De volta ao jardim

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Não é por acaso que certas metáforas se tornam recorrentes. Ou até mesmo incontornáveis. Neste sentido, não é por acaso que existem tantos poemas que buscam a imagem de jardins para se referir às coisas da vida: a pessoa amada vista como uma flor, os vínculos como raízes, as ofensas como espinhos, por aí vai. Poetas já fizeram de tudo com as possibilidades que um jardim oferece para “ilustrar” o que acontece entre as pessoas – e nem sempre acertaram. Há um imenso universo entre o Drummond de “A rosa do povo” e tudo aquilo que a rima entre amor, flor e dor permitiu a versejadores menos talentosos. Metáforas (e rimas) são assim. Mas tão inquietante quanto entender porque elas surgiram ou foram transmitidas a tantos poetas em épocas e lugares tão diversos e, ainda assim, mantêm uma força impressionante, é tentar entender por que, num momento qualquer, elas passam a fazer todo o sentido para alguém. Para uma pessoa qualquer. Com “todo o sentido” quero dizer exatamente: a distância entre elas e a realidade se reduz de tal modo que é como se deixassem de ser metáforas e assumissem o lugar das próprias coisas, do próprio mundo. É algo difícil de explicar, e talvez não seja necessário aqui. Já a metáfora da vida como jardim, no meu caso, sei que ela nunca fez tanto sentido quanto nesses dias na Coreia do Sul.

Tanta distância pode levar a distorções e é claro que, sob a aparência do convívio harmonioso, é bem possível perceber como há formas de opressão, violência, desarmonia peculiares marcando os limites entre tudo ali. O cálculo é uma cela, eu sei. E os lugares de Seul em que estive – principalmente aqueles que visitei sozinho nas longas, anônimas e “analfabetas” caminhadas que fiz a cada manhã – não são muito diversos do que vejo aqui em São Paulo. Isto mesmo: achei Seul muito parecida com São Paulo. Um monte de cidades dentro da cidade, se quisermos dizer assim. Não sei se há no mundo uma cidade em que, ao descrever um de seus quarteirões, todos os outros estejam também explicados. Mas certamente São Paulo e Seul não o são. A cada um ou dois quilômetros há uma cidade, logo o que é dito sobre este quarteirão, se generalizado, vai ser um grande equívoco sobre o quarteirão em frente. Quem prestar um pouco mais de atenção no que há entre uma loja e outra da Starbucks e olhar um pouco para aqueles rostos compenetrados em seus smartphones, cruzando as ruas entre uma infinidade de carros, táxis laranjas, velhinhos trabalhando e duplas mecânicas de guardas, perceberá que não é qualquer discurso simples que explicará Seul – nem a exaltação de sua riqueza nem a de seu respeito pela tradição podem colar facilmente em todos os cantos da paisagem.

Mas eu queria mesmo era falar de outra coisa: do jardim. Na longa viagem de volta, tentando desatar alguns nós do que vivi em Seul, o que mais me perturbava era a lembrança do imenso templo budista que ficava logo atrás do hotel, de modo que tanto o via da janela do quarto, quanto passava por ele em todas as caminhadas. Ele está encravado na foto acima.

O templo, claro, só por sua construção colossal e pintura meticulosa, já seria uma grande atração, mas o que me marcou mais foi sua rotina, sua vida cotidiana, as pessoas chegando ali logo cedo, cumprindo seus rituais, mergulhando naquilo tudo que, de certo modo, é Seul, mas não é mais. Nem parece que, em qualquer das ruas que cercam o templo, passam acelerados os coreanos todos, aos milhares, com suas máquinas de ir além. Nem parece que ao redor do templo e da delicada vegetação que o cerca se erguem imensos edifícios em que Seul é cada vez mais do mundo, cada vez mais global, cada vez mais ruído e multidão. Contra tudo, em seu silêncio, o templo visto de cima parece mesmo ser parte de um imenso jardim, de que aquelas pessoas são também parte, como um pequeno “não” contra o que vai lá fora. E não é de religião que falo. Havia, sim, imensas estátuas que eram reverenciadas na parte interna, mas ao menos para mim nada ali era tão forte quanto o que chegava a cada manhã com as pessoas, como um jardim se abrindo com a luz do sol. Aqueles todos que traziam vida ao templo pareciam cuidar de algo que Seul não pode perder, ou de algo em que se agarravam para não se deixar atropelar pela Seul em que não se encaixam mais. Viver aquele jardim era sem dúvida sua forma mais forte de afirmar que há algo ali que não pode ser visto apenas como parte da decoração de uma cidade em que não é mais necessário. Algo assim.

A minha percepção dessa Seul-não-mais talvez tenha sido impregnada pelo convívio diário com os poetas dali e com a forma como seus textos (no inglês que pude ler) e as performances que armavam para ler seus poemas colocavam em cena uma espécie de “desencaixe” que quase tudo, da porta para fora, levava a desacreditar. Abafado pela pressa, pelo ruído, pela ostentação de Seul, no entanto, cada verso quebrado era uma espécie de templo de que todos ali cuidávamos. Como um jardim que frequentávamos, como um jardim de que fazíamos parte e dependíamos. O empenho de cada um (com todas as dificuldades que possam imaginar) para chegar mais perto das palavras dos outros e a constatação, aqui e ali, de que muitos encontros eram possíveis foram, de alguma maneira, nossa forma de viver, em Seul, outra Seul. E talvez seja essa outra Seul a mais inesquecível, a que mais tem algo a dizer.

Cuidar, cuidar-se, ser cuidado – uma semana não é suficiente para aprender a dizer essas palavras em coreano, mas talvez o seja para voltar para o seu próprio jardim querendo fazer com que elas ganhem outro sentido também por aqui. Talvez.

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3 comentários sobre “De volta ao jardim

  1. dalila teles veras 1 de outubro de 2014 / 20:54

    Mais um texto antológico. Obrigada, Tarso. Viajar assim, não é “perder países” é ganhar (e entranhar) paisagens outras.

  2. Adélia nicolete 1 de outubro de 2014 / 23:01

    Meu caro, obrigada. Tenho pensado muito nisso ultimamente: nos espaços internos e externos de equilibrio e contemplaçao – de cuidados – necessários à sobrevivencia.
    Bem e é quase impossivel não lembrar daquela sua outra reflexão a respeito do sumiço de obras de arte e edificios historicos… O nosso templo-Sacilotto…
    Um grande abraço!

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