Sobre poesia, ainda: Paulo Ferraz

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Infelizmente, por enquanto, não tenho percebido nenhuma mudança significativa na produção poética que pudesse ser atribuída ao uso mais frequente (ou seria uso constante?) das redes sociais. Creio que não tanto por nos expormos cruamente na internet, mas talvez porque ainda não soubemos operar de modo crítico com a velocidade com que tudo se sobrepõe, com que tudo se amalgama, comprimindo o tempo a ponto de não nos restar sequer um segundo para refletirmos sobre o caminho percorrido pela informação que passa por nós, digo passa pois somos ao mesmo tempo consumidores e difusores de informação, não é algo estranho a nós, somos parte dela. Porém, nessa existência virtual temos produzido mais ruído que comunicação. E se mal efetivamos a comunicação entre nós, o que dizer de poesia? Nesse ambiente os poemas ocupam o mesmo espaço das fotografias e filmes domésticos, dos registros de viagem, das opiniões políticas, das escavações do passado íntimo, das anotações corriqueiras, das anedotas e histórias pitorescas, tudo circula nesse mesmo suporte que possui um alcance inimaginável, mas programado para ter uma fugacidade imediata, o que quase sempre anula a importância do alcance, daí que aparentemente quase nada se fixa. Está destinado a todos e a ninguém.

Um detalhe que me incomoda, na rede os poemas estão sujeitos ao mesmo tipo de apreciação por vezes afetiva demais dos leitores/amigos/seguidores com que dispensamos a qualquer outro assunto dos enumerados acima. Tudo se reduz ou a silêncio ou a um gosto/não gosto. O paradoxal disso tudo é que a poesia vive do outro, ganha densidade ao romper a esfera privada do poeta, por isso ignorar essa hiperrealidade não deve ser o melhor caminho, em algum momento alguém saberá extrair dessas relações que hoje nos parecem insignificantes, supérfluas e vazias, dessa sensação de ubiquidade, uma poética que represente os conflitos, as paixões, as ansiedades desse espírito, mais ou menos como Baudelaire percebeu no século XIX que a multidão era uma manifestação da modernidade. Mas enquanto ele via na arte um parte eterna e outra fugaz, talvez nós estejamos cada vez destinados a apenas uma das metades, justamente a que não se deixar facilmente captar. Por ora o que vejo é o poema pensado para o papel circulando nas telas, são os mesmos recursos, são as mesmas abordagens, são os mesmos mecanismos de expressão empregados há séculos, desde pelo menos quando a poesia deixou de ser declamada/cantada em praça pública para ser escrita e lida no conforto da biblioteca.

 2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A poesia se repete e se nega desde sempre, todo poema que se preze contém em si uma poética, uma resposta e uma proposta para a história e os dilemas da poesia, trate do tema que trate, tenha a forma que tenha, circule no meio que circule. Mais, todo poema é uma explicação/interpretação/construção do que chamamos realidade, portanto sempre terá seu lugar. Posso parecer idealista, mas acredito que todos temos uma necessidade de fabular o que nos cerca; a ciência, a filosofia e a religião não são suficientes para certos anseios. Não vivemos sem poetizar (e aqui não falo necessariamente de poema) nossa existência.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

A poesia continua a ser um ato de criação, de invenção, de pôr no mundo um objeto de palavras, um objeto que nos representa. E representar um conjunto dinâmico de seres tão complexos, tão ricos e contraditórios exige ir além do senso comum do que achamos que somos. O fingimento algumas vezes expande o conhecimento que temos de nós ao simplesmente retirar algumas camadas que cobrem nossa visão do mundo (esse mundo feito mais de linguagem e ideias que de coisas).

 4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Não sei se como autoengano, mas encaro a poesia como uma atividade que se faz em muitas etapas, entre as quais escrever e publicar são duas delas, importantíssimas, mas duas etapas entre outras, que muitas vezes não se efetivam. O único problema que se dá quando o poesia não ganha forma de poema é que não rompemos aquela barreira do individual para o coletivo, seguimos convivendo com nossos poemas sem escrevê-los. A poesia, a fazemos todos os dias, somos poetas (pois criamos) quando lemos, quando não nos deixamos anestesiar ao caminhar pelas ruas, quando ao conversar nos comovemos com os sons da fala, quando assistimos a um filme ou quando vemos um quadro, quando nos recordamos do passado ou de uma paisagem ou de um amigo, quando imaginamos outros mundos para além deste. Foi o que disse acima sobre a necessidade de poetizar nossa vida, precisamos desse olhar que desestabiliza, desse olhar que nos tira o chão para seguir acreditando em nós mesmos. Por isso, creio que meus poemas se alimentaram de diálogos, verbais e não verbais.

 5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê? 

“Vermeer” da Wislawa Szymborska, que apareceu em um livro de 2009, dentro dessa perspectiva de reconfigurar nossa percepção do real a partir da poesia, faz todo sentido, até por que se não fizesse é porque seu vaticínio teria finalmente se completado.

VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,

em quietude pintada e concentração,

dia após dia, não verter o leite

do jarro para a vasilha,

o Mundo não merece

o fim do mundo.

(trad. Teresa Swiatkiewicz)

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