Sobre poesia, ainda: Heitor Ferraz Mello

Heitor

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não acho que a hiperexposição das redes sociais (minha pergunta: por que sempre no plural, quando temos apenas uma rede social, e todas as outras giram em torno dessa, que as absorve, tornando uma espécie de via única, terrivelmente única) desloque a poesia, e a obrigue a procurar outras coisas para fazer. A poesia, ou a boa poesia, antenada a tudo que se passa a sua volta, deve procurar, sim, os antídotos para não se deixar engolir pela hiperexposição da rede social única, que tende a zero. Desde que a poesia se instalou numa montanha russa, como diria Nicanor Parra, parece-me que seu lugar passou a ser o de hiperexpor a hiperexposição, como se a virasse e revirasse do avesso; o lado de fora, o lado de dentro da camiseta e da calça jeans, com a marca do suor, do cheiro ruim da pele que se acumula e envelhece, dos gases que ficam retidos nos cós de calças e camisas. Mas a poesia também tem todo direito de se confundir com a hiperexposição da rede social, bem como o de se distinguir dela; isso vai depender do poeta, do seu desejo. Nenhuma invenção tecnológica foi um problema para a poesia. Ela continuou se reinventando. O diário, o jornal, o rádio, a televisão, a internet só trouxeram mais material para a poesia, e para a reflexão do poeta. Ele pode se deixar engolir: lembra daqueles poemas horríveis do Armando Nogueira, na voz bíblica de Cid Moreira, na televisão, nos tempos da ditadura? Era poesia. Piegas, mas era poesia para aquele meio, para uma projeção do que seria seu público, que ele e tantos outros buscavam idiotizar cada vez mais. Já o nosso Bandeira tira até hoje arrepios da plateia com seu “Poema tirado de uma notícia de jornal”. De uma câmera de segurança, num banco, o Sebastião Uchoa Leite se viu sendo trapaceado.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Drummond, leitor de Mallarmé, também escreveu aqueles versos estupendos: “Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível./ Nada sobrou para nós senão o cotidiano / que avilta, deprime”. Mas é desta sobra que a poesia se alimenta, engorda, cresce e pode seguir para o abate cotidiano. Esse talvez seja o lugar da poesia do mundo: o abate do cotidiano. Ela pode até tentar resistir, e como resiste a danada, mas diante do porrete ela acaba sucumbindo. Cai como um boi zonzo e morto. Ela pode criar novos roteiros; ou apenas repeti-los, em sua escavação do mesmo; mas, acho, precisa ter consciência do abate. E aqui, sim, a rede social cumpre um papel importante: o de agilizar o abate. Torná-lo talvez menos doloroso, já que pulverizado, banalizado, como tantas coisas sérias na rede social.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Essa é daquelas frases que ganham hiperexposição e se tornam rasas e sem sentido. Mais um mérito das redes, tornar o que tinha força, no seu contexto, em frase de efeito com pouco efeito, apenas jogo de cena, piscadela de olhos, picardia poética. Pobre Pessoa. Nessas horas, seus ossos chacoalham mais que ônibus na pirambeira. Não tenho como responder, estando fora do poema de Pessoa. Mas talvez, arriscando, ele estivesse no mesmo embate drummondiano dos “mesmos sem roteiro tristes périplos”. Escavando. E escavar é deparar-se consigo mesmo num espelho invertido, ou um espelho distorcido. É uma outra imagem que surge, que assusta, que espanta, que aterroriza. É a máscara que rui. E corrói. Se a poesia é isso? Também é. Muitas vezes o é, mas num campo amplo e arrombado.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Bonito. Meus poemas não têm fome, mas comem de tudo. Ou quase tudo. Pois sei que há um filtro que impede meu poema de comer de tudo – “Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. É a limitação da poesia. É a limitação da língua, da qual somos mestres e escravos. Servidão e poder, diria Barthes. E lidar com a língua é coisa do diabo. Um verdadeiro inferno, cheio de esparrelas, cheio de vãos, desvãos, uma carga ideológica cristalizada, pedra que não quebra, haja água, osso duro de roer. Mas fracasso na resposta. Confesso: meu poema não consegue comer de tudo, como disse antes. Meu poema passa fome. Acho que a poesia sempre passa fome. Se não passar fome, se ficar satisfeita, ela definha. Ou é engolida. Mas talvez já tenha sido.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Todo poema que gosto faz muito sentido para mim na hora que leio. São tantos os poemas que me parecem fazer sentido. Principalmente os poemas que não fazem sentido (todo poema faz sentido). Admiro os poetas que escrevem poemas que não fazem sentido (todo poema faz sentido). Admiro os poetas que não fazem sentido (todo poeta faz sentido). Os poetas que mergulham de lugares que jamais conseguirei mergulhar. Pularam de pedras muito altas. Não tiveram medo de se arrebentar antes de tocar a superfície da água. Não tiveram medo de se arrebentar ao chegar à superfície da água. E principalmente, ao mergulharem, criaram tantas ondas em volta, tantos círculos, que me perco nesses círculos, seguindo-os até onde consigo, até onde se perde todo sentido.

Vou escolher UM. Mas poderiam ser MUITOS OUTROS.

disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos

e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque

nada se reparte: ou se devora tudo

ou não se toca em nada,

morre-se mil vezes de uma só morte ou

uma só vez das mortes todas juntas:

só colaboro na minha morte:

e eles entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,

que o demónio o leve, e foram-se,

e eu fiquei contente de nada e de ninguém,

e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e

            [vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,

só porque sim, isto é: só porque não agora

Herberto Helder, em Servidões, Assírio & Alvim, 2013.

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