Sobre poesia, ainda: Sérgio Cohn

cohn

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Outro dia me vi surpreendido com uma tradução do termo “commons”, que tanto se tem pensado nos debates culturais. Ao invés de “comum”, traduziu-se por “baldio”, espaço desocupado. Vejo a poesia que me interessa como uma experiência de linguagem, mas sempre profundamente informada pelas vivências e inquietações do(s) poeta(s). Não me interessa a poesia que seja puramente experimental, como não me interessa o simples registro de vivências. Como dizia o Lawrence Ferlinghetti, para se valer a técnica zen da “primeira ideia, melhor ideia” (muito próxima da linguagem das redes sociais), é preciso uma mente interessante e informada. Entre o registro e a expressão existe toda uma vida. Por isso, vejo a poesia como uma linguagem não comunitária, que erra, deriva e se utiliza desse baldio, desse espaço desocupado, para criar relações sempre renováveis e mundos. Não é uma outra coisa, mas outras coisas.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A cada tempo, diferentes lugares. Já dizia aquele velho livro que a cada geração os jovens precisam reconquistar sua liberdade. E também sua expressão. A poesia ainda possui vícios, como o de ser excessivamente livresca. Mas estão acontecendo experiências bastante instigantes de outros périplos e lugares para a poesia. E viva os múltiplos roteiros cantados por Oswald no seu manifesto antropófago.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

O poeta pode ter máscaras ou não. Pessoa adorava criar fronteiras. Mas serão elas necessárias?

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

A fome muda. Posso até entrever a fome de ontem, posso tentar abarcar a fome de hoje, mas felizmente só posso estar aberto para a fome de amanhã.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

“A poesia e a matança dos mosquitos”, do Leonardo Fróes, por estar aberto ao espanto e a uma vivência do entorno. Uma poesia que busca habitar o seu território, não simplesmente se adequando a ele, mas a partir do sensível. Que busca uma relação com o entorno, marcada pela abertura ao outro e não a sua dominação:

Cada poema original que escrevo à máquina

contém pelo menos

2 ou 3 cadáveres de mosquitos esfregados no rolo.

Isso porque escrevo muito de madrugada com a luz acesa.

Antes de amanhecer eu apago para espiar

a mutação das cores.

Meu editor um dia vai receber a coleção completa.

Parece que Pablo Neruda colecionava

por sua vez caramujos.

Uma senhora que me visitou outro dia achou que tenho

alma de artista.

Como as pessoas são boas observadoras agora.

Os meus cachorros latem muito de noite quando

estou escrevendo.

Eu acho isso muito chato porque fico tenso.

Às vezes eu penso que vai sair do mato

um macacão enorme.

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