Sobre poesia, ainda: Adriano Scandolara

Scandolara

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Acredito que a hiperexposição online de tudo que se pensa/sente/imagina não entre em competição com o poema, ou pelo menos com a ideia que eu tenho de poesia (especialmente de poesia hoje) como produção de um artefato de linguagem, capaz de fazer coisas em vez de meramente significar, em oposição à simples expressão, que é o grande motor das redes sociais, o imperativo do “expresse a sua individualidade”, “mostre como você é especial” (por mais que a pessoa hipotética em questão não saiba fazer absolutamente nada de especial). Por outro lado, se isso não dá fim à coisa, é preciso lembrar que toda inovação que venha a trazer mudanças à estrutura da sociedade – como foi, com graus variados de impacto, a mudança do nomadismo para o sedentarismo, a fundação das cidades, o advento, aperfeiçoamento e vulgarização da escrita, a invenção da imprensa, a revolução industrial, o desenvolvimento do capitalismo, etc – vai causar mudanças no modo como se faz poesia, mudanças que vão muito além do “tem carros na rua, agora o poema tem que falar de carros também”.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Se o nosso lugar é esse não ter lugar (nenhuma novidade dizer isso, mas seria bom achar outros jeitos de fazê-lo, porque a esta altura meio que todo mundo já cansou da expressão leminskiana do “inutensílio”), então está ótimo, grandes poemas foram escritos desde que as coisas passaram a ser assim. Daí que os périplos não são nunca os mesmos (a repetição é para as coisas que têm seu lugar definido, afinal), nem muito menos tristes ou em vão, porque esse esforço de se inventar o próprio roteiro acaba sendo produtivo e uma fonte de alegria ou de sentido ou chame-se isso lá do que for. Para resumir: se fosse fácil não teria graça.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

O que eu gosto desses versos do Pessoa é como ele expõe a questão do modo indireto de produzir significado na poesia. Na prática, quase tudo nesta vida que envolva algum tipo de comunicação entre pessoas acaba sendo fingimento em algum grau (se é assim agora, neste momento histórico em particular, ou se sempre foi, aí já é difícil dizer), mesmo, ou pior, especialmente aquilo que se apresenta como sincero ou ingênuo, que é um belo disfarce para o cinismo mais cretino (propagandas de banco são sempre exemplares nisso). Aí então podemos ver o poeta como fingidor, mas, como todo mundo é, o sentido de fingidor acaba sendo deslocado, o que faz com que, sendo o poeta o fingidor que finge uma dor real, ele acaba não sendo. Aí se dizemos que ele é um fingidor ou não é algo para se deixar no ar, tipo o famoso pato-coelho (pois é, todo esse malabarismo para deixar a pergunta sem resposta).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

É meio estranho falar dos próprios poemas, né?, mas, se tem algo por trás do que eu escrevo, uma fome, acho que seria uma fome de contato humano, aquela coisa (talvez meio bocó mesmo) de você ler e o poema entrar em ressonância contigo, dissipando em alguma medida aquela sensação de que nada faz sentido neste mundo (ainda que paradoxalmente os poemas em si não sejam também nenhum tipo de tentativa de dar um sentido).

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

O poema que eu gostaria de indicar (e foi bem torturante selecionar um só, diga-se de passagem) é um da poeta israelense Dahlia Ravikovitch (1936 – 2005), que se chama “Orgulho” (Gevah, no original em hebraico), que traduzi a partir da tradução inglesa de Ariel e Hana Bloch. De todos os poemas que me passaram pela mente aqui para responder a essa pergunta, esse foi um dos que senti, ao reler agora, reter o mesmo impacto (sobretudo nos versos finais) de quando o li pela primeira vez, em 2013.

Orgulho

Até as rochas se partem, eu te digo,

e não é pela idade.

Tantos anos deitadas de costas ao calor e ao frio,

tantos anos

que quase se cria a ilusão de tranquilidade.

Não se movem, escondendo as rachaduras.

Uma forma de orgulho.

Os anos as passam enquanto aguardam.

Quem quer que venha arrebentá-las

ainda não veio.

E assim floresce o musgo, a alga chicoteia,

o mar rebenta e volta –

e ainda parecem imóveis.

Até que uma foca venha se esfregar contra as rochas, venha e vá.

E de repente na rocha surge uma ferida aberta.

Eu te disse, é uma surpresa quando as rochas se partem.

As pessoas, mais ainda.

***

É um poema doloroso, porque é profundamente empático, ao mesmo tempo em que deixa praticamente tudo subentendido: você não consegue não imaginar uma cena humana muito real por trás que possa ter levado o eu-lírico a chegar a essa imagem final para uma pessoa em colapso. Considerando como hoje parecemos sofrer de uma falta persistente e quase patológica de empatia, um poema desses, vindo de onde vem, ainda por cima, para mim faz todo o sentido.

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