“Nós, o povo”? Não, eles.

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Nas margens flácidas do primeiro turno, com sua dúzia de candidatos, os “argumentos” do eleitorado ficam muito difusos, diluídos, até mesmo tímidos. Mas o segundo turno, pelo contrário, ao polarizar as coisas, ainda mais esse embate PT-PSDB, funciona como uma espécie de ventilador potentíssimo para que comece a voar – com o perdão da palavra – porcarias para todo o lado. Refiro-me mais especificamente aos argumentos preconceituosos de todo o tipo. E não é apenas dos corajosos de internet, aqueles que, sem titubear, expõem suas tripas em redes sociais e caixas de comentário, defendendo normalmente o indefensável, como a transformar todas as esferas da vida na mais impune arquibancada de futebol. Os tempos são outros – e são piores.
Todos nós acabamos sendo um pouco disso, mas temos que admitir que os tucanos o fazem normalmente por uma razão específica, quero dizer, para dividir o Brasil em fatias: uma boa, limpa, instruída, merecedora, em que eles normalmente se encontram; e outra podre, acomodada, burra, interesseira, em que todos aqueles com que não se identificam são condenados a morar. Basta lembrar, por todos, que a “jornalista” Eliane Cantanhêde se assustou ao ver seu partido se transformar num “partido de massa” (era apenas uma convenção partidária), mas logo fez a ressalva de que seria uma “massa cheirosa”. Andem aí pela internet, pelas ruas, pelo local em que trabalham, prestem um pouco de atenção nos “argumentos”, e vão me poupar de citar aqui outros exemplos.
Mesmo assim, achei que fosse demorar um pouco mais para começar a artilharia, mas ontem mesmo o ex-presidente FHC fez uso de toda sua proverbial sabedoria e títulos honoríficos para cunhar a seguinte pérola: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”. Como o Mestre disse isso, não demorou nada para começarem a pipocar, aqui e ali, os gritos de uma turma que vai do “é isso mesmo!” ao “esses desgraçados ferram nossa vida”, o que tem sempre um tom de “eles deveriam ser proibidos de votar”. Tem. Sempre.
Não sei nem por onde começar para tentar demonstrar como uma afirmação dessa é a prova de que ter “mais informação” não leva necessariamente a falar menos besteira ou, se preferirem, a ser menos preconceituoso. Mas vou tentar, por uma razão simples: já faz quase vinte anos que voto e, pelo que me lembro, a maior parte dos meus votos, na esfera municipal, estadual e federal, acabaram recaindo em algum candidato do PT. (E talvez me incomode ao ouvir o ex-presidente justamente porque foi nesse período que mais fiz esforços para deixar de ser “menos informado”. Enfim, pode não ter dado certo.)
Na esteira do ex-presidente tucano, tem desde aqueles que defendem mais virulentamente a divisão geográfica do país até os que divulgam frases de efeito contra esses “manipulados” que vivem do Bolsa Família. Aliás, o discurso tucano sobre o Bolsa Família é das coisas mais interessantes para analisar o comportamento mental de alguns eleitores: num minuto, dizem que todos os beneficiários da bolsa são espertalhões, que inventam todo tipo de artifício para receber sempre e mais; no minuto seguinte, dizem que esses mesmos espertalhões são o “povo ignorante” que é manipulado sem resistência pelos verdadeiros espertalhões – os “petistas”. Ora manipulam, ora são manipulados – são assim esses pobres-e-menos-informados… Votam apenas naqueles candidatos que vão atender seus interesses imediatos (alimentação, moradia, saúde, educação etc.), e isso não tem nada a ver com o voto de quem, com sabedoria (?), escolhe o candidato que vai beneficiar seu bairro, seu amigo, seu próprio emprego, sua classe. Não tem nada a ver: o menos-informado é sempre um interesseiro, o mais-informado é praticamente um cientista diante da urna… Vota com a razão, com o cérebro bem-alimentado, não com o estômago (vazio).
Se esse comportamento dos menos-informados é deplorável (é o que diz o tucano), a meu ver é tão deplorável quanto constatar que, do lado dos mais-informados, certas informações não surtem efeito. Por exemplo, de nada adianta citar os mecanismos de distribuição de renda implantados e expandidos pelos governos do PT; a quantidade e a qualidade das universidades públicas criadas nos últimos 12 anos em todo o país; as políticas públicas de saúde (Mais Médicos), acesso à educação (ProUni) e tantas outras; o ataque ao desemprego e à miséria; e até mesmo o enriquecimento dos mais ricos! Nem mesmo a melhora de vida experimentada, nesse período, pelo próprio tucano! Nada surte efeito contra as “verdades” que qualquer capa da Veja anuncia a cada 7 dias.
E tem mais uma coisinha que me chama a atenção: quando você lê o comentarista da internet jogando pedra pra todo lado, pode até tirar suas conclusões a respeito do lugar que ele ocupa na cabeça do FHC, mas geralmente ele continuará sendo uma incógnita por trás de tanta “opinião”, de tanta “certeza”, de tanto “caráter”. Nas redes sociais não é assim: é bem mais comum sabermos que o bem-informado ali não é lá essas coisas… E teria muito mais razões para se identificar com um lado do que com o outro. Coisas da vida.
Em resumo: se o eleitor hoje em dia tem que fazer um certo esforço para distinguir as razões pelas quais vota em alguém, eu posso dizer que não é nada complicado encontrar as razões pelas quais NÃO VOTO NO PSDB: é só deixar o microfone ligado perto da boca de seus principais porta-vozes que eles se apressam em me lembrar porque até hoje, mesmo nos momentos em que meu “petismo” estava mais combalido, fui praticamente obrigado a ficar do outro lado. Ao menos por enquanto, vai continuar sendo assim.

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2 comentários sobre ““Nós, o povo”? Não, eles.

  1. Marcos Davi Mantovani Bohlhalter 9 de outubro de 2014 / 19:51

    Sabe o que mais me admira nisso tudo? Aquele que ha doze anos andava de ônibus e levava marmita para o trabalho e hoje anda de carro zero, virou classe media e agora detesta pobre, abomina o assistencialismo e julga “encostado” aquele que desses recursos se beneficia, afinal ele, o classe media, ascendeu socialmente pelo seu próprio esforço. Legal, né? E tem tanta gente nessa barca…..

  2. Marcos Davi Mantovani Bohlhalter 9 de outubro de 2014 / 19:52

    Perdão pelos erros de digitação…

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