Uma carta para o Doni

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Doni, meu caro, é bem provável que os críticos agora se ocupem de ler sua poesia. Costuma acontecer: o corpo frio costuma acender leitores. Eles dirão que sua poesia fará muita falta, que você isso, que “GALVÃO, Donizete” aquilo. Você será citado, Doni, indexado, choverão normas da ABNT em seu jardim. Um jardim seco, sabemos, mas um jardim. E é bem provável que você ache ridículo tudo isso, assim como sei que soará ridículo aos seus ouvidos rigorosos o meu ato de escrever uma carta para quem não vai nem receber nem ler estas palavras. Deixa estar. Não tenho hora melhor para ser ridículo. Sei bem que você gastou mais tempo do que devia indagando o silêncio desses que agora serão seus leitores. Seus leitores, veja só, justamente porque o silêncio agora é seu, todo seu. Vai entender. Mas não é disso que gostaria de tratar nesta nossa última carta. Quem vinha lendo seus livros sabia bem que poesia não era o problema. Sobra poesia naqueles volumes magros. Cada um dos seus livros fazia e continuará fazendo o banquete para seus leitores – os de sempre e os de hoje em diante. O que seus amigos – e é incrível o número deles – não aceitam é que você vá embora, assim, sem uma festa, sem um abraço, sem mais convívio. Convívio. Taí uma palavra que eu não lembro de ter lido nos seus poemas, mas que tinha tudo a ver com você. Convívio, com-viver, viver-com. Chego a crer que todos os seus poemas só nasceram no momento em que viver-com se mostrava problemático, difícil, crítico, como naquele poema em que você xinga uma pomba que a cidade matou, como se matasse a você. Mas eu não quero ficar lembrando, muito menos interpretando seus poemas agora. Poemas? Todo mundo aqui sabia que poema era a mais fácil das artes a que você se dedicou. Aliás, não vai ser nada difícil a vida de quem ficar procurando em seus poemas alguma indicação de que a morte nos rodeia. Moleza, Doni. Há uma sombra pesada sobre cada página que você escreveu, tão densa quanto a atenção que você dedicava a cada pessoa que a vida trazia para perto: o abraço sempre disponível, a leitura incansável, o diálogo aberto, a mania de presentear, a ponte prontamente instalada. Coisas que nem a poesia explica: o poeta do desconforto (escoiceado, mudo, inacabado) era perito em propiciar conforto aos outros, a todos, o tempo todo. Ah, Doni, como é que alguém que sempre tentou nos convencer que era cedo demais para sair da mesa, sai tão cedo assim de nossa vida? Guardo aqui o abraço que gostaria muito mesmo de ter entregue pessoalmente, seu amigo, T.

PS: desculpe pela foto pouco comportada, mas não consigo reconhecer você nos retratos sisudos que tenho visto circular por aí.

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3 comentários sobre “Uma carta para o Doni

  1. Hélio 1 de fevereiro de 2014 / 12:46

    Tarso deixei uma foto bem legal do Doni divertido no verbete dele do Wikipedia. Pode usar.

  2. Anônimo 3 de fevereiro de 2014 / 11:38

    que bonito, tarsim.
    abraço,
    m.

  3. Luiz Alberto Pena 14 de fevereiro de 2014 / 16:31

    Belíssima carta. Bela e comovente homenagem ao excelente poeta.

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