A consciência rolezeira

Eu estava mesmo querendo explicar, nem que fosse pra mim mesmo, porque entendo que o sentido político dos rolezinhos independe da motivação pessoal, da “consciência política”, da “unidade de propósitos” dos rolezeiros (o que vale, de certo modo, para isso que passamos a chamar “jornadas de junho”, em 2013), mas a Silvia Viana veio (no facebook) e disse isso tudo:

 

Finalmente um texto insuspeito: suspeitemos.

1. Nada mais prático, hoje em dia, que se eximir do pensamento se colocando contra a “direita e a esquerda”. Beleza: ponto pro Kassab e para a Marina. É evidente que comentários na mídia, em geral, e no facebook, em particular, merecem, para dizer o mínimo, matização. Coisa diferente é reduzir os dois campos a lados histéricos da mesma moeda, sem se dar conta de que são tipos ideológicos bastante diversos. Se a direita afirma se tratar de um golpe marxista, isso não passa de delírio, que “cola”, precisamente pela ausência de justificação racional, “cola” em sua absoluta inconsistência, cujo fundamento é o puro medo. Já o argumento da esquerda, segundo o autor, é o de “que os rolezinhos são uma manifestação política com o objetivo de ocupar os espaços que são negados aos pobres pela sociedade de consumo”. Nesse caso, cabe uma crítica ideológica como a realizada pelo autor: eles frequentam esses espaços sim, como consumidores atomizados. Contudo, quando em grupo, a aparição é vetada. Daí o caráter objetivamente político dos eventos, queiram seus atores ou não – sonhem eles com tênis ou com a derrubada de muros.

2. Então temos a segunda falácia, perfeita para a aceitação confortável da mesma classe média “histérica” contra a qual se volta o autor. A noção de que o saber a respeito de determinado evento só é possível mediante a palavra dos sujeitos diretamente envolvidos. Conhecemos a história recente do preceito, bem como sua crítica: há determinações objetivas que escapam aos atores e às vezes os superam. No caso, a situação objetiva de uma luta de classes sim senhor. Se os rolezeiros têm plena consciência disso ou não, isso não anula o fato de que 1. Em nossa sociedade eles estão vetados de articular ações públicas coletivas, sejam elas quais forem; 2. Ao fazerem isso, geram um evento político de maior importância.

3. Visto nenhum de nós termos acesso à palavra, portanto, às intenções, dos rolezeiros, de fato, não cabe a nós determiná-la. Mas o autor o faz ao afirmar que a única certeza que temos é a de que eles querem consumo e festa. Primeira questão: por que, então, a balada continuou mesmo após a repressão? … e novamente? Talvez eles não saibam, mas estão exercendo resistência política. Contudo, talvez eles saibam muito mais do que o autor quer crer. Pois seu próprio exemplo, retirado do convite facebucano, não convida para uma mera festa, nele se lê: “Bora lotar o aricanduva!!! para o povo não achar q eu estou querendo promover arrastão… “. O sentido da ação, aí claramente explicitado (“para que o povo não ache…”), é a recusa do estereótipo social que os atira à vala comum do corpo matável. Nesse chamado está o mesmo veto geográfico e pressuposto social aos quais a esquerda – simplificando a questão ou não – vem chamando a atenção. Nessa frase está posta a luta de classes, ainda que não articulada tal como imaginam os manuais da revolta. E é precisamente em tal ambiguidade que reside a potência do ato. Se alguns acabam por esvaziá-la, buscando o enquadramento do ato em seus manuais, nos quais não cabem o tênis ou o funk, o autor faz o mesmo ao aceitar sem mais, e com o mais puro determinismo social, o conservadorismo da assim chamada classe C.

4. O maior problema das respostas ao rolê não é a desumanização desses jovens (coisa que é verdade apenas no que tange à direita-em-pânico), mas a recusa a pensá-los como sujeitos, coisa que o autor faz. A esse tipo de realismo conservador e pós-moderno, prefiro os pirados que enxergam nos rolezeiros, revolucionários. Pois aí ao menos reside a verdade do que, ao cabo de muita coletividade na parada, pode vir a ser.

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