Sobre poesia, ainda: Sérgio Alcides

Alcides_2014_05

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

[1 a 4.] Duvido que o “tempo real” seja real. Mas é um tempo, sem dúvida. Não acho que seja o mesmo da poesia, nem que seja o mesmo das responsabilidades, nem que seja o mesmo da “história crua”, nem que seja o mesmo que agora passa – até onde posso percebê-lo, ou da maneira como posso percebê-lo – enquanto respondo a esta enquete “sobre poesia, ainda”. A qual, por causa desse advérbio, também é “sobre o tempo, ainda”.

Há muitos tempos sobrepostos, em volta ou por dentro da experiência. É possível que essa constatação seja nova, no contexto atual. Caiu a hegemonia daquele tempo linear e progressivo que costumavam associar à modernidade, ao “modo de hoje”, sendo “hoje” uma passagem, a um curto passo de “ontem”, uma espécie de esteira que anda para trás enquanto sobre ela se anda para a frente. Parece que, agora, o “hoje” veio para ficar.

Não que o passado nunca acabe de passar (como já se disse do estado atemporal das sociedades ditas primitivas); é o nexo mesmo entre o passado e o presente que afrouxou e ameaça dismilingüir. A própria percepção do “histórico” ou até do “antigo” custa um esforço mental cada vez mais árduo, algo que nem todas as pessoas estão aptas a fazer.

Por exemplo: você pode “baixar” em mp3 uma gravação de Noel Rosa feita em 1930 e tal; é óbvio que ela é “antiga”, que você sabe disso ao ouvir aquela voz formando uma espécie de túnel do tempo, presentificada; mas você pode “baixá-la” como “baixa” qualquer coisa, gravada em qualquer momento desde Thomas Edison até o minuto anterior – e nesse passeio de cliques vai se tornando difícil dizer se a experiência do passado está de fato presente. Inclusive porque, nessa infinita retícula de uma acessibilidade ilimitada, imediatíssima, mas paradoxalmente ultramediatizada, todo acervo só existe como limbo. Torna-se irrisória a idéia de uma transmissão, uma tradição, algo assim, que, sendo passado, vai sendo supostamente passado adiante, mesmo quando na verdade é continuamente reclamado do passado pelo presente.

E pode ser que na nossa temporalidade em rede não esteja presente nem a experiência do passado nem experiência nenhuma. Pouca coisa resta do que é experimentado: quase nada deixa acúmulo, ciência ou consciência (a menos que passemos a considerar a acumulação de capital, evidentemente, ou a computação onipresente de uma vigilância quase absoluta, tão essencial para uma sociedade de controle assim vasta e sem precedentes, como a nossa). Quem sabe se, nesse paroxismo de aceleração, o que se experimenta não adere ao limbo generalizado tão logo a atenção se desvia, antes de poder constituir um traço de subjetividade particular?

Talvez seja um devir – para usar uma palavra da moda, mas usando-a sem o entusiasmo triunfal de quem põe fé em papo-cabeça e a profere como senha de distinção e pertencimento ao círculo de iniciados. Quer dizer: para usá-la a contrapelo, não como quem se submete a uma doxa, uma ortodoxa.

Acho que desse modo já começo a falar de poesia, por um uso a contrapelo da linguagem que está aí. Pelo menos é assim que sempre entendi a relação entre a poesia e a linguagem: como tensão e heterodoxia. Por me sentir avesso à mistificação de ambos os pólos, não sei levar a sério nem a idéia de uma poesia “da linguagem” nem a religião de uma poesia como linguagem “primeira” ou “primordial”. A poesia, “casa” da linguagem… Eu fugiria desse imóvel nem que fosse preciso pular a janela. Basta imaginar a família dos seus habitantes… Pior ainda: a linguagem, “morada do ser”… Calculo a quantidade de coturnos pisando pescoços humanos, necessária para assegurar essa propriedade privada.

Mas o que a poesia faz e sempre tem feito é “procurar outra coisa para fazer”. Feitura, feitiço, fabrico – nessa zona de atividades é que o poeta exerce o seu ofício. E aí sua responsabilidade está em causa, como em qualquer atividade humana (desde que se pare um minuto para refletir). Porque no horizonte do poema também está o fetiche, como a coisa feita, e é preferível que o poeta saiba mais ou menos do que é capaz, em algum degrau de sua consciência ou da sua prática.

Pessoalmente, me sinto como alguém que vive num mundo em revolução. Ou como um indivíduo de uma espécie mutante. Porque aquela separação entre história e biologia hoje se mostra mais problemática do que na época em que fui à escola (como a maioria das pessoas vai) para aprender a viver num mundo cancelado ou prestes ao cancelamento.

É difícil fazer prognósticos em tempos revolucionários e/ou em estoques mutantes. Mas, por mais irresistíveis e imprevisíveis que sejam, as transformações atuais ainda parecem comprometidas com a preservação de arranjos velhíssimos e mui vetustas opressões. Como um clique no reload, enquanto se reconfigura a mesma página. Por isso não me vejo tão exposto, ao criticá-las, ao risco de ser tomado por um mero conservador. Pelo menos não pelas pessoas sensatas. (Embora admita não ser lá muito sensato pretender que a sensatez alcance muita gente nos dias de hoje, e ainda menos onde está cada vez mais rarefeito o ar público que ela precisaria respirar).

Já fui acusado de “nostalgia” por defender um ponto de vista crítico diante dos tempos atuais – mais especificamente por lamentar a asfixia da crítica literária, hoje confinada no Brasil a um ambiente por definição antagônico a ela, que é o academismo. A mesma pessoa ainda me chamou de “pedante” (o que já é mais francamente um xingamento). Mas quem me desqualifica assim tão rápido, sem argumentos, com duas palavras, também poderia ser desqualificado só com uma: “conformismo”. Seria outra forma de simplificar demais o problema, porque o guarda-roupa não se resume a dois uniformes, a batina preta de um reacionário ou a bermuda estampada dos cabeças-de-vento. Eu, pelo menos, prefiro um traje que não me reduza a um estereótipo – o que por si só já é politicamente bem arrojado, no contexto.

Leio e penso a poesia no interior das contingências do meu tempo, que é o atropelo dos meus tempos. E entendo a feitura da poesia como entendo a leitura dela: uma experiência cujo fim em si mesma acaba propiciando uma ampliação da consciência para além dos arredores. O que não sei separar da consciência crítica. A qual não sei separar da forma histórica hoje esfarrapada e ocidental do indivíduo, do seu lidar consigo e com os outros, do que ele faz enquanto se faz, da sua infinita conversa com o mundo e consigo mesmo, “eu” e “não-eu” que se interseccionam e se apartam numa continuação indefinida.

(Não sei fazer essas separações, mas sei que elas são possíveis. O que não basta, acho eu, para considerá-las desejáveis).

Não é esta uma concepção muito original, suponho. Mas, por estar tão fora da curva, por ser tão ausente da manada, tão estranha ao formigueiro, talvez tenha algum cabimento. Falar em sensatez, consciência, crítica etc. é hoje um ato tão subversivo quanto, há um século, o do cubista europeu que introduzia na pintura a imagem de máscaras africanas do ultramar. Deve ser o mal-estar na cultura de massa…

O velho périplo agora conta com hyperlinks. Você pode gastar as pupilas online, se preferir trocar de deserto. Encontrará na “estrada” os replicantes que levantam a bandeira do “pós-humano”, cheios de intensidade passional. Quando penso que entre eles pode estar perdido o redator de um anúncio de banco ou o colunista de economia de um grande jornal, sem nenhuma contradição, todas as boas razões da turba se relativizam para mim, por melhores que sejam. E volto a considerar que o lugar da poesia, seja onde for, será sempre um lugar “humano”. Inclusive porque o “humano” sempre foi (me desculpem) “pós-humano”.

Esse lugar é vasto, vastíssimo, incomensurável. Duvido que se possa determiná-lo de antemão. Ele também é fabricado, também tem sua poética. E a poesia é antiga, mais antiga do que a “literatura”, mais antiga até que a própria escrita. Atravessou todas as revoluções, todos os choques cognitivos, desde os tempos primordiais, passando pelo declínio da oralidade, a invenção da imprensa, o advento dos meios elétricos, a narcose da mídia eletrônica… E agora atravessa a expansão da aldeia “guarani-kaiowá” da internet global, sem se importar nem com o inferno das boas intenções nem com a interface das hipocrisias virtuais. O indivíduo moderno pode estar em extinção, mas não a poesia. De maneira que há boas razões para confiar na persistência dela. Só não seria prudente é supor que ela não vá ser também demencial. Considerá-la um bem em si já é uma forma de limitá-la, que ela própria não admite.

Essa obstinação deve ter algo a ver com o ficcional, o véu de fingimentos que a poesia faz revestir a sua verdade, quando vem acrescentá-la ao mundo. Porque, pelo que dizem os entendidos, essa verdade extrapola, só é deste mundo através da ficção. De que outro mundo será, então? Espero que não seja de nenhum, que seja uma criação humana, do poder humano de imaginar. Porque a poesia não se detém sobre o já existente: ela deseja ir atrás do possível, como se o possível também, só por ser concebível, reclamasse uma existência, uma textura própria, um texto.

Não sei se um poema tem fome dessa verdade ou se é essa verdade que está ávida para vir à página e passar a ser. É mais provável a segunda idéia. A maior fome de um poema é a mente do seu poeta. Ele se agarra a esse prato como um operário, abraçando-a junto do peito, para raspar tudo e não perder nem as migalhas. A diferença é que um operário tem que voltar ao batente quando toca a campainha, e um poema não se satisfaz assim, com hora marcada.

A fome do poema nos devolve ao tempo, que foi por onde começamos. Muita coisa nos tempos de hoje tira o apetite de qualquer um: a frivolidade como etiqueta, a adolescência geriátrica, o narcisismo da imbecilidade online, a epidemia de ansiedade, o fanatismo em franca metástase… e muitas outras aberrações do desamparo humano. Mas a poesia não dá sinais de saciedade, nem de fastio, nem mesmo quando engulha, nem depois de vomitar. E nunca é menos necessária por não ser bem-vinda.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Fazer “todo o sentido” seria uma exorbitância, não acho que um poema seja capaz disso. Pelo menos não sozinho, sem a leitura, sua encarnação. Mas a poesia que tenta ser assim, absoluta, pura, solta da vida, torna-se ilegível, vira uma opressão a mais. Em vez de leitores, atrai fiéis, forma uma igreja. Está blindada contra a crítica, mas aceita com docilidade a bula dogmática, o comentário fascinado, o catecismo filosofal, o testemunho dos convertidos.

Admito que, como já se disse, todo poema de verdade tenha essa exorbitância no seu meridiano, inelutavelmente, sem poder realizá-la. Ou que a considere, às vezes sem notar, no instante mesmo de ser disparado e ir virando escrita – mas uma escrita que repele os mecanismos habituais que fazem a linguagem se esquecer de ser matéria e começar a fingir uma transparência que, no poema, se confrange.

E entendo que a pergunta não se refere, de fato, a um plano assim absolutista. Era “todo o sentido” como um “modo de dizer”. Ainda mais pelo “hoje, especialmente” circunstanciando tudo, implicando uma relação entre o potencial de sentido e a sua atualização no tempo.

Vou escolher um poema de Ted Hughes, de um livro dele que estou traduzindo, Crow, de 1972. É o livro “da vida e das canções do Corvo”, um longo ciclo de poemas em geral narrativos. O protagonista é esse pássaro agourento e agourado, uma espécie de trickster, que se mete em aventuras terríveis e sempre dá um jeito de sobreviver – mais forte, na sua inconcebível fragilidade – depois das experiências mais dilacerantes.

O autor procede por meio de uma técnica de transfiguração só sua, muito tributária do interesse que ele tinha pelo xamanismo, em especial pelo tema da viagem espiritual extática do xamã, que retorna transformado. Assim, a figura do Corvo aparece indelevelmente misturada com a do Humano, refundida num só bicho. Este, no entanto, só muito dificilmente poderia ser visto como um animal “antropomorfizado” (como na antiga tradição ocidental da fábula). Ao contrário, o processo antes ressalta a animalidade humana. Ou, num plano mais alargado que inclui todos os seres vivos, a força incoercível do princípio vital, que nutre uma racionalidade própria da vida, para além de toda moralidade domesticável.

O Corvo habita um mundo cruento, muitas vezes adverso, sem doutrina nem manual de sobrevivência. Uma atmosfera de criaturalidade ancestral, primordial, percorre todo o livro de suas canções. Mesmo quando o tema se aproxima perigosamente do tempo histórico, como no poema “Crow’s Account of the Battle” (“Corvo relata a batalha”), que incorpora o estrondo e o horror sem precedentes das guerras do século XX, com aquela morte industrial, aquelas caras “que desabaram no barro / atoladas no molde de suas máscaras”.

Mas o poema que escolho aqui é outro, “Crow’s First Lesson” (“A primeira lição de Corvo”). O ambiente dele é mil vezes mais mítico do que documental. O tempo é o dos primórdios. Tudo se passa bem antes da invenção da onipotência de Deus, que está presente e se confronta com a imprevisibilidade e o gume de conflito infundidos na criação. Ele tenta ensinar sua palavra:

Crow’s First Lesson

God tried to teach Crow how to talk.

‘Love,’ said God. ‘Say, Love.’

Crow gaped, and the white shark crashed into the sea

And went rolling downwards, discovering its own depth.

‘No, no,’ said God. ‘Say Love. Now try it. LOVE.’

Crow gaped, and a bluefly, a tsetse, a mosquito

Zoomed out and down

To their sundry flesh-pots.

‘A final try,’ said God. ‘Now, LOVE.’

Crow convulsed, gaped, retched and

Man’s bodiless prodigious head

Bulbed out onto the earth, with swivelling eyes,

Jabbering protest –

And Crow retched again, before God could stop him.

And woman’s vulva dropped over man’s neck and tightened.

The two struggled together on the grass.

God struggled to part them, cursed, wept –

Crow flew guiltily off.

A primeira lição de Corvo

Deus quis ensinar Corvo a falar.

“Amor”, disse Deus. “Diga: Amor”.

Corvo boquiabriu-se, e o tubarão-branco se engolfou

Mar adentro a descobrir o próprio fundo.

“Não, não”, disse Deus. “Diga: Amor. Vamos lá: AMOR”.

Corvo boquiabriu-se, e o mosquito, a varejeira, a tsé-tsé

Zuniram para fora zoando

Em volta de variados tira-gostos.

“Pela última vez”, disse Deus. “Vamos lá: AMOR”.

Corvo convulso boquiabriu-se num engulho e

A formidável cabeça sem corpo do homem

Brotou bulbosa, revolvendo os olhos,

Balbuciando protestos –

Corvo engulhou de novo, antes que Deus o detivesse.

E a vulva da mulher voou no pescoço do homem e grudou nele.

Os dois se engalfinharam no gramado.

Deus interferiu, imprecou, em prantos –

Corvo culposamente bateu asas.

Fazer “todo o sentido” como um “modo de dizer” é algo que se liga à oportunidade, acho eu. E esse poema de Ted Hughes vem a propósito. Não sei se aqui é o lugar para uma leitura detalhada, suponho que não. Mas a pergunta demanda uma justificativa.

Vou citar dois traços que considero muito oportunos, um pela negativa, outro pela afirmação.

Primeiro, observo que esses versos estão encharcados de mil secreções, mas não se nota neles uma gota sequer de frivolidade. O texto tem aspectos humorísticos, mas o poeta não se põe à parte, não se resguarda contra o sofrimento que aborda. Não está de fora, convidando o leitor a rir das criaturas falhadas, como num pacto perverso. E assim o leitor também fica obrigado a se incluir na cena, sem proteção. Isso me parece oportuno – porque a frivolidade é um dos valores dominantes dos tempos de hoje, uma das nossas maiores maldições. Então o poema faz muito sentido também por não cometer a tolice de aderir à opressão oficial crente que é “moderninho”, ou “pós-moderninho”.

Mas, por falar em crente, o segundo aspecto prometido está na caracterização emprestada a Deus. É chocante ver seu desespero, sua frustração cósmica, elaborados num crescendo, à medida que ele constata a própria incapacidade diante das forças que desencadeara. Agora, sim, uma divina comédia – com Oscarito no papel do Criador e Grande Otelo no do Corvo. Só a criatura é onipresente, só ela é onipotente; mas ocorre que ela não tem uma vontade única, nem reconhece uma direção unívoca, inclusive por não ser uma coisa só. É como se a divindade última, incriada e malcriada, fosse de fato a tragédia. Isso também me parece oportuno – porque incita a uma meditação mais complexa (além de mais dura) acerca da condição da vida neste mundo. Essa meditação não pode senão desviar-se do tipo de religiosidade particularista e mágica que se expande em países desvalidos, banalizadora de qualquer sacralidade e instigadora da violência fundamentalista.

Um poema desses requer um leitor corajoso, disposto a pingar ácido nas próprias ilusões. Um leitor que aceite o risco da poesia como experiência existencial, viagem mental, que transfigura a consciência. Isso, para mim, faz todo o sentido.

Anúncios

Um comentário sobre “Sobre poesia, ainda: Sérgio Alcides

  1. Sérgio Alcides 16 de abril de 2015 / 11:13

    PS: Acrescento dois esclarecimentos, para evitar mal-entendidos. (1) Não tenho nada contra a universidade. Ao contrário, pertenço a ela e sou muito grato a muitos mestres, colegas e alunos que tive e tenho na universidade. Não nego que o trabalho universitário seja crítico, nem que ele tenha uma alta relevância crítica. Seria uma estupidez negá-lo (estupidez aliás bem freqüente). O trabalho acadêmico é critico, mas não é “a” crítica literária. Esta pressupõe uma relação com a sociedade, com o público, livre de hierarquias e títulos acadêmicos, sem normas da ABNT, sem formulários e sem relatórios burocráticos. (2) Também não tenho nada contra os novos hábitos de comunicação em rede nem contra as chamadas redes sociais. Freqüento algumas delas e não pretendo me retirar. A infinita acessibilidade da internet, tudo o que se acha aí em termos de informação e cultura, é uma coisa que considero maravilhosa e muito benéfica, indubitavelmente. Apenas não me deixo deslumbrar pela revolução cultural e cognitiva que estamos vivendo. Mas não gostaria de ser confundido com os reacionários nem com os preconceituosos, os atropelados pelo “mundo mau”, que rejeitam por princípio qualquer coisa que ameace a “aura” sagrada do seu ressentimento, da sua tirania aposentada. O que esses dois esclarecimentos têm em comum? Ambos se ligam a uma preocupação com a vida em comum, livre, decente e arrazoada. Acredito que nem a poesia nem nenhuma outra arte faz sentido fora desse âmbito público. Que ele seja no meu contexto imediato precário e estreito, às vezes até sufocante, é uma circunstância lamentável, mas é por essa fresta que a poesia tenta passar. A menos que ela se contente com o papel de bibelô para um campo de especialistas, como um ramster de laboratório, na autotelia giratória de sua roda, perfeitamente academizado, tão experimental quanto infecundo, branquíssimo, puríssimo na sua inanidade, 100% protegido nas “condições normais de temperatura e pressão”, que por acaso sequer existem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s