Redução de quê?

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DESISTIMOS. Redução da maioridade penal: já era para termos passado dessa fase. Você ouve falar de um novo escândalo de corrupção e conclui que esse país não tem jeito? Você ouve falar sobre como andam nossas instituições e pensa em ir embora do país? Você fica revoltado com a subida do dólar e quer morar no mundo em que 1 dólar é sempre 1 dólar? Você ouve falar de um assalto e quer pena de morte ampla, geral e irrestrita? Pois eu, de minha parte, acho tudo isso muito secundário com relação ao que aconteceu na CCJ (Constituição? Justiça?) na tarde de hoje e a tudo o que vem se armando no Congresso Nacional contra alguns patamares e desdobramentos fundamentais do que está na Constituição de 1988, já tão frágil e combalida, mas ainda assim uma aliada indispensável dos setores que realmente querem algo de bom para o país. Num momento de extremo otimismo, você pode até acreditar que corrupção, irresponsabilidade, crises financeiras e violência urbana podem ter fim. Mas mesmo um pessimista deve saber reconhecer quando o passo é para a frente ou para trás. Hoje, demos um passo forte para trás e indicamos que esse deve ser nosso caminho nos próximos anos, porque lá na CCJ, que é, sim, um pouco “nós”, foi dito, com palavras bem duras, que desistimos. Desistimos de buscar soluções para nossos problemas, desistimos de desatar esse nó entre pobreza, abandono, descaso, exploração etc. que resulta na entrada de jovens – cada vez mais e mais jovens – na criminalidade, agora com direito a fazer um estágio no inferno que é nosso sistema prisional. Desistimos. Olhamos para os desafios à frente, como eram difíceis e distantes, preferimos um atalho que vai nos levar ainda mais para trás, ainda mais para longe do que deveríamos almejar. Educação? Esporte? Alimentação? Assistência social? Nada disso: pau! Mesmo que a Polícia, o Judiciário e as prisões não sejam o que gostaríamos, entregamos a eles mais esta tarefa, mais este cômodo da sociedade a ser faxinado. Desistimos e decidimos que o mundo vai continuar sendo assim mesmo, mas que vamos ao menos tentar tirar da paisagem o que julgamos não combinar com ela. Ainda não é a pena de morte, mas a porteira da nossa truculência está aberta. Bem aberta. Mais triste é lembrar que não podemos dizer que “os deputados foram eleitos E fizeram essa excrescência”, mas apenas constatar que “foram eleitos PARA fazer essa e outras excrescências do mesmo tipo”. E nem mesmo temos condições de fazer com que quem está à nossa volta perceba o caminho absurdo que escolhemos seguir. Dias piores virão.

§  §  §

FRACASSO. Uma sociedade é melhor na medida em que cada um de seus membros reconhece a importância de cuidar um do outro e de tudo o que é comum, como forma de garantir o ambiente em que todos possam se desenvolver da maneira mais livre e harmoniosa possível. Basta reparar como tende a ser melhor para todos uma família ou grupo qualquer em que todos se preocupam não apenas em se apartar dos demais, mas em cuidar coletivamente do que interessa a todos e a cada um. Já uma sociedade que apenas se preocupa em aperfeiçoar os mecanismos que separam os destinos das pessoas, dos grupos, das cidades – trata-se de inevitável fracasso PARA TODOS. Não se iludam. O Brasil, a exemplo de tantos outros países, tomou uma decisão tempos atrás: toda a sociedade será responsável por garantir que, ao menos até os 18 anos, todas as pessoas terão as melhores condições de vida possíveis. Se algo der errado aí, a culpa será da sociedade como um todo, jamais daqueles pelos quais somos responsáveis. Ponto. Vale dentro da minha casa como vale em qualquer quebrada do país. Devíamos ver cada um dos jovens envolvidos com o crime como um problema nosso e dizer “onde foi que EU errei?”, como dizem os pais diante de seus filhos. Mas tomamos outro caminho: fracassamos na nossa responsabilidade e o que fizemos? Diminuímos nossa responsabilidade legal para parecer que nosso fracasso é menor. Lavamos nossas mãos. É isto que está em cena quando falamos cinicamente em “redução da maioridade penal”, ainda mais todos nós que fomos cuidados por pessoas que jamais desistiram de suas responsabilidades conosco. Vamos continuar passando os dias esperando as noites, as semanas esperando as folgas, os anos esperando as férias, a vida esperando a aposentadoria, porque estamos abrindo mão do sonho de que a vida pode ser melhor – a nossa individual e a de todos, então aceitamos qualquer coisa, diferente do que deveria ser a vida mesma, desde que tenhamos algum alívio momentâneo. O que desprezamos, no entanto, é que desse modo vamos tornando nossos próximos tombos cada vez maiores.

PS: entre ontem e hoje recebi a notícia do nascimento dos filhos de dois casais amigos. Parabéns, Allana e Luiz Celso, pelo Pedro! Parabéns, Carolina e Cleber, pela Iara! Essas notícias me deixam bobo de feliz, mas as recebi em meio ao desânimo que estou sentindo desde que vi, ontem, a foto dos deputados comemorando a aprovação na CCJ da redução da maioridade penal. E os comentários que se seguiram. Não consigo deixar de relacionar as duas coisas: de um lado, crianças que, creio, terão tudo o que a vida, da porta de suas casas para dentro, pode oferecer de melhor não apenas no sentido material, mas também afetivo etc., enquanto, de outro, nossa sociedade começa a decidir que sua responsabilidade deve ser menor com relação às crianças e jovens. Hoje é a questão criminal, amanhã serão outras coisas. Impossível não perceber que qualquer barreira que tentemos construir será incapaz de separar, para sempre, esses aparentes “dois mundos” – o das crianças de que vamos cuidar e o das crianças de que desistimos, o das crianças que imaginamos como adultos felizes e o das crianças que não queremos ver por perto, nem hoje e muito menos quando crescerem. Impossível não perceber que entregar ao azar o destino daqueles que não nos importam diretamente, aqueles de que desistimos, é, inevitavelmente, tornar pior o mundo em que imaginamos que aqueles que amamos serão felizes. Só existe um mundo. E ele é minúsculo.

(Leia também o texto preciso de Eliane Brum sobre o tema: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/30/opinion/1427726614_598600.html)

(Sobre a foto: http://www1.folha.uol.com.br/bbc/2015/03/1610596-desvendado-misterio-de-foto-viral-de-crianca-siria-que-se-rende.shtml)

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Um comentário sobre “Redução de quê?

  1. Anônimo 1 de abril de 2015 / 20:27

    Gostei do texto! Penso por aí tb… essa solução parece fácil mas é triste.

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