Pedras na vitrine da Dilma. Da Dilma?

Ninguém vai resolver todos os problemas deste país de um dia para o outro, mas é bem fácil perceber quando nossos passos estão mais na direção certa do que na errada. O que se pode dizer do PT neste momento, de negativo e de positivo, dá bem uma mostra das dificuldades que um projeto de mudança para o Brasil vai enfrentar: de um lado, os males de sempre (sim, os de sempre, ainda que queiramos que eles não sejam os do futuro); de outro, conquistas pontuais que não deixam dúvida de que alguém está tentando colocar o barco no rumo certo. Mas é tanto barulho e tanta distorção sobre os aspectos negativos que acabamos acreditando que os aspectos positivos não existem. E corremos o velho risco: jogar a criança com a água do banho.
Quero me referir aqui, em especial, ao PRONATEC, mas antes devo dizer: você já tentou pensar com sinceridade o que significa, para uma família miserável, receber o Bolsa Família? Para uma família que vê sua apertada renda ser engolida pelo aluguel, ser beneficiada pelo Minha Casa, Minha Vida? Para um estudante de família pobre, receber a notícia de que foi aprovado para uma universidade federal ou que terá seus estudos numa universidade privada financiados pelo Governo? E quando ele consegue sair do país como estudante, recebendo uma bolsa para tanto? E já parou pra pensar o que significa, para uma família que nunca passou do portão pra dentro de uma faculdade, ter um filho que se forma para uma profissão melhor remunerada? Já parou pra pensar como vai ser a relação das próximas gerações dessa família com a educação? Já parou pra pensar o que é, para alguém que sabia estar distante de um tratamento médico minimamente decente, ter um médico que trate de sua saúde com alguma dignidade? É óbvio que, pra quem sempre teve acesso à moradia, à educação, à saúde, a oportunidades de emprego (nem sempre “meritocráticas”) etc., esses problemas são vistos com alguma mediação, muitas vezes humanitária, outras tantas cínica, mas não pode ser levado a sério quem fala em construirmos um país melhor e, diante da primeira denúncia de que esses projetos apresentam problemas (seja de eficácia, seja de desvios), sai atirando pedras de modo irresponsável que, sob o pretexto de atingir o problema, faz pouco caso da importância estratégica do programa num país complicado como o nosso.
Foi assim com o Bolsa Família (e ainda é, salvo durante as eleições…): “olha, a tia da vizinha do meu cunhado soube de uma pessoa que não precisava do benefício e recebia pra tomar pinga”. Qual a solução: corrige ou extingue todo o programa? Claro que é a extinção… Agora, como o bicho está pegando no segundo turno, sobrou até para o PRONATEC, que é acusado de ser mais uma prova da bandidagem petista. Oi?
O programa foi criado em 2011 e já atingiu 8 milhões de matrículas em todo o país, quer dizer, são 8 milhões de estudantes que entraram em cursos profissionalizantes em apenas 3 anos. Se você revirar o cadastro de 8 milhões de matrículas vai achar problemas? Vai. Se entrar na sala de aula vai poder fazer críticas ao conteúdo das aulas? Vai. Se investigar toda a documentação que um programa desse tamanho envolve vai ter uma manchete boa para seu jornal? Certamente vai. Mas o que isso significa diante da magnitude de um projeto que ataca um problema que até mesmo o empresariado brasileiro faz questão de alardear como sendo um dos entraves para nosso crescimento? Vou ser mais claro: num programa que beneficie 8 milhões de pessoas, dependendo da interação de diversas instituições em todo o país, é inevitável que haja problemas. Eles podem ser resolvidos, claro, mas não é do dia para a noite, nem nos apertos da disputa eleitoral.
Aliás, a própria matéria revela que a CGU, o MPF e o TCU estão investigando as irregularidades, mas a manchete é: “Auditoria aponta descontrole em vitrine de Dilma”. Auditoria? Descontrole? Vitrine? Dilma? Tantas outras palavras poderiam ser usadas… Quem sabe um jornalista menos engajado na tucanagem do segundo turno escrevesse: “Órgãos ligados ao Governo Federal não se constrangem pelo período eleitoral e investigam fraudes em programa importantíssimo para o país”. Acho que estou viajando… Para nossa imprensa, faz tempo que acertar a canela é bem mais importante do que dominar a bola.
Com a má vontade típica dos nossos jornalões, o que você vai ler na matéria abaixo é a afirmação de que foi encontrado um morto matriculado no programa (num universo de 2 milhões de alunos!), que há suspeitas disso e daquilo, que isso e aquilo estão sendo averiguados, e apenas meia dúzia de palavras, lá no final, para explicar do que se trata. Mas é justamente de EXPLICAR DO QUE SE TRATA que precisamos, antes de falar responsavelmente sobre os problemas de gestão de um projeto tão gigante: entre no site do MEC (pronatec.mec.gov.br), entenda do que se trata e veja o alcance da coisa. Se você estiver mesmo interessado num país melhor, vai reconhecer que é uma medida essencial. Se prestar atenção ao tamanho da tarefa, vai saber que ela terá tropeços. Sempre.
A matéria gasta alguma ironia para dizer que o programa é “vitrine da candidata petista”, que o apresenta como sendo o “maior programa profissionalizante do mundo”. Mas é bem provável que seja mesmo! Porque é justamente no Brasil, pela forma como foi governado durante séculos, que você tem a necessidade e a possibilidade de criar programas aparentemente tão singelos (como este, que um jornalista pode explicar em duas palavras: “formar técnicos”) e encontrar tantas pessoas que se enquadram no perfil de carência que ele visa atingir. O objetivo do PRONATEC é, de fato, claro: criar mão de obra qualificada para uma economia que, justamente na qualificação dos trabalhadores, encontra um de seus gargalos. Vai conseguir? Não sei, mas a tentativa é admirável – e necessária! Mas aí vem o jornal, mais preocupado com seus compromissos eleitorais do que com o país, e diz que há “descontrole na vitrine”… Sejamos mais sérios, por favor.
Vivemos num país problemático: são mais de 500 anos fabricando problemas, a todo vapor. Sabemos muito bem quem são aqueles que sempre se beneficiaram desses problemas e que, por isso, não têm interesse algum em vê-los solucionados. Quando aparece alguma medida política que se posiciona de modo claro contra feridas bem abertas dessa história complicada, nós vamos nos deixar levar por uma manchete insinuante bolada lá no conforto do andar de cima da sociedade? De minha parte, não.
Quem está com ao menos um dos olhos abertos nesse segundo turno já percebeu que parte significativa da grande mídia está disposta a jogar mais baixo do que os partidos políticos. Nessa briga, não sobra nada em pé. Se depender deles, talvez nem o Brasil, porque pra eles essa coisa chamada Brasil é o que menos fará falta.
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1534748-auditoria-aponta-descontrole-em-vitrine-de-dilma.shtml?cmpid=%22facefolha%22

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