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Poemas 19992014

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Nêfesh

Convite_Nefesh_01

Na festança da próxima terça (9/12, a partir das 19h) na Casa das Rosas, tem o lançamento da antologia Outras ruminações, em que 75 poetas dialogam com a poesia do Donizete Galvão; tem a coleção Pequenos exílios, com livros de Tiago Novaes, Paloma Vidal, Roberto Taddei e Camila Moraes; tem o livro novo do Victor del Franco, A fluidez da aurorA; e tem também a estreia em livro do poeta Nitiren Queiroz, com um belo volume chamado Nêfesh, e eu tive o prazer de escrever uma breve apresentação para ele, que publico aqui para convidá-los à leitura:

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Há muito barulho dentro deste livro. E é bela e estranha a música que resulta dessa feira livre de sonhos. Sons cruzados, em tiroteio ou “frenética batucada”, que o poeta recolhe do caos (kaos!) da cidade e outros tantos que sua própria cabeça produz. Ou multiplica. Metralhado por roncos e gemidos, aleluias e estampidos, choros e buzinas, o leitor tenta cruzar os pesadelos que Nitiren enfileira nas páginas de Nêfesh, mas escorrega em suas palavras banhadas nos líquidos de que a vida se faz: sangue, suor, sêmen, sumo. Palavras que saltam das bocas de profetas e putas, xamãs e pedreiros, deuses e monstros, porcos e cadáveres. Bocas que falam, bocas que mordem, bocas que cospem, bocas que calam, bocas que chupam, bocas que vomitam, bocas que gritam: “balbuciando ladainhas para/ compor/ o mantra polifônico do/ progresso// – vibração gutural da metrópole”. Aqui, o seja-bem-vindo é sempre um salve-se-quem-puder. E não se iluda: o mundo de Nitiren não é outro: o passeio para o qual ele convida não é para fora, mas justamente mais para o fundo de uma realidade que não cabe nas gavetas, nas pranchetas, nos esquadros. Também para o fundo de uma alma que não cabe mais em qualquer palavra, em qualquer corpo, em qualquer verso. Assombrados, circulamos apegados às palavras que nos são mais íntimas, mas nossa frágil segurança cai por terra e a cada página há palavras que nos lançam para outras órbitas do que não sabemos ser nós mesmos. Os versos se estendem e se quebram ao “ritmo dodecafônico metropolitano”, formam encruzilhadas para o sacrifício do leitor, despistam. Mas por que Nêfesh fala tanto, grita tanto, canta tanto? Tanta música não vem senão para nos convidar para “o encanto da dança, movimento de tudo”. É girando de uma página a outra que se desvenda a poesia de Nitiren e suas paisagens. Talvez seja um disco o que você tem agora nas mãos. Ou uma carta-bomba. Abra-se. Abrace. Ouça. Exploda. São múltiplos os convites deste livro – num deles você vai se perder. E perder-se aqui é estar em casa. Entre.

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