O fórum, o lixão e nós

 

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«É meu direito como mulher, como negra, trabalhar!» Muito grave, muito triste o vídeo da advogada Valéria Alves dos Santos sendo algemada e presa durante uma audiência em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Entre as diversas vezes que ela repete que está trabalhando, que tem direitos e explica o que quer fazer na defesa de sua cliente, diante da juíza leiga, da PM e das pessoas que ali estavam, chamou minha atenção uma frase em especial: “não estou roubando”. Essa frase me levou diretamente às cenas iniciais do documentário “Boca de Lixo” (1992), filmado por Eduardo Coutinho no lixão de Itaoca, em São Gonçalo. Nunca me sai da memória a sequência em que Coutinho vai se aproximando com a câmera e as pessoas que estão recolhendo coisas no lixão fazem de tudo para não serem filmadas: correm, cobrem o rosto, xingam o documentarista. Aos poucos, aparecem alguns que enfrentam a câmera de peito aberto: “que é que você ganha pra botar esse negócio na nossa cara?”. Um menino diz: “todo mundo aqui tá trabalhando, não tem ninguém roubando aqui”. E é aplaudido. Uma senhora, permitindo a filmagem, crava: “teria vergonha se eu tivesse roubando, eu não tô”. Os rostos se sucedem, as vozes se misturam, mas vai ficando mais claro o recado daqueles trabalhadores do lixão: não temos nada para esconder, estamos trabalhando, não estamos roubando. Daí em diante, Coutinho consegue se aproximar daquelas pessoas e conversar sobre a vida dentro e fora do lixão. Quem não assistiu, por favor, assista. Porque não foi por acaso que a frase da advogada Valéria (“estou trabalhando, não estou roubando”) e as dos trabalhadores do lixão se misturaram na minha cabeça. Nas duas situações, aparentemente tão distantes quanto o fórum e o lixão como ambientes de trabalho, dizer que está trabalhando, dizer que não está roubando é uma forma de gritar por uma dignidade que está sendo pisoteada. No lixão, pela forma como a desigualdade social relega uma parcela imensa da população a viver do e no lixo. No fórum, pela forma como o Estado constrange e agride quem reivindica direitos, principalmente quando a advocacia se apresenta no corpo de uma mulher negra. Lá e cá, são fundamentalmente mulheres negras lutando por dignidade, insistindo no trabalho e no respeito à legalidade (“não estou roubando”) como antídoto contra os males dessa sociedade brutal. No entanto, o que aconteceu com a advogada Valéria arrebenta não apenas a sua própria dignidade, a sua dignidade de mulher negra que, contra todas as dificuldades de ser mulher e negra, tornou-se advogada e pode lutar pelos seus direitos e pelos direitos de seus clientes. Quando quem luta por direitos está no chão, tão perto assim de um coturno, somos obrigados a ver que, se não lutarmos cada vez mais e melhor, o que resta da nossa dignidade também vai parar no lixo.

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Um país em chamas

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(1) 20 milhões de peças. 200 anos de trabalho. Muitos e muitos anos de história. Tudo virando cinza. Uma tristeza sem fim.

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(2) ANTIMUSEU. Não é acaso, imprevisto, acidente. O desastre aqui é projeto. É muito mais que previsto. É desejado. A destruição está nos planos de governo. Múltiplas formas de destruição. Todas as instituições nacionais estão prontas para fritar a qualquer momento. Museus, universidades, bibliotecas, hospitais, prédios históricos, assim como as pessoas todas e seus direitos. Seus direitos são um museu que deve queimar, porque, na mentalidade de quem decide nosso “futuro”, não se pode avançar sem destruir. As autoridades orgulham-se de destruir. Destroem bem, destroem rápido, destroem sempre. Chateiam-se quando não podem destruir. Articulam novas formas de destruição. Acende-se o fogo, apaga-se a história. A história aqui é um entrave. Queima o museu que poderia nos lembrar do que somos, como queima a favela que nos mostra o que somos ou o índio que insiste em estar entre nós. E a manchete diz: “ninguém se feriu”. Não, estamos fatalmente feridos.

 

(3) «Há um quadro de Klee intitulado “Angelus Novus”. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.»

Walter Benjamin, “Sobre o conceito de História” (tese IX, trad. João Barrento)

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Desde a hora em que soube do incêndio no Museu Nacional, veio à mente esta passagem incontornável de Benjamin. Diante das chamas e ruínas na televisão, somos hoje esse anjo com os olhos esbugalhados e a boca escancarada que gostaria de parar para acordar os mortos, mas não consegue. E vai sendo engolido pelo “futuro”, pelo “progresso”.

 

(4) «aqui tudo parece

que era ainda construção

e já é ruína»

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Todo dia acontece algo que deixa ainda mais fortes e dolorosos alguns versos da poesia brasileira, como estes de Caetano Veloso, em “Fora da ordem”, de 1991.

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(5) O valor destinado à manutenção do Museu Nacional é menos que a metade do que se gasta com limpeza e manutenção da frota de carros do Supremo Tribunal Federal. Menos que a metade. Ainda assim, o Museu Nacional não vinha recebendo aquele valor completamente. E a frota de carros de um tribunal que tem 11 ministros é apenas uma das despesas “curiosas” que são atendidas pelo mesmo cofre federal. Sim, o dinheiro é um só, mas a selva de rubricas em que a burocracia divide esse dinheiro acaba nos despistando e não percebemos as decisões políticas, os propósitos escusos e até mesmo as mesquinharias que fazem nunca faltar (muito) dinheiro aqui, sempre faltar (pouco) dinheiro ali. Hoje, quando tudo que resta é olhar para fotos do incêndio e do rescaldo, o que mais dói é contextualizar essa tragédia e perceber que um valor irrisório no orçamento da União poderia ter evitado mais essa derrota. Como já disse aqui, não é um acidente. É um projeto. O projeto de um país condenado a ser sempre o cenário lindo de histórias trágicas. O país em que a reclamação de alguma autoridade, caso mandem buscar seu cachorro no petshop com uma “viatura” empoeirada, vai ter muito mais peso do que todos os nossos gritos por justiça, democracia, saúde, educação, memória. É o encontro entre os males de hoje e os males do passado, aqueles que arrastamos carinhosamente de geração a geração. Neste tipo de conservação do passado, aliás, somos peritos: o pior da história do Brasil funciona perfeitamente, a céu aberto, para quem quiser visitar. Mas não é hora de ironia. Esse misto de ódio e vergonha ainda vai queimar em nossas cabeças por muito tempo.

Lula Livre Lula Livro

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Escritores e cartunistas lançam
livro-manifesto pela liberdade de Lula

 

Organizada pelos escritores Ademir Assunção e Marcelino Freire, antologia Lula Livre / Lula Livro reúne autores como Augusto de Campos, Chico Buarque, Raduan Nassar, Aldir Blanc, Alice Ruiz, Chico César, Frei Betto, Laerte, Eric Nepomunceno, Noemi Jaffe, Chacal, Caco Galhardo, Marcia Denser, Gero Camilo, Raimundo Carrero e Xico Sá, entre outros. O livro será lançado dia 28 no circuito Off Flip em Paraty.

 

Oitenta e seis escritores e cartunistas brasileiros, de todas as regiões do país integram o livro-manifesto Lula Livre / Lula Livro, coletânea de contos, poemas, crônicas e cartuns pela liberdade do ex-Presidente Lula.

Segundo os organizadores Ademir Assunção e Marcelino Freire a publicação manifesta o inconformismo dos autores, “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme o texto de introdução (leia a íntegra a seguir).

Ainda conforme os organizadores, “o propósito do livro é criar mais um fato de repercussão, a partir da tomada de posição dos escritores, poetas e cartunistas, para engrossar os movimentos nacionais e internacionais contra a farsa da prisão do ex-presidente – e o golpe anti-democrático que representa a sua exclusão do processo eleitoral de 2018.”

Além da versão impressa, com 184 páginas, Lula Livre / Lula Livro terá um site na internet com os contos, poemas, crônicas e cartuns e a disponibilização do PDF da publicação.

“Fazia muito tempo que os escritores não tomavam um posicionamento conjunto tão vigoroso. Os descalabros que estão acontecendo no País desde o golpe de 2016 é que criaram a necessidade dessa manifestação político-literária”, dizem Ademir e Marcelino.

Estão sendo planejadas ações junto aos movimentos sociais para divulgar e repercutir o livro-manifesto em todo o Brasil e também no exterior.

 

Segue o texto de apresentação:

 

LULA LIVRE / LULA LIVRO

 

“Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.”

Camões

 

Joseph K., o conhecidíssimo personagem de Franz Kafka, se vê enredado em um processo judicial cujas origens desconhece e cujo desenrolar vai se tornando cada vez mais obscuro, sórdido e absurdo.

O processo que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis.

Travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça (com J maiúsculo), ele obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória.

Orquestrado sob o pretexto de combate à corrupção – combate sempre bem-vindo e necessário – sua utilização camufla, porém, objetivos maiores: barrar as mudanças significativas que estavam em curso no país – muitas delas resultantes de demandas seculares –, principalmente a mais significativa, mas não a única: a retirada de 36 milhões de brasileiros do cinturão de miséria, através de políticas, programas e investimentos sociais reconhecidos e valorizados internacionalmente.

Como já visto em outros momentos da história recente, sob os mesmos pretextos e com métodos semelhantes, o que se concretiza é um golpe contra os interesses da maioria da população, para manter os privilégios de uma minoria.

Basta verificar que, logo após a consolidação da primeira etapa do golpe, uma das medidas aprovadas pelo Congresso Nacional foi a reforma trabalhista, que retira direitos históricos dos trabalhadores e agudiza ainda mais a crônica desigualdade socioeconômica brasileira.

É nesse contexto que surge este livro-manifesto. Mais do que um documento literário, o que se pretende é um documento claramente político, com as armas que os autores utilizam em seu fazer criativo: poemas, contos, crônicas, ensaios e cartuns.

Os 86 poetas, prosadores e cartunistas aqui reunidos – de todas as regiões do país – atenderam ao chamado, na urgência dos fatos em curso no Brasil, para manifestar seu inconformismo com a prisão política do ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

Em um prazo curto, de poucas semanas, autores “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme consignado no texto-convite enviado a cada um deles, fizeram questão de levantar a voz e enviar suas colaborações inéditas em livro.

O título é uma clara tomada de posição de todos os autores pela liberdade de Lula, mas a temática dos poemas, contos, crônicas e cartuns vai além: em rápidas pinceladas, determinadas pela urgência da iniciativa, procura manifestar o descontentamento com as mazelas de um país massacrado pela histórica e brutal desigualdade socioeconômica, e pelo retrocesso social, político, cultural e mental representado pelo golpe de 2016, quando a presidente Dilma Rousseff, eleita por 54.501.118 brasileiros, foi destituída através de uma manobra orquestrada por setores políticos, jurídicos e midiáticos, a pretexto de prosaicas e já esquecidas “pedaladas fiscais”.

O ódio abertamente fomentado na população por grande parte dos meios de comunicação de massa, o cinismo de acusações generalizadas, muitas vezes disparadas por notórios personagens aviltantes, e o escárnio com as regras do jogo democrático, manipuladas ao bel prazer de interesses obscuros, repetiram uma liturgia já vista em outros momentos históricos do Brasil, posta em prática sempre que se procura uma ordenação mais justa na vida social e econômica do país.

O propósito deste livro, portanto, é o de unir as vozes destes autores aos movimentos nacionais – e até mesmo internacionais – contra a farsa da prisão do ex-Presidente Lula, e contra a continuidade do golpe anti-democrático representado por sua exclusão do processo eleitoral de 2018.

Pelo fim da prisão política de Luiz Inácio Lula da Silva; pelo direito dos eleitores votarem –  ou não –  em sua candidatura para a Presidência da República; pelo retorno do Brasil à normalidade democrática, é que se deve a existência deste Lula Livro.

 

Ademir Assunção / Marcelino Freire

 

LISTA COMPLETA DOS AUTORES

 

ademir assunção * ademir demarchi * adriane garcia * afonso henriques neto * alberto lins caldas * aldir blanc * alice ruiz * andréa del fuego * antonio thadeu wojciechowski * artur gomes * augusto de campos * augusto guimaraens cavalcanti * beatriz azevedo * bernardo vilhena * binho * caco galhardo * carlos moreira * carlos rennó * celso borges * chacal * chico buarque * chico césar * claudio daniel * diana junkes * douglas diegues * edmilson de almeida pereira * edvaldo santana * eltânia andré * eric nepomuceno * evandro affonso ferreira * fabio giorgio * fabrício marques * fernando abreu * ferréz * frei betto * gero camilo * gil jorge * glauco mattoso * jessé andarilho * jorge ialanji filholini * josely vianna baptista * jotabê medeiros * juvenal pereira * karen debértolis * laerte * lau siqueira * linaldo guedes * lucas afonso * luciana hidalgo * luiz roberto guedes * manoel herzog * marcelino freire * márcia barbieri * márcia denser * maurício arruda mendonça * noemi jaffe * patrícia valim * paulinho assunção * paulo césar de carvalho * paulo de toledo * paulo lins * paulo moreira * paulo stocker * pedro carrano * raduan nassar * raimundo carrero * ricardo aleixo * ricardo silvestrin * roberta estrela d’alva * rodrigo garcia lopes * ronaldo cagiano * rubens jardim * sandro saraiva * sebastião nunes * seraphim pietroforte * sérgio fantini * sérgio vaz * sidney rocha * susanna busato * tarso de melo * teo adorno * vanderley mendonça * waldo motta * wellington soares * wilson alves bezerra * xico sá

Covardes, Covards

marcus

COVARDES


Tarso de Melo

 

 

admiro

a fina coragem

dos covardes

 

quando cercam

com um bando de línguas

a língua da moça

e fazem os lábios dela

rirem de si próprios

para seu gozo

em alta resolução

 

quando se escondem

na multidão

que grita xinga ataca

em arquibancadas

e no conforto

sem nome

de novíssimos

e espertos telefones

 

quando passam

lá no alto

com suas hélices

e grossos calibres

apagando miseráveis

e manchando vidas

uniformes

 

quando se juntam

em rodas vivas

para matar mulheres

que tentam falar

que eles estão errados

 

quando passam

blindados

no céu ou no asfalto

sobre corpos esquálidos

 

quando cavam

com suas canetas douradas

infinitas covas

de setenta palmos

em folhas de sulfite

pagas pelo erário

 

quando quebram

com golpes de ódio e aço

os ossos frágeis

em que veem ameaças

 

é que mais admiro

a fina coragem

dos covardes

 

 

COVARDS

Trad. Josep Domènech Ponsatí

 

admiro

la delicada valentia

dels covards

 

quan envolten

amb un ardat de llengües

la llengua de la noia

i fan que els llavis d’ella

se n’enriguin de si mateixos

per al seu gaudi

en alta resolució

 

quan s’amaguen

entre la multitud

que crida insulta ataca

a les graderies

i en la comoditat

sense nom

de telèfons novíssims

i astuts

 

quan passen

allà dalt

amb les seves hèlixs

i grans calibres

eliminant miserables

i tacant vides

uniformes

 

quan s’ajunten

en cercles viciosos

per matar dones

que intenten dir

que ells s’equivoquen

 

quan passen

vehicles blindats

pel cel o per l’asfalt

sobre cossos esquàlids

 

quan caven

amb els seus bolígrafs daurats

infinites coves

de setanta pams

en fulls de paper offset

pagats per l’erari públic

 

quan trenquen

a cops d’odi i acer

els ossos fràgils

on veuen amenaces

 

és llavors quan més admiro

la delicada valentia

dels covards

A luta continua

APS

A luta continua? Sim. Estava lendo “A verdade vencerá”, livrão que a Boitempo lançou há pouco com uma longa entrevista de Lula, e me deparei com essa foto. Lula saindo do Sindicato dos Metalúrgicos em 1979. A foto já é forte o bastante para quem está hoje, quase quatro décadas depois, vendo o mesmo personagem no centro da convulsão política do país, mas, para mim, bateu ainda mais forte ver aquela cabecinha ali atrás: o advogado e escritor Antonio Possidonio Sampaio, que nos deixou, aos 84 anos, em junho de 2016. Trabalhar quase 20 anos numa mesa há poucos metros da sua deve ter me marcado mais do que imagino. E, mais do que podíamos imaginar, a história se repete por aqui. Pois é… os amigos vão embora, mas seus exemplos e suas lutas seguem conosco. No dia seguinte à intervenção, a Folha de S. Paulo publicou a seguinte nota:

«LULA, O FIM DE UM LÍDER?
Luíz Inácio da Silva, 33 anos, casado, três filhos, torneiro mecânico da Villares, Cr$ 18 mil cruzeiros mensais, está perpetuamente excluído de qualquer participação em cargos diretivos de entidades de classe, se literalmente obedecido o artigo 530 da CLT. Como Benedito Marcílio, de Santo André, e João Lins Pereira, de São Caetano, Lula foi substituído ontem, na direção do Sindicato de São Bernardo e Diadema, por um interventor federal.
A intervenção já era esperada por Lula, que surgiu como dirigente sindical em 1972, quanto ocupou cargo ao qual estavam afeitas as questões de previdência social na diretoria de seu Sindicato. Em 1975, elegeu-se pela primeira vez presidente, e em abril do ano passado foi confirmado no posto com 97,3% dos votos. Este seu segundo mandato deveria terminar em abril de 1981.
Ontem, Lula afirmou que deixava a presidência do sindicato com a consciência tranquila, pois “não traíra a classe dos trabalhadores”. Disse que o movimento grevista continuaria, porque era uma decisão de 80 mil trabalhadores em assembléia e não apenas dele: “Se hoje ainda não chegamos à vitória, tenho absoluta certeza de que a classe trabalhadora saberá lutar para conquistar o seu lugar na sociedade”.»

Que assim seja. Continuemos na luta.

No centro da roda viva, Lula

lula boulos

Muito importante ver Guilherme Boulos no centro da roda. Não só dessa Roda Viva infelizmente tão apequenada na hora de escolher os entrevistadores, mas das rodas de debate sobre como deve ser um Brasil mais justo, em todos os campos.
Já estamos acostumados a ver as ideias mais relevantes da esquerda colocadas para fora do debate político nas arenas da direita. Falar em superação do capitalismo e defender o socialismo são posturas que nunca couberam nos esquadros da “grande” imprensa.
E, também por isso, até mesmo as figuras que se destacam à esquerda são levadas a um debate que, normalmente, é circunscrito às pautas e possibilidades mais ou menos admissíveis no centro e até na direita. O raio da discordância é pré-determinado.
Boulos, no entanto, sabe dessas ciladas e, por isso, teve tanta desenvoltura ontem. Não se deixou prender nos limites do debate que interessa aos entrevistadores. E a gente sabe: o discurso que tem feito sucesso à(s) direita(s) não tem a menor condição de se contrapor ao de quem pensa as questões do país a partir da e contra a desigualdade social.
Enquanto falamos de Boulos aqui, a notícia do lado de lá é o encontro entre uma atriz de quinta categoria e o procurador jejuno do powerpoint… Mesmo a cartilha anticorrupção, que arrastaram até aqui, não é mais capaz de esconder seu uso parcial contra o PT. Salvo nos casos mais patológicos de antipetismo e paixão destrutiva por Lula, já há bastante silêncio no apoio à Lava Jato.
Diante disso, não podemos deixar de desqualificar esse debate “constragido” pela direita (em que até opiniões criminosas são admitidas!) e, de outra parte, qualificar cada vez mais à esquerda a pauta que importa para a maioria dos brasileiros. Boulos vai ser fundamental nesse processo, mas o nó a desatar ainda é o destino do presidente Lula.
Se o golpe conseguir tirá-lo completamente da disputa, não temos porque acreditar que uma candidatura até mesmo mais radical, como a do Boulos, vai ser tolerada. O golpe, no caso de Boulos, vai se antecipar às urnas (já coloque nessa conta os ataques à luta por moradia que temos assistido), como era com Lula nas suas primeiras candidaturas, quando seu discurso também eriçava os cabelos de outras rodas de entrevista.
Boulos nos anima, claro, mas ainda é cedo para tirar Lula do baralho, por mais complicada que seja a situação atual. Boulos mesmo disse: “Lula está vivo e é candidato”, porque até mesmo suas chances passam por aquela cela em Curitiba. Se Lula não estiver livre, é pouco provável que alguém na esquerda esteja. No mínimo, em termos eleitorais.

Vozes Versos | Quelônio

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Meu xodó! Essa coleção das plaquetes do Vozes Versos, feita nas oficinas da Editora Quelônio, está cada dia mais linda. E vai se tornando uma bela mostra do que anda acontecendo na poesia brasileira em nosso tempo. Até dezembro, serão 49 poetas. Já temos 8 plaquetes já lançadas, com poemas de Cide Piquet; Júlia Studart; Manoel Ricardo de Lima; Alberto Bresciani, Ana Estaregui e Marceli Andresa Becker; Thiago Ponce de Moraes, Micheliny Verunschk e Marcos Siscar; Marília Garcia, Paulo Ferraz e Joana Barossi, traduzindo Nicanor Parra; Francesca Cricelli, Marcelo Sandmann e Reynaldo Damazio; Ademir Assunção, Diana Junkes e Matheus Guménin Barreto; no encontro de 19 de maio, chegam André Luiz Pinto, Guilherme Gontijo Flores e Mônica de Aquino. Além delas, está no forno, para breve, a plaquetona “Primeiras Vozes”, reunindo os 13 poetas que participaram dos encontros anteriores à parceria com a Quelônio: Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen, Reuben Da Rocha, Iago Passos, Julia de Souza, Ruy Proença, Dalila Teles Veras, Renan Nuernberger, Lilian Aquino, Annita Costa Malufe, Fabiano Calixto e Rita Barros. Se você é de São Paulo, compareça aos encontros na Tapera Taperá para ouvir os poetas e adquirir as plaquetes. Se não puder, entre em contato com o Bruno e a Silvia da Quelônio (quelonioeditora@gmail.com) para adquirir as plaquetes anteriores e/ou fazer assinatura da coleção completa com 15 plaquetes. 🙂