Sobre poesia, ainda: Reynaldo Damazio

reynaldo-damazio

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Penso nessa hiperexposição como um jogo borgeano de espelhos, ou de realidades paralelas que se constroem a partir de uma fantasia individual e coletiva de hiper-realidade, que dá uma sensação de poder e de pertencimento, o que muitas vezes resulta em delírio. Por outro lado, as tais redes sociais (facebook, twitter, whatsapp, email, blogs, vlogs etc.) não são um fim em si, mas apenas veículos de comunicação, meios, suportes, não geram poesia, apenas a acolhem como uma espécie de conteúdo estranho, que transita na contramão do exibicionismo, da afetação, da pressa. A poesia tem outro tempo, necessita de outro intervalo de maturação, leitura, absorção e trânsito. Poesia é um vírus que contamina consciências e sensibilidades de modo silencioso, lento, imprevisível. Melhor: incontrolável. As mídias querem controlar e manipular conteúdos, mas o poema não se deixa controlar, vive da subversão, porque subverte (ou deveria) a linguagem. Agora, se essas novas mídias roubam o tempo de leitura do poema e tentam normatizá-lo, ou banalizá-lo, resta ao poeta empunhar suas armas, as palavras, e resistir bravamente, como o gauche de Drummond.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

O caráter transgressor da poesia é o mesmo na praça, no livro, na revista, num holograma ou na tela de computador. Se não houver a inquietação com a linguagem, o embate com a reescrita da experiência, a perdição do indizível, a tomada do signo linguístico como material plástico e ao mesmo tempo vital, estamos diante de um mero adorno, jogo de palavras, versos de efeito. Não é o suporte que torna um poema original. O lugar da poesia no mundo, por sua vez, muda conforme a realidade histórica se transforma. O drama da linguagem é também um problema de consciência para o poeta, como a busca de sentido para o poema num contexto de desintegração do sujeito e da subjetividade, de brutalização das relações humanas, de crescente desigualdade social, de violência e opressão do estado, de consumismo, do isolamento e da perda do espaço urbano, da solidão e do fracasso, da exclusão e do preconceito, entre outras questões urgentes e concretas. Celan diz que o poema está “sempre em movimento”, “em relação a alguma coisa”, noutras palavras, um objeto ou artefato inacabado em direção a algo “que se mantem aberto e que poderia ser habitado”. Talvez seja esse o desafio ainda da poesia, estabelecer diálogos críticos, desestabilizadores, insubmissos, com um mundo que parece nos repelir e descartar, ou nos tratar como meros objetos de uso (seres utilitários no mercado de trocas materiais). O poema tem certamente um papel essencial a ser decifrado no mercado das trocas simbólicas.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Acredito no poema como potência, de muitos vetores, sejam estético ou ético, ideológico ou subjetivo, de expressão e de transformação, de transtorno profundo da consciência, basicamente. É a melhor droga, no melhor sentido. Poesia como vírus e como vício. Se o fingimento de Pessoa tem o sentido de ficção, de criar, fabulação, a poesia carrega, obviamente, a possibilidade e o compromisso de formular, ressignificando, o mundo insuportável em que lhe é dado inscrever-se, como uma espécie de contraponto, de antídoto e de veneno, uma tatuagem, um grafite com palavras, ícones, sinais. O poema nasce de tudo que somos, do que silenciamos, daquilo que nos impregna, mas aponta para o que poderíamos ser, o devir, a utopia. A poesia é sempre um acontecimento utópico. No poema, em seu fingimento, estão mantidos os sentidos de negação e rebeldia, porque fazem parte de sua estrutura, de sua medula, de sua condenação.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Possivelmente meus poemas carreguem as minhas fomes, o que não me basta, o que me revolta, o que desconheço, meus silêncios, minhas pedras no rim, o amor por meus filhos, tesão, a crença de que a realidade possa ser transformada e que seja possível viver em sociedade como iguais, sem violência; e por outro lado, a necessidade de tornar-me outro, buscar outras vozes, outros conhecimentos, entranhar a consciência alheia, sentir-me como coletivo, como diverso, o que em mim não é meu, ou não sou. Há também a fome de forma, que para mim não existe sem a fome de cidadania. Todas as fomes cabem no poema, mas são insaciáveis, por isso o poema segue indagando, com os dentes à mostra.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Pergunta quase impossível de responder, penso em tantos poemas e poetas que me perseguem como fantasmas, Brecht, Pizarnik, Bachmann, Parra, Torquato, Pina, e tantos amigos com quem aprendo a escrever e pensar diariamente, mas fico desta vez com o texto “Aos emudecidos”, de Georg Trakl, que fala em “loucura da cidade grande” ao entardecer, em que o “espírito do mal observa com máscara prateada”, “a puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta”, “mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade”. Ele viu a loucura da guerra, o monstro social e histórico se erguendo para devorar corpos e ideais, revelação da barbárie como condição mesma da humanidade, não uma exceção. Para Trakl parecia haver um estranhamento diante da barbárie, uma agonia, que mais tarde seria incorporada por Benjamin ao próprio mecanismo da cultura e da história. Para nós, o estranhamento não existe e, como diria Kafka, nem a esperança.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s