Pedras na vitrine da Dilma. Da Dilma?

Ninguém vai resolver todos os problemas deste país de um dia para o outro, mas é bem fácil perceber quando nossos passos estão mais na direção certa do que na errada. O que se pode dizer do PT neste momento, de negativo e de positivo, dá bem uma mostra das dificuldades que um projeto de mudança para o Brasil vai enfrentar: de um lado, os males de sempre (sim, os de sempre, ainda que queiramos que eles não sejam os do futuro); de outro, conquistas pontuais que não deixam dúvida de que alguém está tentando colocar o barco no rumo certo. Mas é tanto barulho e tanta distorção sobre os aspectos negativos que acabamos acreditando que os aspectos positivos não existem. E corremos o velho risco: jogar a criança com a água do banho.
Quero me referir aqui, em especial, ao PRONATEC, mas antes devo dizer: você já tentou pensar com sinceridade o que significa, para uma família miserável, receber o Bolsa Família? Para uma família que vê sua apertada renda ser engolida pelo aluguel, ser beneficiada pelo Minha Casa, Minha Vida? Para um estudante de família pobre, receber a notícia de que foi aprovado para uma universidade federal ou que terá seus estudos numa universidade privada financiados pelo Governo? E quando ele consegue sair do país como estudante, recebendo uma bolsa para tanto? E já parou pra pensar o que significa, para uma família que nunca passou do portão pra dentro de uma faculdade, ter um filho que se forma para uma profissão melhor remunerada? Já parou pra pensar como vai ser a relação das próximas gerações dessa família com a educação? Já parou pra pensar o que é, para alguém que sabia estar distante de um tratamento médico minimamente decente, ter um médico que trate de sua saúde com alguma dignidade? É óbvio que, pra quem sempre teve acesso à moradia, à educação, à saúde, a oportunidades de emprego (nem sempre “meritocráticas”) etc., esses problemas são vistos com alguma mediação, muitas vezes humanitária, outras tantas cínica, mas não pode ser levado a sério quem fala em construirmos um país melhor e, diante da primeira denúncia de que esses projetos apresentam problemas (seja de eficácia, seja de desvios), sai atirando pedras de modo irresponsável que, sob o pretexto de atingir o problema, faz pouco caso da importância estratégica do programa num país complicado como o nosso.
Foi assim com o Bolsa Família (e ainda é, salvo durante as eleições…): “olha, a tia da vizinha do meu cunhado soube de uma pessoa que não precisava do benefício e recebia pra tomar pinga”. Qual a solução: corrige ou extingue todo o programa? Claro que é a extinção… Agora, como o bicho está pegando no segundo turno, sobrou até para o PRONATEC, que é acusado de ser mais uma prova da bandidagem petista. Oi?
O programa foi criado em 2011 e já atingiu 8 milhões de matrículas em todo o país, quer dizer, são 8 milhões de estudantes que entraram em cursos profissionalizantes em apenas 3 anos. Se você revirar o cadastro de 8 milhões de matrículas vai achar problemas? Vai. Se entrar na sala de aula vai poder fazer críticas ao conteúdo das aulas? Vai. Se investigar toda a documentação que um programa desse tamanho envolve vai ter uma manchete boa para seu jornal? Certamente vai. Mas o que isso significa diante da magnitude de um projeto que ataca um problema que até mesmo o empresariado brasileiro faz questão de alardear como sendo um dos entraves para nosso crescimento? Vou ser mais claro: num programa que beneficie 8 milhões de pessoas, dependendo da interação de diversas instituições em todo o país, é inevitável que haja problemas. Eles podem ser resolvidos, claro, mas não é do dia para a noite, nem nos apertos da disputa eleitoral.
Aliás, a própria matéria revela que a CGU, o MPF e o TCU estão investigando as irregularidades, mas a manchete é: “Auditoria aponta descontrole em vitrine de Dilma”. Auditoria? Descontrole? Vitrine? Dilma? Tantas outras palavras poderiam ser usadas… Quem sabe um jornalista menos engajado na tucanagem do segundo turno escrevesse: “Órgãos ligados ao Governo Federal não se constrangem pelo período eleitoral e investigam fraudes em programa importantíssimo para o país”. Acho que estou viajando… Para nossa imprensa, faz tempo que acertar a canela é bem mais importante do que dominar a bola.
Com a má vontade típica dos nossos jornalões, o que você vai ler na matéria abaixo é a afirmação de que foi encontrado um morto matriculado no programa (num universo de 2 milhões de alunos!), que há suspeitas disso e daquilo, que isso e aquilo estão sendo averiguados, e apenas meia dúzia de palavras, lá no final, para explicar do que se trata. Mas é justamente de EXPLICAR DO QUE SE TRATA que precisamos, antes de falar responsavelmente sobre os problemas de gestão de um projeto tão gigante: entre no site do MEC (pronatec.mec.gov.br), entenda do que se trata e veja o alcance da coisa. Se você estiver mesmo interessado num país melhor, vai reconhecer que é uma medida essencial. Se prestar atenção ao tamanho da tarefa, vai saber que ela terá tropeços. Sempre.
A matéria gasta alguma ironia para dizer que o programa é “vitrine da candidata petista”, que o apresenta como sendo o “maior programa profissionalizante do mundo”. Mas é bem provável que seja mesmo! Porque é justamente no Brasil, pela forma como foi governado durante séculos, que você tem a necessidade e a possibilidade de criar programas aparentemente tão singelos (como este, que um jornalista pode explicar em duas palavras: “formar técnicos”) e encontrar tantas pessoas que se enquadram no perfil de carência que ele visa atingir. O objetivo do PRONATEC é, de fato, claro: criar mão de obra qualificada para uma economia que, justamente na qualificação dos trabalhadores, encontra um de seus gargalos. Vai conseguir? Não sei, mas a tentativa é admirável – e necessária! Mas aí vem o jornal, mais preocupado com seus compromissos eleitorais do que com o país, e diz que há “descontrole na vitrine”… Sejamos mais sérios, por favor.
Vivemos num país problemático: são mais de 500 anos fabricando problemas, a todo vapor. Sabemos muito bem quem são aqueles que sempre se beneficiaram desses problemas e que, por isso, não têm interesse algum em vê-los solucionados. Quando aparece alguma medida política que se posiciona de modo claro contra feridas bem abertas dessa história complicada, nós vamos nos deixar levar por uma manchete insinuante bolada lá no conforto do andar de cima da sociedade? De minha parte, não.
Quem está com ao menos um dos olhos abertos nesse segundo turno já percebeu que parte significativa da grande mídia está disposta a jogar mais baixo do que os partidos políticos. Nessa briga, não sobra nada em pé. Se depender deles, talvez nem o Brasil, porque pra eles essa coisa chamada Brasil é o que menos fará falta.
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1534748-auditoria-aponta-descontrole-em-vitrine-de-dilma.shtml?cmpid=%22facefolha%22

Sete a um

Uma década de discussões com amigos sobre o que chamavam, nada carinhosamente, de Bolsa Esmola ou Bolsa Cabresto. E nada que eu dissesse era suficiente para fazê-los rever a condenação ao Bolsa Família – condenação econômica, política e moral, entre outras. Econômica: “é imposto de quem trabalha indo para quem não trabalha”. Política: “é compra de voto”. Moral: “é dar o peixe, quando deveria ensinar a pescar”. Pois bem, o abismo era grande mesmo: sempre achei que os impostos devem ser usados para distribuição de renda, que o voto das pessoas está ligado ao atendimento das necessidades que julgam urgentes (suas ou dos outros) e que peixes e aulas de pesca são coisas totalmente diversas. Dias atrás voltou o assunto e o abismo novamente se abriu: eles não votam no PT por causa disso e eu, se ainda voto, é por causa disso e de outros programas igualmente… irritantes. Seguiremos assim.
Em regra, eles votam no PSDB, não apenas agora, mas desde muito antes. Pois fico imaginando com que ânimo assistem agora aos esforços do Aécio para dizer, não apenas que vai manter, mas que vai ampliar o Bolsa Família. Sim, ampliar! E mais ainda: reivindica a paternidade (e a maternidade) do programa para FHC (e D. Ruth). Que coisa! Até a capa da revista em que piamente acreditam destacou, ao lado do rosto de Aécio, uma promessa relativa à continuidade do Bolsa Família. Desespero? Talvez nunca me digam como se sentem. Mas, no fundo, creio que eles já perceberam que o que estão chamando de PSDB não é mais a mesma coisa. Talvez, no íntimo, digam que vale tudo para bater o PT, inclusive mentir e vestir o disfarce incômodo de… petista. Deve ser dolorido.
Mais ou menos como se a seleção brasileira, depois de tomar 5 gols no primeiro tempo, voltasse para o jogo com o uniforme da seleção alemã tentando confundir a torcida e, principalmente, dificultar o passeio do adversário. Se o árbitro dessa partida fosse a nossa grande imprensa, não haveria problema algum nisso: seria bem possível sairmos convencidos de que o Brasil sempre usou uniforme vermelho, preto, tanto faz.
Talvez a estratégia funcione – e vai ser estranho (e triste) vê-los comemorando a vitória com o uniforme da outra seleção. Se não funcionar, vai ser ainda mais estranho (mas não tão triste) vê-los procurando o uniforme antigo, surrado, quando voltarem para o outro lado do abismo.

Sorry, Miami

Eu ia postar aqui o apoio do Chico Buarque e do Gilberto Gil para Dilma; a entrevista do Lula ao Mino Carta colocando alguns pingos nos ii sobre a diferença entre PT e PSDB; os textos de Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Michael Löwy, Boaventura de Sousa Santos, Gregório Duvivier, Xico Sá, Pablo Ortellado, e tantos outros explicando por que apoiam Dilma no segundo turno ou simplesmente por que não votariam no PSDB de maneira alguma; os abaixo-assinados de artistas, intelectuais, reitores e professores de universidades, juristas, economistas, movimentos sociais, médicos, entre outros; as magistrais respostas aos preconceitos destilados como sociologia pelo ex-presidente FHC; as análises sobre a guinada tucana de MarinaFlex; os enfáticos comparativos entre os feitos reais dos governos Lula-Dilma (programas sociais que beneficiam milhões de pessoas, universidades federais que estão a pleno vapor etc.) e os governos do PSDB; pensei até mesmo em cair para outros papos e divulgar aqui provas da “honestidade” e da “competência” dos tucanos; mas daí chegou esta matéria sobre o apoio dos “artistas” Lobão e Telhada ao Aécio e, sei lá, fiquei com dó, porque ainda bate um coração por trás dessa estrelinha vermelha no peito.
http://www.cartacapital.com.br/politica/em-ato-pro-aecio-lobao-e-globais-dizem-temer-2018nova-ditadura2019-6373.html

Pelo ralo

Corrupção

Parece mesmo que a tônica do segundo turno será a corrupção. Com suas habituais seletividade, persistência e desfaçatez, nossa grande imprensa vai falar tanto da corrupção de um dos lados (vocês sabem qual) e vai ser tanto silêncio sobre a corrupção do outro lado, que daqui a pouco vamos acreditar que há bem mais diferenças entre as campanhas, em especial no quesito “ética”, do que, de fato, há. Não demora e estamos tratando a disputa como um jogo do bem contra o mal, em que o bem é puro bem e o mal, claro, é tão-somente mal. Podemos fazer melhor que isso, não?

Já declarei que vou votar na Dilma e, portanto, poderia dizer com tranquilidade que o debate midiático será levado para a questão da corrupção porque, de resto, Aécio e o PSDB não teriam condições de mostrar mais consistência do que os governos do PT em nenhum dos principais quesitos que importam para a decisão do povo: educação, saúde, moradia, distribuição de renda, emprego, programas sociais etc. Além disso, poderia também dizer que o governo do PT conviveu mais democraticamente com quem o investigou do que o governo tucano. Enfim, nisso tudo, o PT ganha com larga vantagem, mas dizer apenas isso, fingindo não ver o que há nas manchetes sobre corrupção, é assinar o famigerado slogan “rouba, mas faz”…

É pequeno o rol de respostas que os eleitores de um determinado candidato ou partido apresentam diante das acusações de corrupção: (1) mentira; (2) todos fazem; e (3) o seu também faz. Quase todas as respostas que temos ouvido, a meu ver, giram ao redor dessas: negar completamente a existência de corrupção (ou dizer que não há provas, não acredita etc.), dizer que a corrupção é própria do sistema (ou dos brasileiros, ou dos políticos em geral etc.) ou simplesmente acusar o outro lado de ter as mesmas práticas, buscando alívio em desqualificar o que o roto fala do rasgado.

Obviamente, todas as três formas de responder são grandes simplificações de algo bem mais problemático: de nada adianta simplesmente negar, generalizar ou atacar o outro. O problema, que é gravíssimo, continua existindo. No fundo, sabemos que há algo de muito estranho num sistema em que muitas campanhas (municipais, estaduais, federais) arrecadam dezenas, centenas de milhões em doação, mesmo quando são derrotadas… É um jogo caro – e alguém tem que pagar. Mas cada torcida – como costumam fazer as torcidas em qualquer jogo – esconde os seus próprios defeitos e, com veemência, acusa o adversário de ter defeitos. Idênticos. Isso é, no mínimo, ridículo.

O desafio é bem maior e exige mais de nós. Poderíamos dormir tranquilos depois de dizer que o capitalismo é assim mesmo e, nele, com a quantidade de interesses e riquezas que passam pelo Estado, é inevitável que existam pressões e favorecimentos, de parte a parte, para viabilizar os “negócios” de que o capital depende para se reproduzir. E mesmo depois dessa certeza estaríamos divididos entre o grupo dos que NÃO VOTAM POR CAUSA DISSO e o dos que VOTAM APESAR DISSO, igualmente submetidos à mesma política, mas com um peso maior ou menor na consciência.

E corrupção não é exatamente um problema de consciência. Ou de discurso. Você vai ter dificuldade para encontrar alguém por aí que defenda abertamente a corrupção, seja entre envolvidos em casos de corrupção, entre os policiais presos porque sequestravam traficantes e pediam resgate a outros traficantes, ou entre os 250.296 paulistas que votaram em Paulo Maluf. O discurso deles será exatamente igual ao de todos nós. Talvez até mesmo a consciência deles seja idêntica à nossa. Como pode?

Vivemos num mundo (sim, o Brasil está longe de ser exceção) em que essas práticas de corrupção se naturalizaram completamente, não apenas entre políticos e empresários, ao ponto de somente chamarem atenção quando, por outros interesses igualmente escusos, são colocadas nas manchetes e marteladas insistentemente. De resto, passam desapercebidos sob o carimbo do “isso é assim mesmo”. Em outras palavras: a corrupção, entre nós, virou apenas um elemento a mais da disputa eleitoral, seja porque a abastece, seja porque é utilizada para xingar (ladrão!) e tirar voto dos outros. De resto, são mínimos os obstáculos em seu caminho entre uma eleição e outra. Devíamos, ao menos, perguntar: por quê?

É bem provável que parte dos brasileiros vote em um ou outro candidato porque acredita que ele vai ser menos corrupto, ou mesmo porque quer punir o outro candidato pela denúncia de que se lembra, ou seja, pela mais evidente neste momento. Tudo isso é bem justificável, não fosse pelo fato de que as decisões normalmente são tomadas com base em informações parciais (digo: nem completas nem minimamente imparciais) sobre os “escândalos” que se sucedem, quase todo dia, durante o período de campanha eleitoral. E o eleitor sai desse processo duplamente vitimado: primeiro, porque ele é a vítima da própria corrupção; segundo, porque ele também é jogado pra lá e pra cá pelo noticiário sobre a corrupção, de modo a garantir a continuidade desse processo… eternamente?

Contudo, não acredito que, no clima quente da eleição, haja espaço para sairmos daquelas três formas básicas de responder às acusações de corrupção: mentira; todos fazem; e o seu também faz. Vamos passar mais duas semanas assim, atirando pedra pra todo lado contra algo, mas sem saber bem em defesa do quê. E a meu ver isso demonstra que as eleições, pelo clima de competição que instauram, são mesmo um dos momentos mais medíocres para avançarmos em qualquer questão que importa. Pode ser um momento em que perderemos um pouco mais (e o voto acaba saindo daí), mas dificilmente será um momento de que sairemos ganhando algo.

“Nós, o povo”? Não, eles.

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Nas margens flácidas do primeiro turno, com sua dúzia de candidatos, os “argumentos” do eleitorado ficam muito difusos, diluídos, até mesmo tímidos. Mas o segundo turno, pelo contrário, ao polarizar as coisas, ainda mais esse embate PT-PSDB, funciona como uma espécie de ventilador potentíssimo para que comece a voar – com o perdão da palavra – porcarias para todo o lado. Refiro-me mais especificamente aos argumentos preconceituosos de todo o tipo. E não é apenas dos corajosos de internet, aqueles que, sem titubear, expõem suas tripas em redes sociais e caixas de comentário, defendendo normalmente o indefensável, como a transformar todas as esferas da vida na mais impune arquibancada de futebol. Os tempos são outros – e são piores.
Todos nós acabamos sendo um pouco disso, mas temos que admitir que os tucanos o fazem normalmente por uma razão específica, quero dizer, para dividir o Brasil em fatias: uma boa, limpa, instruída, merecedora, em que eles normalmente se encontram; e outra podre, acomodada, burra, interesseira, em que todos aqueles com que não se identificam são condenados a morar. Basta lembrar, por todos, que a “jornalista” Eliane Cantanhêde se assustou ao ver seu partido se transformar num “partido de massa” (era apenas uma convenção partidária), mas logo fez a ressalva de que seria uma “massa cheirosa”. Andem aí pela internet, pelas ruas, pelo local em que trabalham, prestem um pouco de atenção nos “argumentos”, e vão me poupar de citar aqui outros exemplos.
Mesmo assim, achei que fosse demorar um pouco mais para começar a artilharia, mas ontem mesmo o ex-presidente FHC fez uso de toda sua proverbial sabedoria e títulos honoríficos para cunhar a seguinte pérola: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”. Como o Mestre disse isso, não demorou nada para começarem a pipocar, aqui e ali, os gritos de uma turma que vai do “é isso mesmo!” ao “esses desgraçados ferram nossa vida”, o que tem sempre um tom de “eles deveriam ser proibidos de votar”. Tem. Sempre.
Não sei nem por onde começar para tentar demonstrar como uma afirmação dessa é a prova de que ter “mais informação” não leva necessariamente a falar menos besteira ou, se preferirem, a ser menos preconceituoso. Mas vou tentar, por uma razão simples: já faz quase vinte anos que voto e, pelo que me lembro, a maior parte dos meus votos, na esfera municipal, estadual e federal, acabaram recaindo em algum candidato do PT. (E talvez me incomode ao ouvir o ex-presidente justamente porque foi nesse período que mais fiz esforços para deixar de ser “menos informado”. Enfim, pode não ter dado certo.)
Na esteira do ex-presidente tucano, tem desde aqueles que defendem mais virulentamente a divisão geográfica do país até os que divulgam frases de efeito contra esses “manipulados” que vivem do Bolsa Família. Aliás, o discurso tucano sobre o Bolsa Família é das coisas mais interessantes para analisar o comportamento mental de alguns eleitores: num minuto, dizem que todos os beneficiários da bolsa são espertalhões, que inventam todo tipo de artifício para receber sempre e mais; no minuto seguinte, dizem que esses mesmos espertalhões são o “povo ignorante” que é manipulado sem resistência pelos verdadeiros espertalhões – os “petistas”. Ora manipulam, ora são manipulados – são assim esses pobres-e-menos-informados… Votam apenas naqueles candidatos que vão atender seus interesses imediatos (alimentação, moradia, saúde, educação etc.), e isso não tem nada a ver com o voto de quem, com sabedoria (?), escolhe o candidato que vai beneficiar seu bairro, seu amigo, seu próprio emprego, sua classe. Não tem nada a ver: o menos-informado é sempre um interesseiro, o mais-informado é praticamente um cientista diante da urna… Vota com a razão, com o cérebro bem-alimentado, não com o estômago (vazio).
Se esse comportamento dos menos-informados é deplorável (é o que diz o tucano), a meu ver é tão deplorável quanto constatar que, do lado dos mais-informados, certas informações não surtem efeito. Por exemplo, de nada adianta citar os mecanismos de distribuição de renda implantados e expandidos pelos governos do PT; a quantidade e a qualidade das universidades públicas criadas nos últimos 12 anos em todo o país; as políticas públicas de saúde (Mais Médicos), acesso à educação (ProUni) e tantas outras; o ataque ao desemprego e à miséria; e até mesmo o enriquecimento dos mais ricos! Nem mesmo a melhora de vida experimentada, nesse período, pelo próprio tucano! Nada surte efeito contra as “verdades” que qualquer capa da Veja anuncia a cada 7 dias.
E tem mais uma coisinha que me chama a atenção: quando você lê o comentarista da internet jogando pedra pra todo lado, pode até tirar suas conclusões a respeito do lugar que ele ocupa na cabeça do FHC, mas geralmente ele continuará sendo uma incógnita por trás de tanta “opinião”, de tanta “certeza”, de tanto “caráter”. Nas redes sociais não é assim: é bem mais comum sabermos que o bem-informado ali não é lá essas coisas… E teria muito mais razões para se identificar com um lado do que com o outro. Coisas da vida.
Em resumo: se o eleitor hoje em dia tem que fazer um certo esforço para distinguir as razões pelas quais vota em alguém, eu posso dizer que não é nada complicado encontrar as razões pelas quais NÃO VOTO NO PSDB: é só deixar o microfone ligado perto da boca de seus principais porta-vozes que eles se apressam em me lembrar porque até hoje, mesmo nos momentos em que meu “petismo” estava mais combalido, fui praticamente obrigado a ficar do outro lado. Ao menos por enquanto, vai continuar sendo assim.

Dilmar

O segundo turno já começou e é hora de tomar partido. A forma como os candidatos chegaram até aqui é, a meu ver, a mais perigosa: de um lado, alguém que chega mais frágil do que se imaginaria; de outro, alguém que chega mais forte do que se poderia esperar. Num ambiente assim, tanto um quanto o outro normalmente estão vulneráveis a todo tipo de acordo, de chantagem, de “virada” em troca de apoio. Em outras palavras, não estão em condições de oferecer resistência a todas aquelas forças destrutivas de que nossa sociedade é pródiga. É a hora em que são feitos os acertos, de um lado e de outro, para que, ganhe quem ganhar, o país perca, a sociedade perca, o povo perca. Mais explicitamente: os trabalhadores percam. É para isso que devemos ficar mais atentos ou, de certa maneira, já começar a lamentar. Há pouco o que fazer nesse campo. Considerando a forma como têm sido as relações entre forças econômicas e políticas no Brasil, nas próximas semanas, por baixo das disputas sobre quem é mais isso ou mais aquilo, serão forjados os compromissos que garantirão que o vencedor do segundo turno chegará ao mandato amarrado com cordas praticamente idênticas às do candidato derrotado. Pra onde correr? Um bom caminho é o de escolher os “seus” temas relevantes, estudá-los e tentar entender, a fundo, qual posição o partido e os aliados de seu candidato têm a respeito deles. O quadro será assustador, mas, no meu caso, em qualquer dos temas que considero vitais (distribuição de renda, moradia, saúde, emprego, educação, cultura etc.), o PT leva ainda uma boa vantagem sobre o que foi feito pelo PSDB nas oportunidades em que governou. O ideal seria estarmos agora vivendo um momento em que a polarização (empobrecedora) entre dois partidos não existisse, mas não foi essa a vontade dos eleitores ontem: estamos de volta ao mesmo embate que caracterizou a maior parte das eleições presidenciais do Brasil pós-ditadura. E é justamente observando o que cada um desses partidos fez neste período que, segundo meus critérios, não consigo simplesmente dizer que os dois são iguais (e anular) ou que o PSDB merece outra chance. Não sou afeito ao tanto-faz, nem ao tucanato. Vou dilmar.

De volta ao jardim

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Não é por acaso que certas metáforas se tornam recorrentes. Ou até mesmo incontornáveis. Neste sentido, não é por acaso que existem tantos poemas que buscam a imagem de jardins para se referir às coisas da vida: a pessoa amada vista como uma flor, os vínculos como raízes, as ofensas como espinhos, por aí vai. Poetas já fizeram de tudo com as possibilidades que um jardim oferece para “ilustrar” o que acontece entre as pessoas – e nem sempre acertaram. Há um imenso universo entre o Drummond de “A rosa do povo” e tudo aquilo que a rima entre amor, flor e dor permitiu a versejadores menos talentosos. Metáforas (e rimas) são assim. Mas tão inquietante quanto entender porque elas surgiram ou foram transmitidas a tantos poetas em épocas e lugares tão diversos e, ainda assim, mantêm uma força impressionante, é tentar entender por que, num momento qualquer, elas passam a fazer todo o sentido para alguém. Para uma pessoa qualquer. Com “todo o sentido” quero dizer exatamente: a distância entre elas e a realidade se reduz de tal modo que é como se deixassem de ser metáforas e assumissem o lugar das próprias coisas, do próprio mundo. É algo difícil de explicar, e talvez não seja necessário aqui. Já a metáfora da vida como jardim, no meu caso, sei que ela nunca fez tanto sentido quanto nesses dias na Coreia do Sul.

Tanta distância pode levar a distorções e é claro que, sob a aparência do convívio harmonioso, é bem possível perceber como há formas de opressão, violência, desarmonia peculiares marcando os limites entre tudo ali. O cálculo é uma cela, eu sei. E os lugares de Seul em que estive – principalmente aqueles que visitei sozinho nas longas, anônimas e “analfabetas” caminhadas que fiz a cada manhã – não são muito diversos do que vejo aqui em São Paulo. Isto mesmo: achei Seul muito parecida com São Paulo. Um monte de cidades dentro da cidade, se quisermos dizer assim. Não sei se há no mundo uma cidade em que, ao descrever um de seus quarteirões, todos os outros estejam também explicados. Mas certamente São Paulo e Seul não o são. A cada um ou dois quilômetros há uma cidade, logo o que é dito sobre este quarteirão, se generalizado, vai ser um grande equívoco sobre o quarteirão em frente. Quem prestar um pouco mais de atenção no que há entre uma loja e outra da Starbucks e olhar um pouco para aqueles rostos compenetrados em seus smartphones, cruzando as ruas entre uma infinidade de carros, táxis laranjas, velhinhos trabalhando e duplas mecânicas de guardas, perceberá que não é qualquer discurso simples que explicará Seul – nem a exaltação de sua riqueza nem a de seu respeito pela tradição podem colar facilmente em todos os cantos da paisagem.

Mas eu queria mesmo era falar de outra coisa: do jardim. Na longa viagem de volta, tentando desatar alguns nós do que vivi em Seul, o que mais me perturbava era a lembrança do imenso templo budista que ficava logo atrás do hotel, de modo que tanto o via da janela do quarto, quanto passava por ele em todas as caminhadas. Ele está encravado na foto acima.

O templo, claro, só por sua construção colossal e pintura meticulosa, já seria uma grande atração, mas o que me marcou mais foi sua rotina, sua vida cotidiana, as pessoas chegando ali logo cedo, cumprindo seus rituais, mergulhando naquilo tudo que, de certo modo, é Seul, mas não é mais. Nem parece que, em qualquer das ruas que cercam o templo, passam acelerados os coreanos todos, aos milhares, com suas máquinas de ir além. Nem parece que ao redor do templo e da delicada vegetação que o cerca se erguem imensos edifícios em que Seul é cada vez mais do mundo, cada vez mais global, cada vez mais ruído e multidão. Contra tudo, em seu silêncio, o templo visto de cima parece mesmo ser parte de um imenso jardim, de que aquelas pessoas são também parte, como um pequeno “não” contra o que vai lá fora. E não é de religião que falo. Havia, sim, imensas estátuas que eram reverenciadas na parte interna, mas ao menos para mim nada ali era tão forte quanto o que chegava a cada manhã com as pessoas, como um jardim se abrindo com a luz do sol. Aqueles todos que traziam vida ao templo pareciam cuidar de algo que Seul não pode perder, ou de algo em que se agarravam para não se deixar atropelar pela Seul em que não se encaixam mais. Viver aquele jardim era sem dúvida sua forma mais forte de afirmar que há algo ali que não pode ser visto apenas como parte da decoração de uma cidade em que não é mais necessário. Algo assim.

A minha percepção dessa Seul-não-mais talvez tenha sido impregnada pelo convívio diário com os poetas dali e com a forma como seus textos (no inglês que pude ler) e as performances que armavam para ler seus poemas colocavam em cena uma espécie de “desencaixe” que quase tudo, da porta para fora, levava a desacreditar. Abafado pela pressa, pelo ruído, pela ostentação de Seul, no entanto, cada verso quebrado era uma espécie de templo de que todos ali cuidávamos. Como um jardim que frequentávamos, como um jardim de que fazíamos parte e dependíamos. O empenho de cada um (com todas as dificuldades que possam imaginar) para chegar mais perto das palavras dos outros e a constatação, aqui e ali, de que muitos encontros eram possíveis foram, de alguma maneira, nossa forma de viver, em Seul, outra Seul. E talvez seja essa outra Seul a mais inesquecível, a que mais tem algo a dizer.

Cuidar, cuidar-se, ser cuidado – uma semana não é suficiente para aprender a dizer essas palavras em coreano, mas talvez o seja para voltar para o seu próprio jardim querendo fazer com que elas ganhem outro sentido também por aqui. Talvez.