Ao redor do domingo

Recolho aqui intervenções que escrevi nos últimos dias (no facebook) sobre os protestos do dia 15:

[11/3] VOLUME MORTO DO OTIMISMO. E lá vamos nós, mais uma vez, mergulhar no debate eleitoral – o último da eleição passada ou o primeiro da próxima eleição, pouco importa. E será como sempre: discussões infinitas sobre políticos e partidos políticos que não tocam na questão do sistema político terrível que nós temos, em que partido algum consegue crescer, ser forte, representativo, sem se amoldar ao que há de pior. É certo que temos partidos que já surgiram com intenções pouco republicanas (olá, DEM! olá, PP! olá, PMDB!), mas nem todos são assim. O próprio PT passou por esse processo de “maturação” (e a fronteira do maduro é o podre) e deu no que deu: quando se tornou elegível de verdade para a presidência, já estava tão desfigurado que a parte boa de seu governo, desde então, vai sendo soterrada pela tal “governabilidade”, que é o rótulo atual para tudo o que sempre fizeram os nossos queridos políticos. Fez coisas boas? Fez. Mas custaram muito caro – para o partido, para o país, para nosso futuro… E não é só o sistema político: nós estamos discutindo política sem querer tocar na substância da coisa, que é o capitalismo, que é a forma como o grande capital, em tão poucas mãos, do país e de fora, consegue influenciar e decidir a atuação dos governos. Em outras palavras: estamos discutindo a administração da coisa sem olhar com profundidade para a coisa que pretendemos administrar. E é por isso que todo mundo tem que ficar procurando atalho, como negar que há esquerda e direita (se não há nos partidos da ordem, certamente há na sociedade, nos interesses da sociedade) e luta de classes, coisa que pouca gente quer saber o que é… E assim nosso debate acaba sendo apenas a troca de carícias e pontapés de sempre. Pra mim, se tem ao menos duas coisas claras nisso tudo, que fazem subir um pouco o volume morto do meu otimismo, é que (1) os governos do PT podem, sim, se orgulhar de serem os primeiros em que as investigações sobre corrupção no Brasil chegaram tão longe, pegando peixes graúdos do governo e do empresariado, e (2) é muito melhor para o país ter um governo que é atacado pela imprensa (mesmo com mentiras, distorções, seletividade!) do que um governo que é queridinho da imprensa e pode fazer o que bem entende sem ser incomodado. Mais ainda: sendo apoiado! Ou alguém viu a nossa imprensa falando da crise hídrica de SP durante a eleição? Ou alguém já viu a nossa imprensa convocando as pessoas para manifestações políticas na época em que a esquerda se esgoelava para tentar barrar as privatizações do FHC? Ou tais reivindicações não eram dignas de divulgação? Não se trata mais de “dois pesos, duas medidas”, mas de grandes grupos de comunicação, oligopolistas, que atuam como parte dos grupos políticos que têm todo o interesse num golpe contra o governo atual e todas as condições de fazer com que esse golpe se revista (hehehe…) da aparência de solução para nossos problemas. Não, não vem solução alguma daí. E, da forma como a coisa vai, também não virá solução alguma caso o golpe não ocorra, porque os próprios tucanos já estão declarando que preferem a presidenta sangrando do que impedida (vai ser mais difícil lidar com o PMDB na presidência?). Se a sua preocupação é mesmo séria, está acima de disputas partidárias, não é tucana nem petralha, não é governista nem oposicionista, mas sim voltada para a construção de um país melhor para TODOS – o que inclui mudar também a forma privilegiada como muitos de nós vivemos e comprar brigas que temos evitado – já passou da hora de não se deixar enquadrar pelos maniqueísmos do debate político de quinta categoria que temos protagonizado, sob a batuta bem paga de publicitários e assessores de imprensa, que cospem os slogans que vamos ficar repetindo e rebatendo como idiotas por aqui. Acho muito saudável que vá todo mundo gritar na janela, na varanda, na rua, onde quiser, a qualquer hora, em qualquer dia, quase qualquer coisa (porque xingamentos machistas, sexistas etc. são intoleráveis). É bem melhor do que nada, num país em que a participação política – principalmente a de quem tem a vida mais ou menos ajeitada – sempre ficou bem perto do zero, deixando à míngua de solidariedade os grupos mais oprimidos em suas lutas diárias. Mas o buraco é mais embaixo, não custa lembrar. Então resta saber se este é o primeiro ato das transformações que este país tem que viver, a começar pela conscientização política, ou o ato final de uma grande encenação para que tudo continue como sempre foi. Veremos. Ou lutaremos?

[11/3] Faz tempo que não assisto, mas acho que o Jornal Nacional dura mais ou menos uma hora. É provável que o episódio de qualquer reality show ou sitcom dure mais ou menos uma hora. Quero dizer: se você gastar menos de uma horinha assistindo aos 3 blocos desta entrevista com o deputado carioca Marcelo Freixo não vai perder grande coisa e vai ganhar muito, muito em conhecimento do nó político nacional! Pode confiar (dica do Fernando Souza Jr..): https://www.youtube.com/watch?v=3okeLE1wez0&list=PLyeT62cd-aAtQIjJG7i1dth9Ak_SMhs2w

[13/3] DOMINGO E DEPOIS. Não há surpresa no fato de que todos aqueles que, meses atrás, quando foram derrotados na eleição, diziam que quem votou na presidenta Dilma era gente menos qualificada (e desfiaram o pior do seu preconceito), agora embarquem com facilidade nessa manifestação, que, a rigor, é apenas a confirmação de que, para grande parte dos brasileiros, essa tal de democracia é um artigo que não vale nada. Quem está agora defendendo o impeachment – com o apoio asqueroso da imprensa e até da mudança do horário de jogos de futebol! – é gente que não tirou ainda do carro (ou da alma) os adesivos da campanha eleitoral. Gente que não sabe perder e que, pra ganhar, acha que vale tudo, até mesmo tomar um mandato que foi dado pela maior parte do eleitorado brasileiro. Surpresa, surpresa mesmo é ver gente que acredita que pode resultar algo positivo de um golpe feito no interesse dos grupos que sempre dominaram este país, apoiado por fascistas, elitistas, loucos, burros e inocentes úteis de todo tipo. Não, meus queridos, os frutos da árvore envenenada costumam ser perigosos. E quem está fomentando a manifestação golpista (PSBD, Globo, Folha etc.) tem interesses próprios muito diferentes e normalmente contrários aos do povo. Aliás, se levassem os interesses do povo a sério, levariam a sério também o seu voto, mas o fato de que tentem, com todos os ardis, esticar uma eleição até atingirem o resultado que lhes interessa, já mostra bem com que tipo de escória política estamos lidando. Você aí indignado com corrupção e incompetência: não pense que o descontentamento dessa turma é da mesma natureza do seu. Bem longe disso. Nenhum deles tem problema algum com a corrupção, por exemplo, porque dela sempre se beneficiaram. No domingo, da boca pra fora, vai ter muito “unidos venceremos”, muito “100% Brasil”, mas a vida mesmo é bem mais verdadeira da segunda-feira em diante. Que assim seja.

[16/3] ATÉ ONDE VAI NOSSA REVOLTA? Como acontece depois de todo domingo, hoje é segunda-feira e tudo indica que acordei no mesmo país. Na verdade, até acho que o governo pode mudar a partir de hoje – ou ser mudado… Mas difícil mesmo é acreditar que uma mudança forçada por uma polarização política (e eleitoral) tão intensa resulte em algo bom para o país. E mais ainda: não tenho motivo algum para acreditar que todos aqueles torcedores da seleção brasileira, ávidos por ordem, progresso e selfies, acordaram hoje dispostos a viver num país melhor, um país em que todos estivessem empenhados, diariamente, em jamais estar em listas como a do Janot ou a do HSBC. Ou nas duas. Se das manifestações de ontem sair uma peneira institucional mais eficiente para capturar políticos e empresários que roubam dinheiro público e driblam o fisco, não apenas no governo federal, acho que as próximas manifestações serão menores. Ou mais sinceras. Vamos assistir aos próximos capítulos.

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