Sobre poesia, ainda: Carlos Felipe Moisés

moises

1. A hiperexposição de tudo o que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

No enredo proposto, “hiperexposição” é o vilão da história, protagonista, mas haverá enredos em que não seja sequer figurante, podendo até nem se manifestar. No primeiro caso, a tirania expositiva comanda o espetáculo e obriga a poesia ou a dançar conforme a música ou a sair de cena. No segundo, nada obriga a poesia a nada: o enredo terá o alcance que o poeta lhe der, para além do que a exposição, a posteriori, lhe conferisse. Isso só ganha contornos dramáticos, ou tragicômicos, quando a poesia incorpora a hiperexposição aos seus propósitos, e a obrigação vira objeto de desejo, cobiçosamente buscado.

Se estiver plugado o tempo todo, bom para você, é exposição garantida; se não estiver, você não existe. Se isso vale para tudo quanto você imagina, por que não valerá para a poesia? Logo, seja porque se sente obrigado, seja porque o assumiu de bom grado, hiperexponha-se! Só não espere que o tempo e o trabalho gastos para conceber o seu enredo sejam proporcionais ao que seus leitores lhe dedicarão. Hipererxposição pede objetos que possam ser percebidos instantaneamente e logo descartados, para que tudo recomece do zero no dia seguinte. Ou no instante seguinte. (Mas, se isso fosse verdade absoluta, as perguntas teriam no máximo 140 caracteres e minhas respostas seriam do mesmo tamanho.) É por isso que, nas redes sociais, a poesia passa despercebida. Ela pode estar lá, ou ontem estava, hoje já não está, mas tanto faz: ninguém presta atenção, só passa os olhos. É que prestar atenção toma tempo, dá algum trabalho. Se ninguém tem tempo nem quer ter o trabalho de se concentrar em nada, por que a poesia havia de ser exceção? Se a meta é a hiperexposição, pensar, sentir e imaginar só atrapalham.

Afinal, nada de novo. Você tem notícia de algum momento na história em que o sistema, as coisas, o mundo fossem favoráveis à poesia? Poesia sempre esteve na contramão. Se não estiver, será outra coisa. Por que alimentar ilusões? É só resistir, com raiva ou com humor, até onde der, lançando mão de todas as armas à sua disposição, inclusive as proporcionadas pelas redes sociais.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

O lugar da poesia? Poesia é aquele círculo infinito, cujo centro está em todas as partes e cuja circunferência não está em parte alguma. Seu lugar é qualquer lugar. Mas, ao contrário da tirania hiperexpositiva, ela não obriga ninguém a fazer nada que não queira. Concentrar-se nela, prestar atenção, dedicar-lhe algum tempo e trabalho é livre escolha do leitor. Não há nada que a poesia possa fazer para forçá-lo a isso. O círculo infinito é o reino da liberdade. Poesia é só um convite e um desafio. Onde já se viu obrigar alguém a ser livre? Quando todos estiverem rendidos ao fetiche da hiperexposição, felizes da vida com sua condição de escravos, a poesia continuará a repetir “os mesmos sem roteiro tristes périplos”. Mas Drummond sabia: “os mesmos” são sempre outros; “sem roteiro” quer dizer livre para perseguir todos os roteiros; e os périplos são tristes não pela poesia, mas porque dão a medida da desumanização a que o bicho homem se condena, alegre e satisfeito, hiperexposto, reduzido à condição de coisa entre coisas. A poesia lida com a condição humana em seu mais alto nível. Mas de nada serve o poeta saber disso e dizê-lo em seus poemas: é preciso que todos os homens o ouçam e o endossem. Liberdade quer dizer solidariedade, via de mão dupla.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um fingimento deveras?

Parece que sim, ontem, hoje, sempre, desde que se entenda: “fingimento” é a cristalização daquele tempo ficcional que contrasta com o “tempo real” das redes sociais, dos blogs etc. Se este for de fato “real”, não haverá fantasia que o supere. O poeta finge tão completamente para lembrar (aviso, desafio) que a realidade é múltipla, não pode ser uma só, muito menos essa que aí está, vazia de si mesma. Fingir significa duvidar, sempre, e conviver com a insegurança do desconhecido; já mergulhar de cabeça na hiperexposição desse tempo supostamente “real” equivale à ilusão de ter certezas inabaláveis, jamais duvidar de coisa alguma e acreditar que tudo é conhecido, ou que nada é cognoscível. Dá no mesmo. O preço a pagar pela “segurança” tão gostosamente conquistada é barato: é só abdicar de pensar, sentir e imaginar – o que, para a poesia, barato ou caro, seria uma contradictio in terminis.

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam: / Nem tudo o que penso agora / Posso dizer por papel e tinta.” Do que seus poemas têm fome?

Se não pode dizer com papel e tinta, diga de outra forma; se não pode dizer isso, diga outra coisa, ou não diga nada. Mas por que só “agora”? Se as “novas” perturbações lhe dão fome, isso por acaso significa que a provocada pelas mais antigas já foi devidamente saciada? Você nunca pensou nada parecido com o que pensa agora? Perturbações são, sem dúvida, um bom alimento para a poesia, mas isso independe de elas serem velhas ou novas. O problema, se houver, está na sua fome demasiado seletiva e unilateral. Os poemas têm fome de leitores e, por apetitosos que sejam, não podem fazer nada se estes partirem para uma dieta radical. Claro que é preciso dar de comer ao poema, mas isso não deve ser motivo de preocupação: a fome dos poemas é pantagruélica. Mas é mais preciso ainda dar de comer ao leitor anoréxico, faminto, sem o saber, do alimento que nunca experimentou.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Um só? Mas eu teria dezenas, centenas. Uns acabaram de ser escritos, outros foram escritos há muito tempo, e todos me parecem fazer todo o sentido, hoje. Sá de Miranda: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo. / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Faz alguma diferença isso ter sido pensado, sentido e imaginado quinhentos anos atrás? Não é de mim e de você que ele fala? Não é um poema sobre a armadilha do individualismo, apostasiado pela hiperexposição que, hoje, nos assola? Camões: “Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos, / E para mais me espantar / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / O bem tão mal ordenado, / Fui mau, mas fui castigado. / Assim que, só pera mim / Anda o mundo concertado”. De que mundo fala o poeta, o dele ou o nosso? Drummond: “Viver-não, viver-sem, como viver / sem conviver, na praça de convites?”. Não é uma boa definição da rede em que, hoje, plugados vinte e quatro horas por dia, hiperexpostos, alegremente confraternizamos? Manuel de Barros: “Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema / enquanto vida houver. / Ninguém é pai de um poema sem morrer”. Isso faz ou não faz todo o sentido, especialmente hoje? Para isso, não é preciso ser atual, não é preciso dizer o que nunca foi dito.

Poemas fazem sentido quando são portadores de valor, reconhecido como tal. Aí está o problema: valor. No reino encantado da hiperexposição, não há como julgar; “valor” vem a ser um falso problema. Se tudo existe para ser exposto e descartado em seguida, tudo se iguala, todas as coisas valem a mesma coisa e nada faz sentido. “Não há como julgar” quer dizer: não há como afirmar que este poema é bom, aquele não. Mas, como não somos capazes de lidar com poesia sem atentar no valor que ela representa, continuamos afirmando: este poema é bom, aquele não é, para mim. E todos sabem que, para alguém mais, o juízo poderá inverter-se, e isso não fará a menor diferença. Poema bom é poema bom, outros não o serão, embora isso varie de leitor para leitor. Você alguma vez se dispôs a escrever um mau poema?

Felizes são os franceses, que cultivam provérbios deliciosos como: “Le beau pour le crapaud c’est sa crapaude” (O belo para o sapo é sua sapa; mas a melhor tradução seria: Quem ama o feio, bonito lhe parece). Mas isso não quer dizer que, para ser bela, toda sapa precise de um sapo que a venere. Se as sapas forem belas, isso será reconhecido por qualquer um. A hiperexposição, porém, impede que cheguemos lá. Preferimos assumir que cada um fique com a sua sapa, ainda que a do vizinho não seja de jogar fora.

A relatividade dos juízos não quer dizer vale-tudo. De um lado, temos o julgamento de valor, sempre pessoal, acompanhado de um arrazoado mínimo, uma argumentação convincente, um critério que o justifique; de outro, a mera opinião, escolha arbitrária, baseada no direito que cada um tem de gostar do que bem entenda (privilégio da saparia): nenhum critério, nenhum argumento, nenhum arrazoado. A hiperexposição desencoraja e inibe o primeiro, apostando todas as fichas no segundo.

Mas a relatividade tem limite. Se você disser quais são, na sua opinião, os dez melhores poetas brasileiros do século XX, e eu fizer o mesmo, sou capaz de apostar que pelo menos cinco nomes apareceriam nas duas listas. Poemas que fazem todo o sentido, hoje, são os bons poemas, de qualquer tempo, e “bons poemas” são os que contam com o nosso consenso, desde que se trate de um honesto julgamento de valor e não da mera arbitrariedade que leva a julgar… sem julgar. A hiperexposição nos induz a ignorá-lo, empurrando esse consenso para o Dia de São Nunca. Insinuar que nada faz sentido dá bem menos trabalho do que buscar o sentido que cada poema deve ter.

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2 comentários sobre “Sobre poesia, ainda: Carlos Felipe Moisés

  1. Diego 9 de abril de 2015 / 17:32

    Muito bom o texto.

  2. Nina de abreu 4 de abril de 2016 / 23:33

    Claro,perfeito ,muito agradável de ser lido

    Melho que isso só mesmo sua poesia,Carlos felipe que nos faz encarar a realidade,mas com delicadeza.
    Obrigada por compartilhar da angústia do ser humano em seus versos.

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