O SUS e o ovo da serpente

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Apitem, gritem, toquem tambores, cornetas, corram, pintem as caras, as ruas, ergam bandeiras, coloquem faixas nas casas e nos carros – não, não é por causa da Copa. Bem mais silenciosamente que a apresentação dos jogadores da seleção, ocorreu ontem uma audiência pública que deveria parar o país: sob o eufemismo “diferença de classe”, está pendente de julgamento no Supremo um recurso que pretende abrir espaço nos hospitais públicos para a venda de serviços médicos.

Poderia procurar outras palavras mais bonitas e técnicas para explicar o que está em jogo na ação (cuja decisão terá efeito em todos os casos da mesma natureza), mas é exatamente isso: o paciente entra por uma porta que é do SUS, mas lá dentro, dependendo do que puder pagar, terá acesso a um tratamento melhor do que aquele oferecido aos demais pacientes. Bonito, né? Então vamos escrever a mesma frase do avesso: o paciente entra por uma porta que é do SUS, mas lá dentro, dependendo do que NÃO puder pagar, terá acesso a um tratamento PIOR do que aquele oferecido aos pacientes que puderem pagar mais.

Chamam a isso “diferença de classe” e até mesmo apresentam essa “benesse” como uma forma de melhorar as finanças dos hospitais públicos. Ontem, na audiência pública, foram ouvidas as opiniões de várias instituições e especialistas a respeito. No geral, pelo que pude verificar, muita gente foi lá para defender o acesso universal e igualitário que define o SUS na Constituição. Vamos ver no que dá.

Ao ler a notícia me lembrei do incrível filme de Bergman, “O ovo da serpente” (1977). O filme mostra, com uma força impressionante, como já era possível vislumbrar, através da frágil camada que protegia uma sociedade que se desfazia rapidamente, o surgimento de uma nova forma de sociedade. Bergman retrata, assim, o surgimento do nazismo na Alemanha dos anos 1920.

Não sei se exagero ao afirmar que, sob a fina membrana que recobre essa sociedade que corre o risco de admitir a “diferença de classe” nos hospitais públicos, vai se revelando, cada vez mais, a imposição de uma lógica social que não é menos violenta e autoritária do que aquela retratada por Bergman – a lógica social do “pode viver quem pode pagar”. Se esta é a regra em quase todos os setores da nossa vida, permitir que ela adentre nos hospitais só aumenta a nossa distância em relação a uma sociedade melhor. E mais nos aproxima da serpente.

Não preciso lembrá-los que o crescimento da saúde privada (e hoje já são mais de 50 milhões de brasileiros que pagam por algum plano de saúde) está diretamente ligado à ineficácia do sistema público. Não apenas à sua ineficácia concreta, mas também à imagem negativa que cola em tudo o que é público por aqui. Nesse contexto, se nada indica um convívio harmonioso entre público e privado da porta para fora dos hospitais, por que teríamos que acreditar que essa harmonia surgiria quando eles se encontrassem da porta para dentro?

Ao falar de “diferença de classe”, aliás, temos a tentação de dizer que classes diferentes vão ter acessos diferentes dentro do mesmo hospital. Mas é bem pior que isso: se a lógica da privatização da saúde não consegue deixar o SUS quieto no seu canto (e pior ainda é pensar que tais ideias encontrem defensores do outro lado da trincheira), por que mesmo ela pararia por aí? A saúde é um ótimo negócio – e negócios são negócios. O atendimento à saúde, convertido em mercadoria no espaço em que, de alguma maneira, ele deveria estar protegido do toma-lá-dá-cá, vai rapidamente se dobrar à “mentalidade pedágio” que preside nossas vidas.

Parece um exagero, e é. Mas temos que exagerar, como quem grita por socorro. Não são poucos os ovos e as serpentes espalhadas por aí. Além desta na saúde, podemos já também antever o mesmo tipo de pressão sobre as universidades públicas (e, quem sabe, sobre o ensino público em geral). Certamente, as greves que as atingem neste momento têm muito a ver com isso. Basta olhar com um pouco mais de atenção para o ovo. Como dizia Brutus, na célebre passagem do “Júlio César” de Shakespeare, devemos matar a serpente na casca ou alguém virá chocá-la e permitir que ela nos devore, mais cedo ou mais tarde.

 

PS: ah, e não chame de cínico ou coisa pior aquele seu amigo que tem plano de saúde e se importa com o destino do SUS. Guarde seus xingamentos para o dia em que ele estiver lutando apenas por aquilo de que se beneficia diretamente.

 

Vejam as notícias relacionadas à “diferença de classe” no site do STF:

http://www.stf.jus.br/portal/cms/listarNoticiaSTF.asp

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3 comentários sobre “O SUS e o ovo da serpente

  1. Michele Viviane Vasconcelos 30 de maio de 2014 / 09:59

    Você viu, o link tá com erro agora

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