Dias duros

Não que os outros não sejam. Durante o ano “útil”, como a vida em geral é pesada e não esconde seus desgastes, recebemos as notícias trágicas do mundo com alguma estranha naturalidade, como se apenas (re)confirmassem as nossas descrenças. Mas em dias de maior folga, de reencontrar amigos distantes, fazer outros amigos e, enfim, de conviver mais lentamente com quem está por perto, essa harmonia – por mais que saibamos de sua precariedade – solta ainda mais os parafusos com que “normalmente” acomodamos os destroços da vida que chegam até nós. Taças, tiros, risos, mortes, abraços, ameaças – é cada vez mais frágil qualquer linha de fronteira que tentemos imaginar entre as parcelinhas da alegria de que desfrutamos e o mar de tristeza que nos cerca. Não sei se a violência é o contrário da harmonia: na natureza, por exemplo, é muito fácil perceber como as forças da destruição e da criação se completam. Em outras palavras, sabemos que há uma harmonia própria na transformação violenta (ah, Heráclito…). Mas em dias assim duros, em que o barulho é tamanho (o barulho do que acontece e de tudo que dizem sobre o que acontece) e a força para se concentrar seja lá no que for tem que ser retirada cada vez mais do fundo, não custa lembrar dos versos iniciais do poema que Leminski dedicou ao linguista russo Roman Jakobson: “O mundo desabava em tua volta,/ e tu buscavas a alma que se esconde/ no coração da sílaba SIM”. Sempre me tocou muito a forma precisa como esses versos concentram, num piscar, os elementos todos do imenso conflito em que se metem, não apenas os linguistas, mas os poetas, os escritores, os artistas todos que admiro. Digo mais: as pessoas todas que admiro pela forma como conseguem manter a concentração necessária para suas tarefas (muitas vezes íntimas, outras vezes ínfimas, mas sempre inestimáveis) em meio ao redemoinho de nossos gigantescos problemas. Pessoas que caminham – ou mesmo dançam! – entre os destroços de um mundo que desaba, porque sabem que não podem abandonar a busca dessas almas que habitam o “coração da sílaba SIM”. Com isso, não dão as costas ao mundo. Pelo contrário: percebem que é ali, escondida num quase silêncio, que está alguma vida que ainda faz sentido, alguma vida que ainda pode nos ajudar a dar sentido para a estrondosa vida do lado de fora do “SIM” que, com nossos parcos recursos, insistimos em proteger. Ou alguém acredita que é da gritaria – apressada demais para refletir sobre si própria – que vai sair algo que mereça nossa atenção?

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2 comentários sobre “Dias duros

  1. Adélia nicolete 13 de janeiro de 2015 / 23:59

    Seu texto: a melhor legenda para o meu silêncio

  2. Adélia nicolete 14 de janeiro de 2015 / 16:22

    Tarso, sua reflexão me faz lembrar do trabalho incansável de Luís Alberto de Abreu. E, dentre as belezas que brotaram dali, colho a última fala de Virgílio, no trecho final de “A guerra santa”:

    “Minha utopia,
    É olhar essa terra devastada,
    Esse caos
    E sonhar com sua geometria,
    E chorar meu verso,
    E olhar a decadência e a sangria
    E gritar o inverso
    E no meio do inferno reafirmar:
    Viva a poesia!”

    Abraço.

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