Fantasias forenses

Quando a gente lê um texto como esse (abaixo) é que se dá conta de como os momentos de lucidez são raros nisso que carinhosamente chamamos de “mundo jurídico”… Não obstante a variedade de problemas institucionais que temos, para todos os (des)gostos, o CNJ teve que investir parte do seu *caro* tempo para julgar o uso de ternos e gravatas, certamente todos os seus membros e estafe também ostentando ternos e gravatas, porque outros senhores, no agradável clima carioca, de dentro de seus ternos e gravatas, decidiram que pessoas sem terno e sem gravata não podem exercer a advocacia. Sim, a Constituição e a lei dão lá certos poderes para esses seres que, formados na faculdade de Direito, conseguem ser aprovados no exame da OAB para realizar atos importantíssimos para a sociedade (muitos dos quais, aliás, a própria sociedade não pode exercer sem esses seres!), mas tudo isso pode ser barrado por uma regra a respeito de seus trajes. Pois bem, chegamos ao cúmulo de, no mesmo momento histórico, estarmos usando em larga escala a tecnologia (processo digital, videoconferência etc.) e proibindo pessoas de exercerem sua profissão, de que dependem os direitos de tantas outras pessoas, simplesmente porque não estão vestindo um casaco mais quente do que o clima exigiria e não têm algo colorido pendurado no pescoço. Lindo, né? Talvez o Kafka, com toda sua criatividade, imaginasse o dia em que um juiz, durante uma audiência por videoconferência, condicionaria a realização do ato à forma como está trajado o advogado: “Olha, eu estou aqui, quilômetros distante de V. Exa., gozando dessa fabulosa tecnologia, banda larga etc., mas reparei que o patrono está sem gravata, então vou redesignar o ato para data em que esteja devidamente trajado. Daqui até lá, permaneça o réu preso”… Não tenho muitas esperanças de que isso mude, mesmo quando a média de temperatura chegar a 60º… Dia desses, descendo as escadas do prédio em que trabalho, o wifi do meu celular acusou a existência de uma rede que, antes do nome próprio, tinha um “Dr.”. Sim, uma rede de wifi que chama “Dr. Não-sei-quem”. Fiquei pensando: se faz tanta questão assim de ser chamado de “doutor”, imagina então se vai concordar em tirar as “vestes” que o distinguem socialmente, sua forma talvez mais evidente de se fazer chamar “doutor” pelos outros?

Ternos e gravatas merecem uma séria discussão judicial?

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Poesia, ainda

onda

O livro já circula por aí há algumas semanas e, aos poucos, vou sendo presenteado com os comentários sempre gentis dos leitores. Falam de tudo, mas não há um deles que esqueça de destacar a beleza da capa, arte da Mika Matsuzake. Tenho essa foto guardada comigo desde setembro de 2013, quando a onda gigante atingiu o sul da China, mas me parece que, no livro e neste momento, ela ganhou uma força incrível e, de quebra, deu uma boa ajuda para o conjunto. Quem folhear “Poemas 1999-2014” vai logo perceber que nele não tem muito mais do que as anotações de alguém que viveu os últimos quinze anos perambulando por São Paulo e seus arredores, com alguma vontade de escrever versos, com muita vontade de ver mais vida nas ruas que insistentemente retrata. O homem que corre da onda na capa do livro, completamente exposto ao ataque, sempre me pareceu a metáfora perfeita do atordoamento que marca o tipo de sensibilidade que me interessa: a dos que tentam sobreviver diante da (ou sob a) enxurrada de coisas, informações, apreensões, dúvidas que nos assolam em ondas cada vez maiores e mais constantes. E assim nos põem a questionar como e para onde tentar seguir. Pois bem, se a foto vinha como metáfora desse desespero, agora não consigo desconsiderar o fato de que o livro cheio de água na capa chegou num momento concretamente desesperador – tristemente relacionado à água, ainda que não à abundância, mas à sua escassez. E justamente nessas cidades tantas vezes retratadas em meus poemas como um deserto, como terra devastada, e que agora têm que conviver com a seca e o desespero como realidades cada vez mais indisfarçáveis. Certamente, de 1999 até 2014, era de outras carências que eu falava, era um outro deserto (e o livro que leva esse nome é o de que mais gosto) que eu tinha diante dos olhos, mas é próprio da poesia, com seus modos de camaleão, juntar-se às novas cores que encontra em seus passeios, transformando-se em algo que não poderíamos imaginar.

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