Sobre poesia, ainda: Ronald Polito

Ronald16

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

A poesia, tal como eu a imagino, não se confunde com a exposição do que sentimos, pensamos ou imaginamos. Essas exposições volta e meia impudicas do que sentimos, pensamos e imaginamos dão bem a medida de uma época que vive a ficção de existirem subjetividades discretas, que valham a pena. Mas creio que uma hora as pessoas vão descobrir que suas supostas idiossincrasias são comuns a legiões, que o “indivíduo” é uma construção histórica com seus dias contados. A tarefa da poesia, pelo menos da poesia que me interessa, é se haver com seu arsenal de formas e instrumentos de trabalho, é fazer andar o campo de “linguagem” ao qual se dedica. O resto é pose, é indiscrição, é facebook.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Não sei se há dificuldade para encontrar “o tal lugar da poesia no mundo”. Creio que não. O lugar da poesia já está garantido e há muito tempo: meia dúzia de leitores capazes, instrumentalizados para a árdua tarefa de decifração de um texto poético, coisa que a maioria das pessoas ignora, despreza ou acha mesmo uma chatice (e não sei por que não deveria achar). Como forma de apreensão especializada, ela demanda, igualmente, leitores capacitados para tal. Claro, existem formas mais “comunicativas” de poesia, que pretendem ser entendidas por um número maior de pessoas. São louváveis, meritórias mesmo essas atividades pedagagas (sic), mas me interessam menos ou quase nada, eu não estou preocupado com atos comunicativos, mas com atos criativos.

Contudo, para quem está interessado em achar um lugar para a poesia no mundo, como se ele já não existisse, é bem provável que essa pessoa incorra na improcedência de “repetir os mesmos sem roteiro tristes périplos”. Afinal, é mais fácil usar o que já foi usado e deu um pouco certo para tentar resolver essa suposta tarefa de tornar a poesia acessível ao “homem comum”.

Fico pensando em formular algo assim: “a dificuldade para encontrar o tal lugar da física no mundo leva os físicos a repetirem os mesmos sem roteiro tristes périplos”? (agora substitua física por qualquer disciplina ou campo do saber humano). É só formular a pergunta para concluirmos pela improcedência dela. Estamos diante de inumeráveis formas especializadas de apreensão do mundo, a demandarem decodificadores habilitados. Ninguém pede algo assim aos físicos, matemáticos, biólogos. Não sei por que pedir para os artistas. Quem está interessado em arte, que vá estudar, conhecer para tentar entender o que e como os artistas fazem seus trabalhos. Seria inútil e irrelefante (sic) baratear qualquer coisa nesse campo.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Não sei o que seja o poeta, muito menos definir o que seja a poesia. Posso, no máximo, tentar uma descrição dela, o que fiz nas respostas anteriores. E toda descrição é bem limitada, como sabemos. Tentando, então, apenas descrever a atividade do chamado poeta, eu diria que ele busca organizar os melhores sinais nas melhores posições. É só.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Meus poemas têm fome de algo que se situe além do trágico, do cômico, do épico, da ironia e de muito do que se entende por lírico, incluindo aí manifestações de “sentimentos” e “estados d’alma”. Meus poemas têm fome de se situar fora do campo da “subjetividade” tal como entendida atualmente, almejando, no plano apenas textual, elidir sujeito e objeto, como já disseram o poeta e a crítico.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

São muitos os poemas que, para mim, fazem todo o sentido. Prefiro não citar nenhum em especial, isso restringiria o campo dos sentidos que me interessam.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s