Para não enlouquecer

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Nunca li a biografia de Elza Soares escrita por José Louzeiro, mas lembro diariamente – e cada vez mais – de seu impactante subtítulo: Cantando para não enlouquecer. Tenho-o como uma espécie de mantra. Mudo o verbo (não sei cantar!), às vezes ele sai do gerúndio, mas permanece a ideia central: agir para não enlouquecer. Fazer algo para não se perder, para não afogar. Lembro dele quando abro o jornal (virtual), quando entro nas redes sociais, quando ouço a conversa dos amigos. É instantâneo: começo a me informar sobre o mundo e já ouço ao fundo os primeiros acordes da “bossa negra”.

Não li a biografia, mas, sabendo um pouco da sucessão de dramas pessoais vividos pela cantora, dá bem para imaginar porque Louzeiro destacou na capa do livro essa ideia de que ela canta (e canta muito!) para não enlouquecer, como se cantar fosse o único lugar seguro para alguém que tem cruzado a vida em meio a um ininterrupto tiroteio. Cantando, cantando sempre, cantando demais.

Talvez você não entenda porque o subtítulo do livro é tão forte. Vou tentar ilustrar. O primeiro filho nasceu quando Elza tinha 13 anos e a sua primeira apresentação como cantora aconteceu nesta época, no programa do Ary Barroso na Tupi, para conseguir comprar remédios pro bebê, mas não adiantou – pouco tempo depois, ele morreu. Aos 14, Elza engravidou novamente, mas o outro filho, também prematuro e desnutrido, não resistiu. Daí em diante, Elza colecionou gestações e tragédias: aos 20 anos, já estava viúva, com 5 filhos para criar, diversas mortes de familiares, e pulando de galho em galho em serviços domésticos para sustentar a família sozinha. Aos 22, confiou sua única filha a um casal bem de vida para que cuidasse da menina, mas o casal desapareceu (elas se encontraram apenas no final dos anos 90). Aos 25, conheceu Garrincha e, como o jogador acabou o casamento anterior para viver com ela, sofreu uma reprovação social pesada e, de quebra, teve que cuidar dele durante o período pesado do alcoolismo que o levou à morte 16 anos depois… O filho que tiveram em 1977 morreu aos 9 anos num acidente de carro. Paro por aqui.

O que significava, para Elza Soares, cantar em meio a tudo isso? Pense aí. E por que é que estou falando disso numa segunda-feira qualquer? Você perceberá logo o exagero: nosso tiroteio pode não ser o mesmo da Elza, mas precisamos fazer algo – cantar, se esta for nossa forma de lutar, ou lutar de outra forma – para não sucumbir à sucessão de tragédias que nos cercam. Eu disse que você ia achar um exagero – e é bem provável que esteja achando.

Pois bem. Então me diga o que você faz após ler as notícias que chegam da Ucrânia? Do Anhangabaú? Do Alto da Paz? Qual é seu antídoto contra a opinião abalizada dos especialistas? Contra o tirocínio dos articulistas? Contra a certeza dos editoriais? Como você se recompõe após passar por ruas cada vez mais ocupadas por gente em estado de putrefação? Como você se levanta depois de guardar na memória mais algumas mortes e ofensas que se espalham pelo mundo? Como você volta pra rotina depois de ser atropelado pelo bando de espancados, torturados, assassinados, ofendidos, entregues diariamente na porta da sua casa? Me diga, enfim, o que você faz para não enlouquecer?

Sei que é difícil fazer como a Elza, microfone na mão em meio à tormenta, mas você não pode simplesmente fingir que está tudo bem.

 

PS: se tiver um tempinho, caro leitor, ouça isso:

Cadê o outro lado?

“Eu nunca vi, nem na Globo, nem nos jornais brasileiros, uma única notícia positiva sobre a Venezuela. Uma única! A gente pode ter a opinião que a gente quiser sobre a Venezuela. A Venezuela é um país muito complicado. Agora, será que nesses quinze anos de chavismo, não aconteceu nada positivo? Eu nunca vi e desafio a me mostrar uma notícia positiva sobre a Venezuela na Globo. Porque eu estou aqui, estou falando da Globo, mas eu diria isso mesmo no Estadão, na Folha de S. Paulo, em outro emissora de televisão. Não é possível que só mostrem o que é ruim ou supostamente ruim da Venezuela. Cadê o outro lado? Será que os venezuelanos que votaram no Chávez, que votaram no Maduro, são tão burros de votar num governo que só faz coisa errada?”

Imperdível. Seja para entender um pouco mais o que acontece na Venezuela e como têm sido divulgados os fatos de lá entre nós, seja para pensar um pouco sobre como funciona o arranjo entre nossa imprensa e os “especialistas” a que ela recorre. Quando aparece um convidado como o Prof. Igor Fuser, que não cumpre o papel de confirmar, com credenciais acadêmicas, a perspectiva que interessa à empresa de jornalismo, tanto a jornalista quanto o outro professor perdem o eixo e partem para a ironia etc.

Prova de que essa turma não consegue sobreviver para fora das aspas que tanto gostam de impor.

http://g1.globo.com/globo-news/entre-aspas/videos/t/todos-os-videos/v/especialistas-debatem-perspectivas-politicas-da-venezuela-apos-prisao-de-lider-da-oposicao/3157867/

Gilmar no seu devido lugar

Este é um daqueles casos em que o poder, a fama e bastante malícia argumentativa projetam um autor para um patamar que não representa a qualidade de seus trabalhos. O poder puxa a fama e a fama puxa o poder. A qualidade, nesse contexto, fica em segundo plano, porque ela acaba deixando de ser, na equação, uma variável que agrega. Não há necessidade de escrever uma grande obra jurídica, simplesmente porque qualquer coisa mediana que se escreva será reproduzida por uma cultura jurídica que não questiona.
O que importa é o poder da fala ou a fama da fala, não o texto em si. Fazendo uma analogia com a música, é que nem ouvirmos aquilo que faz sucesso, porque é reproduzido pelos canais de televisão, pelas rádios e todo mundo canta. O fato de estar representado por uma grande gravadora que tem contratos com canais de televisão traz ao músico poder. Por outro lado, a reprodução de suas músicas nesses canais lhe traz fama. E tudo gira em torno de poder, fama e muito lucro.
Mas, no fundo, para quem tem um pouco de amor pela música, sabe que não é a Ivete que fará diferença, mas o Baden Powell, o Tom Jobim, o Ernesto Nazareth, a Dolores Duran, a Mayza Matarazzo, o Luiz Bonfá e tantos outros. Pois, afinal, não basta ser afinadinho – Chet Baker que o diga. Saber, portanto, compilar jurisprudência e doutrina com algumas conclusões seria o ser “afinadinho”. Mas isso é muito pouco. Em termos diretos, quero dizer que devemos ter menos “afinadinhos” e mais Chet Bakers. Em outros palavras, queremos ter, em nossa cultura constitucional, menos Ivetes e mais Badens.

Ivan e a piadinha sem graça

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Você já deve ter ouvido inúmeras piadinhas sobre a Lei Maria da Penha. Eu já vi até mesmo decisões judiciais que fazem piadinha com a lei. Talvez você e eu tenhamos até dado risada. Muita gente acha um exagero que haja lei para disciplinar algo que deveria ser resolvido na esfera privada – entre adultos, muitas vezes responsáveis por crianças. Assunto de gente grande.

Mas daí eu leio a notícia do pai que, após brigar com a esposa, agarra o filho de 6 anos e se joga do 13o andar. Fim. As matérias vão, aos poucos, detalhando as coisas: o pai de Ivan já vinha agredindo a esposa há alguns anos. Chegou a quebrar seu braço, mas “ela não levou o processo adiante”. Contam as matérias que ela afirmou que apanhava calada há bastante tempo. Os vizinhos não suspeitavam. Ivan, talvez, nem soubesse que seu pai, faixa preta de judô, usava suas habilidades para isso. A mãe de Ivan, ao ficar calada, não imaginava que a violência poderia aumentar, contra ela e contra seu filho.

Eu olho para a foto do Ivan com sua mãe e, ao lado, parte de um homem que muito provavelmente era seu pai, comemorando um aniversário. A fantasia do Sportacus e a decoração ao fundo (Cocoricó?) fazem doer um pouco mais. Pensar na distância entre a alegria fugaz daquele momento de festa e a tragédia da noite do último domingo, com certeza, também faz doer um pouco mais. Saber que os vizinhos ouviram Ivan dizer “pai, não faz isso”, então, é um punhal.

Eu olho a foto de Ivan e fico pensando na Lei Maria da Penha. Eu fico pensando na lei e no menino. Sei que muita gente vai se dar por satisfeito afirmando que o pai era um monstro. Ponto. O menino deu azar de ser filho de um monstro, a mãe dele deu azar de se casar com um monstro. E no dia seguinte não haverá mais motivo para chorar pelo menino e voltaremos a rir da lei e seus “exageros”.

Algum incrédulo pode até dizer que, para alguém capaz de ato tão extremo, a aplicação rigorosa da lei talvez não surtisse efeito. Pelo contrário, talvez até apressasse as coisas. Pois é, talvez. Talvez? É muito talvez para deixarmos de acreditar que algo – o possível – deveria ser feito. Deveria ter sido feito.

Na dúvida, temos boas razões para crer que a aplicação das medidas previstas na lei (entre outras) poderia mudar o rumo dessa história. Um dos finais possíveis nós já conhecemos. Os outros, não. Tenho certeza que aquele menino na foto gostaria muito que fizéssemos algo para salvar outros Ivans que estão por aí, prontos para voar da janela pela última vez. Com ou sem fantasia de herói.

Por aqui, sem o Ivan, a gente vai continuar rindo: de leis que reconhecem a fragilidade de determinados grupos, de leis que tentam reverter o quadro brutal de violência contra mulheres dentro de suas casas, contra homossexuais nas ruas, contra crianças sob cuidados de seus pais. A gente vai continuar escarnecendo dessas coisas todas que “a turma dos direitos humanos” inventa pra complicar a vida. A gente vai continuar dizendo que “não se mete a colher em briga de marido e mulher”, que “um tapinha educa”, que a vida é assim.

E a morte?

Sobre omelete e vagabundos

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Omelete, vocês sabem, é fácil digerir, mas nem tudo é omelete. Há alguns dias ando desconfiado, um pouco angustiado, sem muita paciência para o noticiário e para a gritaria que se forma ao redor das notícias. É morte pra cá, porrada pra lá, e todo mundo sabendo dizer exatamente o que deve ser feito neste e naquele caso. Soluções perfeitas, normalmente soluções finais. Tenho minhas dúvidas, muitas, até mesmo porque as informações que chegam estão bem longe de qualquer certeza. O mais prudente, parece-me, é ouvir mais do que falar. E seguir, o quanto for possível, o conselho do itabirano: “fique quieto no seu canto”. Vou tentar, mas sei que há coisas que são inevitáveis. Redes sociais, por exemplo. Você sai, por exemplo, para almoçar (almoçar, às vezes, é inevitável). E promete não colocar a mão no celular ao menos enquanto estiver comendo, sozinho, quieto no seu canto, o omelete generoso que o boteco vende a uns tantos reais. Eis que, para sua desgraça, a turma da mesa ao lado não tem o menor respeito pelo omelete alheio (uns puristas diriam que é “a” omelete, mas o Houaiss me disse que tanto faz). E o papo deles começa a reproduzir, ao vivo e aos brados, postagens e comentários que você imaginou ter deixado longe de seu prato. Uma pena. Lá pelas tantas, entre garfadas e relatos de crimes, uma moça proclama: “a gente só vai ter sossego quando matarem todos esses vagabundos”. De boca cheia, os demais assentiam com a cabeça. Não reparei se comiam omeletes, mas posso garantir que continuaram a conversa e o almoço normalmente, certos de que jamais seriam parte desse grupo um tanto quanto difuso de “vagabundos”. Não sei, também, o que aconteceu com meu garfo, mas ele passou a ter uma dificuldade cada vez maior para levantar os pedaços do omelete. Deve ter ficado pensando quantos, mais ou menos, são “todos esses vagabundos”. Dependendo do que você usar como régua, bem poderia ser a humanidade toda. Garfos não têm porque temer: dificilmente serão confundidos por alguém que se disponha a exterminar “todas essas colheres” ou “todas essas facas”. Tudo bem que o design de talheres hoje em dia anda muito criativo, mas ainda se preservam algumas diferenças importantes: facas têm lâmina, colheres são côncavas, garfos têm dentes. Costuma ser assim. Havia quatro pessoas na mesa ao lado da minha. Olhando discretamente e filtrando-os com todos os preconceitos que cabem atrás dos meus óculos escuros, posso mesmo admitir que, naquela frase triunfante, eles estariam no lugar de “gente”, não no de “vagabundos”. Mas sei que minha opinião não vale nada, até porque coloco todo mundo – ou quase – no sujeito daquela frase, praticamente esvaziando o predicado… Fica difícil, assim, ter sossego, mas engasgar na segunda metade de um omelete não chega a ser o fim do mundo. Problema, problema mesmo seria se aqueles quatro, armados com seus garfos e facas (colheres, creio, não costumam ser muito úteis nessas missões), decidissem que só um vagabundo pode estar comendo um omelete às 13h do dia 14 de fevereiro de 2014. Seria estranho, mas não seria mais estranho do que alguém acreditar que teremos (quem?) sossego no dia em que todos aqueles que consideramos “vagabundos” (quem?) forem mortos.

Grafias

Já deram uma olhada no primeiro número da revista GRAFIAS, do Centro de Apoio ao Escritor – CAE da Casa das Rosas? A edição, sob os cuidados de Reynaldo Damazio, reproduz em suas primeiras páginas o famoso discurso proferido por Luiz Ruffato em Frankfurt no ano passado, seguido por uma entrevista que o saudoso Prof. João Alexandre Barbosa deu a Franklin Valverde. Ricardo Lísias discute questões atuais sobre a formação de escritores, Simone Caputo Gomes e Claudia Maria Fernandes Correa entrevistam a escritora Conceição Evaristo, e Heitor Ferraz mete o dedo em algumas feridas da literatura que tem sido feita entre nós. De quebra, um belíssimo poema do escamandrista Guilherme Gontijo Flores, escrito durante seus dias de poeta visitante na Casa das Rosas. Lá pelo meio, você vai encontrar um textinho meu, “A duras penas”, que reproduzo aqui como um convite para ler coisa bem melhor!

 

A DURAS PENAS

Escrevo pouco. Digo: escrevo poucos poemas. De modo lento, entrecortado, mas ainda assim intenso, espero. Recolho num caderno algumas palavras, alguns versos, até que eles mesmos decidam se juntar num poema, algo assim. Longos processos de composição, durante o qual como mal, durmo mal, leio mal, mal ouço o que falam comigo. Esqueço quase tudo o que não anoto. Me perco em ruas que conheço bem, invisto pesado na distração. Podia ser como naquele “Poema do jornal”, do Drummond: “O fato ainda não acabou de acontecer/ e já a mão nervosa do repórter/ o transforma em notícia”. Eu diria: “em poema”. Mas não é. Aqui, “a doce música mecânica” quase não visita. Está muito mais para aquilo que ele diz num outro poema de Alguma poesia: “Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever./ No entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo./ Ele está cá dentro/ e não quer sair”. Drummond tem dessas coisas: no primeiro poema, “a pena escreve”. No outro, “a pena não quer escrever”, mas “a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”. Inunda mesmo, não apenas a poesia do momento, mas o tormento do poema que não se deixa flagrar. Inunda. Sufoca. Afoga. E nada do verso ganhar forma, da palavra convencer, do ritmo achar seu prumo. Sei que há poetas mais desenvoltos: os livros muitos e longos que lançam não deixam dúvidas. Poetas que mandam na pena. Poetas que não apenas ouvem “a multidão, o coro do universo,/ o trote das estrelas/ já nos subúrbios da caneta” (Murilo Mendes), mas que sabem bem lidar com isso. Que não emudecem diante da “aproximação do terror”, nem se deixam sufocar pela página em branco, pela tela cobrando palavras, versos, qualquer coisa. Invejo-os. Ainda mais quando percebo estar diante de algo que, em suas mãos, sei, daria causa a versos e mais versos: o amor, a morte, a vida fazendo ou perdendo sentido. Dói ver um bom motivo escorrendo entre os dedos da memória, morrendo esquecido num canto da caderneta, fugindo por entre as listas de tarefas e os tantos projetos inacabados. Dói, mas não vira poema. Estranhamente, no entanto, não é apesar desses tormentos que, de vez em quando, surge algo a que você ou, com sorte, algum leitor pode chamar de poema. É por causa deles. Quando comparo os poemas “prontos” – e ainda mais os livros – com os caderninhos (impuras recolhas de possíveis versos, excertos de todo tipo de leitura, indicações de livros, filmes etc.) que me acompanharam no período em que os escrevi, constato que os poemas resultam, quase necessariamente, dessa mescla do que li e do que pretendo ler, do que escrevi e do que deixei de escrever, do que vivi e do que não poderei viver. Os poemas nadam aí. Constatá-lo já é um avanço, mas não garante que o poema seguinte se entregará mais fácil.

A revista, que é digital, está toda aqui:

http://issuu.com/casadasrosas/docs/revista_grafias_1

Nina Horta sobre Donizete Galvão

E o que mais me arrependo de tudo era não ter elogiado seus poemas como mereciam. Quando o conheci fui avisando que seria pobre crítica e leitora, pois a poesia me dava medo, era sempre um poço sem fundo onde eu não queria cair e me segurava nas bordas para não sentir o choque do gelo daquela água. Ele não insistiu, mas um dia me deu a obra completa do T.S. Eliot, vai entender!

http://ninahorta.blogfolha.uol.com.br/2014/02/12/um-grande-poeta/

Júlio Mendonça e o caracol

Um poema inventa suas próprias regras. Diante dele e ao percorrê-lo o leitor se depara com o frescor e a estranheza de uma linguagem desconhecida. Diferentemente, a língua é o território que ele conhece, mesmo quando andou em poucos dos seus caminhos. No poema, esse território se apresenta a ele alterado como se tivesse tido um outro uso. A linguagem é esse novo modo de usar que o leitor tem que aprender ali, no ato da leitura. Essa linguagem tensiona a língua. Na língua, o familiar, o conhecido; na linguagem, a surpresa. A poesia de Tarso parece identificar o inesperado da linguagem poética com as inquietações da vida contemporânea: “nada acena aonde ir, mas impede de ficar” (Lugar Algum, p. 30).

http://www.incomunidade.com/v19/art.php?art=10

Linchadores

Não concordo que seja “a mais triste nação” (porque a coisa também está feia da fronteira pra fora), nem sei bem se estamos “na época mais podre”, mas não tive como não lembrar dessa música lendo as notícias e comentários sobre nossa barbárie cada vez mais cotidiana:

O cu do mundo
(Caetano Veloso)

O furto, o estupro, o rapto pútrido
O fétido sequestro
O adjetivo esdrúxulo em U
Onde o cujo faz a curva
(O cu do mundo, esse nosso sítio)
O crime estúpido, o criminoso só
Substantivo, comum
O fruto espúrio reluz
À subsombra desumana dos linchadores

A mais triste nação
Na época mais podre
Compõe-se de possíveis
Grupos de linchadores