A Copa e as bestas

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Prometi que não entraria nessa dividida sobre como devem se comportar na Copa do Mundo aqueles que não se conformam com os descalabros sobre os quais ela foi edificada, até porque já tenho visto muita gente dizer que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Mas caí numa pergunta: se até o povo bravo das redes está se entregando ao clima da Copa, como é que vou acreditar, como li por aí, que o povo brasileiro está desencantado com a Copa e não vai fazer o papel de torcedor empolgado que lhe foi reservado pelos organizadores do evento?

Uma das coisas mais perigosas ao analisar uma sociedade é tomar como referência, em termos absolutos, aquilo que está ao alcance dos seus olhos e dos seus ouvidos. Por exemplo, você pode sair por aí dizendo que todos os brasileiros têm carros, moram em apartamentos de tantos metros quadrados, torcem para o XV de Jaú, estudaram na USP, leram “Grande Sertão: Veredas”. Depende de onde você está, certo? Mas, ao levantar um pouquinho mais a cabeça para fora do alcance que ela costuma ter, você vai ver que nem todos se enquadram naquilo que, até então, parecia dar conta de tudo o que há – ou do que importa? – no mundo.

A relação dos brasileiros com o futebol, mesmo que todos os brasileiros aderissem ao “não vai ter Copa”, passa muito além das Copas. Aliás, nem o mais empolgado defensor do “não vai ter Copa” acreditaria que, por causa disso, “não vai ter futebol”, no sentido de que os brasileiros vão, enfim, acordar para o fato de que o futebol dos times grandes já é, há bastante tempo, da mesma natureza podre do que está sendo visto na Copa. Futebol é uma doença, torcer é uma doença. Eu, por exemplo, sou corintiano e me considero medianamente consciente a respeito das maracutaias em que meu time está envolvido, principalmente para virar “mundial”, então prometo, dia sim, dia não, que não vou mais ligar para futebol, porque tenho coisa mais importante a fazer. Mas basta começar o jogo do Corinthians e lá estou eu com os mesmos sinais de nervosismo de sempre, sem nada daquela frieza que julgava ser capaz de ter diante do “meu” time. Sim, sou uma besta, mas não estou sozinho. Bestas como eu vão ficar em frente da televisão, o quanto puderem, vendo o que acontece no gramado e, ao menos por dois tempos de 45 minutos, vão esquecer que os gramados são tão superfaturados quanto tudo que os cerca… Se tiver pênalti, então, os ladrões podem ficar à vontade.

Não é nem questão de torcer ou não pelo Brasil, mas de torcer. Ponto. De ver os jogos e torcer, ainda que pela Argentina, Camarões, Portugal ou Irã. Torcer e ser do contra, mas passar algumas horinhas do dia olhando para as infinitas telas que, a cada 5 metros, vão reproduzir jogos de futebol e aqueles debates mirabolantes que não levam a lugar algum. E nisso não haverá nenhuma quebra significativa com relação ao que boa parte dos brasileiros faz durante os anos todos de suas vidas: ver jogos, falar sobre eles, falar sobre os que ainda não aconteceram, sobre os que nunca vão acontecer, discutir, defender com unhas e dentes as hipóteses mais absurdas sobre algo que, no fundo, você sabe que não importa… Já disse: é uma doença. Claro, para quem não gosta de futebol, para quem não partilha dessa febre, não fica ranzinza depois de uma derrota ou sorri facilmente no dia seguinte a uma vitória (ou à derrota do adversário…), é fácil demais dizer que os brasileiros perceberam – ou deveriam perceber – que há coisas mais importantes e vão protestar mais do que torcer durante essa Copa. Mas, para o torcedor que alimenta esse gigante que é o futebol no Brasil – as horas todas de televisão e rádio que são dedicadas ao futebol, a venda de produtos relacionados aos times, os ingressos cada vez mais caros para ir ao estádio e, principalmente, o tempo todo de conversas sobre futebol que são gastas até mesmo entre estranhos, pelo simples fato de que estão lado a lado, num lugar qualquer, e um percebe no outro alguma disposição para comentar o lance do dia anterior –, creio que está acima de suas forças virar as costas para a quantidade de jogos que serão realizados nos próximos dias. Apesar de tudo.

Carlos Augusto, meu amigo, disse que esta é a Copa da culpa, porque está todo mundo pedindo perdão por torcer, perdão por ter falado tão mal da Copa e perceber que agora não conseguirá controlar seus ímpetos de torcedor. Perdão porque percebe que está prestes a cometer um pecado, mas ainda assim vai ceder à tentação. E ver e torcer e debater, enfim, fazer com que a Copa aconteça para além dos estádios suntuosos e inacessíveis à maior parte da população. Carlos Augusto tem razão, mas sei que isso vale para pouca gente num país gigante, que em grande parte não está nem aí para o que dizem no Facebook e não tem do que pedir perdão por estar agora vestindo a camisa da seleção. E torcendo. É bem provável que esse povo todo já soubesse, desde o início, que a Copa, essa coisa que odiamos, é feita de algo que amamos – futebol. E é esse o nó que não somos capazes de desatar.

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