Marx ha vuelto

 

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Palavras gastas

trombone
Temos ouvido cada vez mais as palavras “ditadura”, “arbitrariedade”, “tortura”, “repressão”, “exceção” (logo após “estado de”), “massacre”, “totalitário”, e outras tantas que se referem, de alguma maneira, ao retorno de práticas institucionais condenadas historicamente porque se opõem aos parâmetros de uma sociedade minimamente democrática. Repare: as palavras não voltaram sozinhas nem por acaso. Voltaram para nomear e acusar o desmonte dos frágeis cavaletes de uma sociedade que vai tentando se erguer em bases democráticas. Tentando.
Pois bem. Você liga a tela e já começam a rolar palavras que, em situações normais, deveriam nos colocar em choque. Deveriam nos derrubar da cadeira. Deveriam nos remeter à gravidade das situações que elas tentam nomear, justamente em razão da gravidade das situações em que elas foram usadas anteriormente. Mas não. Por alguma estranha razão, as palavras ficam boiando – nem conseguem acusar a violência presente com toda a força que gostariam, nem conseguem mais nos fazer voltar à imagem detestável do passado. Parecem estar gastas e incapazes de comover. Passamos os olhos por elas e seguimos em frente. Indiferentes.
Quando lemos ou ouvimos uma palavra, é quase imediato que nos remeta para algo que está além dela, das letras de que se compõe, dos sons que reúne. Algumas pessoas demoram mais para fazer o percurso que vai do som e da imagem da palavra até algum significado, normalmente são os mesmos que demoram para decidir – ou sequer decidem – qual dos possíveis significados é o “correto”.
Nesse grupo dos que passeiam com calma de uma palavra a outra, e das palavras para fora e vice-versa, estão, por exemplo, os leitores de poesia. Não se dão com poemas, por outro lado, aqueles que querem que a palavra diga logo e de uma vez por todas o que deve dizer, porque certamente não têm paciência com usos que se distinguem justamente por tentar fazer as palavras dizerem mais do que costumam dizer. Não há segredo nisso. Nas bifurcações que se abrem na direção do que as palavras querem nos dizer é comum escolher o caminho “errado”. Para a poesia, isso pode ser ótimo. Para uma denúncia, isso certamente é péssimo.
Com a força que as palavras perdem, vai embora também a nossa capacidade de comunicar a violência e de agir – palavras são ação – contra ela. Vai embora a nossa capacidade de se levantar contra os abusos do poder, exatamente porque é com palavras que marcamos o limite entre o que aceitamos ou não. A luz do alerta não acende ou, de tão pálida, já não chama mais nossa atenção. Passamos batidos.
Mas ninguém deveria passar batido pela palavra “ditadura”, ninguém deveria passar batido pela palavra “repressão”, ninguém deveria passar batido pela palavra “arbitrariedade”. Deveríamos sentir a pancada delas, antes de sentirmos a pancada das práticas reais a que elas se referem. Digo mais: é por não sentirmos a pancada que tais palavras denunciam e antecipam que estamos mais vulneráveis às pancadas reais de uma sociedade autoritária. Não damos ouvido. Não ligamos para quem, vitimado pela pancada real, tenta nos avisar da ameaça. Por quê?
Restaurar a força dessas palavras (algo que passa também, certamente, por usá-las com maior precisão) é, de certo modo, pré-condição para percebermos que os espaços que nos interessam estão sendo ocupados. Sem elas, vai ser impossível jogar luz sobre a forma como os inimigos agem. E eles agem, inclusive, atacando as palavras, dizendo que elas não querem dizer isso, que não é exatamente aquilo, que devemos chamar de outra forma. Ocupam, desse modo, também nossos ouvidos e nossa boca. Tomam as palavras com que poderíamos acusá-los, porque sabem que começa pelas palavras o enfrentamento que deveriam sofrer.
Aos poucos, vencidos, vamos ficando cada vez mais quietos. Vamos?

Luto, luta, lute.

gaza

Entre os caças que jogam bombas sobre Gaza e o avião abatido na Ucrânia, já contamos mais de 500 corpos. De cima para baixo, de baixo para cima, tenho certeza de que a maior parte deles não é das pessoas que pretendem ou vão se beneficiar com tais conflitos. Muitos – é provável – talvez nem soubessem que viviam sob o risco de uma chuva de bombas, assim como outros não sabiam que voavam na mira de mísseis. Morreram sem saber. São os inocentes de sempre, o que dá às suas mortes o carimbo da crueldade e da estupidez, que rapidamente ficará ilegível sob a bandeira de um grande conflito entre povos, entre nações, entre civilizações – qualquer uma dessas “razões” que já circulam por aí. A verdade, no meio do tiroteio, é pouca: desses conflitos o que se pode esperar é ainda mais conflitos. Abra o jornal e vai perceber que, a cada dia, a nuvem de poeira dos bombardeios se adensa, dificultando mais e mais a nossa compreensão do que está em jogo nesses casos e em tantos outros. A máquina continuará operando, e não será apesar de não a conhecermos, mas justamente porque não a conhecemos. Dos inocentes, vão sobrar algumas imagens e manchetes. Ideais para a indignação rápida e rasteira que nos agrada, ideais para serem acomodadas numa página menos importante dos livros de história. Num instante, as fotos das crianças mortas enquanto brincavam na praia vão se misturar aos nomes dos passageiros despedaçados no ar e desaparecer da memória, da página, da tela, soterradas sob uma infinidade de outras tantas notícias que não gostaríamos de ler. Até quando?

Antonio Cisneros: um poema e uma foto

cisneros bici

NATUREZA MORTA EM INNSBRUCKER STRASSE

Eles são (por excelência) trintões e têm fé no futuro. Muita fé.
Pelo menos é o que se deduz por suas compras (caras e a crédito).
Casaco de camurça (natural), Mercedes esporte dourado.
Para cúmulo (de meus males) deram agora para ser eternos.
Correm todas as manhãs (sob as tílias) pela pista do parque
e ingerem coisas saudáveis. Quer dizer, legumes crus e sem sal, arroz integral, águas minerais.
Depois de consumirem todo o oxigênio do bairro (o seu e o meu)
passam por minha porta (belos e bronzeados).
Olham-me (se é que me vêem) como a um morto com o último cigarro entre os lábios.

Antonio Cisneros (Peru, 1942-2012)

Poema do livro Monólogo da Casta Susana (1986)
Traduzido por Carlito Azevedo e Aníbal Cristobo
em Sete Pragas Depois (Cosac/7Letras, 2003)

Charles Simic: que entrevista!

Imagem

Un poema es algo que lees y que vuelves a leer inmediatamente. Hace mucho solía trabajar en librerías. En una ocasión vi a una persona que estaba esperando a alguien, parecía molesto por la espera; tomaba un libro, lo hojeaba, lo dejaba en su lugar. Hizo lo mismo con unos siete u ocho hasta que de pronto leyó algo que lo cautivó instantáneamente y ya no pudo soltar el libro. Un poema es una especie de vía que cada lector recorre y desgasta, pero también es algo accesible. Entre todas las cosas que un poema puede ser, hay algo en él que lo hace gratificante de inmediato. De hecho puedes ver a una persona que tiene un libro entre las manos y te das cuenta si es poesía por la manera en que lo lee. En un poema tienes una recepción a corto plazo y de inmediato puedes hacer algunas conjeturas sobre la forma, estar muy seguro de lo que va a ocurrir, y al final, lo que esté en el poema, saldrá por completo. Aunque también debe haber cierto misterio, algo que te das cuenta de que al leerlo de nuevo habrá de abrirse. No está muy claro, pero se trata de una confusión de carácter expresivo, algo que te invita a pasar más tiempo en su ambigüedad. Si tiene todos estos elementos, el poema es bueno.

http://www.tierraadentro.conaculta.gob.mx/charles-simic-el-mundo-no-se-acaba/