Nem eu nem você

Ninguém segura o Brasil. Agora que não aceitamos que as eleições sejam o único momento em que o eleitor se manifesta politicamente. Agora que aprendemos a protestar, mesmo aos domingos. Aos urros, aos berros, aos chutes, aos murros. Agora que aprendemos a cobrar a punição dos políticos. Agora que não nos conformamos com o consumo em larga escala – mesmo em Miami – e queremos também cidadania. Agora que não nos cala o carro do ano, com ar condicionado e direção hidráulica (xô, carroças!). Agora que não basta mais ter casa, comida e roupa lavada pela empregada. Ninguém segura o Brasil. Agora que nossos olhos brilham quando veem algemas nos pulsos antes rolex de um empresário graúdo – banqueiro, empreiteiro, fazendeiro. Agora que nossos ouvidos se deleitam com listas de investigados por corrupção. Agora que não temos dó de ver alguém de terno e gravata, de tailleur e bico fino, entrando pela porta de trás do camburão porque sonegou impostos. Agora que somos sinceros com o fisco. Agora que somos severos ao dizer “doa a quem doer”, porque não excluímos ninguém, ninguém mesmo, do alcance das dores que a lei pode causar. Ninguém segura o Brasil. Agora que não vamos mais engolir as mentiras que a televisão conta. Agora que a versão oficial, venha de onde vier, é inescapavelmente suspeita, pérfida, falsa. Agora que sabemos que os governantes não podem deixar de ser vistos como inimigos e passamos os dias em guarda contra seus possíveis ataques. Agora que teclamos enquanto tentam nos convencer de suas mentiras. Agora que rebatemos linha a linha, frase a frase, grito a grito, e não deixamos as ilusões nem mesmo se completarem antes de sua demolição. Agora que comparamos o discurso do candidato com a conduta do eleito. Agora que derrubamos o eleito caso não corresponda ao discurso com que se candidatou. Agora que sabemos que um país se faz de pessoas que estejam dispostas a ser aquilo que gostariam que seu país se torne. Agora que cada um de nós será, na marra, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, o país justo, honesto, livre em que queremos viver. Não tem como dar errado. Vai faltar panela, janela, tecla, goela para tanta e tamanha indignação. Ninguém segura o Brasil. Vai doer um pouco, sempre dói, tirar da frente quem tenta nos impedir. Mas ninguém nos segura. Ninguém. Nem eu nem você.

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