Grafias

Já deram uma olhada no primeiro número da revista GRAFIAS, do Centro de Apoio ao Escritor – CAE da Casa das Rosas? A edição, sob os cuidados de Reynaldo Damazio, reproduz em suas primeiras páginas o famoso discurso proferido por Luiz Ruffato em Frankfurt no ano passado, seguido por uma entrevista que o saudoso Prof. João Alexandre Barbosa deu a Franklin Valverde. Ricardo Lísias discute questões atuais sobre a formação de escritores, Simone Caputo Gomes e Claudia Maria Fernandes Correa entrevistam a escritora Conceição Evaristo, e Heitor Ferraz mete o dedo em algumas feridas da literatura que tem sido feita entre nós. De quebra, um belíssimo poema do escamandrista Guilherme Gontijo Flores, escrito durante seus dias de poeta visitante na Casa das Rosas. Lá pelo meio, você vai encontrar um textinho meu, “A duras penas”, que reproduzo aqui como um convite para ler coisa bem melhor!

 

A DURAS PENAS

Escrevo pouco. Digo: escrevo poucos poemas. De modo lento, entrecortado, mas ainda assim intenso, espero. Recolho num caderno algumas palavras, alguns versos, até que eles mesmos decidam se juntar num poema, algo assim. Longos processos de composição, durante o qual como mal, durmo mal, leio mal, mal ouço o que falam comigo. Esqueço quase tudo o que não anoto. Me perco em ruas que conheço bem, invisto pesado na distração. Podia ser como naquele “Poema do jornal”, do Drummond: “O fato ainda não acabou de acontecer/ e já a mão nervosa do repórter/ o transforma em notícia”. Eu diria: “em poema”. Mas não é. Aqui, “a doce música mecânica” quase não visita. Está muito mais para aquilo que ele diz num outro poema de Alguma poesia: “Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever./ No entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo./ Ele está cá dentro/ e não quer sair”. Drummond tem dessas coisas: no primeiro poema, “a pena escreve”. No outro, “a pena não quer escrever”, mas “a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”. Inunda mesmo, não apenas a poesia do momento, mas o tormento do poema que não se deixa flagrar. Inunda. Sufoca. Afoga. E nada do verso ganhar forma, da palavra convencer, do ritmo achar seu prumo. Sei que há poetas mais desenvoltos: os livros muitos e longos que lançam não deixam dúvidas. Poetas que mandam na pena. Poetas que não apenas ouvem “a multidão, o coro do universo,/ o trote das estrelas/ já nos subúrbios da caneta” (Murilo Mendes), mas que sabem bem lidar com isso. Que não emudecem diante da “aproximação do terror”, nem se deixam sufocar pela página em branco, pela tela cobrando palavras, versos, qualquer coisa. Invejo-os. Ainda mais quando percebo estar diante de algo que, em suas mãos, sei, daria causa a versos e mais versos: o amor, a morte, a vida fazendo ou perdendo sentido. Dói ver um bom motivo escorrendo entre os dedos da memória, morrendo esquecido num canto da caderneta, fugindo por entre as listas de tarefas e os tantos projetos inacabados. Dói, mas não vira poema. Estranhamente, no entanto, não é apesar desses tormentos que, de vez em quando, surge algo a que você ou, com sorte, algum leitor pode chamar de poema. É por causa deles. Quando comparo os poemas “prontos” – e ainda mais os livros – com os caderninhos (impuras recolhas de possíveis versos, excertos de todo tipo de leitura, indicações de livros, filmes etc.) que me acompanharam no período em que os escrevi, constato que os poemas resultam, quase necessariamente, dessa mescla do que li e do que pretendo ler, do que escrevi e do que deixei de escrever, do que vivi e do que não poderei viver. Os poemas nadam aí. Constatá-lo já é um avanço, mas não garante que o poema seguinte se entregará mais fácil.

A revista, que é digital, está toda aqui:

http://issuu.com/casadasrosas/docs/revista_grafias_1

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