Palavras gastas

trombone
Temos ouvido cada vez mais as palavras “ditadura”, “arbitrariedade”, “tortura”, “repressão”, “exceção” (logo após “estado de”), “massacre”, “totalitário”, e outras tantas que se referem, de alguma maneira, ao retorno de práticas institucionais condenadas historicamente porque se opõem aos parâmetros de uma sociedade minimamente democrática. Repare: as palavras não voltaram sozinhas nem por acaso. Voltaram para nomear e acusar o desmonte dos frágeis cavaletes de uma sociedade que vai tentando se erguer em bases democráticas. Tentando.
Pois bem. Você liga a tela e já começam a rolar palavras que, em situações normais, deveriam nos colocar em choque. Deveriam nos derrubar da cadeira. Deveriam nos remeter à gravidade das situações que elas tentam nomear, justamente em razão da gravidade das situações em que elas foram usadas anteriormente. Mas não. Por alguma estranha razão, as palavras ficam boiando – nem conseguem acusar a violência presente com toda a força que gostariam, nem conseguem mais nos fazer voltar à imagem detestável do passado. Parecem estar gastas e incapazes de comover. Passamos os olhos por elas e seguimos em frente. Indiferentes.
Quando lemos ou ouvimos uma palavra, é quase imediato que nos remeta para algo que está além dela, das letras de que se compõe, dos sons que reúne. Algumas pessoas demoram mais para fazer o percurso que vai do som e da imagem da palavra até algum significado, normalmente são os mesmos que demoram para decidir – ou sequer decidem – qual dos possíveis significados é o “correto”.
Nesse grupo dos que passeiam com calma de uma palavra a outra, e das palavras para fora e vice-versa, estão, por exemplo, os leitores de poesia. Não se dão com poemas, por outro lado, aqueles que querem que a palavra diga logo e de uma vez por todas o que deve dizer, porque certamente não têm paciência com usos que se distinguem justamente por tentar fazer as palavras dizerem mais do que costumam dizer. Não há segredo nisso. Nas bifurcações que se abrem na direção do que as palavras querem nos dizer é comum escolher o caminho “errado”. Para a poesia, isso pode ser ótimo. Para uma denúncia, isso certamente é péssimo.
Com a força que as palavras perdem, vai embora também a nossa capacidade de comunicar a violência e de agir – palavras são ação – contra ela. Vai embora a nossa capacidade de se levantar contra os abusos do poder, exatamente porque é com palavras que marcamos o limite entre o que aceitamos ou não. A luz do alerta não acende ou, de tão pálida, já não chama mais nossa atenção. Passamos batidos.
Mas ninguém deveria passar batido pela palavra “ditadura”, ninguém deveria passar batido pela palavra “repressão”, ninguém deveria passar batido pela palavra “arbitrariedade”. Deveríamos sentir a pancada delas, antes de sentirmos a pancada das práticas reais a que elas se referem. Digo mais: é por não sentirmos a pancada que tais palavras denunciam e antecipam que estamos mais vulneráveis às pancadas reais de uma sociedade autoritária. Não damos ouvido. Não ligamos para quem, vitimado pela pancada real, tenta nos avisar da ameaça. Por quê?
Restaurar a força dessas palavras (algo que passa também, certamente, por usá-las com maior precisão) é, de certo modo, pré-condição para percebermos que os espaços que nos interessam estão sendo ocupados. Sem elas, vai ser impossível jogar luz sobre a forma como os inimigos agem. E eles agem, inclusive, atacando as palavras, dizendo que elas não querem dizer isso, que não é exatamente aquilo, que devemos chamar de outra forma. Ocupam, desse modo, também nossos ouvidos e nossa boca. Tomam as palavras com que poderíamos acusá-los, porque sabem que começa pelas palavras o enfrentamento que deveriam sofrer.
Aos poucos, vencidos, vamos ficando cada vez mais quietos. Vamos?

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