Sobre poesia, ainda: Dalila Teles Veras

dalila

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Todos sabem que a lógica que rege o mundo virtual é, via de regra, a da velocidade, da comunicação imediata e, sobretudo, do excesso de informação que, justamente por sua capacidade infinita de simultaneidade, aliada à dificuldade do receptor em estabelecer filtros e conexões, acaba transformando esse quase tudo em quase nada. É também a lógica do uso (quase) obrigatório da imagem que, de tão banalizada, já não se deixa ver e, pela overdose, não vale as alegadas mil palavras.

Já a poesia é composta por outra substância. Seu código é o da contravenção, um código que não permite ser decifrado de soslaio nem distraidamente. O tempo da poesia não é o do fast-food. Requer mastigação macrobiótica, tanto por quem a produz quanto por quem a lê.

Assim como não concorre nem mesmo com os outros gêneros literários, a poesia percorre caminhos diversos e procurará sempre por outra coisa, outro tom, a outra voz, ela própria.

Em que pese todas essas diferenças, como usuária contumaz das redes sociais e do meio virtual em geral, acredito também que não haja incompatibilidade entre a veiculação da poesia e esses meios de comunicação. Se o papel da poesia é o da contravenção, o poema sempre encontrará formas de se valer do próprio meio para negar a lógica de que esse meio seria a mensagem, até porque não existe “poesia da internet” ou “poesia do livro”, mas poesia, boa ou má, independente do suporte em que é veiculada.

O poema solto na rede tem a mesma função do amendoim que o vendedor ambulante oferece ao veranista na praia, ou seja, mera prova. Um a cada cem será fisgado pelo sabor e, êpa!, chama o vendedor,  adquire um saquinho (ops! um livro), consumindo-o por inteiro.

O espaço virtual pode contribuir, sim, para ampliar os historicamente poucos leitores de poesia, considerando-se que uma só postagem pode atingir um número de pessoas muito superior ao de uma tiragem média de livro de poesia em papel.

Assim como a internet efetivamente contribui para um jornalismo independente, com a notícia não mais vinculada ao dono do jornal, oferecendo muitas vezes a notícia em tempo real, sem cortes nem edição, oferece também a possibilidade dos autores falarem diretamente com eventuais leitores bem como com seus pares, recebendo quase que instantaneamente apreciações críticas de leitura.

Na impossibilidade das conversas da tarde nas livrarias do passado, esses espaços foram transferidos para as conversas noite adentro nas redes sociais. Algumas, convenhamos, tanto quanto aquelas, apresentam inconvenientes, mas sempre haverá um meio de afugentá-los.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Não há caminhos fáceis na poesia e a busca das chaves obriga o poeta a percorrer vielas tortuosas, justamente para não se limitar a diluir os roteiros já estabelecidos e as viagens de circunavegação.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Sendo a poesia recriação do visto e do sentido e o próprio significado semântico e etimológico de fingimento remete a dar forma, imaginar e tomar aparência de, o poeta, que pinta de cores novas o real e modela as palavras como o oleiro com a argila, pelas artes do ofício, será sempre um fingidor. E como todo esse processo não se desgruda da essência humana, será sempre um “fingimento deveras”.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Meus poemas têm fome de humanidade e, contrariando o poeta, podem dizer o que penso ainda que eu, através do artifício da linguagem, induza o leitor a pensar que é ele que assim pensa. A função do poema, originada nas fomes, é justamente provocar outras fomes. Meus poemas têm fome do mundo que me cerca e das coisas que, de alguma forma, me perturbam e desassossegam.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Escolhi um poema de Gastão Cruz, poeta e crítico português que muito admiro e de quem há muito sou leitora, não só por sua admirável e rigorosa prática do que ele mesmo chama de “consciência linguística vigilante”, uma qualidade que o faz dizer tanto com tanto pouco, como também por me identificar com sua visão um tanto quanto pessimista de mundo. Este poema faz todo o sentido nestes dias sombrios que atravessamos.

NOSSO TEMPO

Não se pode escolher para o silêncio

uma cidade ouvida quando os dias

como estranhas fachadas se separam

Ó tempo verdadeiro, para a nossa ruína

um céu de nuvens baixas

(As Pedras Negras, Relógio D´Água, 1992)

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Um comentário sobre “Sobre poesia, ainda: Dalila Teles Veras

  1. wagner maia 9 de abril de 2015 / 23:00

    Tenho me furtado de divulgar poesia pela net. Gosto da sua dedicacao.
    Da sua poesia. Da sua energia.
    Vamos fazer.vamos. juntos e sempre melhor.
    Abraco!

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