Pina, sempre

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Soube que a poesia de Manuel António Pina (1943-2012) vai, em breve, pousar em parte por aqui, então aproveito para comemorar republicando um texto que lhe dediquei lá nas páginas do K – Jornal de Crítica, v. 16, 2007. E, na sequência, uma bela entrevista que ele deu à revista eletrônica portuguesa Ciberkiosk, n. 9, março de 2000, para Osvaldo Manuel Silvestre e Américo António Lindeza Diogo. Aliás, como fazem falta o K, a Ciberkiosk e, mais que tudo, o incrível Pina! Deleitem-se!

SEM QUE PALAVRAS?

Tarso de Melo

Convocado a escrever sobre um poema de Ruy Belo para a antologia crítica Século de Ouro (Lisboa: Angelus Novus/Cotovia, 2002), o poeta Manuel António Pina revelou, por mais de uma vez, o incômodo que sentia diante daquele “trabalho de casa” sobre uma obra poética que, em parte, era responsável por ele, Pina, ser um “escritor de versos”. Para Pina, a poesia de Ruy Belo era “algo amado” e, assim, a sua “compreensão dela não passa por qualquer exercício de análise”.

Lembro isso porque, de minha parte, para escrever aqui sobre a poesia de Manuel António Pina, estou diante do mesmo incômodo – sem, no entanto, a mesma competência para realizar a tarefa. Vou em frente, porém, um tanto por desfaçatez e outro, bem maior, para tentar entender por extenso o que faz com que eu goste tanto da poesia de Pina.

Foi nas páginas da revista Inimigo Rumor, em 2003, que tomei contato com um poema de Manuel António Pina. Naquela época das memoráveis edições luso-brasileiras da revista carioca (do número 11 ao 16), não foram poucas as vezes em que um poeta, de quem nunca havia ouvido falar, despertou minha curiosidade pela produção contemporânea de Portugal. No caso do Pina como no de vários outros, corri à caça de amostras mais substanciosas do que a revista conseguiria trazer. Foi então que surgiu a idéia de pedir a Carlito Azevedo que apresentasse alguns poetas portugueses nas páginas da revista Cacto (que eu editava com Eduardo Sterzi), o que ele fez na forma de uma “pequena antologia aleatória da poesia portuguesa contemporânea”.

Ainda em 2003, no seu terceiro número, a Cacto publicaria os 6 poetas indicados por Carlito Azevedo. Foi então que se deu meu contato definitivo com a poesia de Pina, porque o antologiador me enviou cópia de várias páginas da Poesia reunida (Lisboa: Assírio & Alvim, 2001) para opinar sobre a seleção e transcrever os poemas com fidelidade na revista. Mais uma vez, estava diante de poemas absolutamente impressionantes pela beleza e inteligência com que cercavam seus temas, e não demoraria muito para conseguir um exemplar da Poesia reunida e, depois, de outros livros de Manuel António Pina, que só fizeram aumentar minha admiração.

Não sei até onde pode me ajudar a reconstrução assim detalhada do percurso das minhas leituras do poeta, mas gosto de lembrar que conheci a poesia do Pina em revistas literárias (e em revistas literárias brasileiras, mais especificamente), pelo simples fato de que minha leitura de seus poemas ainda hoje se dá sob um efeito parecido com aquela convivência/confrontação que é própria das revistas. Falo, assim, da diferença entre conhecer um determinado poema e conhecê-lo em meio à leitura de outros poemas de seus (meus) contemporâneos brasileiros e portugueses. No confronto, o choque causado pela poesia de Pina é ainda mais contundente.

Mas aqui quero falar apenas de uma “idéia fixa” que percorre a poesia de Manuel António Pina desde seu primeiro livro, de 1974, até o mais recente, de 2003. Em Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, livro de estréia do poeta, já estão em destaque os poemas que questionam os limites da literatura, ou mais precisamente, não apenas da literatura, mas de tudo que se exprime em palavras: quanto da realidade pode ser representado nas palavras? Ou ainda: que realidade há para além das palavras? Daí em diante, com formulações mais ou menos idênticas, Pina sempre pergunta: “com que palavras e sem que palavras?”

Não é um problema qualquer, ainda mais para um poeta, investigar as possibilidades das palavras. Tampouco é um tema incomum, obviamente. Mas chama a atenção, na obra de Pina, a quantidade de poemas dedicados diretamente à discussão até mesmo filosófica da representação. O eco de um certo Wittgenstein, aquele da proposição “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo” (Tractatus, 5.6), é ouvido constantemente, desde um poema como “Já não é possível”, do primeiro livro, até versos como “entre mim e eu, isto é, palavras” ou “São elas, as tuas palavras, quem diz `eu´”, do poema “Tanto silêncio”, em Os livros (2003), passando, é claro, pelo belíssimo poema “Ludwig W. em 1951”, de Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), em que o diálogo com o filósofo austríaco é francamente aberto.

É possível arriscar uma antologia sumaríssima, voltada principalmente ao leitor que ainda não teve nas mãos os livros de Pina, com algumas pedras de toque da idéia fixa:

“As palavras esmagam-se entre o silêncio

que as cerca e o silêncio que transportam”

     [“Os tempos não”, Ainda não é o fim…, 1974]

“o meu cansaço é só um conceito”

     [“Volto de novo ao princípio”, Aquele que quer morrer, 1978]

“Serei capaz

de não ter medo de nada,

nem de algumas palavras juntas?”

     [“O medo”, Nenhum sítio, 1984]

“As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras”

     [“Cuidados Intensivos”, XII, Cuidados intensivos, 1994]

“As palavras depõem

contra o coração,

que não quer dizer nada

nem ouvir nada”

     [“A boca e os ouvidos”, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, 1999]

“Como saberei o que fazer com tantas palavras,

náufrago de palavras

na tormenta de antigos sentidos

e de antigas dúvidas,

sem outra coisa que me proteja

senão mais palavras?”

     [“Como quem liberto de”, idem]

“as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo

e se foram levando o mundo”

     [“Todas as palavras”, Atropelamento e fuga, 2001]

“Agora podemos enfim calar-nos

sem temer a solidão nem a culpa

porque já não há tais palavras”

     [“Separação do corpo”, Os livros, 2003]

Por mais de três décadas perguntando “com que palavras e sem que palavras?”, tudo que Pina escreveu revela o embate entre palavra e realidade, comum na poesia e na filosofia, mas que se singulariza em sua obra pela tendência a afirmar (ou seria lamentar?) que toda a realidade está nas palavras: todas as coisas, fatos e sentimentos existem e deixam de existir conforme as palavras (que a eles se referem e que são sempre alheias) existam ou deixem de existir.

Em Pina, por vezes, como em Mallarmé, tudo conflui para (e tem sentido apenas em) um livro – mas não num Livro grandioso, maiúsculo, como o do poeta francês. Tornar-se literatura, em Pina, antes de ser uma consagração, é uma forma de abandono a que coisas, fatos, sentimentos,  pensamentos e o próprio poeta estão condenados. É possível lembrar, a propósito de certos versos de Pina, das personagens “doentes de literatura” de que trata Enrique Vila-Matas em O mal de Montano (2002), pessoas asfixiadas pelos livros que leram e pelos que pretendem escrever, o que faz com que vivam de maneira completamente mediada pela memória de textos alheios e, mais ainda, que vejam literatura em todas as palavras com que conhecem a si próprios.

Exemplo eloqüente disso está, também, já no primeiro livro de Pina, quando ele constata: “Literatura que faço, me fazes” [“Desta maneira falou Ulisses”]. Ou ainda num poema de O caminho de casa (1989), em que “já tudo e eu próprio somos literatura” [“Insónia”]. Mas é no seu livro de 1999,Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (título, aliás, bastante significativo) que se encontra a radicalização, no poeta, dessa percepção de que tudo é palavra logo é literatura logo é alheio (com perdão pela formulação esquemática…). Leia-se, por exemplo:

“o rio não era o rio

nem corria e a própria morte

era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera

o que sentia, até a

minha alheia melancolia?”

     [“Saudade da prosa”]

“Volto, pois, a casa. Mas a casa,

a existência, não são coisas que li?”

     [“O resto é silêncio (que resto?)”].

Se palavras são sociais – ou se apenas socialmente, comunicativamente, interpessoalmente seus sentidos são justificados ou, como diz o poeta, acham o “sentido justo, feito de mais palavras” –, para o conhecedor de literatura é também inevitável que elas tragam as marcas de suas passagens pelos mais diversos textos e contextos literários. E não apenas literários, porque será natural trazer para a leitura da poesia de Pina, em que as palavras estãoem causa, o significado que algumas delas (ser, presença, linguagem, mundo, casa etc.) ganharam na filosofia do século XX, com o já citado Wittgenstein, mas muito também com Heidegger e alguns de seus herdeiros. (Heidegger, anote-se à margem, lembra uma outra idéia fixa – a ser aprofundada oportunamente – que também cruza toda a obra de Pina: a idéia do retorno à casa, a uma casa que é “coisa que li”, em que ressoa o quase bordão do filósofo alemão “a linguagem é a morada do ser”, com o diferencial de que, para Pina, este não é, por isso, propriamente o lugar de revelação da verdade.)

Se o modo como Pina trabalha e retrabalha essas palavras durante sua obra revela uma certa vocação à poesia reflexiva (com todos os senões que esta expressão merece), não é apenas nele que percebemos a “consangüinidade entre pensamento e poesia” apontada por Maria da Conceição Caleiro. Em Pina, a forma poética é uma forma de intervenção filosófica, uma forma de dúvida filosófica, de desconfiança fundamental diante do real e de sua representação.

Em Os livros, de 2003, Pina volta a perguntar: “Com que palavras e sem que palavras?”. Sem exagero, posso afirmar que este é um livro todo sobrea idéia fixa aqui destacada (a rigor, para tratar da idéia fixa do poeta, deveria transcrever, integralmente, os poemas de Os livros!). Destaco o “sobre” para diminuir nele a indicação puramente temática, porque, na verdade, Pina não (apenas) tematiza o embate palavra/realidade, como ocorre num ensaio filosófico: ele duvida das palavras que tem à disposição de seus poemas e, assim, todos seus poemas, tratem do tema que tratarem, acabam revelando a hesitação diante dos “nomes das coisas”.

O poeta encaminha-se – e leva junto seus leitores – para o interior de um livro, a partir do qual imagina outros: “Talvez que noutro mundo, noutro livro,/ tu não tenhas morrido/ e talvez nesse livro não escrito/ nem tu nem eu tenhamos existido” [“Luz”]. O mundo é, portanto, um livro composto por determinadas palavras numa determinada organização; alteradas aquelas palavras ou esta organização, o mundo é outro, porque outro é o livro. Mas a poesia de Pina se inquieta diante dessa redução do mundo à linguagem e quer mais materialidade do “livro do mundo”, chegando a perguntar, no poema “A ferida”: “Real, real, porque me abandonaste?”. E desejar: “Oh, juntar os pedaços de todos os livros/ e desimaginar o mundo, descriá-lo”.

De dentro dos livros de Manuel António Pina, resta-nos, enfim, aguardar – lendo – outros e torcer para que chegue logo a hora em que o Brasil ganhará uma edição ampla de sua poesia, que o faça conhecido aqui por suas (digamos!) próprias palavras.

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«À poesia pouco mais é dado dizer do que o silêncio do mundo»
Manuel António Pina
, poeta, autor de literatura infantil e cronista, fala ao Ciberkiosk

Um tanto tarde, decerto (na medida em que, como aprendemos na sua obra, é sempre tarde na nossa irreal existência breve), Manuel António Pinacomeça a surgir aos seus contemporâneos como o autor de uma obra maior. Neste caso, e apesar de ser esse o núcleo irradiante da sua produção, não basta dizê-la maior no campo poético, já que o autor é homem de muitos ofícios literários, da literatura infantil em que é mestre (O País das Pessoas de Pernas para o Ar, 1973; Gigões e Anantes, 1974; O Têpluquê, 1977; A Arca do Não É,1979; etc, etc: é favor ler os títulos em relação com as datas da nossa história recente) e à crónica, de que é cultor infelizmente bissexto (O Anacronista, 1994).

Na poesia, tudo começou no ano dos milagres de 1974, com o livro Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, a que se seguiriam, a um ritmo pausado e adensadamente «ruminante», mais 8 títulos. Refira-se a reunião a que procedeu da sua obra em 1992, no volume Algoparecido com isto, da mesma substância, e a recente súmula da sua obra que é o volume Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, longamente analisado em texto incluído neste número de Ciberkiosk.

Suspendamos a lição ética que a ponderada gestão desta obra comporta, num tempo em que os poetas se apressam em produzir-se sob as roupagens da Obra Completa, aos 40 anos. A centralidade discreta da poesia de Manuel António Pina na nossa cena actual, conquistada apesar de bastante esquecimento e descaso, poderá talvez pouco para inverter os rumos fátuos da poesia do período; mas nas suas menos de 300 páginas ela convida-nos a uma meditação exigente e sem tréguas sobre essa modalidade de declinação do ser a que damos o nome de poesia. Poesia do «ser no mundo» e da difícil gramaticalidade disso, a obra de Pina é também, muito consciente e cultamente, uma encruzilhada das dicções poéticas do século, entre o Novo e a conspiração dos plágios, entre Pessoa e Borges, enfim, entre o emperro e a música do verbo, esta última em regime frequentemente atonal.

Razões mais do que suficientes para convocarmos Manuel António Pina a uma conversa com os leitores de Ciberkiosk, os quais poderão assistir nas linhas que se seguem a uma demonstração rara de inteligência e domínio da prosa (a entrevista foi realizada por escrito). O momento parece aliás acertado, coincidindo como coincide com a unanimidade crítica desencadeada pelo seu último livro de versos – de que Ciberkiosk se orgulha de ter apresentado uma sequência à data inédita, no seu número 3 (Setembro de 1998). Ao autor, que gentilmente acedeu a esta entrevista, o nosso muito obrigado.

As perguntas são da responsabilidade de Américo Lindeza Diogo e Osvaldo Manuel Silvestre.

Ciberkiosk O seu primeiro livro, editado no ano santo de 1974, tem o estranho e alongado título Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde. A que vem esta admissão de intempestividade? É o poeta que é tardio (em relação aos seus mestres modernos: Pound, etc)? É a poesia que já não tem apetência pelo canto? É a revolução que vem fora de tempo? Importa-se de nos esclarecer?

MAP A história desse título é um pouco (ou um muito) prosaica. O livro chamava-se (e talvez ainda se chame) Duas biografias. Ainda não é o fim, etc. era o título de uma das suas partes. O editor da 1ª edição – “A Regra do Jogo” que Deus haja – achou que esse seria melhor como título. Fizemos a coisa a meias: saiu Ainda não é o fim… na capa e Duas biografias no rosto. O livro tem, por isso, dois títulos.

Quanto ao resto, ao sentido (ou, talvez antes, à significação) do título da capa, lamento não poder ajudar. Sentido e significação são, em poesia, assuntos excessivamente inseguros e privados, ou da memória privada, para que possamos propor-nos, sem risco de falta de seriedade, partilhá-los. Reparo no entanto, muitos anos e muitos livros depois, que expressões como “é tarde”, ou “faz-se tarde”, ou “está a fazer-se tarde”, e congéneres, são frequentes na poesia que, desde esse primeiro livro, escrevi.

Devo dizer que desconfio dos versos e dos poemas (e dos títulos…) cuja significação não me ofereça alguma resistência. O verso ou o poema hão-de ser suficientemente convictos e seguros de si mais do que eu deles. Com estas reservas, quer-me parecer que a “admissão de intempestividade” que tantas vezes recorre na minha poesia há-de, por aproximação, andar (mas que sei eu?) pela que desemboca nuns versos de Farewell happy fields: “Estava a fazer-se tarde e já ninguém vinha,/ o melhor era irmo-nos deitar”. Isto é, a de alguém esperando alguma coisa (não sei o quê; de qualquer modo, algo do domínio do psicológico mais do que do sociológico) que, no distante ano de 1974, ainda podia vir, e que, em 1992, data de Farewell happy fields, já é aparentemente certo que não virá. (Dir-se-ia entretanto que, apesar de tudo, a espera, mesmo desesperançada, prossegue. Num poema que um dia destes escrevi, intitulado “Quinquagésimo ano”, lá consta ela de novo: “Começa agora a fazer-se tarde/ de um modo menos literário do que dantes”…).

Ciberkiosk Mais radicalmente, o seu último livro (Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, 1999) vem sugerir que tudo é tardio – vida e palavras – em relação a um momento primeiro, insituável e só recuperável (?) como lembrança: «como diante de uma infância / inicial não embaciada / de nenhuma palavra / e nenhuma lembrança» (p. 52). À poesia estaria então cometida uma tão alta função necromântica, em confronto com a sua incapacidade para dizer outra coisa que não o silêncio? E como pôde pôr a falar, ao mesmo tempo, na literatura infantil, «uma infância inicial» que nenhuma palavra embaciou? Necromância ainda e afinal?

MAP Talvez toda a poesia, sendo memória, seja necromântica. E sendo feita e desfeita de palavras, e pois que as nossas palavras são tempo e incoincidência. A minha é decerto necromântica.

Independentemente de à poesia pouco mais ser dado dizer do que o silêncio do mundo (silêncio que é, na língua, abertura ao sentido e sentido aberto), ela pode constituir uma espécie de epifania sem revelação daquilo que talvez saibamos sem sabermos que o sabemos. “Na verdade, quem caminha sobre a cabeça tem o céu debaixo de si como um abismo” (Paul Celan). Porque isso que, da infância, nos não pertence através da memória e das palavras é a Infância, o sem-tempo da infância. Talvez a poesia e o seu inseguro silêncio possam, quem sabe?, dar uma forma ao desejo desse sem-tempo, dessa coisa nenhuma – que é, evidentemente, um desejo de morte.

A infância, como a morte, são limites sobre dois escuros abismos fundamentais. Quem não tem medo do escuro? Parodiando Bataille, talvez seja então possível dizer: “Escreves porque tens medo”. Vista daqui, a literatura infantil que escrevo há-de, pois, ser outro modo, talvez mais perverso, do mesmo desejo. Curiosamente, o último conto do meu último livro desse por assim dizer “género” é uma “História com os olhos fechados”…

Ciberkiosk «Os tempos não vão bons para nós, os mortos», é o primeiro verso da sua obra. Este início tão literário faz-nos lembrar nebulosos autores alemães dados à metafísica (e à sua desconstrução) e à ontologia mortal do ser. Parafraseando Heidegger, poderíamos dizer que na sua obra a poesia e a metafísica são tão próximas como os cumes das montanhas distantes?

MAP Ou tão distantes como os cumes das montanhas próximas…

Eu não penso muito a minha poesia, ela é tudo o que penso sobre ela. (Daí as dificuldades que tive – que tenho – em responder a esta entrevista…). De qualquer modo, a minha poesia será tudo menos a ilustração de um pensamento sobre a poesia. Em verdade lhe digo: acho que ela pode ilustrar tanto concepções românticas/surrealistas (ou heideggerianas: não falava eu, atrás, em “verdade”?) de “poesofia” como concepções mais ou menos formalistas, as mais dogmáticas tanto quanto as cépticas. Que, como se sabe, não se excluem necessariamente. A poesia é uma espécie de religião sem fé (a minha, acho eu, é), sendo provável que essa vocação de religação (que é, em sentido literal, uma vocação de “compreensão”), a ponha diante de algumas intuições metafísicas e ontológicas. Daí a ser uma poesia metafísica vai um abismo. Ela não “quer” pensar nem exprimir nada (está, digamos assim, ocupada de mais a ser), o que não significa, claro, que não pense ou não exprima, senão como escritura como leitura.

Ciberkiosk «A realidade é uma hipótese repugnante», afirma-se no seu último livro. Num poema de Aquele que quer morrer (1978), afirma-se, um tanto com Pessoa à espreita: «A ideia de isto cansa-me / em qualquer sítio fora de qualquer coisa / onde o meu cansaço é só um conceito». O seu idealismo é constitutivo ou foi-lhe revelado (ou intensificado) ao ler Pessoa? Como se relaciona hoje com o poeta multicéfalo?

MAP Eu li – mesmo que a correr, mesmo que só como visitante ocasional – os mesmos idealistas e os mesmos materialistas que todos leram. E li muita gente que os leu certamente melhor do que eu. Ao longo dos anos, fui lendo todo o tipo de coisas e sido atravessado pelas mais dispersas influências filosóficas e estéticas. Por algum motivo algumas foram ficando mais persistentemente do que outras, e algumas me foram conformando mais do que outras. De qualquer maneira, só a espaços (e às vezes com surpresa) dou conta de quais.

Borges, por exemplo, como talvez também Pound, terão tido na minha literatura (e, em geral, na minha relação com a literatura) uma influência que é para mim mais clara do que a de Pessoa. E um e outro não apenas, nem sobretudo, por si mesmos, mas também por todas as inúmeras outras influências que nas suas vêm diluídas. Pessoa também; mas trata-se de uma situação distinta, porque, entre nós, Pessoa é, frequentemente, o nome que se atribui à modernidade (assim tem sucedido com a minha poesia, onde se tem identificado como “pessoana” muita coisa, até a questão identitária, que é apenas moderna).

Numa primeira versão desta resposta tinha começado por enumerar desordenadamente toda a balbúrdia de leituras (isto é, de influências) que poderiam ter conformado o meu “idealismo”. Para, finalmente, me interrogar sobre a possibilidade prática de distinguir, no resultado final, o que é constitutivo do que é constituído e sobre se tal distinção fará algum sentido. Mas recordei-me de um episódio passado há alguns anos. Eu estava como poeta residente em Villeneuve-sur-Lot, uma pequena cidade do Lot-et-Garonne, quando me telefonou Claude Rouquet, o editor de “L’ Escampette”, insistindo para que fosse a Périgueux, a uma sessão literária marcada para a biblioteca local, que tinha uma surpresa para mim. Na biblioteca, um poeta marroquino, Abdullah Zrika, lia poemas, em árabe e em francês. Era essa a surpresa: eram poemas, os de Zrika, meus que eu não tinha escrito! Até onde conheço a minha poesia, aquela poesia era, inquietantemente, a minha! E, pelos vistos, Zrika tinha tido exactamente a mesma impressão lendo, antes, alguns poemas meus editados por Claude Rouquet. E, no entanto, o poeta marroquino nascera e fora criado num bairro pobre da periferia de Casablanca, só aprendera a ler na adolescência, era um militante islâmico e passara uma boa parte da vida na prisão. Uma existência nos antípodas da minha gerara uma poesia igual ou consanguínea da minha! Terá o episódio alguma relevância em relação à questão das influências? Nós e as nossas circunstâncias?

Mas voltemos a Pessoa. Acho eu que só por inacreditável infelicidade é que algum poeta português posterior não terá sido – por acção ou por omissão, por aceitação ou por denegação, mais ansiosamente ou menos ansiosamente – influenciado por Pessoa. A mim, marcou-me profundamente, sobretudo na juventude. Aos 16 anos ganhei, num concurso literário do Liceu de Aveiro, as suas obras editadas pela Ática. “Apanhei” então alguma daquela poesia, principalmente a de Alberto Caeiro e a do ortónimo, como se “apanha” uma doença. Cheguei a escrever um volume (um “falso verdadeiro”, dir-se-ia hoje) de Novos poemas de Alberto Caeiro

Actualmente, a minha relação com a multidão pessoana é mais saudável. Até porque, entretanto, fui “apanhando” mais doenças, e tão ou mais graves (logo a seguir, e ainda nos tenros anos adolescentes, o Mário de Sá-Carneiro e o Camilo Pessanha…) Mas não estou completamente imunizado. Por isso frequento Pessoa com moderação. Há poetas e poesias com uma força de gravidade excessivamente grande para a minha pouca massa. Pessoa é um desses poetas (Eliot, por exemplo, é outro); confesso que tenho algum infantil temor de, deixando-me ir, poder esmagar-me contra as suas superfícies.

Ciberkiosk Em Cuidados Intensivos (1994) a questão da morte surge acompanhada do tema «nobre» da morte de Deus. Por exemplo: «os antigos invocavam-se a si próprios, / nós mandámos dizer que não estávamos» (p. 13). Contudo, esta questão surge também abordada, no mesmo livro, numa óptica radicalmente secular: «Porque é tão difícil, Paulina, morrer em tom menor, / sem tragédia e sem justificações, / sem procurar inutilmente a salvação / da vida». A tragédia é o luxo dos Antigos e nós os ausentes a si mesmos? A poesia – a Arte – não compensa da morte de Deus? A uma vida em tom menor ou em tom único (monotonal) deve corresponder uma poesia «intrigantemente monótona», como da sua dizia em tempos Óscar Lopes?

MAP “Os antigos invocavam-se a si próprios,/ nós mandámos dizer que não estávamos” é uma inocente paródia, en passant, de Álvaro de Campos: “Os antigos invocavam as Musas./Nós invocamo-nos a nós mesmos”. Desde logo na impertinência de pôr aqueles “nós próprios” no lugar de “nós mesmos” (que é como quem diz pôr as coisas no seu lugar, pois é sabido pelo próprio Pessoa que Campos era dado a lapsos, “como dizer ‘eu próprio’ em vez de ‘eu mesmo”), há em tal paródia um desolado afrontamento do excesso de modernidade, isto é, do excesso de antiguidade. Os Modernos, se bem se lembra, também não estavam; a diferença é nós aparentemente coincidirmos com a nossa ausência, “vagueando/ por palavras alheias e infernos alheios”.

A tragédia é, de facto, o luxo dos Antigos como o dos Modernos. Morto Deus, seria preciso que morresse o Homem (o Homem moderno?) para que, enfim sós, pudéssemos ficar diante de nós mesmos como ausência de nós, espécie de nietzscheanos “últimos dos homens”, em que a vontade de nada se tivesse tornado nada da vontade.

A poesia é apenas, citando um verso do mesmo livro, “uns grandes olhos que em isto tudo há”.

Ciberkiosk Um dos seus poemas mais notáveis é aquele que começa por «Apaga a luz. Guarda-me os óculos. Obrigado», em Cuidados Intensivos, e em que se refere a morte como um «erro de paralaxe». O poema pode ser lido como uma paródia da (suposta) paródia pessoana das palavras finais de Goethe. Da Luz deste passaríamos aos óculos de Pessoa e às dioptrias insuficientes da personagem do seu poema, que por via disso não chega mesmo a saber se está vivo ou morto. O poeta seria, então, um vidente trôpego e a poesia uma declinação das sombras platónicas? Lembramos-lhe que ainda assim, e um tanto contraditoriamente, o poeta vê que outrém – os leitores? – vê mal.

MAP A paródia à obviamente suposta paródia pessoana de Goethe é também suposta. Embora a ideia, enquanto acaso objectivo, me agrade, tanto mais que do que se trata no meu poema é justamente da morte. O poeta não vê apenas que outrém – os leitores, como diz – vê mal; do “ângulo de inclinação da sua existência” (P. Celan), e tirando os óculos para ver, o poeta vê-se cegamente também como vidente (leitor) de si mesmo, como uma sombra. Mas isso é, agora, uma suposição minha…

Ciberkiosk No poema «Tat Tam Asi», de Aquele que quer morrer, deparamo-nos com uma formulação radical da literatura como cânone e deste como uma entidade transcendental: «Aqueles que afirmam tudo / existem já na eternidade / conquistaram a imobilidade e o silêncio / com sábia indiferença são sidos por tudo». Em que medida é que o cânone nos é? Ou seja, de que modo é que os auctores nos são? Imagina os seus autores assim silenciosos nas alturas – e imagina-se à conversa com eles?

MAP Os poemas de Aquele que quer morrer radicam, fundamentalmente, em duas leituras (os livros geram outros livros): o Tao te king e A gaia ciência, de Nietzsche (lida numa edição francesa com um prefácio por Klossowski que passou, para mim, a fazer também parte do livro). Os volumes da colecção de poesia de “A Regra do Jogo” em que saiu Aquele que quer morrer tinham no início um cromo; o meu foi o único livro da colecção sem esse ornamento gráfico, porque o João Botelho fotografara um velho exemplar de A gaia ciência da “Guimarães” abandonado em cima de uma cadeira, e aquilo pareceu-me então grosseiramente óbvio…

O poema que cita reporta-se, tal como o escrevi, ao modelo taoista de sabedoria “e(x)tática” e passiva, de coincidência consigo e com o mundo. De “nesciência” que é ciência suprema. Aliás, como se sabe, todo o livro se excede, até à mais “intrigante monotonia”, em vozes passivas, pleonasmos, repetições… De qualquer maneira, não imaginando certamente os meus autores nas alturas, e antes em algum nenhum lugar vazio algures, isso não impede, antes facilita, que vá conversando com eles e eles uns com os outros. Provavelmente, aliás, eu não sou outra coisa senão toda essa conversa.

Os nossos autores são, em grande parte, isso mesmo: nossos autores. Escrevem-nos. Tanto quanto, provavelmente, os escrevemos nós a eles. O Bilhete de Identidade de um escritor é, na realidade (não me lembro onde é que li isto), o seu Bilhete de Alteridade.

Ciberkiosk Esta formulação do cânone como máquina transcendental esvazia os escreventes, como podemos ler no poema «Literatura» do seu primeiro livro: «Literatura incrível esta / que a si própria se escreve». Tanto mais que, como se dirá em «O último dos homens», de Aquele que quer morrer, «Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo!». Nesse mesmo poema diz-se-nos da «difícil solidão» do escriba, que «atravessa o deserto às costas do melhor amigo. / Tem que se lembrar de tudo / pequenas frases, umas primeiro outras depois». A literatura, nestes seus inícios, é colagem, técnicas mortas, pleonasmo, repetição. Ainda o é hoje? Já agora, o que é feito da «ansiedade da influência» de quem assim formula cânone e escrita? Não sendo ela visível, deve-se isso a muita prática da rasura?

MAP A literatura – já uma vez o escrevi – é uma arte de ladrões que roubam a ladrões. Se a constatação se aplica facilmente à colagem enquanto processo literário, aplica-se também, no entanto, à generalidade dos outros processos e à própria literatura enquanto tal. Diz Eliot que os poetas fracos copiam e os poetas fortes roubam. Independentemente de ser uma questão de força ou de fraqueza, não se trata aqui, com efeito, de copiar, mas de, consciente ou inconscientemente, roubar. E quase em estrito sentido técnico-jurídico: de se apropriar de algo de outrém disso fazendo coisa sua. Coisa sua

Quando se rouba conscientemente, e publicamente, o próprio roubo se constituindo como processo literário, estamos no domínio da colagem, da alusão, da paráfrase. Mas o roubo, em literatura, decorre, acho eu, da sua própria natureza de identidade-alteridade.

Se tudo está eternamente escrito, isto é, eternamente em Quito (aí estão elas, alusão e citação), então a literatura é provavelmente um ramo especial da Tautologia. A verdade é que os cânones nos conformam, nos são. Mesmo sem os lermos, andam por aí no ar e na cultura que respiramos, como um fluido em que estamos permanentemente mergulhados; a sua presença em nós opera-se naturalmente, quanto mais não seja por osmose. Posso nunca ter lido Shakespeare ou Goethe, mas leram-nos aqueles que eu li, ou aqueles que foram lidos por aqueles que eu li.

Escreve-se sempre com e contra o passado. A minha poesia não escapa a essa regra, nem, certamente, à da “ansiedade da influência”. Acontece porém que, ao longo dos anos, fui construindo uma relação muito paciente com a minha poesia, dela não esperando hoje o que ela me não pode dar, uma identidade. E para que raio precisaria eu de uma identidade? Ou de um destino?

Quando calha (e muitas vezes calha) vislumbrar a influência à espreita num verso ou num poema, faço normalmente por abrir-lhe a porta e acolhê-la com fraternal complacência. Sei que não adianta fechar-lhe a porta, ela entrará pela janela. Mas não lhe abro os braços apenas por isso, por não poder deixar de recebê-la. A maior parte das vezes ela é, real e sinceramente, bem-vinda. Só aqui e ali é que alguma eventual impertinência precisa, de facto, de rasura.

Dizia o outro que escravo que sabe que é escravo é já meio liberto. Em literatura, a única liberdade que nos é dado alcançar é a de conhecer (mais do que a de escolher) as próprias servidões.

Ciberkiosk Uma das muitas personagens do seu primeiro livro, Clóvis da Silva, teria afirmado, segundo uma outra personagem: «A littratura morreu. Eu e Flávio lhe faremos o emperro». Seria isto um resumo da sua obra – ou da primeira fase dela? Não o enterro mas o emperro da literatura? E este emperro, mais as proclamações milenaristas e chocarreiras, devem-se ainda aos avôzinhos do século, entre Tzara e Breton? Já agora, a contracultura poderia fazer um ménage com aqueles dois senhores nesses seus primeiros livros?

MAP Clóvis da Silva é alguém que eu (não tenho melhor palavra à mão que “eu”) vejo a escrever algumas coisas que escrevo. Não um heterónimo, talvez antes um ortónimo da literatura ela-mesma (isto é, da outra). Porque, repare-se, é alguém que, justamente, anuncia a morte da “littratura” (e o Littré é a metáfora aparente de uma literatura canónica), e se propõe enterrá-la, ou “emperrá-la”, com a colaboração de um outro que, sendo Flávio dos Prazeres, é também Plágio dos Fazeres… Alguém que, aliás, morrerá da mais banal e ordeira morte possível antes de levar a cabo o seu desmesurado e inútil propósito literário. Tão inútil e desmesurado com os de Breton ou de Tsara (e, sim, também o da chamada contracultura), que acabaram, de uma forma ou de outra, na omnívora barriga do Littré.

A poesia daquilo que classifica de minha “primeira fase” vive, com efeito (acho eu, que hoje sou apenas um leitor dela), de alguns propósitos desmesurados (culpa das más influências, das referidas e de outras…) e, simultaneamente, da consciência da inutilidade – e despropósito – deles.

Ciberkiosk Esta gramática emperrada, para o que muito contribui a gramática do Pessoa ortónimo (a passiva, o reflexo), não é reconhecível na literatura infantil que pela mesma época começa a publicar. Ajudou-o esta última a desemperrar na sua poesia – desemperro mais nítido nos anos 90? Em que condições a intrigante monotonia coexistia, pois, com as notáveis diabruras da sua literatura infantil? Eram parentes as duas, ou a segunda um parêntese e apenas literatura infantil? Em qualquer dos casos, como pôde essa tipografia abrir venda de gelados na infância ao lado?

MAP Digamos que a minha literatura infantil, por ser infantil, sempre pôde ser mais “irresponsável” (às crianças desculpa-se tudo…) do que a minha poesia, e passar alegremente ao lado do princípio literário da realidade (ou do princípio da realidade literária), e da sua, da poesia, angustiada vontade de dar consigo mesma, ou com algo parecido consigo mesma, num mundo povoado de sombras alheias. Além do mais, a literatura infantil praticamente não tinha à volta passado nem presente, senão um vago e distante cónego dado a passeios de barco com meninas. Isto é, não havia gramática que a emperrasse, só um deserto onde todas as diabruras eram, sem pecado, possíveis. Mais do que parentes, ou parênteses, uma da outra, poesia e literatura infantil eram então (e se calhar continuam a ser) uma e a mesma coisa literária, em versão, respectivamente, dias úteis e fim-de-semana… No entanto, no meu primeiro livro infantil lá está também, em lugar de óbvia e (des)respeitosa notoriedade, Alberto Caeiro…

Com o passar dos anos, acho que espero cada vez menos da literatura e cada vez menos do que a literatura pode esperar de mim. Talvez isso, sim, vá ajudando a algum “desemperro” da minha poesia.

Ciberkiosk Em Aquele que quer morrer (1978), «literatura» é ainda uma designação sem referente: «(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto)». Mais tarde, em O caminho de casa (1989), nada parece existir fora da literatura: «No quarto ao lado as filhas falam alto. / E dou comigo procurando rimas. – E a alma? – Mas por esta altura / já tudo e eu próprio somos literatura…». Na sua obra não parece cobrar pertinência a distinção radical entre Literatura e Poesia, trabalhada pelos românticos e mais tarde pelos simbolistas e surrealistas. Ou estamos errados? Não há saída da literatura na medida em que esta seria aquele discurso que, porque ilusório, nos diz justamente a ilusão do ser e do mundo?

MAP Sim. Nunca tinha pensado as coisas desse modo, mas sou levado a concordar. Acho que é Blanchot quem se refere à literatura como ilusão. A literatura partilharia então da mesma natureza ilusória do ser e do mundo, na medida em que ela própria é ser e mundo. Não está tudo (desculpe-se-me se me repito) eternamente escrito? Não está tudo em qualquer sítio da estante, ou a caminho da estante?

Nos exemplos que cita, o termo “literatura” é, indistintamente, “poesia” no sentido mais amplo e mais profundo. Não, evidentemente, “romance” ou “folhetim”, texto destinado a dizer, a narrar ou a exprimir, susceptível de ser resumido e parafraseado, porque não existindo autonomamente em sienquanto forma (enquanto “instauração da verdade”, diria Heidegger). Do mesmo modo, “prosa” é, no meu último livro de poesia (onde há, mesmo, um poema intitulado Saudade da prosa), não “romance”, ou “ficção”, mas antes secularização, “despoetização”, da poesia, reencontro, talvez, da poesia com o mundo.

Ciberkiosk Na segunda fase da sua obra (grosso modo, os seus dois últimos livros), a literatura volta a ser possível e a memória é apenas intertextualidade. O escriba já não atravessa o deserto às costas do melhor amigo e a memória não emperra, mas antes ajuda a desemperrar?

MAP A literatura nunca deixou de ser, na minha escrita, possível, mas a palavra literária (a palavra poética) ter-se-á esgotado excessivamente a convocar o ser e o mundo (a ser ser e mundo) e terá, a certa altura, caído em si, percebendo que talvez se tivesse negligenciado como instância, também, e mais modestamente, de nomeação do ser e do mundo, e experimentando então “saudades da prosa”. Mas tenho, de facto, consciência de que, desde Cuidados intensivos (ou, talvez antes, desde Farewell happy fields), existe na minha escrita uma espécie de reconciliação com a literatura (com a poesia), que passa tanto pela aceitação dos seus processos como da sua memória.

Um dos últimos poemas que escrevi fala das “minhas últimas palavras”, aquelas que, “por cansaço, por inércia, por acaso”, foram ficando, e com quem, agora, “como velhos amantes sem desejo” desfio memórias. “Como velhos amantes sem desejo”… É o desejo, acho eu, que emperra. O desejo alimenta a esperança que emperra e o medo que emperra. O “nec spe nec metu” estóico seria a bem-aventurança absoluta de qualquer obra literária. Até lá chegar, no entanto, a minha ainda tem muito que penar.

Ciberkiosk «agora lês saramagos & coisas assim» é um verso de Um sítio onde pousar a cabeça (1991). Tem ele alguma coisa a ver com aquilo a que Joaquim Manuel Magalhães, já nos idos de 80, chamou a «bertrandização» (hoje talvez a FNACização) das nossas letras? Como se vai dando com a instituição literária? Tem razões de queixa? Sob capa Assírio & Alvim, sente-se sido por tudo?

MAP Como eu o leio, a esse verso, sim, tem que ver com a “bertrandização” (ou a FNACização) da literatura, com a mercantilização do desejo. E, também, com a passagem do tempo sobre o desejo, com a sua rarefacção em fórmulas e simulacros, com o esvaziamento da Utopia na desolação democrática e na medíocre-idade.

Quanto às minhas relações com a chamada instituição literária, elas foram sempre sendo, nos afectos como nos desafectos, pouco mais que medíocres. Não tenho da instituição literária grandes razões de queixa nem de gratidão. A recepção (raio de palavra!) dos meus livros foi sempre ficando, sobretudo, pelas suas franjas. No entanto, a instituição, não me prodigalizando entusiasmos por aí além, também nunca me deu ostensivamente com os pés. A instituição é, como se sabe, uma verdadeira e discreta senhora…

Mas a pergunta traz alguma malícia: é verdade que o meu último livro, publicado pela “Assírio & Alvim”, teve algum ruidoso acolhimento crítico. Mas, como antes disse, nunca tive particulares queixas da crítica literária. Ter-se-á, sei lá, pensado que seria efectivamente o último e saudou-se efusivamente o acontecimento, ou então, o livro levará, de facto, alguma diferença dos anteriores. Evidentemente que na capa (e quem tem capa sempre escapa). Mas eventualmente, e cumulativamente, também no tal “desemperro”. Quem disse, no entanto, que estas coisas têm explicação bastante?

Ciberkiosk Dos autores portugueses, os mais presentes na sua obra são decerto Pessoa e Cesariny. O primeiro percebe-se. Importa-se de nos explicar o porquê do segundo? A Obra? A Vida contra a Obra?

MAP Como posso saber? E Mário de Sá-Carneiro? E Ruy Belo? E Alexandre O’Neil? Acho que, de um modo ou de outro, todos, e muitos mais, hão-de estar na minha poesia. Têm que estar, pois estão na minha memória da própria poesia. Por alguma viciosa e circular razão, pois, se essa memória me faz, também eu próprio a vou fazendo a ela.

Ciberkiosk Cesariny dava a sensação de se mover com muito desembaraço e humor por entre as formas e consistências da portugalidade e da cultura portuguesa. Simultaneamente longe e perto. A julgar pelo Anacronista, o seu humor nestas matérias parece desenvolver ou ficcionar uma afinidade com o que nessa cultura (em sentido antropológico) seria simpática e irremediavelmente chocho. O ser português é a Saudade e o Senhor Figueira de Oliveira?

MAP A saudade não sei o que seja, mas o Señor (com ñ) Oliveira de Figueira é certamente uma expressão autêntica e expedita do ser português, ou do que dele vai penosamente sobrevivendo à voracidade globalizadora. A simpatia que as minhas crónicas de jornal nutrem pelo Señor Oliveira de Figueira, e por outros espécimes congéneres que continuam a habitar as cada vez mais escassas franjas da economia de mercado e da cultura de massas, está, no entanto, ferida do pecado da distância e da soberba. Temo, de facto, que as minhas crónicas se lhes dediquem apenas com a mesma amável e enternecida curiosidade do patologista debruçado sobre uma lamela de dispersa bicharada afadigadamente entregue à enormidade da existência…

A outra face dessa simpatia é o desprezo por outra expressão, igualmente expedita, do ser português: o “sabido”, em especial nas versões “político” e “empreendedor”. E igual desprezo pela imensa e informe caterva de economistas e aparentados, fabricados nos sórdidos lugares universitários onde se estuda e ensina a usura, e de lá saindo convictos de que compreenderam o mundo (meu Deus, e se calhar até compreenderam!). E pela malta da “sociedade da informação”, da gestão cultural e coisas semelhantes. É certo que “tudo isto é Portugal, tudo isto é fado”. Mas não vejo Tintin, que é um coração puro, a dar-se de amizades com gente desta.

Ciberkiosk A cidade do Porto, onde vive, historicamente especialista em identidade sua dela e nossa, é mais cultura portuguesa ou (já) Porto cultural?

MAP A cidade do Porto continua, em boa medida, a ser o “grande aldeão” garrettiano. O Património Mundial propriamente dito não deu trabalho nenhum, já estava feito, era só pegar nele e levá-lo à Unesco. A Capital Cultural, como é para fazer e, principalmente, porque há dinheiro para isso, despertou em tudo o que é empreiteiro e mestre-de-obras irreprimíveis ânsias culturais. A larga fatia orçamental que lhes coube está já em cobrança, e essa cobrança vai espraiar-se pelos próximos tempos em ruas de pantanas e custos de freio nos dentes, multiplicando por aí ucranianos, moldovos, romenos, caboverdeanos e angolanos, que em matéria de salários baixos (“competitividade”, dizem eles) os “empreendedores” da construção civil não têm preconceitos de raça ou de cultura. Paralelamente, algumas dezenas de luzidos exemplares da vária espécie dos “programadores culturais” instalaram-se há meses no orçamento da Sociedade Porto 2001 a produzir organigramas, “projectos” e “iniciativas”. Não me digam que tudo isto não é identidade cultural portuguesa da mais idêntica que há!

Depois da auditoria do Tribunal de Contas, já se sabe que, afinal, a Expo 98 foi um desastre à grande e à portuguesa. O Porto 2001 dos políticos e dos empreiteiros (que, no Porto, não são coisas muito diferentes) é já, em matéria de identidade, Portugal no seu melhor. Sem precisar de auditorias para o provar.

Ciberkiosk Costuma dizer que o jornalismo é para ganhar a vida e a poesia para a salvar. Mas em que medida é a sua uma poesia salvífica? Ou, pelo menos, de salvação? E em que medida poderiam ser as suas invenções de infância a dar(-nos) a salvação?

MAP Menos gloriosamente, costumo falar apenas de tentar salvar a vida. Salvação é uma maneira de dizer (aliás, é tudo uma maneira de dizer). Há um verso de Fernando Lemos onde se explica que (talvez não sejam estas exactamente as palavras) “salvar a vida não é aprender a nadar”. Isso é praticamente tudo o que nos é dado saber sobre o que a salvação da vida seja. Mesmo que aprender a nadar, em certas circunstâncias, possa constituir uma ajuda.

A minha poesia não é, na verdade, salvífica nem de salvação. Uso a expressão em sentido mais corriqueiro, como quando se fala de “salvar” uma relação, ou de “salvar” um casamento. No caso talvez a relação com a minha própria existência.

Também costumo dizer que passava bem sem poesia. No entanto, a minha vida seria, então (acho eu), outra coisa. Talvez, como diz uma psicanalista minha amiga, eu fosse o seu melhor cliente; talvez, sei lá, me tornasse, como o outro, num “serial killer”; ou talvez, mais modestamente, fosse apenas infeliz. Porque, como Bobby Robson disse do futebol, a poesia não é uma questão de vida ou de morte, é muito mais importante que isso…

A infância, em sentido nietzscheano, poderia ser, de facto, uma hipótese de salvação. Mas como ser “infans” e sabê-lo? Com que nenhuma palavra e com que nenhuma lembrança? Não certamente as da literatura infantil…

Ciberkiosk Como vê o panorama actual da nossa poesia?

MAP Três ou quatro muito bons poetas, uma quantidade razoável de bons ou razoáveis poetas no estilo do período e algumas glórias e gloríolas de circunstância, ou nem por isso. E excessiva vozearia… Nada que não tenha sucedido antes nem nada que não vá acontecer depois.

Ciberkiosk Já agora, como se sente guilhotinado por Paulo da Costa Domingos (referimo-nos à recente edição de Judicearias)?

MAP Tinha preferido a fogueira, era mais vistoso.

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