Sobre poesia, ainda: Eduardo Sterzi

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não sei se, de fato, a hiperexposição que se percebe hoje é de ordem muito diversa daquela que sempre esteve implícita no nosso relacionamento com a linguagem e com outros sistemas de signos. O ser humano sempre esteve, desde o primeiro grito, desde o primeiro grafito, a expor-se e a ocultar-se, em gestos alternados ou mesmo simultâneos (o paradoxo das máscaras, personae, que é também o paradoxo da poesia, consiste justamente nisto, na simultânea exposição e ocultação do ser, dos seres, na palavra). Depois das críticas socrático-platônicas à escrita, à mímese e à poesia, nada de muito novo surgiu na condenação moralizante aos novos meios de expressão e comunicação que foram aparecendo ao longo da história e ao envolvimento dos homens e mulheres com eles. Tudo muda e nada muda. Por outro lado, espero que a poesia nunca se veja obrigada a nada, mas que, mesmo sem obrigação, continue sempre a procurar outras coisas para fazer. É este impulso em direção ao que ela ainda não é, ao que ela ainda não fez, ao desconhecimento de si e dos seus próprios recursos, ao descobrimento daquilo que ela não sabia ser possível, que garante a sua sobrevivência.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A meu ver, a resposta prévia de Oswald continua sendo a melhor para essa questão drummondiana: “Roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros”. Escrever, pensar, agir é traçar roteiros. Precisamente porque não vivemos mais no mundo dominado pelos deuses (este é o tema de A máquina do mundo, aliás) e os roteiros não estão dados de antemão, precisamente por isso é que precisamos, mais do que nunca, criar roteiros. Roteiros humanos, isto é, nunca definitivos, assumidamente provisórios, abertos a revisões, desvios e derivas. Mas roteiros. (Nota para mim mesmo: diante da febre político-religiosa deste início de milênio, que deu, por exemplo, em algo que escandalosamente se conhece como “bancada evangélica” ou, no plano internacional, nessa aberração que se chama “Estado Islâmico”, como sustentar que não vivemos mais no mundo dominado pelos deuses? Ora, que majoritariamente cretinos falem em nome dos deuses me parece um ótimo motivo para estes, os deuses, conservarem uma boa distância desse planeta absurdo.)

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Ou é isto, ou é mentir desgraçadamente. Melhor continuar mentindo com alguma graça (isto é, fingindo, ficcionando).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Poemas podem ser vampiros, canibais, zumbis, cães, porcos (os onívoros por excelência, ao lado dos homens…). Poemas comem o que acham pela frente, com especial predileção por pedaços de corpos, vivos ou mortos. Mas comem, os poemas, sobretudo o que podem, mais do que o que porventura queiram. Querer não é poder, vê-se bem em qualquer obra de arte, especialmente se confrontada com o espectro de sua intenção. (Não foi Valéry, aliás, quem disse “Eu mordo o que posso”?)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Hoje? “Vat 69” de Ruy Belo, aquele que começa com “Era depois da morte herberto helder / Ia fazer três anos que morrêramos”… (Aliás, que Herberto Helder estivesse tão nitidamente vivo até o início da semana, que Ruy Belo continue vivo quase quarenta anos depois de sua suposta morte, que os dois tenham escrito e, por que não?, continuem a escrever na mesma língua em que nós também tentamos escrever – esta constatação resume o que acho da situação da poesia hoje, de sua sobrevivência, mas sobretudo de sua vida.)

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