Sobre poesia, ainda: Carlos Augusto Lima

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Outro dia escrevi dizendo que me opunha à ideia de que “a vida na rede” ou “a vida nos sites sociais” funcionavam como uma espécie de simulacro das questões da realidade, dos sujeitos, como um falseamento. Discordo. Pra mim, a “vida na rede” é uma extensão daquilo que chamamos de “vida real” (se é que isso existe). Os comportamentos dessa “realidade”, os embates, as paranoias, indelicadezas, surtos, fascismos, demências acabam vazando para as redes, para a expressividade tão passageira do mundo da internet. As redes sociais são uma extensão de nós: para o bem e para o mal. Como uma extensão do ser , aqui no caso, daquele que escreve, esse sujeito quer ocupar esse espaço. Isso é quase natural, para quem trabalha com a linguagem: ocupar todos os espaços dela. Acho que alguém já tratou disso, aqui nessa série. E, nesse local tumultuado da linguagem, particularmente, já entrei em contato com coisas bizarras, mas, ao mesmo tempo, com coisas maravilhosas, traduções exemplares, contatos com poetas que admiro e nunca me aproximei, contato com novos poetas, um fluxo de informação que, claro, não dou conta, mas está presente e tento catar, aqui e ali, do jeito que posso, selecionar, processar como bem entendo (e não como me dizem que deve ser) tudo o que passa por esse fluxo, por isso que chamou-se aqui de hiperexposição. Eu mesmo me coloco nessa hiperexposição, corro riscos, sou fisgado, atiro, avanço e me retiro. Posso me retirar. E isso é muito bom.

A poesia, por sua vez, não tem, nem deve, nem pode ser obrigada a nada. Se ela se confunde (ou causa confusão) no meio dessa hiperexposição, é uma particularidade da própria linguagem e de quem lê, creio eu, e não creio que caiba ao poeta ou escritor determinar uma forma-formato corret(a)o para se “ler a poesia”. Ao que parece, penso a partir dessa indagação, é que estamos querendo que a poesia seja lida (e mantida) dentro de uma forma e um modelo que é só nosso. Um modelo por demais idealizado e arrogante da recepção do poema: “deve-se procurar um lugar tranquilo, na varanda de uma casa de campo, ou numa portentosa biblioteca, no silêncio, sob a luz de um abajur, à noite….”. Quão românticos somos nós, não? Ora, não preciso repetir que as formas de leitura e recepção se alteram através do tempo, e que eu não saberia dizer, ou mesmo julgar, se aquele que lê o poema numa linha do tempo do Facebook é melhor ou pior leitor do que aquele que lia um poema no séc. XVII ou XVIII, afixado de forma anônima na porta de uma taberna, num poste ou na porta de uma igreja. Um poema num papel manchado, de forma manuscrita, cheio de palavras de fazer corar as senhoras e as moças, salpicado de expressões da língua dos índios e dos negros escravizados. Isso é ler melhor? E o que dizer do rapaz que trabalha o dia todo, vai pra escola (quando vai) à noite, não tem livros em casa, mas recebeu do professor uma cópia num papel ofício com 2 ou 3 poemas de um tal Paulo Leminski ou de um tal Manoel de Barros. E o rapaz faz a viagem de trem, depois de ônibus, depois de metrô, para chegar ao trabalho, sem desgrudar dos poemas. Lê e relê com avidez e encanto. Quem está lendo melhor? Qual o melhor lugar e forma para ler o poema?

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Há dois problemas que aparecem a partir da sua pergunta: “o lugar da poesia” e “o lugar do poeta”. E um problema maior que surge por conta do alargamento da distância entre esses polos.  Os “tristes périplos sem roteiro”, tristes e repetitivos périplos dos poetas acredito que venham, ainda, de uma ilusão de um lugar que o poeta possa ter no mundo.  Uma ilusão historicamente construída. Nossa! Como somos clássicos, fazendo poses de contemporâneos. Ainda nos nutrimos da empatia de um público para com a imagem do poeta. Ainda desejamos o louvor sobre nossa “obra” (que palavra estranha), o reconhecimento dos outros poetas. Ainda fazemos questão de montar nossa plêiade, nosso cânone e lutamos a ferro e fogo, para excluir aqueles que nela não se encontram. Ainda, no fundo, sonhamos em ver o nome estampados nos livros didáticos, os terríveis livros didáticos. Falamos mal da academia, da universidade, mas adoramos saber que nossos poemas estarão “analisados” e estamparão a capa de dissertações e teses. Falamos mal do mercado, mas, de minha parte, por exemplo, vivo recebendo e-mail de poetas avisando que seu último livro está disponível para venda na livraria tal. Falamos mal dos concursos, mas recebo, com frequência, telefonemas, e-mails, recados com pedidos de voto no prêmio tal e no concurso ali. Sem falar dos decadentes jornais. Quanto delírio por uma matéria tratando de nosso último livro nas primeiras páginas dos chamados “cadernos de cultura”! Queremos que algumas coisas mudem, para que permaneçam as mesmas. O desespero para se achar “o lugar do poeta” vem da implacável verdade de que “o lugar da poesia” é nulo, é nenhum, é vazio e, por isso mesmo, maior, indomável. A poesia nos elimina, nos dissipa e desesperadamente tentamos…permanecer. O lugar da poesia é o imponderável, o desmedido, o sem sentido. Ainda mais desesperador no nosso tempo, onde as pessoas estão desesperadas pelo Sentido. Num tempo onde as verdades e certezas eram mais ou menos estáveis, a poesia servia como o lugar de encontrar os deuses, as manifestações sobre-humanas, encontrar o delírio, o desequilíbrio, a pulsão destrutiva, a quase morte. Mas o nosso tempo, com sua alienação desesperada de consumo, o bombardeio de imagens, de informações já falseadas, líquidas, por si só, já é o tempo do desequilíbrio. E as pessoas não querem o que é instável, imponderável, absurdo. A realidade já é o absurdo. O absurdo da poesia não consegue competir com o absurdo do real. As pessoas querem as certezas, as respostas. Querem que este seja “o escritor que veio da classe trabalhadora”, “o escritor que é herdeiro da tradição modernista”, “o escritor freudiano”. Como se o discurso viesse, sempre, antes do poema, da pintura, da escultura, da performance. O discurso é uma ilusão de sentido (ou uma “armação” de sentido), pronto, mediado e, por isso, confortável. Se confortável, ele é naturalmente rentável. A arte, hoje, é mediação (ruim) e dinheiro. Equação para dar “um sentido” e anular toda e qualquer experiência de descoberta, desconforto, ressignificação.

No tempo do desespero pelo Sentido, o lugar da poesia é nenhum. Para que poesia, se você tem hoje a clínica e a medicação?

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Esse problema colocado por Pessoa, e que vem se arrastando por décadas, ou talvez por séculos antes, mais do que me levar ao pensamento sobre o gesto da escrita, o artifício do poeta na produção, me joga muito mais para pensar a recepção do poema e o desaparecimento do gesto. Paradoxalmente, um desaparecimento onde o poeta ainda se faz presente. E isso me leva imediatamente a um texto de Maurice Blanchot, em “La Part du Feu”, chamado “Kafka e a Literatura”. Blanchot relembra que o único momento de felicidade para Kafka era naquele momento em que escrevia, pois escrever era a forma que ele havia encontrado para tentar dar conta daquilo que ele não conseguia comunicar a um outro no seu cotidiano, às pessoas de seu círculo, amigos, família, chefes etc. Através da literatura, como era possível expressar aquilo que, no espaço da vida, da realidade, lhe parecia impossível de transmitir, no caso, sua infelicidade. Os sentimentos, as sensações são incomunicáveis e, por isso mesmo, tornam-se possíveis no espaço literário. A expressão na literatura tem sua origem na forma paradoxal do incomunicável. O sentimento, aqui, no caso, a dor ou a infelicidade tão indescritíveis, tiveram a sorte de ser representados através de vários artifícios, adornos, imagens, simbologias. Aliás, não é o caso de representar ou expressar a dor, mas, como prefere Blanchot, apresentar a dor, fazê-la “existir de um outro modo”, dar-lhe uma “materialidade que não é do corpo, mas a materialidade das palavras pelas quais é significado o transtorno que a dor pretender ser” . A questão é que, quanto mais eu apresento a minha dor, mais ela se afasta de mim e passa a ser de um “Outro”, numa espécie de anulação de si, consentida e obrigatória, por que passa o escritor. É a passagem que Blanchot assinala como, do “Eu sou infeliz” para o “Ele é infeliz”. O tal do “fingimento” na poesia é esta articulação, creio eu, esse intervalo entre presente-ausência para quem escreve. Estou presente no poema, mas já fui abandonado por ele.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Meus poemas tem fome de tudo e de nada. Saio devorando o que experimento, vejo, leio e escuto ao redor. Como um predador. Devoro uma frase que alguém escreveu no seu Facebook, um verso do Cancioneiro da Ajuda, num trabalho de Lygia Clark, na fala do porteiro do meu prédio, no corpo das minhas filhas que crescem, corpos que se alongam, numa mensagem recebida pelo Whatsapp, uma memória (e o esquecimento, claro!), na poesia de Heidegger , na filosofia de Nelson Cavaquinho, e qualquer outra coisa elegante ou barata que me apareça. Tento organizar tudo isso, na forma e no tempo que me convém, sem pressa, sem urgência de nada, apenas no tempo do bate-papo ora tranquilo, ora demasiadamente tenso e exaltado entre mim e a Linguagem para, no fim, não saber onde tudo isso vai dar.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Um poema visual de Nicanor Parra, ainda do início dos anos 70, ainda fazendo todo o sentido. Deixo o porquê para quem vai ler:

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