D. Luiza e nossas certezas

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http://g1.globo.com/globo-news/manhattan-connection/videos/t/todos-os-videos/v/empresaria-fala-sobre-comercio-e-economia-no-brasil/3088745/

Vocês viram a entrevista da D. Luiza no Manhattan Connection? É para rir muito, mas também dá o que pensar. A certa altura, Diogo Mainardi, após ser corrigido pela empresária, rejeita as informações que ela promete passar sobre dados que ele havia citado. Diz o “jornalista”: “Me poupe, por favor, Luiza” (aos 6m20s do vídeo). Pois bem, devo confessar que não sei se ela está certa ou errada quanto aos dados, mas me chamou muito a atenção um jornalista recusar informações que poderiam afetar a sua opinião. Cabe perguntar: é um traço de nossa época? 

Não consigo imaginar uma sociedade que saiba tão claramente quanto a nossa separar o joio do trigo. Em outras palavras: uma sociedade que saiba afirmar, à queima-roupa, quem merece isso, quem merece aquilo. Uma sociedade que tem a faca sempre afiada para premiar e punir segundo critérios inquestionáveis.

As cabeças de presos anônimos estão espalhadas pelo corredor da prisão? Mereceram. Jovens são expulsos do shopping porque decidiram fazer algo além de comprar lá? Mereceram. Jovens são mortos aleatoriamente na periferia após a morte de um policial? Mereceram. Condenados são submetidos a tratamentos absolutamente incompatíveis com o que está na legislação? Mereceram.

E há, claro, outro lado nessa moeda: é oferecida uma oportunidade de trabalho como parte do tratamento a viciados? Absurdo. Aqueles que supostamente pagam menos impostos são beneficiados por alguma política pública? Absurdo. Determinados grupos recebem a proteção ou algum estímulo das leis? Absurdo. Alguém discorda de que tais coisas são absurdas? Sumo absurdo!

Pois é, uma vez que são inquestionáveis os critérios desses vereditos todos, discordar talvez seja o maior pecado de nossa época. Já que não sabemos ou não queremos lidar com os problemas reais, ao ensurdecer diante do que poderia abalar nossas certezas evitamos ao menos o efeito que poderiam ter em nossa consciência. Buscamos, desesperados, um anestésico. Já que a selva está cada vez mais escura e não vemos sol nem saída, buscamos um abrigo. E uma lanterna.

Ao aderir rapidamente ao veredito vapt-vupt sobre os fatos, muitas vezes expresso num pôster qualquer que se curte e compartilha, somos presenteados, de um lado, com certa facilidade para passar distraído em meio a problemas que, com um pouco mais de atenção, nem mesmo saberíamos por onde começar a entender e, de outro, pagamos o alto preço desse falso presente: ter uma dificuldade cada vez maior para lidar com problemas que não param de se multiplicar ao nosso redor. Melhor dizendo: em círculos assustadoramente próximos a nós, seja você quem for, imagine-se o que bem quiser.

Esta espécie de bloqueio à reflexão pode ajudar a entender porque, diante da notícia da violência brutal contra alguém que não tenha exatamente nossas mesmas características (sociais, econômicas, culturais etc.), há quem consiga afirmar que “ele deve ter feito por merecer” e, mesmo os que são mais “moderados”, lamentam a barbárie, mas não conseguem imaginar os fios que ligam aquele fato a outros até enredar a todos nós. Num e noutro caso, o saldo é praticamente o mesmo: continuaremos assistindo a fatos que garantem a reprodução e, normalmente, a exacerbação dessas mesmas posturas.

Do outro lado, entre aqueles que tentam chamar a atenção para o fato de estarmos todos no mesmo barco (o que nos obrigaria a reconhecer vínculos de solidariedade bem mais concretos do que qualquer campanha da fraternidade é capaz de revelar), há o hábito meio inocente de pedir que o interlocutor “se coloque no lugar do outro”. Eis uma coisa difícil numa sociedade especializada em dinamitar as pontes que poderiam persistir entre o que pretensamente acreditamos ser o “nosso lugar” e o “lugar do outro” – um lugar não-nosso.

Se cada um se dedica a cuidar do que é seu, é quase natural que cada um deteste, não apenas aquele que eventualmente tente pôr as mãos no que é seu, mas também quem não cuida apenas do que é seu. O “meu problema” está circunscrito a tudo que posso chamar de “meu”, ou seja, é “meu problema” apenas porque, antes de ser “problema”, é “meu”. (Talvez venha daí nossa dificuldade com participação política e, ao mesmo tempo, o cheque-em-branco que costumamos confiar àqueles que vão para a política apenas para defender o que é seu.)

O debate sobre os rolezinhos, por exemplo, revelou a certeza absoluta que muita gente tem sobre a distinção entre público e privado, principalmente para afirmar que, em espaço privado, o dono faz o que bem entende. Vocês sabem: já faz muito tempo que o dono das coisas não pode fazer o que bem entende com elas, ainda mais se essas coisas despertarem algum interesse mais amplo da sociedade.

Mesmo o direito, sempre tão “atrasado” nessas transformações, dá diversas provas de que as concepções isoladas de público e privado foram para o espaço, basta ver as exigências ambientais, a proteção às relações de trabalho etc. No entanto, o debate e principalmente as opiniões mais duras passam ao largo de todos esses possíveis desmentidos que a realidade poderia oferecer.

Hoje, quando temos a oportunidade de trocar informações rapidamente e sem os filtros todos que Diogo e sua turma sabem muito bem instalar em qualquer assunto (daí a alegria que nos dá quando algum convidado, ao vivo, não corresponde às expectativas…), será uma pena fecharmos os ouvidos para informações que possam abalar nossas convicções e os vereditos que nos confortam. Pelo contrário: deveríamos implorar para que D. Luiza, seja ela quem for, não nos poupe de informação alguma!

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