Alienação e eleição, por Alaôr Caffé Alves

urna-eletronica

O IRRACIONAL, NA HISTÓRIA, FAZ HISTÓRIA!

Prof. Alaôr Caffé Alves

 

O fenômeno da abrupta ascensão na pesquisa eleitoral de Marina pode ser explicado pela Sociologia eleitoral. O pêndulo da política popular volta ao seu ponto conservador, nos costumes e na política.

Ocorreu, pela queda de um avião, uma profunda comoção nacional, fazendo explodir os limites do caminho racional para as candidaturas fundadas no conhecimento coletivo da experiência e da história dos atores. Num breve lapso de duas semanas, a candidata Marina Silva vai de 10 pontos, como vice na chapa de Eduardo Campos, para 34 pontos, como candidata direta à Presidência da República! Incompreensível!

Até mesmo a história tem seus arroubos de irracionalidade. O que aconteceu? Certamente, esse fato não é produto da reflexão da maioria ou de algum programa de governo mirabolante que viesse a empolgar as grandes massas. Pelo contrário, o programa recém-lançado pela candidata Marina Silva é quase cópia do programa neoliberal do PSDB, de Aécio Neves.

Esse programa propugna pela menor presença do Estado e pela promoção, no quanto puder, do mercado e dos grupos privados, especialmente dos fortes setores da economia financeira, ansiosos pela autonomia do Banco Central.

Com Marina Silva, lá se vai nossa Petrobrás, defendida a duras penas por nossas forças populares há mais de 60 anos! Ela põe fé na energia limpa. Não acredita? Então leia atentamente o referido programa da candidata.

Por isso, pode-se compreender a posição da candidata acenando para os “bons” do PSDB e do PT, de toda a sociedade, objetivando, sonhadoramente, fazer uma política de harmonia e solidariedade entre forças essencialmente diferentes num país fundamentalmente dividido em classes profundamente desiguais! É fantasia. O bom é sempre bom para algum interesse. Quais interesses vão ser contemplados no eventual governo de Marina? Vai ser possível afastar as influências das classes estruturalmente dominantes, com o mero apelo genérico às “elites”, sejam dos banqueiros, industriais e latifundiários, sejam dos pobres, trabalhadores e Chico Mendes? Não existe elite universal dos “bons”.

O sonho não provém de um anseio iludido de paz social e de confiança na compreensão ética dos homens. Provém, infelizmente, da não compreensão das estruturas sociais e econômicas que marcam nosso sistema, altamente diferenciado e conflitivo. Não existe “nova” política, de grande alcance ético, em um sistema de mercado eivado de contradições e interesses antagônicos que dividem profundamente nossa sociedade capitalista.

Se ela, Marina, acalenta sinceramente esse ideal fantasioso, é profundamente preocupante o que nos espera em seu eventual governo. Na verdade, o PSDB, se ficar em terceiro lugar, como parece, deverá apoiar Marina e, assim, por via indireta derrotar o PT. Chega ao poder por linhas transversas. É paradoxal, mas é a realidade! Não vai ser fácil desconstruir racionalmente, pelo curto tempo que resta da atual campanha, o cenário profundamente alterado pela cega emoção generalizada.  As contradições de Marina podem ficar mascaradas ainda por algum tempo. Só poderão se manifestar na caminhada. Dará tempo?

Finalmente, então, a direita, com sua política liberal e desestruturadora do Estado, realizará seus sonhos de dominação completa, na linha do neoliberalismo. O povo que se cuide porque isso não se fará sem sacrifícios. Não, certamente, sacrifício dos industriais, banqueiros ou capitalistas do agronegócio, mas dos que vivem de seu salário.

A dominação hegemônica, com certeza, se fará pelas múltiplas negociações políticas, no Parlamento e fora dele, pelas diferentes forças econômicas que, como todos sabem, darão apoio conforme a velha política do “toma lá, dá cá”. Como Marina vai neutralizar, de uma hora para outra, essa característica que não é de índole meramente moral, mas profundamente estrutural? Ela é  própria da democracia burguesa.

Esse será o resultado histórico e inevitável, especialmente a ser obtido com um partido (o PSB) que claramente não tem base política e social densa e territorialmente extensa em todo o país. Até o seu programa original, como partido de esquerda, foi profundamente adulterado pelas forças do oportunismo. Nesse sentido, terá que sobreviver mediante negociações, caso a caso, fragmentando a sua atuação e seus resultados, ou deverá fazer alianças com os tradicionais partidos ou grupos políticos, caindo nas armadilhas da velha política que, a princípio, pretende (ev)angelicamente renegar.

A lógica não pode ser outra: será inevitavelmente a linha de um governo que não terá, por certo, força no parlamento sem o concurso das forças conservadoras. Ela, Marina, sem base política, sem experiência, sem ideais progressistas, sem diretiva clara e firme, sem propósitos coerentes, ficará refém das forças mais retrógradas de nosso país. Triste fim o nosso!

Já vimos esse filme. O povo brasileiro, com memória muito curta, não se lembra de Collor que veio como um quase desconhecido, chegou como um rojão emocional, avassalou e, logo depois, feneceu tristemente, deixando nosso país na amargura. Foi uma tragédia!

O caso da Marina não é igual, mas guarda uma certa analogia. É quase um reflexo no espelho, de forma inversa: um veio da riqueza e da abastança, e, atrás da ideia de combate aos marajás, logrou votação muito expressiva, revelando a profunda alienação de nosso povo.

No caso de Marina Silva, ao contrário, ela veio da pobreza extrema, e, atrás das ideias da nova política e da sustentabilidade, poderá lograr também, em muitíssimo pouco tempo, a posição de mandatária suprema, revelando, nesse caso, que nosso povo, infelizmente, continua profundamente equivocado e, por isso, também alienado.

São Paulo, 30 de agosto de 2014.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s