Vergonha de ser homem

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Já disse por aí: quando acabar, se acabar, a greve dos garis, nem todo lixo será recolhido. Vai ficar espalhado em nosso corpo, em nossas casas, em nossas ruas, o sangue de um menino chamado Alex. Vai ficar colada em nossa memória cada pancada que o menino levou de seu pai para “andar como homem”. Alex vai ficar girando à nossa frente, barrando nosso caminho, entupindo nossos ouvidos. Cada um de nós vai recolher na rua os gritos que os vizinhos de Alex dizem não ter ouvido. Cada um de nós é um pouco mais lixo com a morte de Alex.

Pelo que contam as notícias, o caldeirão em que Alex vivia não prometia destino melhor: a mãe, lá em Mossoró/RN, desempregada, cuida do filho mais novo, um bebê de 8 meses; vê de vez em quando o outro filho de 3 anos (que vive com os avós paternos) e não tem notícias de outro filho, de 15 anos, que desde bebê vive com o pai no Rio. Há menos de um ano, Digna, este é seu nome, mandou Alex, de 8 anos, “viver” no Rio como seu irmão mais velho, mas com outro pai. O pai em questão, desempregado, morava com a mulher e outras 5 crianças, até ser preso na noite de 18 de fevereiro pela morte de Alex, que não resistiu às duas horas de espancamento que o pai chamava de “corretivos”.

Talvez fosse só maldade mesmo, pura e simples, às carradas, o que movia o pai de Alex. Talvez fosse vergonha do filho que gostava de dançar, cozinhar, lavar louça, estudar e tinha “trejeitos afeminados”. Vergonha do menino que não gostava apenas de “coisas de menino”. Vergonha do que aqueles todos que pensam saber exatamente o que é um homem diriam caso vissem Alex esbanjando coisas que não são de homem. Se era esta a razão, é bem provável que o pai de Alex, detrás das grades de Bangu, esteja agora bem orgulhoso – do que fez e do que o filho não mais fará.

Se ser homem é ser o que o pai do Alex – e todos os idiotas que o acompanham – julga certo, a ponto de sentir-se autorizado a espancar e matar alguém (seu filho ou não, criança ou não, homossexual ou não), não tenho dúvida de que temos muitas razões para ter vergonha. Principalmente, vergonha de ser homem onde ser homem é um lixo.

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Um comentário sobre “Vergonha de ser homem

  1. dalila teles veras 10 de março de 2014 / 23:14

    Mais uma vez, dolorosamente, você, Tarso, cutucou o ponto (ferida aberta que fica a arder, também, no outro, o leitor.

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