Sobre poesia, ainda: Fernando Fábio Fiorese Furtado

Fernando Fiorese

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não me parece que a poesia possa se confundir com a hiperexposição leviana, desembestada, tagarela e mitômana que, grosso modo e não raro, caracteriza os textos divulgados nas redes sociais. Porque o caráter “fingidor” da poesia está tão próximo do outro e da verdade quanto a mitomania está da felicidade compulsória e da beleza photoshop. Porque a tagarelice – a fala pública, vazia e desenraizada a que refere Heidegger – é a mais alta negação do cuidado da poesia para com a angústia dinâmica de sua gênese, qual seja, a tensão entre silêncio e linguagem. Porque também a pressa e a leviandade desta hiperexposição não se coadunam com a verticalidade e a demora necessárias ao exercício da consciência de linguagem, tarefa maior do poeta.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Não sei se o que há de alegria – no sentido potente desta palavra, léguas distantes do vocábulo “felicidade” – seria tanto e tamanho se os “tristes périplos” dos poetas fossem feitos com roteiros. Afinal, enquanto a existência de tais roteiros talvez pudesse nos poupar do pânico inelutável de quem se debruça sobre um caos, por outro lado impediria que as visitações da poesia nos emprestem algumas alegrias breves e verticais, tal foguetes que, rubricando o céu conflagrado dos “tristes périplos”, fazem com que a vida tenha sabor e seja suportável. “Os mesmos sem roteiro tristes périplos”, repetidos em vão e para sempre, mas com suas numerosas estações no inferno adornadas pela mais alta, nobre e bela alegria da descoberta do poético, que está no mundo, ainda que de maneira secreta, sub-reptícia, marginal.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Sem dúvida. E o “fingimento deveras” da poesia é o mais forte antídoto, como disse antes, contra a mitomania que assola o tempo presente – mitomania feita para a ascese ou para a assepsia da matéria bruta da vida.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Os meus poemas têm fome do outro, da linguagem e do tempo. Uma fome nunca satisfeita, com longos e demorados períodos de digestão no silêncio, com a língua tomando de empréstimo outras vozes, com o “olhar armado” para os pratos mais crus e cruéis do nosso tempo.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Trata-se do poema “Oceano coligido”, de Iacyr Anderson Freitas:

inverte-se enfim a arquitetura,

onde havia pedra

resta agora outra figura:

ruína em que o oceano

se ajoelha e bate,

eternamente bate, mas

onde jamais se apura.

(FREITAS, Iacyr Anderson. Primeiro livro de chuvas. Juiz de Fora : Ed. D’lira, 1991, p. 47.)

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