Pelo ralo

Corrupção

Parece mesmo que a tônica do segundo turno será a corrupção. Com suas habituais seletividade, persistência e desfaçatez, nossa grande imprensa vai falar tanto da corrupção de um dos lados (vocês sabem qual) e vai ser tanto silêncio sobre a corrupção do outro lado, que daqui a pouco vamos acreditar que há bem mais diferenças entre as campanhas, em especial no quesito “ética”, do que, de fato, há. Não demora e estamos tratando a disputa como um jogo do bem contra o mal, em que o bem é puro bem e o mal, claro, é tão-somente mal. Podemos fazer melhor que isso, não?

Já declarei que vou votar na Dilma e, portanto, poderia dizer com tranquilidade que o debate midiático será levado para a questão da corrupção porque, de resto, Aécio e o PSDB não teriam condições de mostrar mais consistência do que os governos do PT em nenhum dos principais quesitos que importam para a decisão do povo: educação, saúde, moradia, distribuição de renda, emprego, programas sociais etc. Além disso, poderia também dizer que o governo do PT conviveu mais democraticamente com quem o investigou do que o governo tucano. Enfim, nisso tudo, o PT ganha com larga vantagem, mas dizer apenas isso, fingindo não ver o que há nas manchetes sobre corrupção, é assinar o famigerado slogan “rouba, mas faz”…

É pequeno o rol de respostas que os eleitores de um determinado candidato ou partido apresentam diante das acusações de corrupção: (1) mentira; (2) todos fazem; e (3) o seu também faz. Quase todas as respostas que temos ouvido, a meu ver, giram ao redor dessas: negar completamente a existência de corrupção (ou dizer que não há provas, não acredita etc.), dizer que a corrupção é própria do sistema (ou dos brasileiros, ou dos políticos em geral etc.) ou simplesmente acusar o outro lado de ter as mesmas práticas, buscando alívio em desqualificar o que o roto fala do rasgado.

Obviamente, todas as três formas de responder são grandes simplificações de algo bem mais problemático: de nada adianta simplesmente negar, generalizar ou atacar o outro. O problema, que é gravíssimo, continua existindo. No fundo, sabemos que há algo de muito estranho num sistema em que muitas campanhas (municipais, estaduais, federais) arrecadam dezenas, centenas de milhões em doação, mesmo quando são derrotadas… É um jogo caro – e alguém tem que pagar. Mas cada torcida – como costumam fazer as torcidas em qualquer jogo – esconde os seus próprios defeitos e, com veemência, acusa o adversário de ter defeitos. Idênticos. Isso é, no mínimo, ridículo.

O desafio é bem maior e exige mais de nós. Poderíamos dormir tranquilos depois de dizer que o capitalismo é assim mesmo e, nele, com a quantidade de interesses e riquezas que passam pelo Estado, é inevitável que existam pressões e favorecimentos, de parte a parte, para viabilizar os “negócios” de que o capital depende para se reproduzir. E mesmo depois dessa certeza estaríamos divididos entre o grupo dos que NÃO VOTAM POR CAUSA DISSO e o dos que VOTAM APESAR DISSO, igualmente submetidos à mesma política, mas com um peso maior ou menor na consciência.

E corrupção não é exatamente um problema de consciência. Ou de discurso. Você vai ter dificuldade para encontrar alguém por aí que defenda abertamente a corrupção, seja entre envolvidos em casos de corrupção, entre os policiais presos porque sequestravam traficantes e pediam resgate a outros traficantes, ou entre os 250.296 paulistas que votaram em Paulo Maluf. O discurso deles será exatamente igual ao de todos nós. Talvez até mesmo a consciência deles seja idêntica à nossa. Como pode?

Vivemos num mundo (sim, o Brasil está longe de ser exceção) em que essas práticas de corrupção se naturalizaram completamente, não apenas entre políticos e empresários, ao ponto de somente chamarem atenção quando, por outros interesses igualmente escusos, são colocadas nas manchetes e marteladas insistentemente. De resto, passam desapercebidos sob o carimbo do “isso é assim mesmo”. Em outras palavras: a corrupção, entre nós, virou apenas um elemento a mais da disputa eleitoral, seja porque a abastece, seja porque é utilizada para xingar (ladrão!) e tirar voto dos outros. De resto, são mínimos os obstáculos em seu caminho entre uma eleição e outra. Devíamos, ao menos, perguntar: por quê?

É bem provável que parte dos brasileiros vote em um ou outro candidato porque acredita que ele vai ser menos corrupto, ou mesmo porque quer punir o outro candidato pela denúncia de que se lembra, ou seja, pela mais evidente neste momento. Tudo isso é bem justificável, não fosse pelo fato de que as decisões normalmente são tomadas com base em informações parciais (digo: nem completas nem minimamente imparciais) sobre os “escândalos” que se sucedem, quase todo dia, durante o período de campanha eleitoral. E o eleitor sai desse processo duplamente vitimado: primeiro, porque ele é a vítima da própria corrupção; segundo, porque ele também é jogado pra lá e pra cá pelo noticiário sobre a corrupção, de modo a garantir a continuidade desse processo… eternamente?

Contudo, não acredito que, no clima quente da eleição, haja espaço para sairmos daquelas três formas básicas de responder às acusações de corrupção: mentira; todos fazem; e o seu também faz. Vamos passar mais duas semanas assim, atirando pedra pra todo lado contra algo, mas sem saber bem em defesa do quê. E a meu ver isso demonstra que as eleições, pelo clima de competição que instauram, são mesmo um dos momentos mais medíocres para avançarmos em qualquer questão que importa. Pode ser um momento em que perderemos um pouco mais (e o voto acaba saindo daí), mas dificilmente será um momento de que sairemos ganhando algo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s