Um país chamado dança

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“e a alegria é para nós
a notícia de hoje” (Kim Hyón-sung)

Costumo “viajar” quando falo de poesia, mas normalmente é no sentido figurado (e nem sempre positivo). Mas agora são mais de 18000 quilômetros bem reais para fazer, em meio a pessoas que nunca vi antes e que falam as línguas mais variadas, exatamente o que mais gosto de fazer por aqui: ler e conversar. Uma semana mergulhado na cultura de Jeju e Seul para falar sobre literatura. Lembro bem de meu primeiro contato com a poesia da Coreia, mas não faço ideia de como foi o contato dos organizadores desse Seoul International Writers’ Festival com a minha. De todo modo, vamos lá.

Comecei a me interessar pela poesia coreana mais ou menos da mesma forma como tenho me interessado por quase tudo há muito tempo: a partir de uma rede de conexões imprevisíveis entre um livro e outro, de um autor a outro, de uma palavra a outra. No caso dos coreanos, foi dica de um amigo que me deu algumas das dicas que persegui mais doentiamente até hoje: Paulo Leminski. Foi a partir do vício pela poesia (e, de certa maneira, também por sua figura) de Leminski que afundei de vez nessa coisa de ler poesia e não saí mais. De um volume dos seus “Caprichos & Relaxos” (na edição rara do Círculo do Livro) até as coisas mais recentes, passando por quase todo tipo de esforço e alegria que a relação com os livros exige e proporciona. Um exemplo do esforço? Passei dias num porão da biblioteca de Santo André vasculhando todo o arquivo da revista Veja para copiar as resenhas e artigos que Leminski publicou lá na virada dos 1970 para os 1980, mais ou menos. E cada achado era uma festa. Um exemplo da alegria? Encontrar um exemplar da primeira edição do “Catatau” num brechó em Curitiba no meio de uma viagem com amigos que, já naquela época, se assustaram um pouco com a minha empolgação com um livro que não tinha nem mesmo nome na lombada.

Pois bem, foi por causa do nome do Leminski na capa que, meados dos anos 1990, saí carregando satisfeito pela Rua Vergueiro um livro chamado “O pássaro que comeu o sol” (Arte Pau-Brasil, 1993), lá da livraria que a editora mantinha em frente ao Centro Cultural São Paulo. Bons tempos. Além de Leminski, a antologia de poesia coreana traduzida por Yun Jung Im era apresentada por Haroldo de Campos, outro nome que desde então já praticamente me obrigava a ler o que vinha guardado entre as capas do livro. Poucas vezes me arrependi.

Leminski, com a leveza e o apuro de sempre, chamava para entrar naquela “bonita festa de poemas doloridos e ternos, densos e melancólicos” e percebia uma feliz coincidência sonora entre o nome Coreia e o radical grego que nos remete à dança: coreo- (de onde tiramos, por exemplo, coreografia). Isso nunca me saiu da cabeça. Dali em diante tive outros contatos com a poesia do “país chamado dança”, sempre pelas mãos de Yun Jung Im, como a antologia clássica “Sijô” (Iluminuras, 1994) e o livro de Yi Sang, “Olho de Corvo” (Perspectiva, 1999). Coisas incríveis: homens e mulheres empenhados em salvar uma história, um país, uma língua, a golpes de uma escrita que ainda me é absolutamente impenetrável, mas que Yun Jung Im consegue tornar amigável e potente em bom português. Passeei bastante por essa Coreia dos livros (inclusive os de prosa, mais recentemente, que a mesma tradutora tem trazido para cá), dancei por entre suas flores, mas nunca imaginei que fosse participar da festa lá, “in loco”. E conduzido do português ao coreano pela mesma Yun Jung Im (e ao inglês pelo não menos competente John Milton), hoje professora na USP. Mundo pequeno – e insondável. Quem um dia abriu as portas da poesia coreana para o leitor brasileiro abre agora alguma porta para o leitor coreano desvendar o que se faz por aqui. Muita sorte. Minha, ao menos.

Do email-convite que quase apaguei um ano atrás (achando que aqueles caracteres escondiam um vírus!) ao recebimento da antologia ontem, passando por um telefonema da tradutora para que eu a ajudasse a driblar a dificuldade de dizer em coreano o que digo em português, tudo isso já tem sido uma grande viagem, como será grande a viagem até lá, lá e de lá pra cá. Horas e horas de voo separadas por uma semana de imersão na vida coreana. Uma semana com o coração apertado de saudade de casa, mas aberto, bem aberto para o outro lado do mundo.

Não sei quem foram os loucos (desses tão poucos e necessários que fazem a cultura andar) que imaginaram e conseguiram realizar um encontro entre diversos jovens autores da própria Coreia e uma gente que virá de Japão, França, Austrália, EUA, Nigéria, Mongólia, Alemanha, Argentina, Turquia, Inglaterra, China e Brasil, mas já os admiro muito. E sou imensamente grato. Darei notícias.

Notas:

  1. “O pássaro que comeu o sol” está esgotado, mas aqui está o prefácio do Leminski e outras informações para quem quiser procurá-lo nos sebos:

http://www.ficcoes.com.br/livros/passaro.html

 

  1. O site do Seoul International Writers’ Festival de 2014:

http://siwf.klti.or.kr/

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