Pina e os olhos do Henrique

Pina

Ganhei da minha amiga Dalila uma joia fisgada em Portugal: o livro “Pássaro na cabeça (e mais versos para crianças)”, de Manuel António Pina (1943-2012), com imagens de Ilda David. Sou fã do poeta e logo suspeito: se fosse ruim, eu adoraria. Mas é ótimo. Verdade: é incrível. Quem o diz não sou apenas eu: ontem mesmo li os poemas todos para o Henrique e, de tempos em tempos, ele esbugalhava os olhos como só esbugalha quando vê algo assim como um gol do Messi ou do Ibra, ou o Gil interceptando os ataques contra nossa meta. Não há por aí muita poesia que seja gol do Messi, do Ibra, ou o Gil roubando a bola, ao menos é o que me dizem os olhos do Henrique. E agora eles dizem muito.

 

Dizem que há algo ali no jeito como aquele poeta mexe com as palavras e as ideias que é da mesma natureza do que os craques fazem com a bola, sem a bola, com suas chuteiras extravagantes. Pina é mais discreto que os craques. Seu gramado é outro, sem tantos holofotes. Como é também muito discreta essa torcida íntima que os olhos do Henrique revelam enquanto leio os versos de Pina. E é incrível ver que pro Henrique já chegou a hora de, sozinho, ver um craque dentro dos livros do Pina, e é incrível e ainda mais emocionante porque enquanto leio e vejo os olhos de Henrique torcerem pelo Pina, lembro que o próprio Pina, quando Henrique nasceu, mandou também lá de Portugal um passe perfeito, preciso, coisa de craque, para um dia chegar nesse mesmo menino:

 

<<Muitos parabéns para si e votos de boas-vindas ao Henrique. Cada nascimento melhora um pouco, se não o mundo, a humanidade; ou, ao menos, uma pequena e imensa parte da humanidade, a próxima (pais, familiares, amigos). Mesmo temendo por ele, céptico e cínico que sou em relação aos merecimentos da humanidade, a vinda do pequeno Henrique “infecciona”, como diz João Cabral, “a miséria/ com vida nova e sadia” e, “bel(a) como a coisa nova/ na prateleira até então vazia”, aumenta a oferta de felicidade no mundo, no seu transbordante e alvoroçado mundo de pai mas também no nosso mundo, o meu e o de todos nós, os “outros”; e a felicidade, mesmo se feita da vulnerável matéria dos sonhos, tem um poder formidável e contagiante. A mim, a sua fez-me hoje um pouco mais feliz.>>

 

Era 2006. Pina talvez já soubesse que, mais cedo ou mais tarde, num menino distante, suas palavras acenderiam alguma felicidade. Nem tão vulnerável assim. E capaz de contagiar o menino que agora vai dormir abraçado com suas palavras como costuma dormir abraçado com as bolas que Messi, Ibra e Gil lançam de longe para dentro da sua cabeça.

 

 

Na capa do livro, um selo interessante: “Leitura obrigatória 5.º ano”. Pensei: como são sortudos os alunos do 5.º ano em Portugal! Mas também não posso reclamar da minha sorte de ter amigos que trazem de suas viagens coisas assim para mim. Valeu, Dalila.

 

Coisas que não há que há

Manuel António Pina

 

Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num lugar onde só eu ia…

El nacionalismo es nefasto y cae por su propio peso, Roberto Bolaño

Calle del Orco

Roberto Bolaño Nicanor Parra

¿Entonces quién entona esta espantosa cantinela? Las primeras veces que la oí pensé que eran los masoquistas. Si estás preso en una cárcel de Thailandia y eres suizo, es normal que desees cumplir tu condena en una cárcel de Suiza. Lo contrario, es decir que seas un thailandés preso en Suiza y sin embargo desees cumplir el resto de tu condena en una cárcel de Thailandia, no es normal, a menos que esa nostalgia anormal esté dictada por la soledad. La soledad sí que es capaz de generar deseos que no se corresponden con el sentido común o con la realidad. Pero yo estaba hablando de escritores, es decir estaba hablando de mí, y allí sí que puedo decir que mi patria es mi hijo y mi biblioteca. Una biblioteca modesta que he perdido en dos ocasiones, con motivo de dos traslados radicales y desastrosos y que he rehecho con…

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Autonautas

rahm

Lendo, aqui e ali, sobre o centenário de nascimento de Cortázar, comemorado ontem, fui me perdendo de um site a outro e alguma combinação improvável de resultados de busca me levou à família Rehm. Mais uma linda história de “família trotamundos”. Se o “pé na estrada” que encanta há séculos os espíritos aventureiros é muitas vezes visto como a resposta do sujeito que busca ser livre contra as opressões todas da vida comportada (emprego, família, tradição), aqui ocorre algo que me parece tão ou mais interessante. A família toda sai da sombra de um teto seguro para poder ser verdadeiramente família. Para se encontrar. Perde-se (da “segurança”) para achar, quem sabe, bem mais. Neste sentido, não é o indivíduo contra a família e o que ela representa socialmente, mas a família toda que, para se salvar de sua própria opressão, sai de si mesma, sai do que espera e do que esperam os outros de si. Não sei bem a razão, mas fico encantado com essas matérias…

http://oglobo.globo.com/economia/a-familia-que-cabe-numa-kombi-7502473?app=1

http://www.bistros.com.br/blog/destaques/minha-cozinha-e-uma-kombi-meu-cardapio-e-o-mundo/

Cartola

cartola

Chega a ser difícil acreditar na existência do disco “Cartola II”, de 1976. Numa tacada só (e apenas 2 anos depois de outro disco incrível), Cartola junta doze canções absolutamente irretocáveis. Coisa de gênio, coisa de monstro. Nem ouvindo pra crer.

Duas grandes lições

A Folha de S. Paulo publica hoje dois artigos fundamentais para entender o que está acontecendo com as lutas por moradia. Um do Prof. Jorge Luiz Souto Maior, “O MTST, os direitos sociais e a fila”, e o outro de Guilherme Boulos, “Quem são mesmo os invasores?”. Vale MUITO a pena ler. MUITO MESMO.

1) http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/08/1504027-jorge-luiz-souto-maior-o-mtst-o-direito-social-e-a-fila.shtml

2) http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2014/08/1504127-quem-sao-mesmo-os-invasores.shtml