Sobre poesia, ainda: Guilherme Gontijo Flores

Guilherme

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

em tempo real – seja lá o que isso for – ou pelo menos numa temporalização acelerada de tudo, lendo um livro, ouvindo música, conversando online & dirigindo ao mesmo tempo, ou simplesmente consumindo & oferecendo opiniões o tempo inteiro (o que parece ser a principal função das redes sociais), tudo isso me parece sugerir um desejo de existir, de confirmar que estamos todos aqui, em fotos, vídeos, sons, embates; & em muitos. poesia acontece em outro tempo, certamente; mas também quer confirmar uma existência, ou pelo menos fundá-la, por isso tende sempre a se confundir, quer dizer, ela também, num tempo desses, deverá ser hiperexposição, nem que seja por fim como confronto ou negação desse processo. para ser mais preciso: a poesia, como linguagem, nunca vai se separar com clareza do mundo, ainda que ela possa sempre apontar — & desejo muito essa poesia que aponte — para outras possibilidades: ela se dá por dentro.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

não. o mapa pode até ser parecido, mas o périplo não será igual. & nada, nada, absolutamente nada será em vão, mesmo no cerne do fracasso. assim, o lugar da poesia, que — claro — variou, varia, variará, tende a ser sempre numa espécie de entreposto entre os lugares comuns da vida cotidiana & aquela potência de invenção ainda ignorada, ou esquecida há muito. cada cartografia delimita &, ainda assim, abre esses novos lugares, exclui a poesia do centro (embora, sim, ela já tenha em alguns momentos & lugares ocupado esse centro), para em seguida dar-lhe uma posição estratégica na periferia. eu fico muito satisfeito em ocupar um ponto periférico, porque da margem é que se aponta fissuras ou aléns.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

por que não? mesmo aquilo que nós poderíamos chamar de expressão sincera, ou autobiográfica, do poeta precisa passar por aquele filtro — pessoal ou não, vai acontecer nem que seja entre os leitores — de sua relevância para um público maior. esse filtro é a condição de que toda linguagem acontece fora da abstração subjetiva, então a própria construção do poema precisa incorporar esse lugar do outro com quem inevitavelmente dialoga: fingo, do latim “forjar”, “fazer” “moldar”, não dá apenas na nossa “ficção” como fato falso; fingir é assumir o outro no próprio discurso, é condição de qualquer poesia, porque não existe canto sozinho.
mas, se fosse para analisar o trecho do pessoa, eu apontaria para o jogo ente fingimento & deveras, fingir deveras deveria ser — & pessoa foi mestre nisso — uma capacidade de fundar/fazer verdades (aquela verdade findável e transformável que já está em nietzsche).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

meus poemas têm fome de entender por que a gente se toca, ou melhor, por que eu paro para ver ipês, ou para ler horácio, ungaretti ou celan. bem poderíamos ser como as paredes, ou meros animais que sobrevivem a tudo sem estese, sem chance de alegria ou sofrimento maior. a nossa abertura ao mundo me vem como uma espécie de mistério muito óbvio, ao qual preciso retornar, porque é nisso que está também nossa miséria constante.
mas essa é a questão atemporal. o outro lado é a pergunta sobre como nos é dado sentir hoje & como os poetas — artistas em geral — poderiam inventar novos modos (“inventar” aqui no sentido antigo, de encontrar; não com a ingenuidade de criação ex nihilo)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

STEHEN, im Schatten
des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

DE PÉ, na sombra
da chaga aberta ao ar.

Por-nada-e-ninguém-De-pé.
Irreconhecido,
por ti,
só.

Com tudo que aqui tem espaço,
mesmo sem
língua.

(paul celan, trad. minha)

faz muito tempo que esse poema me assombra. a persistência de resistir/permanecer/ficar de pé/à sombra de todo o sofrimento, mesmo que não haja nada mais a ser defendido, mesmo que não se reconheça nem seja mais reconhecível, até mesmo sem a língua/linguagem, essa perda de tudo, exceto pela tomada de uma posição no mundo — uma habitação do mundo? —, ou pela nossa relação com o outro — logo penso naquela ideia poderosa de sacrifício como modo do amor, proposta por tarkovski — me diz quase tudo que procuro na vida &, portanto, na poesia.

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