Nunca mais!

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Dia 31 de março está chegando e, a tomar pelas fanfarras que vimos nas ruas nos últimos dias, também o Facebook será ocupado pelas “comemorações” do cinquentenário do golpe militar de 1964. Pois bem, não há muito o que fazer com relação aos defensores convictos daquela excrecência. Há, creio, limites cognitivos para seu convencimento de que o contrário de sua opinião é o correto (e eu acho que eles não vão entender essa formulação…). Para os demais, aqueles que por deslize, desinformação ou desespero podem vir a aderir a alguma posição “simpática” ou “compreensiva” com a brutalidade da ditadura civil-militar entre nós, acho importante esclarecer: qualquer afirmação do tipo “no tempo de ditadura era melhor” é invariavelmente errada. Não precisa nem saber do que se trata – educação, saúde, segurança, economia ou até mesmo futebol. Por que está invariavelmente errada? Porque qualquer aspecto que você se sinta tendente a elogiar (a “ordem”? que “ordem”?) é fruto direto de formas de violência das mais abjetas que um humano pode arquitetar. Se alguém teve que passar por algo parecido com o que relatam os torturados da ditadura, qualquer “curtir” que se lance em direção a um aspecto sequer do regime (e eu estou fazendo o esforço de pressupor que alguém possa, a sério, pescar algo de positivo no meio das poças de sangue que cobriram e ainda cobrem este país) é conivência com as atrocidades que foram cometidas em nome da “ordem” e do “progresso”. Não há frutos bons em árvores podres. 
Ainda estão vivos muitos torturadores e muitos torturados – aqueles devem ver com certa alegria que tanta desinformação sobre a ditadura permita que muita gente saia por aí relativizando o que foi feito, mas os outros, que ainda carregam as cicatrizes, provavelmente devem sentir cada “não era bem assim” como uma nova estocada, uma nova volta no parafuso que os sufoca nos porões dessa imensa delegacia que chamamos de “nação”. Estamos falando de gente que foi submetida, nas dependências do Estado, a estupros, choques, afogamentos, a todo tipo de sevícia, em muitos casos levando a mortes e “desaparecimentos”. Não posso acreditar que alguém menos bruto e perverso do que aqueles seres brutos e perversos que se deliciaram massacrando, POR QUALQUER MOTIVO, milhares de pessoas, leve a sério que a solução dos nossos problemas passa por aí. Não, pelo contrário, é a perpetuação dos nossos problemas que passa por aí: não vai haver “ordem”, não vai haver “progresso”, enquanto estivermos surfando no sangue de quem quer que seja.

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Um comentário sobre “Nunca mais!

  1. Rosana Chrispim 27 de março de 2014 / 18:25

    Decididamente contundente, lúcido e preciso. Como sempre.

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