Sobre omelete e vagabundos

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Omelete, vocês sabem, é fácil digerir, mas nem tudo é omelete. Há alguns dias ando desconfiado, um pouco angustiado, sem muita paciência para o noticiário e para a gritaria que se forma ao redor das notícias. É morte pra cá, porrada pra lá, e todo mundo sabendo dizer exatamente o que deve ser feito neste e naquele caso. Soluções perfeitas, normalmente soluções finais. Tenho minhas dúvidas, muitas, até mesmo porque as informações que chegam estão bem longe de qualquer certeza. O mais prudente, parece-me, é ouvir mais do que falar. E seguir, o quanto for possível, o conselho do itabirano: “fique quieto no seu canto”. Vou tentar, mas sei que há coisas que são inevitáveis. Redes sociais, por exemplo. Você sai, por exemplo, para almoçar (almoçar, às vezes, é inevitável). E promete não colocar a mão no celular ao menos enquanto estiver comendo, sozinho, quieto no seu canto, o omelete generoso que o boteco vende a uns tantos reais. Eis que, para sua desgraça, a turma da mesa ao lado não tem o menor respeito pelo omelete alheio (uns puristas diriam que é “a” omelete, mas o Houaiss me disse que tanto faz). E o papo deles começa a reproduzir, ao vivo e aos brados, postagens e comentários que você imaginou ter deixado longe de seu prato. Uma pena. Lá pelas tantas, entre garfadas e relatos de crimes, uma moça proclama: “a gente só vai ter sossego quando matarem todos esses vagabundos”. De boca cheia, os demais assentiam com a cabeça. Não reparei se comiam omeletes, mas posso garantir que continuaram a conversa e o almoço normalmente, certos de que jamais seriam parte desse grupo um tanto quanto difuso de “vagabundos”. Não sei, também, o que aconteceu com meu garfo, mas ele passou a ter uma dificuldade cada vez maior para levantar os pedaços do omelete. Deve ter ficado pensando quantos, mais ou menos, são “todos esses vagabundos”. Dependendo do que você usar como régua, bem poderia ser a humanidade toda. Garfos não têm porque temer: dificilmente serão confundidos por alguém que se disponha a exterminar “todas essas colheres” ou “todas essas facas”. Tudo bem que o design de talheres hoje em dia anda muito criativo, mas ainda se preservam algumas diferenças importantes: facas têm lâmina, colheres são côncavas, garfos têm dentes. Costuma ser assim. Havia quatro pessoas na mesa ao lado da minha. Olhando discretamente e filtrando-os com todos os preconceitos que cabem atrás dos meus óculos escuros, posso mesmo admitir que, naquela frase triunfante, eles estariam no lugar de “gente”, não no de “vagabundos”. Mas sei que minha opinião não vale nada, até porque coloco todo mundo – ou quase – no sujeito daquela frase, praticamente esvaziando o predicado… Fica difícil, assim, ter sossego, mas engasgar na segunda metade de um omelete não chega a ser o fim do mundo. Problema, problema mesmo seria se aqueles quatro, armados com seus garfos e facas (colheres, creio, não costumam ser muito úteis nessas missões), decidissem que só um vagabundo pode estar comendo um omelete às 13h do dia 14 de fevereiro de 2014. Seria estranho, mas não seria mais estranho do que alguém acreditar que teremos (quem?) sossego no dia em que todos aqueles que consideramos “vagabundos” (quem?) forem mortos.

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2 comentários sobre “Sobre omelete e vagabundos

  1. Célia Menezes 14 de fevereiro de 2014 / 14:56

    Omelete difícil de engolir!
    E no frigir dos ovos quem de nós será “gente” ou “vagabundo”…tomará que a decisão não venha da mesa ao lado!

  2. Anônimo 15 de fevereiro de 2014 / 09:30

    Tá ágil!

    Que fazer com todos esses que (infelizmente) não são vagabundos?

    Mario Rui

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