O caso Thomas Quick

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http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=28076

Eis um livro que ajuda a refletir um pouco sobre os “limites” de nosso sistema penal… e midiático…

Para saber um pouco mais do que se trata, leiam esta matéria:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1177742-serial-killer-confesso-tem-inocencia-provada-na-suecia.shtml

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O SUS e o ovo da serpente

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Apitem, gritem, toquem tambores, cornetas, corram, pintem as caras, as ruas, ergam bandeiras, coloquem faixas nas casas e nos carros – não, não é por causa da Copa. Bem mais silenciosamente que a apresentação dos jogadores da seleção, ocorreu ontem uma audiência pública que deveria parar o país: sob o eufemismo “diferença de classe”, está pendente de julgamento no Supremo um recurso que pretende abrir espaço nos hospitais públicos para a venda de serviços médicos.

Poderia procurar outras palavras mais bonitas e técnicas para explicar o que está em jogo na ação (cuja decisão terá efeito em todos os casos da mesma natureza), mas é exatamente isso: o paciente entra por uma porta que é do SUS, mas lá dentro, dependendo do que puder pagar, terá acesso a um tratamento melhor do que aquele oferecido aos demais pacientes. Bonito, né? Então vamos escrever a mesma frase do avesso: o paciente entra por uma porta que é do SUS, mas lá dentro, dependendo do que NÃO puder pagar, terá acesso a um tratamento PIOR do que aquele oferecido aos pacientes que puderem pagar mais.

Chamam a isso “diferença de classe” e até mesmo apresentam essa “benesse” como uma forma de melhorar as finanças dos hospitais públicos. Ontem, na audiência pública, foram ouvidas as opiniões de várias instituições e especialistas a respeito. No geral, pelo que pude verificar, muita gente foi lá para defender o acesso universal e igualitário que define o SUS na Constituição. Vamos ver no que dá.

Ao ler a notícia me lembrei do incrível filme de Bergman, “O ovo da serpente” (1977). O filme mostra, com uma força impressionante, como já era possível vislumbrar, através da frágil camada que protegia uma sociedade que se desfazia rapidamente, o surgimento de uma nova forma de sociedade. Bergman retrata, assim, o surgimento do nazismo na Alemanha dos anos 1920.

Não sei se exagero ao afirmar que, sob a fina membrana que recobre essa sociedade que corre o risco de admitir a “diferença de classe” nos hospitais públicos, vai se revelando, cada vez mais, a imposição de uma lógica social que não é menos violenta e autoritária do que aquela retratada por Bergman – a lógica social do “pode viver quem pode pagar”. Se esta é a regra em quase todos os setores da nossa vida, permitir que ela adentre nos hospitais só aumenta a nossa distância em relação a uma sociedade melhor. E mais nos aproxima da serpente.

Não preciso lembrá-los que o crescimento da saúde privada (e hoje já são mais de 50 milhões de brasileiros que pagam por algum plano de saúde) está diretamente ligado à ineficácia do sistema público. Não apenas à sua ineficácia concreta, mas também à imagem negativa que cola em tudo o que é público por aqui. Nesse contexto, se nada indica um convívio harmonioso entre público e privado da porta para fora dos hospitais, por que teríamos que acreditar que essa harmonia surgiria quando eles se encontrassem da porta para dentro?

Ao falar de “diferença de classe”, aliás, temos a tentação de dizer que classes diferentes vão ter acessos diferentes dentro do mesmo hospital. Mas é bem pior que isso: se a lógica da privatização da saúde não consegue deixar o SUS quieto no seu canto (e pior ainda é pensar que tais ideias encontrem defensores do outro lado da trincheira), por que mesmo ela pararia por aí? A saúde é um ótimo negócio – e negócios são negócios. O atendimento à saúde, convertido em mercadoria no espaço em que, de alguma maneira, ele deveria estar protegido do toma-lá-dá-cá, vai rapidamente se dobrar à “mentalidade pedágio” que preside nossas vidas.

Parece um exagero, e é. Mas temos que exagerar, como quem grita por socorro. Não são poucos os ovos e as serpentes espalhadas por aí. Além desta na saúde, podemos já também antever o mesmo tipo de pressão sobre as universidades públicas (e, quem sabe, sobre o ensino público em geral). Certamente, as greves que as atingem neste momento têm muito a ver com isso. Basta olhar com um pouco mais de atenção para o ovo. Como dizia Brutus, na célebre passagem do “Júlio César” de Shakespeare, devemos matar a serpente na casca ou alguém virá chocá-la e permitir que ela nos devore, mais cedo ou mais tarde.

 

PS: ah, e não chame de cínico ou coisa pior aquele seu amigo que tem plano de saúde e se importa com o destino do SUS. Guarde seus xingamentos para o dia em que ele estiver lutando apenas por aquilo de que se beneficia diretamente.

 

Vejam as notícias relacionadas à “diferença de classe” no site do STF:

http://www.stf.jus.br/portal/cms/listarNoticiaSTF.asp

Creeley, para além da moda

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O Brasil – ou a “cultura brasileira” – é um campo imprevisível. Talvez todos os países, todas as culturas sejam. Mas por aqui acontecem coisas realmente desencaixadas de qualquer tradição. Lembro-me disso ao ser forçado a uma espécie de retorno autobiográfico pela leitura de alguns poemas de Robert Creeley (1926-2005): já houve por aqui, no final dos anos 1990, uma “moda Creeley”. Autobiográfico, sim, porque digo isso como alguém que participou mais ou menos intensamente dela. Uma moda: poetas e mais poetas, de diversas gerações, que se encantaram com a poesia de Creeley, que pingava em traduções que foram se avolumando em pouco tempo (até a coletânea A um: poemas, lançada pela Ateliê em 1997, de R. Bonvicino), e começaram a reproduzir o seu estilo entrecortado, a sua fala fotográfica, minuciosa, até o ponto de saturar sua forma, de desgastar suas imagens, de fazer parecer um cacoete estilístico aquilo que em Creeley era pura força. Ou pior: de fazer com que a leitura de Creeley – do próprio Creeley – por aqui fosse sempre vinculada ao que dele vinham fazendo seus “seguidores”. Perdão, Bob! Não foi a primeira vez nem deve ser a última que isso acontece aqui (na verdade, na verdade, sei que não é tão imprevisível assim que um autor consiga chegar por aqui desse modo desastroso), mas é muito triste que isso tenha ocorrido com Creeley. De toda forma, essa breve introdução é apenas para comemorar o fato de que jovens tradutores estejam voltando a Creeley (como se pode ler nos links abaixo) e trazendo outros de seus incríveis poemas ao português, dando nova chance a um dos maiores poetas do século 20 de ser lido por aqui como se deve, para além de qualquer moda, para além de qualquer apropriação enviesada. Quem sabe assim, com nosso mínimo apoio, não chega por aqui uma antologia mais ampla da poesia desse gigante.

 

Creeley por André Caramuru Aubert (no Rascunho)

http://rascunho.gazetadopovo.com.br/robert-creeley/

 

Creeley por Guilherme Gontijo Flores (no Escamandro)

http://escamandro.wordpress.com/2012/09/10/o-amor-segundo-robert-creeley/

Araken

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Parem tudo que o brasileiro vai torcer. Vai torcer muito. E a favor. Vai passar escoltado pelo exército em meio aos protestos, mas vai torcer. De quebra, talvez tire até selfies ao lado dos soldados, envergando a camiseta amarela de R$ 229,00 que a Nike mandou fazer em algum canto do mundo, talvez no mesmo lugar em que têm sido feitas as bolas da Adidas, por trabalhadores que ganham cerca de R$ 200,00 por mês. A bola vai rolar e o brasileiro vai torcer – fiquem tranquilos. Enquanto torce, contudo, sente algum incômodo. Algo cutuca, coça, irrita o torcedor brasileiro. Como se não tivesse retirado a etiqueta que vem presa à camiseta, cheia de recomendações de como lavar e conservar a peça. Aliás, há algo que não sai na lavagem, uma ou outra mancha mais persistente. Não sai com qualquer sabão. Porque ele já deve ter percebido que – antes, durante e depois da Copa – vai ter muito grito que não é de gol, vai ter muita camiseta e bandeira que não são de seleção, vai ter muita buzina que não é de alegria. Esse barulho já chegou até ele, rompendo até mesmo o cerco sonoro do seu novíssimo home theater, de onde sai, ademais, uma tragédia à parte: as músicas feitas para celebrar a passagem da FIFA por aqui. (Se o tal brasileiro for corintiano, então, ele também já deve ter percebido que a gente vai ter que lidar com uma herança estranha: um estádio-ostentação, que transformou a torcida numa milícia que tem que defender – até fisicamente – o indefensável, suspenso acima do mundo dos mortais por negociatas impublicáveis.) Mas o brasileiro estará no estádio, mesmo com a camiseta manchada, dando beijinho no ombro para os invejosos que levam tiro, porrada e bomba do lado de fora do camarote. Torcendo, torcendo, torcendo. Alucinadamente. Até contra si mesmo.