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Um breve olhar sobre a poesia brasileira contemporânea

http://www.revistapessoa.com/2015/03/um-breve-olhar-sobre-a-poesia-brasileira-contemporanea/

John Ashbery: “No tengo ni idea de qué habla mi poesía”

http://www.elcultural.es/revista/letras/John-Ashbery-No-tengo-ni-idea-de-que-habla-mi-poesia/35357

Umberto Eco: “A Internet pode tomar o lugar do mau jornalismo”

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/26/cultura/1427393303_512601.html

Sobre poesia, ainda: Heitor Ferraz Mello

Heitor

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não acho que a hiperexposição das redes sociais (minha pergunta: por que sempre no plural, quando temos apenas uma rede social, e todas as outras giram em torno dessa, que as absorve, tornando uma espécie de via única, terrivelmente única) desloque a poesia, e a obrigue a procurar outras coisas para fazer. A poesia, ou a boa poesia, antenada a tudo que se passa a sua volta, deve procurar, sim, os antídotos para não se deixar engolir pela hiperexposição da rede social única, que tende a zero. Desde que a poesia se instalou numa montanha russa, como diria Nicanor Parra, parece-me que seu lugar passou a ser o de hiperexpor a hiperexposição, como se a virasse e revirasse do avesso; o lado de fora, o lado de dentro da camiseta e da calça jeans, com a marca do suor, do cheiro ruim da pele que se acumula e envelhece, dos gases que ficam retidos nos cós de calças e camisas. Mas a poesia também tem todo direito de se confundir com a hiperexposição da rede social, bem como o de se distinguir dela; isso vai depender do poeta, do seu desejo. Nenhuma invenção tecnológica foi um problema para a poesia. Ela continuou se reinventando. O diário, o jornal, o rádio, a televisão, a internet só trouxeram mais material para a poesia, e para a reflexão do poeta. Ele pode se deixar engolir: lembra daqueles poemas horríveis do Armando Nogueira, na voz bíblica de Cid Moreira, na televisão, nos tempos da ditadura? Era poesia. Piegas, mas era poesia para aquele meio, para uma projeção do que seria seu público, que ele e tantos outros buscavam idiotizar cada vez mais. Já o nosso Bandeira tira até hoje arrepios da plateia com seu “Poema tirado de uma notícia de jornal”. De uma câmera de segurança, num banco, o Sebastião Uchoa Leite se viu sendo trapaceado.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Drummond, leitor de Mallarmé, também escreveu aqueles versos estupendos: “Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível./ Nada sobrou para nós senão o cotidiano / que avilta, deprime”. Mas é desta sobra que a poesia se alimenta, engorda, cresce e pode seguir para o abate cotidiano. Esse talvez seja o lugar da poesia do mundo: o abate do cotidiano. Ela pode até tentar resistir, e como resiste a danada, mas diante do porrete ela acaba sucumbindo. Cai como um boi zonzo e morto. Ela pode criar novos roteiros; ou apenas repeti-los, em sua escavação do mesmo; mas, acho, precisa ter consciência do abate. E aqui, sim, a rede social cumpre um papel importante: o de agilizar o abate. Torná-lo talvez menos doloroso, já que pulverizado, banalizado, como tantas coisas sérias na rede social.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Essa é daquelas frases que ganham hiperexposição e se tornam rasas e sem sentido. Mais um mérito das redes, tornar o que tinha força, no seu contexto, em frase de efeito com pouco efeito, apenas jogo de cena, piscadela de olhos, picardia poética. Pobre Pessoa. Nessas horas, seus ossos chacoalham mais que ônibus na pirambeira. Não tenho como responder, estando fora do poema de Pessoa. Mas talvez, arriscando, ele estivesse no mesmo embate drummondiano dos “mesmos sem roteiro tristes périplos”. Escavando. E escavar é deparar-se consigo mesmo num espelho invertido, ou um espelho distorcido. É uma outra imagem que surge, que assusta, que espanta, que aterroriza. É a máscara que rui. E corrói. Se a poesia é isso? Também é. Muitas vezes o é, mas num campo amplo e arrombado.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Bonito. Meus poemas não têm fome, mas comem de tudo. Ou quase tudo. Pois sei que há um filtro que impede meu poema de comer de tudo – “Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. É a limitação da poesia. É a limitação da língua, da qual somos mestres e escravos. Servidão e poder, diria Barthes. E lidar com a língua é coisa do diabo. Um verdadeiro inferno, cheio de esparrelas, cheio de vãos, desvãos, uma carga ideológica cristalizada, pedra que não quebra, haja água, osso duro de roer. Mas fracasso na resposta. Confesso: meu poema não consegue comer de tudo, como disse antes. Meu poema passa fome. Acho que a poesia sempre passa fome. Se não passar fome, se ficar satisfeita, ela definha. Ou é engolida. Mas talvez já tenha sido.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Todo poema que gosto faz muito sentido para mim na hora que leio. São tantos os poemas que me parecem fazer sentido. Principalmente os poemas que não fazem sentido (todo poema faz sentido). Admiro os poetas que escrevem poemas que não fazem sentido (todo poema faz sentido). Admiro os poetas que não fazem sentido (todo poeta faz sentido). Os poetas que mergulham de lugares que jamais conseguirei mergulhar. Pularam de pedras muito altas. Não tiveram medo de se arrebentar antes de tocar a superfície da água. Não tiveram medo de se arrebentar ao chegar à superfície da água. E principalmente, ao mergulharem, criaram tantas ondas em volta, tantos círculos, que me perco nesses círculos, seguindo-os até onde consigo, até onde se perde todo sentido.

Vou escolher UM. Mas poderiam ser MUITOS OUTROS.

disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos

e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque

nada se reparte: ou se devora tudo

ou não se toca em nada,

morre-se mil vezes de uma só morte ou

uma só vez das mortes todas juntas:

só colaboro na minha morte:

e eles entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,

que o demónio o leve, e foram-se,

e eu fiquei contente de nada e de ninguém,

e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e

            [vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,

só porque sim, isto é: só porque não agora

Herberto Helder, em Servidões, Assírio & Alvim, 2013.

Sobre poesia, ainda: Paulo Ferraz

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Infelizmente, por enquanto, não tenho percebido nenhuma mudança significativa na produção poética que pudesse ser atribuída ao uso mais frequente (ou seria uso constante?) das redes sociais. Creio que não tanto por nos expormos cruamente na internet, mas talvez porque ainda não soubemos operar de modo crítico com a velocidade com que tudo se sobrepõe, com que tudo se amalgama, comprimindo o tempo a ponto de não nos restar sequer um segundo para refletirmos sobre o caminho percorrido pela informação que passa por nós, digo passa pois somos ao mesmo tempo consumidores e difusores de informação, não é algo estranho a nós, somos parte dela. Porém, nessa existência virtual temos produzido mais ruído que comunicação. E se mal efetivamos a comunicação entre nós, o que dizer de poesia? Nesse ambiente os poemas ocupam o mesmo espaço das fotografias e filmes domésticos, dos registros de viagem, das opiniões políticas, das escavações do passado íntimo, das anotações corriqueiras, das anedotas e histórias pitorescas, tudo circula nesse mesmo suporte que possui um alcance inimaginável, mas programado para ter uma fugacidade imediata, o que quase sempre anula a importância do alcance, daí que aparentemente quase nada se fixa. Está destinado a todos e a ninguém.

Um detalhe que me incomoda, na rede os poemas estão sujeitos ao mesmo tipo de apreciação por vezes afetiva demais dos leitores/amigos/seguidores com que dispensamos a qualquer outro assunto dos enumerados acima. Tudo se reduz ou a silêncio ou a um gosto/não gosto. O paradoxal disso tudo é que a poesia vive do outro, ganha densidade ao romper a esfera privada do poeta, por isso ignorar essa hiperrealidade não deve ser o melhor caminho, em algum momento alguém saberá extrair dessas relações que hoje nos parecem insignificantes, supérfluas e vazias, dessa sensação de ubiquidade, uma poética que represente os conflitos, as paixões, as ansiedades desse espírito, mais ou menos como Baudelaire percebeu no século XIX que a multidão era uma manifestação da modernidade. Mas enquanto ele via na arte um parte eterna e outra fugaz, talvez nós estejamos cada vez destinados a apenas uma das metades, justamente a que não se deixar facilmente captar. Por ora o que vejo é o poema pensado para o papel circulando nas telas, são os mesmos recursos, são as mesmas abordagens, são os mesmos mecanismos de expressão empregados há séculos, desde pelo menos quando a poesia deixou de ser declamada/cantada em praça pública para ser escrita e lida no conforto da biblioteca.

 2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A poesia se repete e se nega desde sempre, todo poema que se preze contém em si uma poética, uma resposta e uma proposta para a história e os dilemas da poesia, trate do tema que trate, tenha a forma que tenha, circule no meio que circule. Mais, todo poema é uma explicação/interpretação/construção do que chamamos realidade, portanto sempre terá seu lugar. Posso parecer idealista, mas acredito que todos temos uma necessidade de fabular o que nos cerca; a ciência, a filosofia e a religião não são suficientes para certos anseios. Não vivemos sem poetizar (e aqui não falo necessariamente de poema) nossa existência.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

A poesia continua a ser um ato de criação, de invenção, de pôr no mundo um objeto de palavras, um objeto que nos representa. E representar um conjunto dinâmico de seres tão complexos, tão ricos e contraditórios exige ir além do senso comum do que achamos que somos. O fingimento algumas vezes expande o conhecimento que temos de nós ao simplesmente retirar algumas camadas que cobrem nossa visão do mundo (esse mundo feito mais de linguagem e ideias que de coisas).

 4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Não sei se como autoengano, mas encaro a poesia como uma atividade que se faz em muitas etapas, entre as quais escrever e publicar são duas delas, importantíssimas, mas duas etapas entre outras, que muitas vezes não se efetivam. O único problema que se dá quando o poesia não ganha forma de poema é que não rompemos aquela barreira do individual para o coletivo, seguimos convivendo com nossos poemas sem escrevê-los. A poesia, a fazemos todos os dias, somos poetas (pois criamos) quando lemos, quando não nos deixamos anestesiar ao caminhar pelas ruas, quando ao conversar nos comovemos com os sons da fala, quando assistimos a um filme ou quando vemos um quadro, quando nos recordamos do passado ou de uma paisagem ou de um amigo, quando imaginamos outros mundos para além deste. Foi o que disse acima sobre a necessidade de poetizar nossa vida, precisamos desse olhar que desestabiliza, desse olhar que nos tira o chão para seguir acreditando em nós mesmos. Por isso, creio que meus poemas se alimentaram de diálogos, verbais e não verbais.

 5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê? 

“Vermeer” da Wislawa Szymborska, que apareceu em um livro de 2009, dentro dessa perspectiva de reconfigurar nossa percepção do real a partir da poesia, faz todo sentido, até por que se não fizesse é porque seu vaticínio teria finalmente se completado.

VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,

em quietude pintada e concentração,

dia após dia, não verter o leite

do jarro para a vasilha,

o Mundo não merece

o fim do mundo.

(trad. Teresa Swiatkiewicz)

Sobre poesia, ainda: Carlos Felipe Moisés

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1. A hiperexposição de tudo o que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

No enredo proposto, “hiperexposição” é o vilão da história, protagonista, mas haverá enredos em que não seja sequer figurante, podendo até nem se manifestar. No primeiro caso, a tirania expositiva comanda o espetáculo e obriga a poesia ou a dançar conforme a música ou a sair de cena. No segundo, nada obriga a poesia a nada: o enredo terá o alcance que o poeta lhe der, para além do que a exposição, a posteriori, lhe conferisse. Isso só ganha contornos dramáticos, ou tragicômicos, quando a poesia incorpora a hiperexposição aos seus propósitos, e a obrigação vira objeto de desejo, cobiçosamente buscado.

Se estiver plugado o tempo todo, bom para você, é exposição garantida; se não estiver, você não existe. Se isso vale para tudo quanto você imagina, por que não valerá para a poesia? Logo, seja porque se sente obrigado, seja porque o assumiu de bom grado, hiperexponha-se! Só não espere que o tempo e o trabalho gastos para conceber o seu enredo sejam proporcionais ao que seus leitores lhe dedicarão. Hipererxposição pede objetos que possam ser percebidos instantaneamente e logo descartados, para que tudo recomece do zero no dia seguinte. Ou no instante seguinte. (Mas, se isso fosse verdade absoluta, as perguntas teriam no máximo 140 caracteres e minhas respostas seriam do mesmo tamanho.) É por isso que, nas redes sociais, a poesia passa despercebida. Ela pode estar lá, ou ontem estava, hoje já não está, mas tanto faz: ninguém presta atenção, só passa os olhos. É que prestar atenção toma tempo, dá algum trabalho. Se ninguém tem tempo nem quer ter o trabalho de se concentrar em nada, por que a poesia havia de ser exceção? Se a meta é a hiperexposição, pensar, sentir e imaginar só atrapalham.

Afinal, nada de novo. Você tem notícia de algum momento na história em que o sistema, as coisas, o mundo fossem favoráveis à poesia? Poesia sempre esteve na contramão. Se não estiver, será outra coisa. Por que alimentar ilusões? É só resistir, com raiva ou com humor, até onde der, lançando mão de todas as armas à sua disposição, inclusive as proporcionadas pelas redes sociais.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

O lugar da poesia? Poesia é aquele círculo infinito, cujo centro está em todas as partes e cuja circunferência não está em parte alguma. Seu lugar é qualquer lugar. Mas, ao contrário da tirania hiperexpositiva, ela não obriga ninguém a fazer nada que não queira. Concentrar-se nela, prestar atenção, dedicar-lhe algum tempo e trabalho é livre escolha do leitor. Não há nada que a poesia possa fazer para forçá-lo a isso. O círculo infinito é o reino da liberdade. Poesia é só um convite e um desafio. Onde já se viu obrigar alguém a ser livre? Quando todos estiverem rendidos ao fetiche da hiperexposição, felizes da vida com sua condição de escravos, a poesia continuará a repetir “os mesmos sem roteiro tristes périplos”. Mas Drummond sabia: “os mesmos” são sempre outros; “sem roteiro” quer dizer livre para perseguir todos os roteiros; e os périplos são tristes não pela poesia, mas porque dão a medida da desumanização a que o bicho homem se condena, alegre e satisfeito, hiperexposto, reduzido à condição de coisa entre coisas. A poesia lida com a condição humana em seu mais alto nível. Mas de nada serve o poeta saber disso e dizê-lo em seus poemas: é preciso que todos os homens o ouçam e o endossem. Liberdade quer dizer solidariedade, via de mão dupla.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um fingimento deveras?

Parece que sim, ontem, hoje, sempre, desde que se entenda: “fingimento” é a cristalização daquele tempo ficcional que contrasta com o “tempo real” das redes sociais, dos blogs etc. Se este for de fato “real”, não haverá fantasia que o supere. O poeta finge tão completamente para lembrar (aviso, desafio) que a realidade é múltipla, não pode ser uma só, muito menos essa que aí está, vazia de si mesma. Fingir significa duvidar, sempre, e conviver com a insegurança do desconhecido; já mergulhar de cabeça na hiperexposição desse tempo supostamente “real” equivale à ilusão de ter certezas inabaláveis, jamais duvidar de coisa alguma e acreditar que tudo é conhecido, ou que nada é cognoscível. Dá no mesmo. O preço a pagar pela “segurança” tão gostosamente conquistada é barato: é só abdicar de pensar, sentir e imaginar – o que, para a poesia, barato ou caro, seria uma contradictio in terminis.

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam: / Nem tudo o que penso agora / Posso dizer por papel e tinta.” Do que seus poemas têm fome?

Se não pode dizer com papel e tinta, diga de outra forma; se não pode dizer isso, diga outra coisa, ou não diga nada. Mas por que só “agora”? Se as “novas” perturbações lhe dão fome, isso por acaso significa que a provocada pelas mais antigas já foi devidamente saciada? Você nunca pensou nada parecido com o que pensa agora? Perturbações são, sem dúvida, um bom alimento para a poesia, mas isso independe de elas serem velhas ou novas. O problema, se houver, está na sua fome demasiado seletiva e unilateral. Os poemas têm fome de leitores e, por apetitosos que sejam, não podem fazer nada se estes partirem para uma dieta radical. Claro que é preciso dar de comer ao poema, mas isso não deve ser motivo de preocupação: a fome dos poemas é pantagruélica. Mas é mais preciso ainda dar de comer ao leitor anoréxico, faminto, sem o saber, do alimento que nunca experimentou.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Um só? Mas eu teria dezenas, centenas. Uns acabaram de ser escritos, outros foram escritos há muito tempo, e todos me parecem fazer todo o sentido, hoje. Sá de Miranda: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo. / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Faz alguma diferença isso ter sido pensado, sentido e imaginado quinhentos anos atrás? Não é de mim e de você que ele fala? Não é um poema sobre a armadilha do individualismo, apostasiado pela hiperexposição que, hoje, nos assola? Camões: “Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos, / E para mais me espantar / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / O bem tão mal ordenado, / Fui mau, mas fui castigado. / Assim que, só pera mim / Anda o mundo concertado”. De que mundo fala o poeta, o dele ou o nosso? Drummond: “Viver-não, viver-sem, como viver / sem conviver, na praça de convites?”. Não é uma boa definição da rede em que, hoje, plugados vinte e quatro horas por dia, hiperexpostos, alegremente confraternizamos? Manuel de Barros: “Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema / enquanto vida houver. / Ninguém é pai de um poema sem morrer”. Isso faz ou não faz todo o sentido, especialmente hoje? Para isso, não é preciso ser atual, não é preciso dizer o que nunca foi dito.

Poemas fazem sentido quando são portadores de valor, reconhecido como tal. Aí está o problema: valor. No reino encantado da hiperexposição, não há como julgar; “valor” vem a ser um falso problema. Se tudo existe para ser exposto e descartado em seguida, tudo se iguala, todas as coisas valem a mesma coisa e nada faz sentido. “Não há como julgar” quer dizer: não há como afirmar que este poema é bom, aquele não. Mas, como não somos capazes de lidar com poesia sem atentar no valor que ela representa, continuamos afirmando: este poema é bom, aquele não é, para mim. E todos sabem que, para alguém mais, o juízo poderá inverter-se, e isso não fará a menor diferença. Poema bom é poema bom, outros não o serão, embora isso varie de leitor para leitor. Você alguma vez se dispôs a escrever um mau poema?

Felizes são os franceses, que cultivam provérbios deliciosos como: “Le beau pour le crapaud c’est sa crapaude” (O belo para o sapo é sua sapa; mas a melhor tradução seria: Quem ama o feio, bonito lhe parece). Mas isso não quer dizer que, para ser bela, toda sapa precise de um sapo que a venere. Se as sapas forem belas, isso será reconhecido por qualquer um. A hiperexposição, porém, impede que cheguemos lá. Preferimos assumir que cada um fique com a sua sapa, ainda que a do vizinho não seja de jogar fora.

A relatividade dos juízos não quer dizer vale-tudo. De um lado, temos o julgamento de valor, sempre pessoal, acompanhado de um arrazoado mínimo, uma argumentação convincente, um critério que o justifique; de outro, a mera opinião, escolha arbitrária, baseada no direito que cada um tem de gostar do que bem entenda (privilégio da saparia): nenhum critério, nenhum argumento, nenhum arrazoado. A hiperexposição desencoraja e inibe o primeiro, apostando todas as fichas no segundo.

Mas a relatividade tem limite. Se você disser quais são, na sua opinião, os dez melhores poetas brasileiros do século XX, e eu fizer o mesmo, sou capaz de apostar que pelo menos cinco nomes apareceriam nas duas listas. Poemas que fazem todo o sentido, hoje, são os bons poemas, de qualquer tempo, e “bons poemas” são os que contam com o nosso consenso, desde que se trate de um honesto julgamento de valor e não da mera arbitrariedade que leva a julgar… sem julgar. A hiperexposição nos induz a ignorá-lo, empurrando esse consenso para o Dia de São Nunca. Insinuar que nada faz sentido dá bem menos trabalho do que buscar o sentido que cada poema deve ter.

Sobre poesia, ainda: Adriano Scandolara

Scandolara

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Acredito que a hiperexposição online de tudo que se pensa/sente/imagina não entre em competição com o poema, ou pelo menos com a ideia que eu tenho de poesia (especialmente de poesia hoje) como produção de um artefato de linguagem, capaz de fazer coisas em vez de meramente significar, em oposição à simples expressão, que é o grande motor das redes sociais, o imperativo do “expresse a sua individualidade”, “mostre como você é especial” (por mais que a pessoa hipotética em questão não saiba fazer absolutamente nada de especial). Por outro lado, se isso não dá fim à coisa, é preciso lembrar que toda inovação que venha a trazer mudanças à estrutura da sociedade – como foi, com graus variados de impacto, a mudança do nomadismo para o sedentarismo, a fundação das cidades, o advento, aperfeiçoamento e vulgarização da escrita, a invenção da imprensa, a revolução industrial, o desenvolvimento do capitalismo, etc – vai causar mudanças no modo como se faz poesia, mudanças que vão muito além do “tem carros na rua, agora o poema tem que falar de carros também”.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Se o nosso lugar é esse não ter lugar (nenhuma novidade dizer isso, mas seria bom achar outros jeitos de fazê-lo, porque a esta altura meio que todo mundo já cansou da expressão leminskiana do “inutensílio”), então está ótimo, grandes poemas foram escritos desde que as coisas passaram a ser assim. Daí que os périplos não são nunca os mesmos (a repetição é para as coisas que têm seu lugar definido, afinal), nem muito menos tristes ou em vão, porque esse esforço de se inventar o próprio roteiro acaba sendo produtivo e uma fonte de alegria ou de sentido ou chame-se isso lá do que for. Para resumir: se fosse fácil não teria graça.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

O que eu gosto desses versos do Pessoa é como ele expõe a questão do modo indireto de produzir significado na poesia. Na prática, quase tudo nesta vida que envolva algum tipo de comunicação entre pessoas acaba sendo fingimento em algum grau (se é assim agora, neste momento histórico em particular, ou se sempre foi, aí já é difícil dizer), mesmo, ou pior, especialmente aquilo que se apresenta como sincero ou ingênuo, que é um belo disfarce para o cinismo mais cretino (propagandas de banco são sempre exemplares nisso). Aí então podemos ver o poeta como fingidor, mas, como todo mundo é, o sentido de fingidor acaba sendo deslocado, o que faz com que, sendo o poeta o fingidor que finge uma dor real, ele acaba não sendo. Aí se dizemos que ele é um fingidor ou não é algo para se deixar no ar, tipo o famoso pato-coelho (pois é, todo esse malabarismo para deixar a pergunta sem resposta).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

É meio estranho falar dos próprios poemas, né?, mas, se tem algo por trás do que eu escrevo, uma fome, acho que seria uma fome de contato humano, aquela coisa (talvez meio bocó mesmo) de você ler e o poema entrar em ressonância contigo, dissipando em alguma medida aquela sensação de que nada faz sentido neste mundo (ainda que paradoxalmente os poemas em si não sejam também nenhum tipo de tentativa de dar um sentido).

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

O poema que eu gostaria de indicar (e foi bem torturante selecionar um só, diga-se de passagem) é um da poeta israelense Dahlia Ravikovitch (1936 – 2005), que se chama “Orgulho” (Gevah, no original em hebraico), que traduzi a partir da tradução inglesa de Ariel e Hana Bloch. De todos os poemas que me passaram pela mente aqui para responder a essa pergunta, esse foi um dos que senti, ao reler agora, reter o mesmo impacto (sobretudo nos versos finais) de quando o li pela primeira vez, em 2013.

Orgulho

Até as rochas se partem, eu te digo,

e não é pela idade.

Tantos anos deitadas de costas ao calor e ao frio,

tantos anos

que quase se cria a ilusão de tranquilidade.

Não se movem, escondendo as rachaduras.

Uma forma de orgulho.

Os anos as passam enquanto aguardam.

Quem quer que venha arrebentá-las

ainda não veio.

E assim floresce o musgo, a alga chicoteia,

o mar rebenta e volta –

e ainda parecem imóveis.

Até que uma foca venha se esfregar contra as rochas, venha e vá.

E de repente na rocha surge uma ferida aberta.

Eu te disse, é uma surpresa quando as rochas se partem.

As pessoas, mais ainda.

***

É um poema doloroso, porque é profundamente empático, ao mesmo tempo em que deixa praticamente tudo subentendido: você não consegue não imaginar uma cena humana muito real por trás que possa ter levado o eu-lírico a chegar a essa imagem final para uma pessoa em colapso. Considerando como hoje parecemos sofrer de uma falta persistente e quase patológica de empatia, um poema desses, vindo de onde vem, ainda por cima, para mim faz todo o sentido.

Sobre poesia, ainda: Guilherme Gontijo Flores

Guilherme

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

em tempo real – seja lá o que isso for – ou pelo menos numa temporalização acelerada de tudo, lendo um livro, ouvindo música, conversando online & dirigindo ao mesmo tempo, ou simplesmente consumindo & oferecendo opiniões o tempo inteiro (o que parece ser a principal função das redes sociais), tudo isso me parece sugerir um desejo de existir, de confirmar que estamos todos aqui, em fotos, vídeos, sons, embates; & em muitos. poesia acontece em outro tempo, certamente; mas também quer confirmar uma existência, ou pelo menos fundá-la, por isso tende sempre a se confundir, quer dizer, ela também, num tempo desses, deverá ser hiperexposição, nem que seja por fim como confronto ou negação desse processo. para ser mais preciso: a poesia, como linguagem, nunca vai se separar com clareza do mundo, ainda que ela possa sempre apontar — & desejo muito essa poesia que aponte — para outras possibilidades: ela se dá por dentro.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

não. o mapa pode até ser parecido, mas o périplo não será igual. & nada, nada, absolutamente nada será em vão, mesmo no cerne do fracasso. assim, o lugar da poesia, que — claro — variou, varia, variará, tende a ser sempre numa espécie de entreposto entre os lugares comuns da vida cotidiana & aquela potência de invenção ainda ignorada, ou esquecida há muito. cada cartografia delimita &, ainda assim, abre esses novos lugares, exclui a poesia do centro (embora, sim, ela já tenha em alguns momentos & lugares ocupado esse centro), para em seguida dar-lhe uma posição estratégica na periferia. eu fico muito satisfeito em ocupar um ponto periférico, porque da margem é que se aponta fissuras ou aléns.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

por que não? mesmo aquilo que nós poderíamos chamar de expressão sincera, ou autobiográfica, do poeta precisa passar por aquele filtro — pessoal ou não, vai acontecer nem que seja entre os leitores — de sua relevância para um público maior. esse filtro é a condição de que toda linguagem acontece fora da abstração subjetiva, então a própria construção do poema precisa incorporar esse lugar do outro com quem inevitavelmente dialoga: fingo, do latim “forjar”, “fazer” “moldar”, não dá apenas na nossa “ficção” como fato falso; fingir é assumir o outro no próprio discurso, é condição de qualquer poesia, porque não existe canto sozinho.
mas, se fosse para analisar o trecho do pessoa, eu apontaria para o jogo ente fingimento & deveras, fingir deveras deveria ser — & pessoa foi mestre nisso — uma capacidade de fundar/fazer verdades (aquela verdade findável e transformável que já está em nietzsche).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

meus poemas têm fome de entender por que a gente se toca, ou melhor, por que eu paro para ver ipês, ou para ler horácio, ungaretti ou celan. bem poderíamos ser como as paredes, ou meros animais que sobrevivem a tudo sem estese, sem chance de alegria ou sofrimento maior. a nossa abertura ao mundo me vem como uma espécie de mistério muito óbvio, ao qual preciso retornar, porque é nisso que está também nossa miséria constante.
mas essa é a questão atemporal. o outro lado é a pergunta sobre como nos é dado sentir hoje & como os poetas — artistas em geral — poderiam inventar novos modos (“inventar” aqui no sentido antigo, de encontrar; não com a ingenuidade de criação ex nihilo)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

STEHEN, im Schatten
des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

DE PÉ, na sombra
da chaga aberta ao ar.

Por-nada-e-ninguém-De-pé.
Irreconhecido,
por ti,
só.

Com tudo que aqui tem espaço,
mesmo sem
língua.

(paul celan, trad. minha)

faz muito tempo que esse poema me assombra. a persistência de resistir/permanecer/ficar de pé/à sombra de todo o sofrimento, mesmo que não haja nada mais a ser defendido, mesmo que não se reconheça nem seja mais reconhecível, até mesmo sem a língua/linguagem, essa perda de tudo, exceto pela tomada de uma posição no mundo — uma habitação do mundo? —, ou pela nossa relação com o outro — logo penso naquela ideia poderosa de sacrifício como modo do amor, proposta por tarkovski — me diz quase tudo que procuro na vida &, portanto, na poesia.