Ivan e a piadinha sem graça

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Você já deve ter ouvido inúmeras piadinhas sobre a Lei Maria da Penha. Eu já vi até mesmo decisões judiciais que fazem piadinha com a lei. Talvez você e eu tenhamos até dado risada. Muita gente acha um exagero que haja lei para disciplinar algo que deveria ser resolvido na esfera privada – entre adultos, muitas vezes responsáveis por crianças. Assunto de gente grande.

Mas daí eu leio a notícia do pai que, após brigar com a esposa, agarra o filho de 6 anos e se joga do 13o andar. Fim. As matérias vão, aos poucos, detalhando as coisas: o pai de Ivan já vinha agredindo a esposa há alguns anos. Chegou a quebrar seu braço, mas “ela não levou o processo adiante”. Contam as matérias que ela afirmou que apanhava calada há bastante tempo. Os vizinhos não suspeitavam. Ivan, talvez, nem soubesse que seu pai, faixa preta de judô, usava suas habilidades para isso. A mãe de Ivan, ao ficar calada, não imaginava que a violência poderia aumentar, contra ela e contra seu filho.

Eu olho para a foto do Ivan com sua mãe e, ao lado, parte de um homem que muito provavelmente era seu pai, comemorando um aniversário. A fantasia do Sportacus e a decoração ao fundo (Cocoricó?) fazem doer um pouco mais. Pensar na distância entre a alegria fugaz daquele momento de festa e a tragédia da noite do último domingo, com certeza, também faz doer um pouco mais. Saber que os vizinhos ouviram Ivan dizer “pai, não faz isso”, então, é um punhal.

Eu olho a foto de Ivan e fico pensando na Lei Maria da Penha. Eu fico pensando na lei e no menino. Sei que muita gente vai se dar por satisfeito afirmando que o pai era um monstro. Ponto. O menino deu azar de ser filho de um monstro, a mãe dele deu azar de se casar com um monstro. E no dia seguinte não haverá mais motivo para chorar pelo menino e voltaremos a rir da lei e seus “exageros”.

Algum incrédulo pode até dizer que, para alguém capaz de ato tão extremo, a aplicação rigorosa da lei talvez não surtisse efeito. Pelo contrário, talvez até apressasse as coisas. Pois é, talvez. Talvez? É muito talvez para deixarmos de acreditar que algo – o possível – deveria ser feito. Deveria ter sido feito.

Na dúvida, temos boas razões para crer que a aplicação das medidas previstas na lei (entre outras) poderia mudar o rumo dessa história. Um dos finais possíveis nós já conhecemos. Os outros, não. Tenho certeza que aquele menino na foto gostaria muito que fizéssemos algo para salvar outros Ivans que estão por aí, prontos para voar da janela pela última vez. Com ou sem fantasia de herói.

Por aqui, sem o Ivan, a gente vai continuar rindo: de leis que reconhecem a fragilidade de determinados grupos, de leis que tentam reverter o quadro brutal de violência contra mulheres dentro de suas casas, contra homossexuais nas ruas, contra crianças sob cuidados de seus pais. A gente vai continuar escarnecendo dessas coisas todas que “a turma dos direitos humanos” inventa pra complicar a vida. A gente vai continuar dizendo que “não se mete a colher em briga de marido e mulher”, que “um tapinha educa”, que a vida é assim.

E a morte?

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