Edifício Escombro

Hoje, quando se completa um ano da morte do amigo Donizete Galvão, republico aqui um texto que escrevi para a revista Celuzlose (impressa, n. 4), sobre um de seus belos poemas.

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EDIFÍCIO ESCOMBRO

Tarso de Melo

 

FACHADA

Logo vai terminar o prazo

para o homem construir sua fachada.

Ele continua em andaimes.

                                           Provisório.

Exibe máscaras cambiantes.

Sua face inconclusa,

sustentada por ferragens,

parece esconder que,

em todos esses anos de obra,

ergueram-se inúteis plataformas

para edificar um escombro.

 

O leitor de poesia, entre um verso e outro, herda vínculos afetivos. No mínimo, experimenta na leitura do poema os vínculos afetivos de seus autores de predileção. Por isso, Itabira passou a ser um pouco a cidade natal de todos nós, leitores do itabirano. Cada uma das musas dos poetas passaram a ser, de certo modo, nossas musas. Cada luto, nosso luto. Poemas são máquinas de comover, já disse alguém que sabia muito bem como fazer poemas.

Voltar aos livros de um grande amigo, logo após sua morte, quando, além dos vínculos que herdamos dele, temos também um vínculo real com a voz que fala nos poemas, é uma experiência dura. Mas justamente por isso é também uma das experiências de leitura mais ricas que podemos viver.

No caso de Donizete Galvão (1955-2014), o nó é ainda mais apertado. Primeiramente, porque estamos falando de alguém que sabia ser amigo como poucos, um mestre do convívio e da generosidade. E também porque as fraturas de que sua poesia trata – ou melhor: que sua poesia revela – estão diretamente ligadas à impossibilidade de que o convívio fosse ainda mais pleno, ainda mais perfeito, ainda mais harmonioso. O desespero que os poemas desnudam aqui e ali, através de seus diversos livros, está radicado em grande parte na consciência de que o humano deveria ser mais e se apresentava como cada vez menos – em termos culturais, políticos, afetivos etc. –, sempre aquém de um “humano” que o poeta, à sua maneira torta e muitas vezes avessa, tenta definir.

É neste sentido que destaco o poema “Fachada”, do último livro publicado por Donizete – O homem inacabado (Dobra, 2010) – como uma espécie de síntese da visão de mundo que o poeta compartilha ao longo de sua densa obra. O leitor de Donizete sabe, a cada página desse livro magnífico, que o “inacabado” do título é fundamentalmente “inacabável”, que o homem para Donizete – ele mesmo e os outros – é inacabado porque inacabável, é provisório porque não pode ser mais que isso. Em “Fachada”, creio, está a chave.

O homem inacabado foi prontamente reconhecido por diversos leitores de Donizete como um livro “maduro”, um livro em que o projeto – ou seria a partitura? – do poeta recebia execução ainda mais elaborada, mais precisa do que a de livros anteriores, ainda que naqueles – em especial, a meu ver, Ruminações (1999) e Mundo mudo (2003) – já fosse possível identificar o adensamento que a linguagem de Donizete foi incorporando livro a livro, de modo a tornar-se cada vez mais eficaz na tarefa de levar o leitor ao campo de suas preocupações, de suas consternações, de seus inúmeros afetos.

Do mesmo modo, depois de sua morte, não foram poucos aqueles que reconheceram que O homem inacabado era um livro marcado pela consciência da finitude e da incompletude como duas faces inseparáveis de nossa experiência vital, algo que tornava ainda mais dolorosa a releitura dos poemas para seus tantos leitores que se tornaram também seus amigos.

Para o poeta, digamos, pior do que se saber finito, encaminhado para a morte, é a constatação de que estará sempre incompleto (inacabado, inacabável). E sua relação com a vida passa a ser (re)desenhada a partir desse ponto de observação, como quem dissesse: a vida é incompleta e não se pode culpar a morte por isso. O homem nos poemas de Donizete, mais do que constatar que não se completa porque morre, constata que não se completa – e morre. Não se completará mesmo se não morrer: mesmo que o prazo não termine, o homem será incapaz de construir algo mais do que um escombro.

Talvez por isso sejam tão recorrentes no livro imagens que remetem ao despedaçar de tudo aquilo em que fixamos nossa vida. Os poemas recolhem ruínas, escombros, restos, estilhaços, entulhos, cacos, detritos, trapos. Constrói-se deles e, inevitavelmente, contamina-se de sua incompletude, conforma-se a ela. Ou como diz Donizete em outro poema: “Aprende-se a viver inacabado,/ a esconder, constrangido, o corpo/ nas penumbras” (“Resposta”).

Em “Fachada”, desde o título está denunciado o caráter ilusório ou meramente aparente da obra em que resultarão todos nossos esforços durante anos e anos. O homem sabe que, por trás de suas “máscaras cambiantes”, sob a aparência de um edifício (i. e., da vida bem estruturada, calculada, sob controle), o que há é escombro, uma inconclusão insuperável. Impossível não lembrar aqui da formulação precisa de um outro poeta: “Aqui tudo parece/ que era ainda construção/ e já é ruína” (Caetano Veloso, “Fora da ordem”). Circula aí, como em um labirinto, a poesia de Donizete: entre o que parece ser ainda e o que já é outra coisa, entre o que parece ser mais e se revela menos, porque, cedo ou tarde, todo edifício vai se revelar escombro, toda construção vai se revelar ruína.

A poesia de Donizete nos ensinou muito a respeito dessa inconclusão. Em O homem inacabado, diversos poemas perseguem o homem em seu labirinto, atacam seus andaimes e ferragens, reviram sua mais profunda ferida. Todavia, a morte do poeta talvez tenha sido a lição mais dura que nos deu: saber que somos incompletos e finitos não nos prepara para o momento em que se desvela essa incompletude ou em que a finitude do que amamos nos surpreende.

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Alasca-SP

Sou fascinado por programas de tevê sobre o Alasca.

Hoje passou um outro que falava sobre gente que sobrevive
em temperaturas inóspitas, sem luz elétrica, água encanada, telefonia,
internet, segurança pública, sem acesso a hospitais, escolas, nada disso,
em meio a seres sorrateiros, com hábitos selvagens ameaçadores.

Era o Bom Dia SP. Zapeei de volta pro Alasca.

Dias duros

Não que os outros não sejam. Durante o ano “útil”, como a vida em geral é pesada e não esconde seus desgastes, recebemos as notícias trágicas do mundo com alguma estranha naturalidade, como se apenas (re)confirmassem as nossas descrenças. Mas em dias de maior folga, de reencontrar amigos distantes, fazer outros amigos e, enfim, de conviver mais lentamente com quem está por perto, essa harmonia – por mais que saibamos de sua precariedade – solta ainda mais os parafusos com que “normalmente” acomodamos os destroços da vida que chegam até nós. Taças, tiros, risos, mortes, abraços, ameaças – é cada vez mais frágil qualquer linha de fronteira que tentemos imaginar entre as parcelinhas da alegria de que desfrutamos e o mar de tristeza que nos cerca. Não sei se a violência é o contrário da harmonia: na natureza, por exemplo, é muito fácil perceber como as forças da destruição e da criação se completam. Em outras palavras, sabemos que há uma harmonia própria na transformação violenta (ah, Heráclito…). Mas em dias assim duros, em que o barulho é tamanho (o barulho do que acontece e de tudo que dizem sobre o que acontece) e a força para se concentrar seja lá no que for tem que ser retirada cada vez mais do fundo, não custa lembrar dos versos iniciais do poema que Leminski dedicou ao linguista russo Roman Jakobson: “O mundo desabava em tua volta,/ e tu buscavas a alma que se esconde/ no coração da sílaba SIM”. Sempre me tocou muito a forma precisa como esses versos concentram, num piscar, os elementos todos do imenso conflito em que se metem, não apenas os linguistas, mas os poetas, os escritores, os artistas todos que admiro. Digo mais: as pessoas todas que admiro pela forma como conseguem manter a concentração necessária para suas tarefas (muitas vezes íntimas, outras vezes ínfimas, mas sempre inestimáveis) em meio ao redemoinho de nossos gigantescos problemas. Pessoas que caminham – ou mesmo dançam! – entre os destroços de um mundo que desaba, porque sabem que não podem abandonar a busca dessas almas que habitam o “coração da sílaba SIM”. Com isso, não dão as costas ao mundo. Pelo contrário: percebem que é ali, escondida num quase silêncio, que está alguma vida que ainda faz sentido, alguma vida que ainda pode nos ajudar a dar sentido para a estrondosa vida do lado de fora do “SIM” que, com nossos parcos recursos, insistimos em proteger. Ou alguém acredita que é da gritaria – apressada demais para refletir sobre si própria – que vai sair algo que mereça nossa atenção?