Sobre poesia, ainda: Dirceu Villa

Há algumas horas, espalhei para uns 50 poetas, mais ou menos, uma mesma enquete, com a qual pretendo apenas dar a ler, neste blog, o que andam pensando (sobre poesia, mas a gente sabe que nunca é sobre poesia)  algumas das mais interessantes cabeças que estão espalhadas por aí. Lanço essas propostas e, imediatamente, fico angustiado: será que vão me achar ainda mais idiota depois disso? Mas como os amigos não perdem uma chance de nos agradar, vários já responderam dizendo que topam o desafio, o que diminui bastante a angústia. Pedi que respondessem livremente – na forma, no conteúdo, no tempo. Um deles – Dirceu Villa – não apenas topou, como já enviou respostas que, sem dúvida, me fizeram acreditar que, de fato, essa conversa vai valer muito a pena. Confiram.

dirceu villa retrato
1.A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não tenho ligação alguma com redes sociais, de modo que, pessoalmente, não saberia dizer. Mas não acho que o termo “tempo real” de fato se aplique àquilo. Nós temos hoje uma definição muito pobre, superficial & antifilosófica de “real”. É até nome de dinheiro, a coisa menos real que existe.

E penso que a melhor poesia sofra de uma subexposição, ou mesmo de exposição nenhuma. O que não me surpreende nem um pouco: um mundo que preza o velozmente passageiro das rápidas trocas econômicas até dentro dos sentidos mais profundos da existência não pode querer nada com a poesia.

O tempo da poesia é, de qqer forma, outro. A hipervelocidade artificialíssima de mercado é nada perto dela, natürlich. A poesia lê isso de modo elegíaco ou epigramático. Eu prefiro, por questão de gosto, o epigramático.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A poesia já teve uns  lugares um pouco melhores & mais identificáveis na sociedade (no Ocidente, a Provença medieval, os vinte anos de Florença sob Lorenzo, o que mais? talvez Paris no começo do século XX, quando não cobrava impostos dos artistas e teve lá uma legião estrangeira), mas a verdade é que sempre foi algo quase sem lugar, de que os poetas sempre se queixaram. E a culpa também não é de Platão.

A imaginação é um perigo ― como Platão, compondo uma República, sabia ― porque toda sociedade quer ser um bloco mais ou menos indivisível (veja os grupos coesos de primatas de Arthur C. Clarke & Stanley Kubrick no começo de 2001). Todos morrem de medo de não fazer parte. A imaginação artística ― não só a poética ― não ignora as fissuras. Daí, é um perigo. Mais fácil & melhor ignorar. E mais fácil fazer ignorar acelerando a velocidade das trocas humanas, porque daí você pulveriza  a vida simbólica em mera sobrevivência.

O resultado disso é evidentemente desastroso. E apenas começamos a viver numa paisagem sem imaginação & sem arte, sem vida simbólica. Em alguns anos teremos seus piores efeitos. E daí, quem sabe, comece uma mudança.

Mas poetas de verdade não se repetem nunca. Tudo é novo para nós. Tudo, por belo ou cruel (ou belo e cruel) que seja, contém um estímulo de linguagem & uma experiência efetiva.

 3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Os bons, sim. Sempre foram, sempre serão. Porque também é preciso entender que Pessoa não escreveu “fingimento” no sentido pejorativo & muy banal que costumamos dar à palavra. Tem relações fundamentais com o verbo fingo, fingere, latino (tocar, manipular, acariciar, dar forma a, modelar, fazer, arranjar, adornar, alterar, mudar, compor, etc).

Tem a ver, se se quiser, com bater algo numa forja, também. Pessoa era um cara bem esperto.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Cada poema tem uma fome, ou pode ter mesmo várias, como a própria obra poética do Murilo Mendes exemplifica. E o inefável não existe: se existisse, não seríamos capazes de dizer “inefável”. Mas a coisa pode ser usada, como acima, para um efeito dramático de se estar subitamente at a loss for words, como se diz em inglês.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

“À espera dos bárbaros”, Konstantinos Kaváfis.

A palavra “bárbaro” codifica, desde os gregos antigos, todos os nossos preconceitos. Indica, também, no poema, o desejo de uma ruptura mortal & escandalosa, a que as pessoas se oferecem como vítimas voluntárias & cansadas para o sacrifício. É um retrato próprio & ridículo da nossa sociedade, até politicamente, & ainda mais do que a do próprio Kaváfis, que a descreveu.

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