Fantasias forenses

Quando a gente lê um texto como esse (abaixo) é que se dá conta de como os momentos de lucidez são raros nisso que carinhosamente chamamos de “mundo jurídico”… Não obstante a variedade de problemas institucionais que temos, para todos os (des)gostos, o CNJ teve que investir parte do seu *caro* tempo para julgar o uso de ternos e gravatas, certamente todos os seus membros e estafe também ostentando ternos e gravatas, porque outros senhores, no agradável clima carioca, de dentro de seus ternos e gravatas, decidiram que pessoas sem terno e sem gravata não podem exercer a advocacia. Sim, a Constituição e a lei dão lá certos poderes para esses seres que, formados na faculdade de Direito, conseguem ser aprovados no exame da OAB para realizar atos importantíssimos para a sociedade (muitos dos quais, aliás, a própria sociedade não pode exercer sem esses seres!), mas tudo isso pode ser barrado por uma regra a respeito de seus trajes. Pois bem, chegamos ao cúmulo de, no mesmo momento histórico, estarmos usando em larga escala a tecnologia (processo digital, videoconferência etc.) e proibindo pessoas de exercerem sua profissão, de que dependem os direitos de tantas outras pessoas, simplesmente porque não estão vestindo um casaco mais quente do que o clima exigiria e não têm algo colorido pendurado no pescoço. Lindo, né? Talvez o Kafka, com toda sua criatividade, imaginasse o dia em que um juiz, durante uma audiência por videoconferência, condicionaria a realização do ato à forma como está trajado o advogado: “Olha, eu estou aqui, quilômetros distante de V. Exa., gozando dessa fabulosa tecnologia, banda larga etc., mas reparei que o patrono está sem gravata, então vou redesignar o ato para data em que esteja devidamente trajado. Daqui até lá, permaneça o réu preso”… Não tenho muitas esperanças de que isso mude, mesmo quando a média de temperatura chegar a 60º… Dia desses, descendo as escadas do prédio em que trabalho, o wifi do meu celular acusou a existência de uma rede que, antes do nome próprio, tinha um “Dr.”. Sim, uma rede de wifi que chama “Dr. Não-sei-quem”. Fiquei pensando: se faz tanta questão assim de ser chamado de “doutor”, imagina então se vai concordar em tirar as “vestes” que o distinguem socialmente, sua forma talvez mais evidente de se fazer chamar “doutor” pelos outros?

Ternos e gravatas merecem uma séria discussão judicial?

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