhe perguntou por que, se sabia que o “julgamento” não seria modificado por um qualificado debate jurídico (não é aplicação da lei, é justiçamento político), continuava se esmerando em cumprir todo o rito com defesas técnicas etc.

A resposta de Cardozo foi muito bonita, mais ou menos assim: lembrou de um professor que lhe disse que o advogado, mesmo num caso em que saiba que sua defesa não alterará a decisão injusta, deve fazê-la com todo o cuidado possível, porque ao menos ela servirá para registrar, para além do processo, a injustiça que ali se cometeu.

Pois bem, isso até me animou um pouco a acompanhar o “julgamento” do Senado com menos raiva e melancolia. Ao final, junto com o resultado, teremos o registro a que Cardozo se referiu – é pouco, é triste, é menos do que o país precisa, mas pode servir para escolhermos outros caminhos para nosso futuro.

Aliás, nesse balaio duas pessoas se tornaram mais admiráveis: a presidenta Dilma, ré de um processo com mais furos jurídicos que uma peneira, demonstrando uma incrível resistência pessoal e política numa situação diante da qual 99,9% dos seus pares já teriam escolhido algum atalho; e o seu advogado, José Eduardo Cardozo.

 

[28/8] Faz todo o sentido no golpismo: se seus apoiadores não ligam nem para seu próprio analfabetismo político, por que ligariam para o analfabetismo da população? A escola golpista não será apenas “sem partido”; no fundo, ela será uma “escola sem escola”.

 

[28/8] Sonhei que na segunda o Chico entrava no Senado de braços dados com a Dilma e o coro todo cantava “Divina Dama” do Cartola e um carnaval sem fim tomava Brasília e o Brasil e o planeta e assim a pior segunda seria a segunda mais linda e ninguém ligava mais pro calendário.

https://www.youtube.com/watch?v=B64_PgwsckU&feature=youtu.be

 

[28/8] Pensando aqui sobre a opção golpista pela perpetuação do analfabetismo, ouvindo Chico Buarque desde cedo, me deparo com uma estrofe que, olha, sei lá, vou te falar, tenha a santa paciência, que exagero, valha-me deus:

 

«No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto»

(De “A bela e a fera”)

 

[29/8] Hoje é dia de velar o voto. O voto de 54.501.118 brasileiros em Dilma Rousseff será finalmente rasgado entre hoje e amanhã. Os 54.501.118 eleitores de Dilma e todos que nela não votaram – no Brasil e no mundo – mas têm algum respeito pelas regras do jogo (teatro?) democrático devem hoje ficar diante das notícias de Brasília como quem está diante de um cadáver. Um cadáver que não poderemos sepultar. E ele já fede. Fede muito. Vai feder mais. A céu aberto.

Vocês devem lembrar em quem votaram para o Senado em 2014. Meu candidato não se elegeu. Meu deputado, no entanto, foi eleito e não passa um dia sem acusar o golpe, mesmo que a Presidenta não seja do seu partido ou coligação. Ao velar o voto em Dilma é importante ter em mente o que tem sido feito dos seus outros votos (e, claro, isso deve pesar sobre seus votos futuros!). É importante ter em mente de que lado estão as pessoas que você admira: amigos, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas, professores etc. Eles aplaudem o golpe? Eles vão rir mais de uma eventual gagueira de Dilma hoje do que chorar a morte dos 54.501.118 votos e de boa parte de nossos sonhos e ilusões?

De tudo isso, só não posso dizer que estou surpreso com os algozes. Renan, Caiado, Aécio, Cristovam, Magno, Anastasia, Perrela, Alvaro Dias, Marta, Aloysio, José Anibal e tantos outros: nunca esperei nada melhor de vocês!

Enfim, hoje é dia de luto. É bem provável que os últimos dias desse processo espúreo sejam os primeiros de um país em que a política não será mais a mesma. Mas isso não quer dizer que será melhor. Pelo contrário.

 

[29/8] A guerrilheira dos discursos hesitantes virou atiradora de elite hoje no Senado. Não deixou vírgula a reparar. Não deixou alvo sem bala. Gigante. O voto do povo hoje vira aplauso e ambos são muito merecidos por ela. Aliás, votem como bem entenderem os senadores, Dilma hoje colocou na testa de muitos brasileiros uma certeza: se a cadeira da Presidência deve ser ocupada por alguém disposto a negociar tudo para manter o cargo, a vender o país para agradar seus aliados e sua classe, a abrir mão de seus princípios para se salvar, a alugar suas prerrogativas para atender interesses podres, aquela não é a cadeira para Dilma. Se ela for retirada definitivamente de lá (e tudo indica que será), o azar é nosso, de nós que vamos ter que viver num país que está nas mãos de quem não apenas despreza seus males, como deles se alimenta.

 

[29/8] Por recomendações médicas que dei pra mim mesmo, não assisti a Dilma nas últimas horas. Tenho hipersensibilidade a discursos senatoriais. 2 minutos de Aécio, 1 minuto de Caiado, 30 segundos de Agripino, 10 segundos de Alvaro Dias ou Cristovam Buarque… e pimba: coceira, vermelhidão, taquicardia. Não sei se perdi algo, mas tenho meus ídolos do dia:

  1. Dilma
    2. Francisco & Luiz
    3. Biotônico da Presidenta
    4. Senadores que não se inscreveram
    5. botãozinho de cortar microfone

PS: Perrella foi de helicóptero?

 

 

[29/8] Ao comentário final da Janaína, sobre Bicudo, Dilma devia mandar o singelo:

– Quem?
– Quem o quê?
– Quem perguntou?

E fechava o dia com chave-de-ouro.

 

[30/8] Amanhã no Senado teremos ainda pela frente muitas palavras jogadas ao ar: debate entre advogados de acusação e defesa, com réplicas e tréplicas; pronunciamentos de dez minutos para cada senador inscrito; além deles, dois senadores falam a favor e dois contra o impeachment para encaminhar a votação e, por fim, a votação no painel eletrônico. Estarei entre os muito surpresos se o resultado não for o golpe, mas, de todo modo, a segunda-feira de Dilma não terá sido em vão.
Vi gente falando das gaguejadas e confusões de nomes nas respostas dela. Acho incrível. A gente passa a vida se preparando, ensaiando as falas no chuveiro, no espelho, no trânsito, e muitas vezes falha, gagueja, esquece, embaralha em aulas, audiências, bancas, debates, até numa declaração qualquer pra um dos amores da vida. E nenhuma dessas ocasiões costuma durar 12, 13 horas, tampouco são precedidas de períodos tão torturantes e cercadas de tanta agitação e desgaste.
Com boa vontade, filtrando as questões repetitivas, os discursos nonsense e as repetições a que Dilma foi forçada, o saldo me parece simples: os votos de amanhã não serão fruto de um processo legítimo, com um objeto delimitado e respeito às previsões legais. Porque, para a maior parte dos senadores, como para grande parte da audiência que os apoia, Dilma deve ser punida pelo “conjunto da obra”, por “estelionato eleitoral”, “quebrar o país”, enfim, qualquer dessas acusações elásticas o suficiente para envolver qualquer desejo dos grupos políticos que só toleram a democracia na medida em que ela seja veículo para seus interesses. Do contrário, não têm o menor pudor em se livrar dela, digo, delas: da democracia, da Dilma, da ideia de um país em que mais gente viva melhor.
Boa noite!

PS: o Senado e a Paulista de hoje são duas faces cada vez mais evidentes da mesma moeda podre; não há solução democrática para uma que possa desprezar a outra.

 

[30/8] Hoje estou em dieta de informação e de falação, mas fui tentar ver o vídeo da “advogada” falando no Senado… depois os senadores se drogam durante a sessão e vocês não sabem o porquê!?!

 

[30/8] «Os acusadores de Dilma Rousseff vão à tribuna e parece que colocam o seu partido no banco dos réus. Colocam o “conjunto da obra” e se prendem muito pouco à análise da real acusação que efetivamente contra ela é dirigida. E por que o fazem assim? Porque são pretextos. São pretextos. Pretextos irrelevantes. Pretextos que são utilizados retoricamente porque apenas se quer afastar uma mulher que incomoda. Que incomodou as elites. Que incomodou ao ganhar a eleição. Que incomodou ao não permitir que a Lava Jato fosse obstada. Uma mulher que incomoda. Uma mulher. Aliás, me permitam dizer, com toda franqueza e com toda sinceridade. Vejo aqui, no plenário do Senado, ex-ministros da sra. Presidenta Dilma Rousseff, alguns que permanecem leais a ela, outros que foram trilhar outro caminho. E eu falo como ex-ministro também. Algum dos senhores, algum dia, recebeu alguma proposta, alguma determinação, alguma orientação de Dilma Rousseff para que infringissem a lei, para que desrespeitassem a Constituição, para que desviassem dinheiro público? Me permitam responder pelos senhores: não! E sabem por quê? Porque ela não faz isso. Se há uma pessoa que é absolutamente correta e íntegra no sistema político brasileiro corrompido às medulas é Dilma Rousseff. Ela nunca tolerou, nunca, nenhum ato de corrupção, nenhum ato de desvio ou a suspeita. Me desmintam senhores ministros se o que eu falo aqui é inverdade. Nunca! Aliás, bastava Dilma Rousseff cheirar algum equívoco e ela ligava e ia – como lembra Gleisi Hoffmann – na jugular dos seus ministros. E sempre disse: “Não aceito isso, não façam isso porque senão vocês vão se ver comigo”. “Ah, mas ela é autoritária! Ah, mas ela é muito dura!” Muito dura? Mulheres, quando são corretas, íntegras e sabem enfrentar situações da vida como essas, são “duras”. Mulheres, quando se equiparam nas suas disputas aos homens, são “autoritárias”.»

O advogado José Eduardo Cardozo se superou a cada etapa desse processo. Que seus argumentos não saiam vencedores é mais uma prova de que não há nada de jurídico nesse espetáculo. Cada minuto desse vídeo vale muito a pena:

http://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2016/08/dilma-esta-sendo-julgada-por-ter-vencido-as-eleicoes-afirma-jose-eduardo-cardozo

 

[31/8] Muito obrigado, Companheira.

«Até no lixão nasce flor!» (MB)

 

[31/8] Para meus amigos do lado esquerdo

Não nos iludamos. Olhem fundo para além de todo o ritual desviante: o recado que nossos senadores deram hoje, com o apoio pesado da maior parte das autoridades, empresários e corporações de mídia deste país, ao rasgar em rede nacional os 54.501.118 votos para o segundo mandato da Presidenta Dilma Rousseff, é muito claro e violento. É como se dissessem: “não venham pelas urnas, não digam que têm direitos, não nos peçam para respeitar regras e princípios, porque isso aqui é nosso, a Constituição é nossa, o país é nosso, serve a nós, continuará servindo apenas a nós, nossos interesses e nossos patrocinadores. Se quiserem chegar a algum lugar, procurem outro caminho”. Pela primeira vez, foram sinceros. Sejamos mais que isso: mais que sua plateia, mais que suas vítimas. Mais do que temos sido.

 

[31/8] De resto, por hoje, para sarar de tanta palavra torta e vazia, de tanto gesto cruel, melhor se agarrar naquilo que há de mais bem feito neste país e trabalhar para, com urgência, ajudar o tempo a transformar as velhas formas do (sobre)viver por aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=7s0yAJA8AnA

 

[31/8] Neste momento, uma presidenta ELEGÍVEL deixa o cargo para que um vice-presidente INELEGÍVEL assuma o cargo. Sim, é exatamente este o sentido da decisão no impeachment. Parabéns.

 

[31/8] E ela saiu citando o jovem Vlad:

 

E ENTÃO, QUE QUEREIS?
Vladímir Maiakóvski

 

“Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta as ondas.”

 

(Dilma, no seu pronunciamento pós-golpe.)

Do fb pra cá: julho

[2/7] NO INTERIOR DO PENSAMENTO

O ano passado nos deu grandes livros de poemas. Se eu tivesse que escolher um, no entanto, é bem provável que ficasse com “Trilha”, do Leonardo Fróes, pela Azougue Editorial. Então, num sábado bonito, entrando em férias, nada melhor que começar o dia lendo a rara matéria da Folha sobre Leonardo Fróes e, de longe, assistindo à mesa dele na Flip com seu editor, o poeta Sergio Cohn. Ainda mais porque boa parte da semana que se encerra dediquei a andar por outras trilhas abertas pelo Leonardo Fróes – é delas que quero falar.

Explico: lá no site da Chão da Feira me deparei com um texto do poeta sobre os diários do “trapista rebelde” Thomas Merton. Já leram? Coisa fina.

http://chaodafeira.com/…/os-diarios-e-os-combates-de-um-tr…/
Você já deve ter visto o nome de Merton por aí, ao ler sobre catolicismo ou budismo ou contracultura ou poesia beat ou um monte de outras coisas.
http://www.correiocidadania.com.br/index.php…
No meio disso tudo, fiquei curioso para saber mais da história da última conferência que proferiu, seja porque o título era “Marxismo e perspectivas monásticas”, seja porque ele morreu num acidente besta em seu quarto ali, momentos depois desse vídeo.

https://www.youtube.com/watch?v=0m4sLu3iakQ
Religião não é meu forte, mas um poeta como Fróes consegue nos levar para onde não imaginamos e uma figura riquíssima como Merton também, talvez mais. Mandei então umas linhas para o Pucheu lá no Vale do Socavão, falamos um pouco de assunto, pensei muito nuns versos seus que me perseguem (“É bem verdade que continuo/ – ainda – fazendo livros,/ mas, hoje, minha arte,/ minha vida, é habitar um lugar […]”) e voltei ao filme incrível que Pucheu, Cohn e Gabriela Capper fizeram sobre/com Leonardo Fróes.

https://www.youtube.com/watch?v=5CJYNO96txA
Religião não é meu forte, já disse, poemas talvez sejam minha religião, mas sei que a curiosidade que uma figura como Merton desperta em mim está ligada ao fato de sua face mais evidente – para mim – ser a de alguém que, apesar do que nada se parece com isso na sua religião, leu e escreveu e escreveu e leu com uma disposição incrível para chocar-se, a cada nova curva, consigo próprio. E sei que aquela minha curiosidade só se justifica se eu mesmo estiver disposto a me chocar com o que sou hoje, aqui, assim, em cada linha que leio. Achei diversos textos de Merton e parte de seus infinitos diários (em parte traduzidos por Fróes): há bem mais que as certezas típicas da religião ali, pelo contrário, há muito mais de mergulho na dúvida, na contradição, nas bordas em que alguém (um religioso como Merton, um editor profissional como Fróes, um professor de Filosofia como Pucheu) se reinventa.

E é aí que se desvendam para mim os sentidos mais fortes de Merton e Fróes e Pucheu, e as casas que construíram cada um em seu canto, Getsemani e Secretário e Socavão, e a forma como a poesia de Fróes e Pucheu (não li a poesia de Merton) são o retrato desses seres que se diluem na experiência de que saem ainda maiores, mais livres, mais incríveis. Como mestres de algo que é maior que toda arte, toda ciência, toda religião: por enquanto, chamamos isso de viver. E vivemos?

 

[9/7] (onde deveria estar, onde sempre se achou que estivesse, onde seria justo estar, onde parecia óbvio que estaria, onde faz uma falta tremenda, onde os inimigos a procuram, onde os amantes imaginam que a prenderam, onde os indiferentes pensam que estaria, onde os professores fingem que está, onde os críticos não ligam que esteja, onde os cantores a perderam, onde os poetas não fazem ideia – é sempre no avesso desses sítios improváveis que algo a ser chamado de poesia comparece?)

 

[9/7] «Nunca la aceleración casi mecánica de las rutinas vitales ha sido tan fuerte como hoy. Y hay que tener tiempo para buscar tiempo. Y otra cosa: no hay que tener miedo al silencio. El miedo de los niños al silencio me da miedo. Solo el silencio nos enseña a encontrar en nosotros lo esencial.» (George Steiner)

 

[10/7] O poeta Dirceu Villa, que não está no fb, tem feito um belo trabalho em seu blog O Demônio Amarelo, falando de poesia, de política, dessas coisas que nos consomem. Passeiem por lá – e podem começar pelo texto recente sobre Leonardo Fróes:

http://odemonioamarelo.blogspot.com.br/2016/07/leonardo-froes-na-flip.html

 

[13/7] E se toda manhã fosse assim: na saída de casa, um livro do Carlos Felipe Moisés e um do Paulo Andrade (a tese cuidadosa sobre a poesia de Sebastião Uchoa Leite, que saiu pra casar com a edição de sua “Poesia Completa”); quando chego no escritório, descubro que a Maninha está com os volumes novos da coleção do Max Martins (desta vez, com prefácios preciosos de Maria Esther Maciel e Eduardo Sterzi) e que o Alberto Pucheu publicou um artigo falando de política, filosofia e poesia em que comenta uns garranchos meus? Que tal, hein, astros?

Aqui está o artigo do Pucheu: http://revistas.pucsp.br/index.php/fronteiraz/article/view/27144/20188

 

[13/7] Estou lendo “Walkscapes”, do Francesco Careri, e ando bem impressionado com a forma do livro: nada me parece melhor para um livro de reflexão sobre “andar à toa” (“andare a zonzo”) do que incorporar esse andar à toa – por entre imagens, obras, ideias – à sua própria forma de reflexão. Fui levado a ele por um post do Iuri, corri atrás do livro, depois descobri que o autor esteve na Flip dias atrás e que os jornais até haviam noticiado. Pelo jeito, minha atenção com as notícias também anda “a zonzo”… E é bom que assim seja.

Aqui dá pra ler o prefácio brasileiro do livro do Careri:

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.141/4884

 

[14/7] Se você leu algo do Marx ou mesmo do Piketty ou anda de olhos bem abertos para o que está acontecendo no Brasil, já sabe que o dinheiro só gosta de fazer o movimento vertical ascendente, ou melhor, toda estrutura jurídica, política, econômica do capital funciona para que o dinheiro suba e se acumule lá no alto, um olimpo em que poucos semideuses cruéis decidem o destino de todos nós. E essa decisão não costuma ser generosa, pelo contrário. Repare nos movimentos do governo golpista – ou, antes, mesmo no golpeado… – e verá que tudo se arranja rapidinho para garantir a migração da riqueza para as poucas mãos de sempre.

Pois bem, estamos aqui – e será difícil sair.

No meio disso, de livros, uma comidinha qualquer e uma bebidinha mais ou menos, na companhia de gente bacana, é que se vive melhor. Nos últimos meses, no entanto, um movimento tem ocorrido tão velozmente aqui em volta que assusta mais do que de costume. Digo: o círculo do consumo dessas joias se fecha cada vez mais por aqui na mão de gigantes: a Amazon bate quase sempre, com vantagem, o preço dos concorrentes, mesmo dos grandes; o mercado editorial, mesmo com a presença heroica e deslumbrante de pequenas editoras, amarga a sombra de conglomerados internacionais; a cada bairro você encontra uma loja da Swift que, pelo que dizem, bate muitos da concorrência; se não for na loja, um caminhãozinho chega até você; a loja virtual do Pão de Açúcar bate os preços do próprio Pão de Açúcar e entrega em horas na sua casa; o Sam´s Club, quando quer, vende importados mais baratos que todos os demais.

Você pode muito bem dar um jeito de viver sem nada disso, mas pagar mais caro nas lojas pequenas da concorrência para não apoiar os gigantes não é, por óbvio, o caminho mais feliz. Citei os gigantes internacionais, mas nos bairros mais diversos o movimento de concentração é bem parecido – por exemplo, farmácias, postos de combustível e até a cara patrocinada dos botecos de todos os tipos, sem contar a presença cirúrgica das agências de 3 ou 4 bancos imensos…

Não é por nada, não, mas se alguém aí tiver o spoiler dessa série e quiser responder, eu agradeço: termina bem?

 

[15/7] Eu nem sabia, então, dos corpos espalhados em Nice. E lá pelas tantas falamos de “Amuleto” e não imaginávamos que o mundo rachava um pouco mais à nossa volta e aquela mesa era o lugar em que, sem saber, resistíamos, como a personagem de Bolaño em sua leitura de poesia no banheiro. E nossa conversa, como sempre, cai para dentro de uns versos do Drummond ou do Mano Brown, mesmo quando passa por Bashô, Kopenawa, Ferlinghetti, Simone Weil, Violette Leduc, João Antonio, abraços de serpentes, o pão e a pedra, enraizamento. E nem lembrávamos que hoje seria aniversário de nascimento de Walter Benjamin (1892-1940) e de morte de Roberto Bolaño (1953-2003), mas ontem conversávamos – amigos, animados – sobre a coisa incrível que é “Os detetives selvagens”, que foi escrito por Bolaño, mas que bem poderia ter sido vivido por Benjamin: vida de tantas agruras, pensamento de tanta poesia. E que eles bem poderiam ter sido amigos e dividido boas conversas sobre as tantas coisas que os aproximam e tentar entender porque da poesia foram explodir na filosofia, na prosa, na nossa cabeça. E se a mesa, a nossa, tivesse durado mais, eu que gosto de lançar hipóteses absurdas e incomprováveis talvez chegasse a dizer – ou disse? – que Cervantes, que escreveu um dos livros mais incríveis de todos os tempos e línguas, já em nosso tempo ficaria satisfeito em assinar “Os detetives selvagens”. Mas isso não vem ao caso. Ou vem.

 

[15/7] Diante da dura lição diária de que qualquer aposta no campo da política partidária, por menor e “menos pior” que seja, tem sido fonte certa de decepção, o que se segue à questão “o que fazer?” é cada vez mais diferente das respostas que gostaríamos de ouvir, não?

 

[18/7] (Quando você toma conhecimento das jogadas a que se dedicam os que ocupam o andar de cima de nossas instituições e aqueles mais acima ainda, encontra outras razões para admiração e respeito por todos que, no andar de baixo, fazem as coisas funcionarem, dentro do possível, apesar de tantos pesares, na sua estreita margem de manobra. Normalmente, entre eles estão bons parceiros de resistência contra uma situação que, certamente, seria bem pior se dependesse apenas de quem, lá no alto, vê apenas poder & dinheiro em todas as coisas que nos importam para além de poder & dinheiro. O mundo tem lados. E fogo-amigo é presente pro inimigo.)

 

[19/7] A Escola sem Partido é parente da Educação Pública sem Orçamento, da Previdência sem Solidariedade, do Trabalho sem Direitos, do Hospital sem Gratuidade, da Estrada “Sem Parar”, do Banco sem Regras, do Lucro sem Imposto, da Moradia sem Morador, da Rua sem Pedestre, do Povo sem Renda, sem Casa, sem Saída… A família SEM é grande e faminta.

 

[19/7] Rubens Figueiredo: «nas circunstâncias presentes, receber muita atenção pode não ser nada bom». É verdade. Mas que, por essas contradições da vida, bem que ele devia estar entre as figuras que mais ouvimos, lemos, consideramos, divulgamos, ah isso devia. Por tudo o que diz, claro, mas também por tudo que não diz (metade das questões aqui são antes refutadas que respondidas!). Como um mestre faz.

http://rascunho.com.br/frio-como-gelo/

 

[22/7] E se eu disser pra vocês que nem sei mais o que dizer (fazer) sobre tudo isso aí, aqui, acolá que merecia que alguém – talvez eu – dissesse (fizesse) algo?

 

[22/7] CADERNETAS

Um dia, enfim, você percebe:
as que ficaram em branco
eram as que mais tinham a dizer.

 

[22/7] Tudo isso que a gente espera que venha depois da revolução mais plena é bem parecido com o que a gente vive quando se junta sem freios com os amigos, não?

 

[24/7] Lembremos: o que sobra diz muito sobre o que falta. Que o destino da cidade (e da economia e da mídia etc.) ainda seja decidido dentro de palácios diz muito sobre nosso fardo persistente, crescente. Vale muito a pena ler com calma as duas partes da reportagem.

http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/07/1794827-mansoes-de-sao-paulo-ocupam-area-de-dois-parques-ibirapuera.shtml

 

[24/7] EL COS DE LA POLS, algo como “O corpo da poeira”, é o nome do presente que acabo de receber do Josep Domènech Ponsatí, que traduziu 6 poemas meus para o catalão e montou uma bela plaquete. Vou dar um jeito de imprimir algumas e enviar como um abraço pelo correio para os amigos, mas, desde já, compartilho aqui uma das traduções, seguida do original, feitas pelo Josep, que tão atentamente cuida dessa ponte entre português e catalão, de lá pra cá, de cá pra lá. Só posso mesmo agradecer.

 

ESCRIPTURES

 

ja ho saps, entre les flors

no hi ha cap turment

no hi ha dolor, no hi ha pèrdua

no hi ha gaire res a témer

espines només són espines

un pètal més, un de menys

i tot segueix així, jardí

que s’engoleix a si mateix

ni l’altra flor, aquesta que

baixa ara a la terra, punt final

en la frase aliena, és més

que un tipus de dolor

cobrint-se de pedra

i oblit

 

ESCRITAS

 

você sabe, entre as flores

não há qualquer tormento

não há dor, não há perda

não há muito o que temer

espinho é só espinho

uma pétala a mais, outra a menos

e tudo segue assim, jardim

engolindo a si mesmo

nem a flor outra, esta que

desce agora à terra, ponto final

na frase alheia, é mais

que uma espécie de dor

a cobrir-se de pedra

e esquecimento

 

[25/7] Num momento em que mídia, governo e empresariado batem pesado para convencer a todos de que a “saída da crise” é o desmanche dos direitos sociais, é obrigatório ler os argumentos e dados desse precioso texto do Prof. Jorge Luiz Souto Maior:

“Com efeito, segundo notícia veiculada pelo site da Revista Exame, em 08/04/2016, o ano de 2015 embora tenha sido um ano amargo para muitas empresas no Brasil, várias outras, “na contramão da crise”, registraram ganhos recordes no período. A reportagem lista as 25 empresas com os maiores lucros de 2015 e aponta o Banco Itaú como a empresa que teve o maior lucro anual já visto no Brasil, de R$23,35 bilhões de reais. Em segundo lugar vem o Bradesco com lucro de R$17,18 bilhões, e, em terceiro, o Banco do Brasil com R$14,39 bilhões. Na sequência vêm: AmBev, R$12,42 bilhões; Santander, R$6,99 bilhões; BTG Pactual, R$5,62 bilhões; JBS, R$4,64 bilhões; BB Seguridade, R$4,20 bilhões; Cielo, R$3,51 bilhões; Telefônica Vivo, R$3,42 bilhões; Braskem, R$3,14 bilhões; BRF, R$3,11 bilhões; Cemig, R$2,49 bilhões; BM&FBovespa, R$2,20 bilhões; TIM, R$2,07 bilhões; Ultrapar, R$1,50 bilhão; Tractebel, R$1,50 bilhão; Kroton, R$1,39 bilhão; EDP Brasil, R$1,26 bilhão; CSN, R$1,25 bilhão (que havia registrado prejuízo de R$ 105,21 milhões em 2014); Copel, R$1,19 bilhão; WEG, R$1,15 bilhão; Porto Seguro, R$1,00 bilhão; Taesa, R$909,42 milhões; e CCR, R$ 874,36 milhões.”

http://www.jorgesoutomaior.com/blog/a-encruzilhada-reveladora-do-golpe

 

[25/7] SUPLICY. Ontem circulou aqui uma matéria muito esclarecedora sobre as mansões de São Paulo, casas que chegam a custar 97 milhões, e hoje o ex-senador Eduardo Suplicy (PT/SP) foi detido enquanto se opunha ao uso de força numa reintegração de posse em terreno ocupado por cerca de 350 famílias na zona oeste da cidade. Não se pode omitir que a reintegração é realizada pelo Judiciário, com auxílio da Polícia Militar, mas foi requerida pela Prefeitura municipal, que tem à frente, neste momento, o mesmo partido de Suplicy. Isso só reforça ainda mais a necessidade de refletirmos sobre os limites do modelo de sociedade em que estamos imersos: não é uma figura besta de linguagem dizer que a cidade é um campo de batalha entre interesses fundamentalmente antagônicos. E cidade, aí, está longe de ser uma abstração. Toda a estrutura jurídica e política da cidade está marcada por esse mesmo antagonismo, o que quer dizer que, mesmo que Suplicy viesse/venha a ser prefeito, é bem provável que o Judiciário e a PM, cumprindo o tipo de proteção pesada que nossa legislação dá à acumulação da propriedade privada, sairiam carregando o então prefeito da mesma forma esdrúxula como se fez hoje, ou até mesmo o carregariam metaforicamente para fora do cargo. A cidade tem donos, poucos, e a prefeitura é um ponto privilegiado desse campo de batalha: o fato de que seja ocupada ora por alguém mais próximo de um dos lados, ora por alguém mais próximo do outro, não muda substancialmente a realidade de que, nos moldes atuais, quem ocupe a cadeira de prefeito está em grande parte amarrado a reproduzir um modelo de cidade excludente, ainda que, neste caso específico, o fundamento seja um laudo que comprova o risco de deslizamento no terreno. Tudo isso faz parte do que carinhosa e acriticamente chamamos de “respeito à lei”. Portanto, o grande peso do que aconteceu hoje com Suplicy – um conflito que, num primeiro plano, é com a PM, mas que é, também, com os limites de sua própria atuação institucional – é nos fazer pensar em saídas que estejam para além do campo já conhecido da “institucionalização dos conflitos”, dentro do qual o resultado é sempre o mesmo, isto é, em favor de quem o delimitou. Não foi por acaso que Suplicy, com seu estilo já até folclórico de agir para além dos protocolos e rococós da política profissional, foi detido hoje quando, com seu gesto, indicava que o povo tem que bloquear o uso do poder que, no papel da Constituição, dizem que é seu, quando o tal poder seja usado para esmagar suas condições mínimas de vida. Seria absurdo, creio, esperar qualquer deferência especial da PM com Suplicy e o que ele representa. Não foi por acaso. Foi um recado: não estamos todos do mesmo lado.

 

[26/7] a franja da encosta cor de laranja capim rosa chá o mel desses olhos luz mel de cor ímpar o ouro inda não bem verde da serra a prata do trem a lua e a estrela anel de turquesa os átomos todos dançam madruga reluz neblina crianças cor de romã entram no vagão o oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã e a seda azul do papel que envolve a maçã as casas tão verde e rosa que vão passando ao me ver passar os dois lados da janela e aquela num tom de azul quase inexistente azul que não há azul que é pura memória de algum lugar teu cabelo preto explícito objeto castanhos lábios ou pra ser exato lábios cor de açaí e aqui trem das cores sábios projetos tocar na central e o céu de um azul celeste celestial

https://www.youtube.com/watch?v=kS1zGVi3Uxs

 

[26/7] «People are the most important things in the world for me. I don’t at all mean that in a humanistic sense. It’s just that they are the most insistent and most demanding and most complex presences offered to me.» Robert Creeley, nessas conversas antigas que parecem ainda mais plenas a cada revisita.

http://www.theparisreview.org/interviews/4241/the-art-of-poetry-no-10-robert-creeley#.V5gbpvOl06I.facebook

 

[29/7] em tempos de temer, trump & outros terrores, sejamos índios:

[…] quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante e fala demais por não ter nada a dizer quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente […]

https://www.youtube.com/watch?v=nM_gEzvhsM0

 

[30/7] Duas certezas sobre Deus: se foi ele que fez o mundo, deve estar se perguntando “foi pra isso?”. E Milton Nascimento deve ser sua razão para manter essa coisa mais ou menos funcionando. Aproveitem.