“Apanhar fez de mim uma pessoa melhor”

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Ah, os nossos noticiários… Tem-se proliferado, feito uma praga (e é uma praga mesmo), o hábito de jornalistas, com as mãozinhas postadas sobre a bancada, emitirem opiniões apoteóticas e não raro patéticas sobre as notícias que acabaram de exibir. Acaba de mostrar a greve e o “âncora” enche a boca para definir quais são os limites de uma greve legítima. Acaba de mostrar o protesto e lá vai o “âncora” desancar aqueles que converteram “o protesto legítimo” em “baderna”, com a mesma naturalidade com que comentou um pouco antes alguma decisão do Supremo e comentará a seguir um lance do futebol e uma receita de bobó de camarão. Muda a feição, algum trejeito, a cara de indignação ou satisfação, mas no geral é sempre o mesmo enredo, mude você quantas vezes quiser de canal. Não há muita escapatória além do botão “off”.

Pois bem, com a “Lei da Palmada” não seria diferente. Um desses “âncoras”, célebre por distribuir, como um carimbo, o decreto de “vergonha” diante disso e daquilo, disse que “Mussolini e Hitler devem estar aplaudindo essa lei fascista no inferno” (não vi ao vivo, mas apenas este trecho em destaque no UOL). Claro, uma das marcas desses comentários é o choque: tem que chocar, tem que polemizar, tem que acordar o já combalido telespectador. E para chocar vale tudo, né, Bóris?

Parece que Bóris já derrubou no Judiciário aquela acusação de ter pertencido ao “Comando de Caça aos Comunistas” (dedos-duros da ditadura), mesmo Judiciário que o condenou a indenizar os garis por aquela afirmação nada elegante sobre o lugar em que ele os colocaria na hierarquia da “escala do trabalho”: bem lá embaixo.

Pois é, o Judiciário. É dele que Bóris se socorre quando entende que foi ofendido, bem como é nele que Bóris se defende quando alguém que se entende ofendido por ele vai buscar reparação. Neste caso, Bóris deve falar muito sobre sua liberdade de expressão. Naqueles, sobre os limites da liberdade de expressão de seus desafetos. A vida é assim, leis são assim – é na hora do aperto que entendemos melhor o significado que elas têm ou deveriam ter. Não há teoria da interpretação que possa substituir o bom e velho conflito real de interesses na hora de deixar claro o que uma lei significa.

Odeio argumentar usando o “queria ver se fosse você”, mas às vezes não tem jeito, ainda mais porque o comentário, ao associar a lei ao fascismo, obriga o debate a baixar de nível. Então vamos lá: se Bóris fosse um menino que apanhou duramente dos pais, por exemplo, acho que usaria os seus segundos pós-notícia para emitir um comentário diferente, talvez até dizendo que “só quem foi castigado pelos pais sabe a importância de uma lei como essa”. Mas Bóris prefere outro caminho, o daqueles que dizem por aí, com um orgulho estranho, que “apanhar fez de mim uma pessoa melhor”. E eu, que nunca apanhei e penso pelo avesso, sou levado a concluir: NÃO apanhar fez de mim uma pessoa PIOR. É bem provável que, se eu tivesse apanhado, talvez não estivesse aqui agora deixando de almoçar para escrever essas linhas todas. À toa.

Não sei se aqueles que se dedicaram à aprovação da lei vão ficar felizes ao ver a afirmação de que estão fazendo a alegria de caras como Mussolini e Hitler. Bóris foi duro com eles. Bóris pode ter que voltar ao Judiciário em breve. Claro, ele diz que o culpado pela lei é “o Estado”, mas nós sabemos que “o Estado” é quase uma ficção.

Cada lei dessas que têm tentado colocar as coisas nos eixos por aqui, sempre conquistadas a duras penas, é fruto de muito sofrimento, desde muito antes de sua exposição aos xingamentos dos “âncoras”. O “processo legislativo”, nesses casos, começou entre quatro paredes, sem chances de defesa e muitas vezes sem as “boas intenções” que tantos por aí atribuem aos pais que “batem para fazer pessoas melhores”. Que coisa estranha! Eu bateria nos meus filhos por uma “boa razão”? Para ajudar a “moldar o caráter” deles? Isso nem me passa pela cabeça, mas, se passasse, eu abriria mão das minhas “boas razões” em favor de uma punição rigorosa a todos que batem pelas razões que, no seu caso, certamente julgam ser as mais nobres.

Lembram do caso do Alex que foi espancado até a morte pelo pai que queria que ele perdesse os “trejeitos efeminados”? Escrevi aqui sobre ele (Vergonha de ser homem). Não consigo conceber que, diante de uma notícia daquela, entre tantas outras do mesmo teor que recebemos diariamente, alguém ainda defenda que “a lei não deve se meter nisso”. Ora, lei se mete em tudo. Ela está dentro de nossas casas desde sempre e cada vez mais – e por culpa nossa! Podemos discutir se, noutro tipo de sociedade, é possível que isso mude, mas, principalmente quando se trata de crianças, não podemos testar a capacidade de “autocontrole” dos seus responsáveis. Não temos sido tão confiáveis assim… A “palmada” (e quem der uma lida no projeto de lei sabe que esse apelido é parte do ataque contra ele), não custa lembrar, é justamente dentro de casa que ela se impõe, é justamente onde a vítima não tem a mais ninguém para recorrer, é justamente onde o covarde se sente mais à vontade para exercer “seu poder”, mesmo quando ele acha que está fazendo a coisa certa. E ele sempre acha que está fazendo a coisa certa!

Quando encontrar na rua um estudante de Direito, é provável que ele esteja carregando um livro bem grosso chamado “vade mecum”, que reúne a ponta do iceberg da legislação nacional. Pergunte a ele quantas leis ali se intrometem no que “acontece dentro da nossa casa”, da nossa “vida privada”. Antes que isso aconteça, informo de bom grado que aquilo tudo que está previsto no Código Penal vale também dentro da sua casa. Nem pense em matar o zelador do seu prédio dentro da sua casa, porque a lei vai até lá se intrometer na sua “vida privada”… Só mesmo uma ignorância completa da legislação e da vida como ela é hoje, absolutamente administrada e constrangida por leis que invadem “a nossa casa”, pode justificar que alguém argumente que “o Estado” não deve se intrometer no fato de alguém bater em alguém. Mesmo que sejam pais e filhos.

Mas Bóris não concorda comigo. Se soubesse que existo, é bem provável que ele diria que, talvez porque não apanhei, sou “uma vergonha”. Tudo bem, não penso coisa muito diferente a respeito dele e de seus comentários.

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3 comentários sobre ““Apanhar fez de mim uma pessoa melhor”

  1. Michele Viviane Vasconcelos 5 de junho de 2014 / 17:31

    Adorei teu texto! E, apenas me solidarizando: o meu lado “maligno” foi formado à pancadas quando criança…
    Compreendo sua opinião e mais que isso, apóio. Não é necessário bater, quando há o diálogo.
    Por outro lado, também acho que, de uns dez anos pra cá, em tudo quanto é lei, se mexe, se adapta, a fim de apagar incêndios… a fim de causar incêndios… a fim de polemizar. Fica até difícil deduzir quem vai ganhar com a lei e o que.
    No caso específico das palmadas, que apelidaram de “lei menino Bernardo” -mas, o menino foi assassinado! Mas, a lei da palmada prevê advertências e auxílio dos conselhos tutelares… os mesmos que permitiram pai e mãe queimarem dois irmãos, que já haviam pedido socorro a esses conselhos… lembra deste caso?
    O que eu tenho certeza é que cultura, educação, humanização, não se constrói com leis, e que as nossas leis são pra inglês ver. É claro, desde que nós não interfiramos no bom andamento do governo corrupto. Aí, rapidinho se aplica as leis, de acordo com a conveniência.
    Ah, nossos noticiários estão um nojo mesmo.
    abs Tarso

  2. Rita 6 de junho de 2014 / 08:03

    Ah, prof … nós e nossas rápidas opiniões sobre todas as coisas nesse mundo rápido… não vou mentir e dizer que eu mesma não tenha exclamado: “putz, mas eu levei uns tapões de mamis e tô aqui…” diante das notícias relativas a essa lei… O problema é que, num primeiro momento, a gente enxerga o mundo sempre dentro do contexto dos 4 cm² em torno do nosso umbigo. E a gente esquece que o que pode acontecer por aí é a violência física em sua forma mais drástica, na que machuca, na que recorta, na que queima, na que quebra ossos, na que faz sangrar, e que, no corpo, pode até cicatrizar, mas nunca na alma… Obrigada por me fazer deparar com essa belíssima reflexão e me fazer jurar em pensar bem melhor no assunto … E quanto aos noticiários e redes sociais … por Deus … só me fazem lembrar Pessoa:

    “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?”

    Abços.

  3. Gabriela Bosse 6 de junho de 2014 / 17:05

    Brilhante!!!! Me fez respirar aliviada e celebrar que ainda existe no mundo senso e lucidez! Parabéns pelo texto!

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