Nós e os bichos

Imagem

Há diversas formas de olhar para a foto acima, mas poucas vão permitir que você durma em seguida. Já era quase hora de ir pra cama, na última sexta, e ela saltou na tela do computador: os garotos emaranhados, numa calçada que ostenta o mosaico que simboliza a “locomotiva do país”, aproveitando o bafo que o metrô joga para a superfície. Pelo que consegui descobrir, a foto é de 2012, tirada por Oliveiro Pluviano. Não sei quais as condições climáticas da data da foto, mas é importante que eu tenha tomado conhecimento dela numa semana em que São Paulo registrou temperaturas médias abaixo dos 20 graus. De certo modo, a foto é de 2012, mas também é de hoje, porque o frio cortante que está aqui agora continua encontrando meninos nas mesmas condições. Poucas cenas me soam tão fortes quanto essas em que pessoas que sobrevivem nas ruas buscam algum acolhimento – no caso dos meninos, o calor que escapa dos túneis do metrô, mas há outras tantas cenas desse tipo espalhadas nas calçadas e praças por aí, entre cobertores, placas de papelão, sacos plásticos. Cenas que associamos ao ambiente familiar, mas que vemos sem a proteção das paredes e grades que nos cercam em casa. Mães penteando filhos, casais abraçados, um homem esquentando comida, um cachorro sendo acariciado – por alguma estranha e cruel forma de indiferença, passamos por cenas assim como se estivéssemos diante de nada ou de muito pouco. É bem provável que passemos até mesmo pela cena registrada acima sem prestar atenção nas vidas que estão ali. Mas a foto não nos deixa ser indiferentes. Ela traz para dentro de nossas casas aquilo que desprezamos nas ruas e é por isso que é tão forte, pelo contraste entre as condições que vemos (na foto) e aquelas de que desfrutamos (em casa). Desde “O bicho”, de Bandeira, ao menos, somos martelados por essas cenas que se esforçam em “re-humanizar”, aos nossos olhos, os seres que deixamos viver-morrer na rua: “O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.// O bicho, meu Deus, era um homem”. Os bichos continuam rondando nosso sossego. Sofremos com o poema, sofremos com a foto. Mas podemos fechar o livro, podemos rolar a foto para longe dos nossos olhos. Enfim, podemos restabelecer aqui a indiferença que nos caracteriza nas ruas, misto de pressa, medo, impotência. Sabemos bem o que fazer diante dessas cenas – sabemos?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s