Um poema

A provocação veio do Luiz Bras, organizador da antologia Hiperconexões, que chega a seu segundo volume. Ele me pediu um poema e deu as coordenadas: a antologia “trata” da ideia de um “pós-homem” que deve surgir pela influência das intervenções tecnológicas sobre o corpo humano etc. Mais ou menos isso. Fiquei desconfiado. E escrevi sobre essa desconfiança.

 

Retrato número 1

                       < Ninguém me salvará da mentira que sou. >
                                                     Maura Lopes Cançado

A noite cai como sempre caiu
e você, impaciente, fala de um novo homem.
Levanto a cabeça, olho em volta, não o vejo.
Eu peço menos pressa, outro copo,
e me distraio enquanto os homens de sempre,
exibindo sua sede, barriga demais, dentes a menos,
coçam lentamente os membros que ainda sentem
à beira de um rio que há muito os despreza.

De tempos em tempos nos escondemos em nossos telefones,
mesmo que eles não nos chamem, mesmo que nos devorem.
Descemos por entre cores que prometem nos levar além,
e já percebemos que a mutação máxima ao nosso alcance
é apenas uma dificuldade cada vez maior de voltar à tona.

É tarde. Estranho. Quando acorda, se acorda,
você diz que não quer morrer, mas não sabe o que nos prende à vida.
Nem quer saber. Queria outros olhos, um ouvido mais puro,
músculos e sinapses, mas não sabe bem o que faria com eles.

A mesa está cheia, a luz baixa, o rádio já cansado
– mas o novo homem não chega. Na tevê o homem de sempre
mostra suas garras, moendo ao vivo outros homens de sempre.
E você pergunta, como quem não quer resposta, se o novo homem
acaso vai usar seus superpoderes para ser ainda mais superpodre.
Poderíamos rir. Mas guardamos para outro tempo.

Hora de ir. Outro país se esvaiu, mais alguns foram linchados,
seus sonhos foram vendidos. Mais cedo ou mais tarde, a conta viria.
E – pelo corpo, pelo copo – não passou o bastante
para esquecermos que ninguém virá pagar por nós.

 

 

Quem quiser ler o volume 1 da antologia, está todo aqui:

 

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